Entrevista | 14-01-2026 12:00

Osvaldo Pires: o autarca que já foi pastor e que luta contra o cancro

Osvaldo Pires: o autarca que já foi pastor e que luta contra o cancro
Osvaldo Pires é um rosto acarinhado e conhecido em Alhandra e aceitou o desafio de voltar a ser presidente da assembleia de freguesia, à revelia da vontade do partido - foto O MIRANTE

Osvaldo Pires, da coligação PSD/IL, foi eleito para um segundo mandato como presidente da Assembleia de Freguesia de Alhandra, São João dos Montes e Calhandriz.

Quando lhe lançaram o desafio aceitou, mesmo à revelia das instruções do seu partido, por considerar que os interesses da comunidade estão primeiro. Homem de coração grande e sorriso fácil, fez de tudo um pouco na vida, de pastor a vendedor de seguros. Um cancro irreversível deixa-o a viver um dia de cada vez, mas com o sonho de deixar a sua terra melhor para as próximas gerações. Nesta entrevista a O MIRANTE, fala sem complexos da doença, da sua terra e dos sonhos por concretizar.

Na política local, mais importante que as querelas políticas e a intransigência de ideais estão os interesses da população, considera Osvaldo Pires, 55 anos, reeleito pelos seus pares para ser novamente presidente da Assembleia de Freguesia de Alhandra, São João dos Montes e Calhandriz. Um convite feito cinco minutos antes da assembleia e que Osvaldo Pires aceitou sem complexos, mesmo indo contra as indicações da coligação Nova Geração (PSD/IL), que integrou como candidato. “Tomei a decisão por impulso quando me desafiaram. Não queria ser novamente presidente da assembleia, mas os interesses da minha comunidade estão primeiro e acho que nestas coisas devemos seguir o que achamos ser correcto”, refere a O MIRANTE. A decisão, contudo, não caiu bem no PSD.
Osvaldo Pires não tem paciência para a politiquice, para as “virgens ofendidas” da política nem para a ditadura do pensamento que, no seu entender, tenta reescrever a cultura e a história em nome de sensibilidades momentâneas. Critica duramente a política feita de egos, jogos partidários, abstenções estratégicas e falta de coragem para dizer “sim” ou “não” quando é preciso decidir. Para ele, a política local só avança quando deixa de ser um conjunto de quintinhas e passa a ser trabalho concreto no terreno.
“O meu último mandato como presidente foi muito interessante e desafiante. Todos os dias tinha algo diferente para fazer, cinco comissões para gerir e apesar da minha saúde estive em praticamente todas as reuniões das comissões. Cheguei ao fim do mandato com a ideia de que fizemos bom trabalho, deixámos obra feita. Uni os vários partidos em torno de muitas questões o que não foi fácil”, refere a O MIRANTE.
Para Osvaldo Pires, são as pequenas coisas que fazem a diferença na vida das pessoas. “Não procuro palcos, quero coisas concretas para a minha terra. Gosto de ir aos cafés da terra, percorrer as ruas, falar com as pessoas, ver o que é preciso ser feito e comunicar isso a quem pode resolver. Temos de agilizar os procedimentos. A máquina estatal é muito morosa e pesada. Muito papel”, critica. Diz que falta literacia política a muitos eleitos locais, mas sobretudo falta rua: políticos que caminhem, falem com as pessoas, vejam buracos, valetas entupidas, lixo acumulado, cruzamentos perigosos e percebam as histórias por trás de cada problema. “Só se pode defender alguém quando se calçam os sapatos das pessoas”, defende.

Alargar linha de comboio é uma inevitabilidade
Osvaldo Pires aponta falhas graves na articulação entre câmara e junta de freguesia, mesmo quando são do mesmo partido, dando exemplos concretos: obras feitas sem diálogo institucional, limpezas interrompidas a meio da rua por questões de competência administrativa e projectos que falham por falta de coordenação básica. Um dos símbolos maiores dessa falha, na sua perspectiva, é o estado do Teatro Salvador Marques, em Alhandra, que classifica sem rodeios como “uma vergonha” que se arrasta há quase vinte anos, defendendo que no futuro o novo edifício não deve ser um elefante branco mas sim um espaço cultural de referência no concelho.
“Sou uma pessoa com um pavio muito curto. Não suporto pessoas que olham para os políticos e dizem que só queremos tacho. Muita gente esquece-se que nas assembleias de freguesia não temos ordenados. Fazemos quatro reuniões por ano e recebemos uma senha de presença de 15 euros que não paga o gasóleo”, critica. No dia a dia continua a percorrer ruas, caminhos e aldeias, a falar com moradores, a observar problemas e a reportá-los. Já foi fotografado a limpar valetas em dias de chuva e garante que não se importa de “pagar para trabalhar”, desde que isso melhore a vida da comunidade.
Para Osvaldo Pires, apesar de haver boa comunicação com o novo presidente da junta, “há muita coisa mal” na freguesia que precisa de ser resolvida. Maior cuidado com os focos de poluição, por exemplo, melhorar a limpeza urbana e o corte das ervas deveriam ser prioridades.
Um dos projectos que mais afectará a vida de Alhandra no futuro é o alargamento da linha férrea, algo que o autarca acredita que será uma inevitabilidade apesar de toda a contestação. “A linha de alta velocidade não pode ficar refém de duas localidades, por isso a linha vai avançar. A ideia de construir um túnel não faz sentido. Apresentei a ideia de desviar o comboio para a EN10 e meter a estrada a passar em viaduto por cima, mas a IP disse-me que ficava muito caro”, critica. Já a demolição da actual estação não parece chocar o autarca. “Não é um edifício icónico nem um monumento.

