Entrevista | 29-03-2025 10:00

Portugal é o país da Europa onde se faz menos exercício e quem paga são as articulações, principalmente os joelhos

Portugal é o país da Europa onde se faz menos exercício e quem paga são as articulações, principalmente os joelhos
Gonçalo Martinho, ortopedista no Hospital CUF Santarém e na Clínica CUF Leiria

O Hospital CUF Santarém está na vanguarda dos tratamentos diferenciados na área do joelho, desenvolvendo uma técnica menos invasiva que é a de infiltração com concentrados de plaquetas.

A experiência e excelência do que é feito nesta unidade de saúde foi reconhecido com a atribuição da capacidade formativa de médicos. Gonçalo Martinho, ortopedista diferenciado na área do joelho no Hospital CUF Santarém e na Clínica CUF Leiria, explica o que são as lesões degenerativas que afectam os joelhos, os tratamentos e os riscos, sendo que o peso é um problema e que o exercício físico tem uma influência nestas doenças. O médico alerta que Portugal é o país da Europa onde se faz menos exercício, sendo que, segundo um estudo, 78% das pessoas nunca fazem exercício, situação que considera surreal.

Em que consistem e quais os factores de risco das lesões degenerativas que afectam os joelhos? Associamos estas doenças ao desgaste da articulação. As nossas articulações são as peças que permitem o movimento. O movimento entre os ossos acontece apenas porque as articulações existem, porque temos músculos e cartilagem, que é o que permite que dois ossos na articulação deslizem um sobre o outro. O desgaste é quando a cobertura do osso fica danificada. As causas são várias. Não sabemos a causa da grande maioria das doenças degenerativas, apenas sabemos que é um processo em que a cartilagem se vai danificando. Considera-se uma doença idiopática, ou seja, que não sabemos porque que é que surge.
A utilização excessiva do nosso corpo, por exemplo correr maratonas frequentemente durante anos, contribui para essas lesões? Esse não é um factor de risco muito relevante. Há maior artrose em populações muito específicas. Os estudos sobre actividades desportivas indicam que em relação aos maratonistas não se verifica que tenham mais artroses nas articulações de carga, as ancas, os joelhos, os tornozelos. Nos que fazem ultramaratonas é possível existir uma relação de uso, mas é preciso ser um uso muito exagerado. Quando falamos de pessoas que fazem 200 e 300 quilómetros de cada vez, várias vezes, há um factor de risco, mas isso é extremamente raro.
Quais são então os factores de risco? O principal é o peso, tudo o resto é muito variável. Existem factores hereditários. A relação familiar é uma coisa muito comum. Se os meus pais têm problemas nos joelhos, eu tenho uma probabilidade grande de ter. As doenças reumáticas também são responsáveis pela patologia degenerativa, porque a inflamação crónica destas doenças atinge sobretudo as articulações e a inflamação crónica destrói as células da cartilagem, que vão morrendo progressivamente e isso causa também o desgaste.
A ideia de que o leite faz bem aos ossos é verdadeira? O leite é um alimento muito nutritivo. Há uma corrente que luta contra isso, contra a ingestão do leite, mas verdade é que o leite é um alimento rico em cálcio que é importante para o metabolismo ósseo. Não na parte articular, mas no metabolismo ósseo no geral. Diria que a mensagem que se deve passar é que o leite faz bem.
Quais são os sinais de alerta para esse tipo de doenças? A grande chamada de atenção e o motivo pelo qual as pessoas vêm às consultas é a dor e a perda de mobilidade. Os joelhos deixam de dobrar e esticar bem e as ancas também. Tenho uma pergunta clássica quando uma pessoa com problema da anca vem à consulta, que é se consegue cortar as unhas ou calçar-se, ou se consegue dobrar os joelhos para apanhar algo do chão. Nos casos mais graves as pernas até ficam deformadas.
Como é que tem evoluído o tratamento? Nos últimos anos os tratamentos evoluíram muito, mas o mais importante é controlar os factores de risco, como o peso. O estilo de vida é um factor com muita influência, porque as pessoas que fazem exercício físico, mesmo tendo artrose, têm menos sintomas. A intervenção médica varia consoante o estado da doença. Nas fases iniciais a medicação com suplementos de glucosamina e condroitina é eficaz numa parte dos doentes. A fisioterapia tem um papel muito importante na melhoria da mobilidade e da função dos músculos à volta da articulação. Depois, se a terapêutica não estiver a dar resultado, passamos para outro patamar com as infiltrações. O que está preconizado é a infiltração com concentrados de plaquetas, porque é a menos agressiva tendo em conta que trata o problema com um produto que é do próprio.
Como é que funciona o tratamento com plaquetas? Fazemos três infiltrações, espaçadas por um mês. Recolhemos o sangue do próprio que separamos em duas partes, sendo que uma delas é rica em plaquetas e administramos dentro da articulação. Acaba por ser um transplante de células do nosso sangue para dentro das articulações. O efeito é anti-inflamatório, reduz a inflamação e reduz a dor. As plaquetas são células que têm uma função regeneradora. O intuito é travar o processo, tentar evitar uma cirurgia e se ela tiver de ser feita que seja mais tarde.
