Entrevista | 02-02-2026 21:00

Pedro Rosa: um autarca com veia artística e paixão por motas

Pedro Rosa: um autarca com veia artística e paixão por motas
Pedro Rosa defende uma governação assente na proximidade e na resposta às necessidades essenciais da população, recusando a lógica de “marcar território” com grandes obras simbólicas - foto O MIRANTE

Com um percurso como autarca em várias frentes e com forte ligação ao associativismo local, Pedro Rosa chegou à presidência da Câmara de Sardoal nas últimas autárquicas com o objectivo de trabalhar pela felicidade e qualidade de vida da população. Personalidade multifacetada, este professor de Educação Visual tem um percurso ligado a artes como a pintura, escultura e fotografia e uma paixão de longa data por motas e desportos motorizados. Ainda chegou a praticar motocross, mas uma queda e uma perna partida em onze sítios acabaram com o sonho.

Pedro Rosa nasceu em Abrantes no dia 19 de Março de 1977, mas considera-se natural de Santiago de Montalegre, freguesia do concelho de Sardoal. Professor de profissão, é casado, tem uma filha com 22 anos e um rapaz com 10 anos. A família vive na vila de Sardoal há 26 anos. Antes ainda viveu em Santiago de Montalegre e Alcaravela, terra da esposa.
Em 2013, quando foi eleito vereador, não lhe passava pela cabeça que um dia viria a ser candidato a presidente da câmara, apesar de já ter um percurso longo como autarca em várias frentes. Começou na política como secretário da Assembleia de Freguesia de Santiago de Montalegre. Foi depois presidente da mesma assembleia de freguesia e, posteriormente, tesoureiro da junta de freguesia, até que Miguel Borges o convidou para integrar a sua lista para a Câmara de Sardoal. Pelo meio, foi também chefe de gabinete do presidente. Na noite da vitória emocionou-se ao recordar o papel que o pai, já falecido, teve no seu percurso, bem como outras pessoas que o foram incentivando e inspirando ao longo da vida.
Com forte envolvimento na comunidade, Pedro Rosa foi dirigente e colaborador de várias associações locais, dirigente sindical e presidente da CPCJ de Sardoal. A sua ligação ao movimento associativo vem desde a adolescência, quando passou a integrar a comissão de festas da sua aldeia, responsabilidade que ainda hoje mantém. Católico praticante, é um dos festeiros mais antigos de Santiago de Montalegre. Foi também presidente da cooperativa agrícola de Santiago de Montalegre, fundador da Associação Desportiva de São Domingos e vice-presidente do GETAS, grupo de teatro de Sardoal; entre outras ligações ao associativismo. E como designer gráfico fez cartazes para muitas festas e eventos de diversas colectividades que o solicitavam.
Houve uma fase na vida em que Pedro Rosa deu largas à sua veia criativa e dedicou-se às artes plásticas, nomeadamente pintura, escultura e fotografia. Tem alguns quadros em colecções particulares em Portugal e no estrangeiro. Curiosamente, no seu gabinete nos paços do concelho, onde pontificam vários quadros, esculturas e fotografias, não há nenhuma obra sua.

Quem entra nestas funções geralmente gosta de mostrar serviço, marcar território e apresentar diferenças relativamente a quem o antecedeu. O que tem feito nesse capítulo?

Essa é uma ideia que se ouve com alguma frequência: a de marcar a diferença e de deixar legado. Não me identifico muito com isso. O melhor legado que podemos deixar é proporcionar condições para que a população se sinta bem, seja feliz e possa aceder a tudo a que os outros, aqui à volta, têm acesso. Nunca fiz questão de dizer “eu quero concretizar este projecto megalómano para deixar a minha marca”.

Não tem então nenhum grande projecto nos planos.