De pastor a presidente da assembleia de freguesia

Osvaldo Pires nasceu em 1970 no sul de Luanda. Chegou a Portugal ainda criança, na ponte aérea criada no contexto turbulento do pós-25 de Abril, passando pelas Galinheiras, por Óbidos e depois pelo Brasil, no Rio de Janeiro, onde a família explorou uma bomba de gasolina e criou a primeira fábrica de tapetes para a indústria automóvel do país, numa altura em que os carros ainda não traziam tapetes de origem. O regresso a Portugal aconteceu em 1980, devido à doença do pai, fixando-se a família em Odivelas durante 26 anos.
Mais tarde viveu em Paço de Arcos e mudou-se para São João dos Montes, no concelho de Vila Franca de Xira, depois de se casar. Tem dois filhos, de 20 e 23 anos. Nunca teve medo do trabalho e da mudança. Passou longos períodos da juventude em aldeias, foi pastor, trabalhou na lavoura e sente-se em casa quando está no meio rural. Foi vendedor de seguros, agente imobiliário, gráfico, motorista, vendedor de produtos alimentares, gestor de contas, administrador e director de empresas, assessor e secretário de vereação, administrativo e, actualmente, é profissional de informática na Câmara de Vila Franca de Xira.
Rejeita a ideia do “emprego para a vida” e diz que as pessoas não devem ter medo de arriscar e procurar novos trabalhos quando o que fazem não é valorizado por quem as chefia. Sempre teve curiosidade, vontade de aprender e abertura para novos desafios, mesmo quando isso implicava começar de novo. Para ele, o medo paralisa, limita o discernimento e impede de ver mais longe.
É actualmente tesoureiro e adjunto do Agrupamento de Escuteiros de Alhandra. Faz questão de separar escutismo e política, mas reconhece que ambos partilham valores de serviço e compromisso. Também foi presidente de associações de pais, ajudou a criar estruturas de apoio escolar e sempre teve impulso para dinamizar, em vez de criticar a partir do sofá.
Tira-o do sério a cultura woke e a ditadura do pensamento. “Já não se pode dizer atirei o pau ao gato. Por amor da santa. Mas alguém está bom da cabeça? Não posso desvirtuar uma cultura, toda uma forma de ser, só porque alguém de repente se sente ofendido”, critica. Defende que uma sociedade que reescreva e apaga a sua história hipoteca o futuro. Gostava de reformar-se e virar hippie, comprar uma carrinha para transformar em autocaravana e percorrer o mundo. Visitar a Escócia é um dos seus sonhos.

“Sei que um dia terei de morrer, mas isso acontece a todos”

A vida de Osvaldo Pires sofreu uma reviravolta quando, há cerca de um ano, foi diagnosticado com um cancro em fase quatro, ou seja, sem recuperação possível. Nesta fase, o melhor que a medicina consegue fazer é atrasar o desenvolvimento das células malignas. Apesar do diagnóstico, Osvaldo Pires mantém uma atitude positiva, corajosa e optimista, falando da doença com naturalidade.
“Sou apaixonado pela vida e apaixono-me quatro a seis vezes por dia. Nunca sabemos qual é o nosso prazo de validade. O que me custa não é a morte. É deixar de ver um pássaro a voar. A folha de uma árvore a cair, um sorriso de uma criança, quando vejo um sorriso franco e alegre. Adoro gargalhadas. É o melhor que podemos ter”, confessa.
Diz que a vitimização é o pior que se pode fazer a quem tem cancro. “Sei que um dia terei de morrer, mas isso acontece a todos. O dia-a-dia cega-nos. Com a pressão do trabalho, acabamos por não dar valor ao que temos. Precisamos de viver, fazer acontecer as coisas com que sonhamos. Não deixar que sejam os outros a escrever a nossa história”, defende. Muitas vezes as pessoas perguntam-lhe como está e se melhorou. “Não vale a pena perguntar se estou melhor, porque nunca irei melhorar. A pergunta deve ser como é que me sinto hoje? Vamos lá fazer coisas giras”, conclui com um sorriso.

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