Entrevista | 21-01-2026 12:00

A vida de António José Souza Dias cruza a medicina com a criação artística

A vida de António José Souza Dias cruza a medicina com a criação artística
António Souza Dias regressou a Benavente no ano 2000, depois de uma carreira na medicina que o levou a Portimão, Barrancos, Lisboa e Fafe - foto O MIRANTE

Na sala da casa onde vive, em Benavente, rodeado por desenhos, aguarelas e quadros que ocupam paredes, além de pincéis e trabalhos guardados em mobiliário, António José Souza Dias fala da vida com a serenidade de quem já atravessou várias existências numa só. Médico de clínica geral durante quatro décadas, reformado desde 2020, nunca deixou de desenhar. Entre memórias duras, humor cru e uma visão frontal do mundo, construiu um percurso onde a medicina e a arte nunca se anularam.

A conversa decorre sem solenidade, como quase tudo na vida de António José Souza Dias. O gravador pousado, alguns desenhos espalhados pela mesa, a televisão está desligada, a música jazz corre em pano de fundo e a lareira acesa para aconchegar. Em casa do artista e médico reformado, em Benavente, estão obras de diferentes fases, estilos e técnicas: aguarela, caneta de feltro, desenho a preto e branco, experiências gráficas que atravessam décadas. “Sempre desenhei. Desde que me lembro”, refere.
Nascido em Lisboa, em 5 de Agosto de 1953, nunca perdeu a ligação a Benavente, terra de origem da família. “Vinha cá muitas vezes em criança, sobretudo em Setembro, na altura da feira. Depois Natal, Páscoa, férias grandes”, conta. O pai e o avô eram médicos, e a medicina parecia um caminho quase natural. “O meu pai e eu, já como médico, vínhamos a Benavente todas as quartas-feiras para fazer pequenas cirurgias. Ninguém levava nada. Fazíamos para ajudar, mas também porque em Lisboa era difícil arranjar oportunidades para operar”, recorda.
A linhagem médica estendeu-se por outros familiares, mas António José Souza Dias seguiu um percurso próprio. Frequentou o primeiro curso do Campo de Santana, em Lisboa, num período conturbado, imediatamente antes e depois do 25 de Abril. “Foi uma confusão grande. Greves, guerras de cátedras, disputas entre hospitais. Mas fez-se o caminho”, explica.
A ideia inicial passava pela cirurgia plástica, mas as vagas eram poucas. Acabou por optar pela clínica geral, especialidade que marcou grande parte da sua vida profissional. O internato levou-o a Portimão, fez saúde pública em Barrancos, seguindo-se Lisboa e Fafe. Só no ano 2000 regressou definitivamente a Benavente. “O meu pai já estava velho, o meu irmão tinha a vida dele. Voltei às origens”, sublinha.
No período de mudanças, a vida deu um golpe brutal. Um acidente de viação, na Glória do Ribatejo, ceifou a vida da mulher. Ficou sozinho com os filhos. “Fui pai e mãe de uma só vez”, lembra. Partiu a perna em vários sítios, ficou com sequelas físicas e uma responsabilidade absoluta.