O tratamento cirúrgico é sempre a última linha? Nunca começamos pela cirurgia, a não ser em casos gravíssimos em que já exista uma deformidade muito grande e em que o tratamento menos invasivo já não tenha um sucesso expectável. O tratamento de artrose tem tido uma evolução muito grande. Hoje analisamos as articulações do ponto de vista local, olhamos para a articulação em si, mas também para o envolvimento da articulação na perna toda. Conseguimos avaliar as situações com muito mais rigor e em alguns casos, em pessoas jovens, porque as artroses não surgem só em pessoas com mais de 60 anos.
Porque é que este tipo de doença está a afectar mais gente nova? Isso terá a ver com o estilo de vida, porque temos pessoas cada vez mais sedentárias. Portugal é o país da Europa onde se pratica menos exercício físico. É uma coisa inacreditável. Há um estudo recente que diz que 78% das pessoas nunca fazem exercício, o que é surreal. Isto tem vindo a trazer estas doenças para pessoas mais novas e temos de dar uma resposta, que às vezes é cirúrgica. Em pessoas em que existem desvios, em que a perna é muito torta, actualmente o que fazemos é preservar a articulação, desviando o peso do corpo do sítio mau da articulação para o sítio preservado. Temos muita experiência nesta solução que é indicada para as pessoas mais jovens. Tem piada porque esta técnica não é propriamente muito recente mas que ficou adormecida quando surgiram as próteses do joelho.
As próteses já não são tão interessantes em termos clínicos? Tem havido um ressurgimento muito grande deste tipo de técnicas, porque as próteses têm um tempo de vida. Sabe-se que em 10 anos a grande maioria tem as próteses bem, mas em 20 anos já são menos e a 30 anos já só 80% tem as próteses bem. Se opero uma pessoa aos 50 anos e lhe ponho uma prótese, já sei que aos 80 vai ter chatices. Estamos a tentar desviar-nos destas soluções mais agressivas e estas osteotomias são uma opção muito importante, que tem vindo a ter uma evolução muito significativa. Hoje estudamos com grande detalhe a fisionomia, quer do fémur, quer da tíbia, onde é que isso pode estar alterado e de que maneira é que nós podemos corrigir. E estamos a falar de correções milimétricas que alteram muito significativamente a dinâmica da articulação, o que tem um efeito brutal no tratamento da dor.
Que riscos representa uma artrose no joelho não tratada? O risco é o de a doença progredir ao ponto em que a solução é uma cirurgia muito mais complexa. Aquilo que verificamos e a história natural deste problema é que a articulação deixa de mexer. Nessa fase é muito mais difícil recuperar a mobilidade mesmo com as próteses. Por outro lado, estados muito adiantados desta doença levam a uma destruição óssea muito grande e não conseguimos implantar próteses convencionais, temos de utilizar próteses que são outras peças metálicas bastante mais complexas e mais agressivas, com o risco de que duram menos.
Quais são os benefícios da subespecialização médica para os doentes? A ortopedia tem sido um dos campos da medicina que tem tido uma evolução muito rápida e muito acelerada. Torna-se muito difícil os médicos acompanharem estas evoluções no corpo todo e não faz sentido, porque os ortopedistas são cirurgiões. O que fazemos é operar pessoas, que é um acto repetido e tornamo-nos melhores se fizermos muitas vezes a mesma coisa. Isso representa um benefício muito grande para a população. Estudo a patologia muito mais a fundo, porque tenho mais tempo e dedico--me só a uma coisa. Quando opero faço-o muitas vezes e a equipa toda é constituída por pessoas que estão muito mais rotinadas numa cirurgia específica do que se fizessem cirurgias dos pés à cabeça em que nunca teriam um grau de rotina tão grande.
A equipa também está apta a dar formação na área do joelho. Em que medida isso é vantajoso para os profissionais e para os doentes do hospital? Essa é uma conquista, que é uma grande alegria, surgiu depois de vários anos em que fomos organizando o nosso grupo para ter as condições para depois poder receber pessoas de fora. Isso implica que a Ordem dos Médicos faça uma vistoria muito apertada, com critérios muito difíceis de cumprir, quer seja em número de consultas, número de cirurgias, diferenciação das pessoas, artigos publicados. Essa acreditação da Ordem dos Médicos é um factor de diferenciação e da qualidade das pessoas que aqui trabalham e dá-nos um grande ânimo.
Isso também cativa mais médicos para se fixarem nesta região, no Hospital CUF Santarém? Quando abrimos a porta do serviço a pessoas de fora o intuito também é captar talento, mas não é a principal razão. O que queremos e ambicionamos também é passar a lógica da maneira como pensamos, como trabalhamos. Tentar ensinar as pessoas naquilo em que somos muito diferenciados, não só no hospital, mas também com publicações. Tivemos recentemente uma publicação com destaque numa das maiores revistas internacionais e foi feita à custa do trabalho dos profissionais que têm passado pelo hospital. Isso é um motivo de orgulho, porque estamos a falar do nosso trabalho, de estudos derivados do nosso trabalho e que hoje têm um impacto muito grande lá fora. E isso é bom para nós, é bom para Santarém, porque estamos fora de Lisboa e do Porto e a nossa equipa é reconhecida nacionalmente. Temos profissionais que vêm de grandes hospitais do Porto e de Lisboa, recebemos internos de muitos sítios do nosso país. Quer dizer que as chefias desses hospitais confiam que o nosso serviço é uma mais-valia. Isso para os doentes é um sinal de que podem vir a este serviço e que vão ser bem servidos, porque as pessoas sabem o que estão a fazer. Essencialmente é isso que queremos passar.

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