Temos muitos projectos que acreditamos que podem acrescentar valor ao território. Se é isso que vai ser a nossa marca, o povo o dirá. Não fiz promessas, chamar-lhe-ia mais compromissos. Quando estava em campanha, lembro-me de um caso concreto que tinha a ver com uma questão de acessibilidades num pequeno lugar chamado Ribeira Acima, de pavimentação de ruas, em que disse que seria uma das primeiras intervenções ao nível da mobilidade. Esse compromisso tem de ser cumprido, as pessoas merecem. Se não conseguirmos ir ao encontro das necessidades essenciais das populações, então, se calhar, temos que pensar o que é que estamos aqui a fazer.

Quais são os projectos mais relevantes para este mandato?

Temos projectos grandes em andamento, como a construção de uma creche, um grande investimento do município que esperamos ter concluído durante este ano; temos a igreja matriz a ser recuperada, onde o município está também envolvido.

Tal como o seu antecessor, também é uma pessoa ligada à cultura e às artes, nomeadamente às artes plásticas e à fotografia. A aposta que tem havido na cultura no Sardoal é para manter ou até para reforçar?

Sim. Nunca me considerei um artista, mas a arte tem a virtude de nos permitir olhar para as coisas de forma diferente e de termos sentido crítico perante o que a realidade nos apresenta. A arte pode criar reacções no público e estimular o sentido crítico. É isso também que queremos e alargar o acesso dos sardoalenses a tudo aquilo que se passa no país e no mundo. A aposta do Sardoal na cultura é para manter e reforçar. É uma das áreas em que nos queremos afirmar.

Outra área a privilegiar será a floresta?

Sim. A floresta, neste caso, tem que ser entendida em dois âmbitos: a prevenção, protecção e combate a incêndios; e como activo económico que temos. O concelho tem muito potencial para ser trabalhado. Temos feito muito investimento não só na área da prevenção, e aqui também com muito mérito para a nossa protecção civil, mas igualmente na área do ordenamento do território, na criação de um território mais resiliente e que tenha condições para instalar valor. Exemplos disso são os projectos do Condomínio da Aldeia e das AIGP – Áreas Integradas de Gestão da Paisagem.

Tem sido difícil suceder a Miguel Borges ou já tinha uma ideia do que o esperava?

Não diria que é uma sucessão, mas também não diria que é uma continuidade. Foi um privilégio ter trabalhado com o Miguel Borges. Sempre trabalhámos muito bem como equipa e aprendi como se devem fazer as coisas.

Ainda lhe pede alguns conselhos, por exemplo sobre processos pendentes?

Há sempre essa necessidade. Felizmente, para além da relação institucional deixámos uma relação de amizade. Para mim, será sempre o presidente Miguel. É alguém que tenho como referência e ele também sempre se mostrou disponível para esclarecer alguns assuntos. E no último mês de mandato até me entregou a agenda dele. Disse-me que podia haver muita coisa pessoal lá pelo meio, mas também muitos dados que me poderiam ser úteis. Foi uma manifestação de confiança na minha candidatura.

O que é que ultimamente lhe tem tirado o sono? Passou a dormir menos?

Durmo menos, não porque tenha passado a trabalhar mais mas porque tenho muito menos tempo para mim. O peso da responsabilidade é muito maior. Tenho muitas preocupações, mas nada ainda me tirou o sono. Tenho preocupações com o desenvolvimento do quadro comunitário de apoio, por exemplo. Os prazos que nos são impostos no PRR (Plano de Recuperação e Resiliência), com esta fronteira de Junho de 2026, causam-me alguma preocupação.

Os munícipes têm apertado muito consigo? Batem-lhe à porta? Ligam-lhe? Pedem-lhe favores?

Isso é normal no exercício de funções políticas nos meios mais pequenos. Gosto dessa proximidade com as pessoas. Aliás, o lema da minha candidatura era “Próximo de si”. E quero levar isso até ao final do meu percurso.

É um desafio acrescido governar e afirmar um concelho como o de Sardoal, praticamente encostado à cidade de Abrantes, onde alguma da sua população faz vida?