A “burrocracia” do sistema
A decisão de exercer em regime de exclusividade no Serviço Nacional de Saúde não foi apenas profissional. Foi ética. “Abrir consultório? As pessoas eram as mesmas que o meu pai atendia de graça. Moralmente, não fazia sentido”, conta. Ficou no centro de saúde. Reconhece que o sector convive, actualmente, com inúmeros problemas. “Às vezes nem há um Buscopan para dar aos doentes, os médicos não têm linhas para coser se o paciente tem um pequeno golpe ou, como já no meu tempo acontecia, tinha-se de enviar o doente para Vila Franca de Xira. É a burrocracia do sistema”, lamenta.
É assim que lhe chama, “burrocracia”. Não por descuido linguístico, mas por convicção. “Não é só burocracia. É burrocracia. Gente a decidir sem visão clínica. Poupa-se onde não se pode poupar”, afirma. A crítica ao estado actual da saúde é frontal, mas sem amargura. “Nunca esteve perfeita. Mas agora está pior. Agora, se temos uma doença, temos de telefonar para ver se podemos ir, depois os tempos de espera, os bebés a nascer em ambulâncias… ainda nos valem os bombeiros”, desabafa.
Apesar da exigência da profissão, o desenho nunca desapareceu. Apenas ficou à margem, à espera. Ainda jovem, publicou cartoons e outros desenhos no Diário Popular, em revistas de banda desenhada, uma delas intitulada ‘O Chato’. “Mandava os desenhos e eles publicavam. Um era sobre um ovo, com braços, olhos, boca. Eram trocadilhos”, conta. Nos jornais da faculdade, os desenhos eram também políticos, especialmente críticas animadas sobre política de esquerda.
Com a reforma, que coincidiu com o início da pandemia em 2020, regressou ao desenho com outra disponibilidade. “Não foi libertação. Foi continuidade. Só tive mais tempo”. Fez livros de banda desenhada em edições reduzidas, experimentou o desenho digital, voltou à aguarela. Frequentou a Sociedade Nacional de Belas-Artes durante dois anos. “Aprendi muita coisa. Foi pena não ter continuado, mas os horários não davam” e a distância também não ajudava.

Exposição no Museu Agrícola de Benavente
Não se revê na ideia romântica do artista isolado e silencioso. “Na cirurgia nunca houve silêncio. Há, por vezes, espaço para anedotas, fala-se. O importante é saber o que se está a fazer, e fazer com responsabilidade”, garante. Também na arte não procura solenidade. “Vejo sempre erros no que faço. Isso faz parte”, confessa.
A exposição “Zé - O Meu Mundo”, patente no Museu Agrícola de Benavente até ao final de Janeiro, assume o seu lado íntimo e desarmado. Questionado sobre quem é esse Zé, responde sem rodeios: “Sou eu. Aquilo que os outros quiserem ver”. Não se define, não se explica. Prefere avançar. “Não sou saudosista. O caminho é para a frente”, realça.
Hoje convive com limitações físicas, problemas de audição, tratamentos, um cancro nas cordas vocais. “Estou todo empenado, mas estou vivo e ainda produzo qualquer coisa”, refere com sentido de humor e boa disposição. Desenha quase todos os dias, ouve música, do jazz ao clássico e até Rosalía, participando em workshops e numa ou noutra iniciativa cultural.

O doente que engoliu um garfo

Há histórias do seu percurso que o tempo não apaga e que ajudam a perceber a imprevisibilidade da medicina. Uma delas envolve um doente que chegou à urgência depois de engolir… um garfo. “Mas engoliu com os dentes para baixo ou para cima?”, perguntou-lhe, tentando perceber a gravidade da situação. A resposta veio com naturalidade desconcertante: “Para cima, claro. Não sou estúpido”. O objecto ficara preso no esófago e a remoção não era simples. Um episódio hilariante que o doente repetiria vezes sem conta, deixando-o com marcas cirúrgicas ao estilo de um fecho-éclair.
Se tivesse de deixar uma mensagem às gerações mais novas, médicas ou artísticas, o médico e artista é peremptório: “Nunca desistam de pensar pela vossa cabeça. Do que querem, do que gostam, façam”. António José Souza Dias não construiu uma ponte entre duas vidas. Viveu-as em paralelo, à sua maneira, sem pedir licença. E continua, sem pressa, a desenhar o tempo que lhe resta.
A conversa não termina sem antes António José Souza Dias nos contar, já com o gravador desligado, as aventuras que viveu no Algarve e no Alentejo, numa época em que era reconhecido por ‘nuestros hermanos’ ao cuidar de feridas tão comuns que ajudavam a explicar as vivências do povo português e espanhol no tempo do contrabando, ou do tempo em que se deslocava de cavalo para o local de trabalho.

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