É claramente um desafio, mas cada território tem que perceber em que é que se pode afirmar. E é muito difícil para um concelho como o de Sardoal, com a sua posição geográfica, ter a pretensão de competir com Abrantes, por exemplo, em termos de atractividade industrial. Temos as mesmas vantagens, com a proximidade a este eixo da A23 que liga Espanha ao nosso litoral, mas temos que perceber o que podemos dar de diferente de forma a atrair investimento.

E o que tem sido feito nesse domínio?

Para além do alargamento do nosso parque empresarial, que também me causa alguma preocupação, estamos a começar a trabalhar num regulamento de apoio à fixação de empresas e criação de postos de trabalho e dar algum suporte às nossas empresas. Porque, tão ou mais importante que gerar atractividade, é criar condições a quem cá está para poder continuar.

Justifica-se hoje a existência de concelhos tão pequenos em dimensão e/ou população, como é o caso de Sardoal, que não chega aos quatro mil habitantes? Não seria preferível a união de concelhos para se ganhar escala e ter mais capacidade reivindicativa?

Acho que essa capacidade reivindicativa tem que acontecer por via da união do território, através das comunidades intermunicipais. Relativamente a esse possível caminho que apontou, não concordo. Poderíamos ganhar em escala mas depois perderíamos em proximidade. Perderíamos em relação àquilo que as pessoas esperam de nós, que é a nossa presença constante e a resolução dos seus problemas.

O seu antecessor dizia muita vez que interioridade não é sinónimo de inferioridade. Não será exagerado falar em interioridade no Sardoal, que está a pouco mais de uma hora de Lisboa e do mar?

Interioridade, de todo que não. O Sardoal tem tudo o que os outros territórios têm e o aeroporto de Lisboa está logo ali. Numa hora e meia estamos em Lisboa e à porta da Europa. Inferiores, de todo que também não somos. Inclusive, os resultados escolares que temos tido dizem isso mesmo. A nossa escola é de excelência, muito acima da média. Isso significa que é possível ter qualidade e diferenciação num território mais deslocado do litoral.

É professor e sucede a dois outros professores na presidência do município de Sardoal. Já parece quase tradição. A experiência docente tem sido uma ajuda na política?

Tem. A relação do professor com o aluno, com a comunidade educativa, a forma de envolver todos no processo de construção da educação, também é um bocadinho como a política, que é envolver toda a gente.

Isso tem acontecido em relação à sua oposição?

Considero que a oposição tem tido sentido crítico, tem sabido estar e ter as suas posições próprias, dando contributos. O meu desejo é que a oposição continue a fazer esse trabalho.

Tem sido mais fácil lidar com o PS ou com o Chega?

Não tenho razões de queixa de nenhum. A nova realidade de termos na assembleia municipal o partido Chega advém da vontade do povo. Vivemos num sistema democrático em que impera a vontade do povo e cada um dos partidos que está na assembleia tem defendido os interesses dos sardoalenses acima dos interesses políticos.

Não é pessoa de se irritar com as críticas?

Não. Independentemente do que são as ideologias dos partidos, todos estamos com o mesmo propósito. Obviamente, não concordamos em tudo e na última assembleia municipal não pude concordar com algumas posições do deputado do Chega. Mas espero nunca vir a perder as estribeiras por causa disso.

Teve como adversário pelo PS nas últimas autárquicas um vereador que, pela terceira vez consecutiva, foi candidato a presidente da câmara. Ficou apreensivo com esse cenário, dada a experiência do concorrente?

Encarei isso com normalidade. Sabia com o que contava e, acima de tudo, conhecia as pessoas. Assumi o desafio com tranquilidade, pois estava consciente das minhas competências e da minha capacidade para fazer mais. E também tinha conhecimento do que era a realidade desta gestão autárquica. Estava resolvido comigo mesmo e assumi o desafio com tranquilidade. Se os sardoalenses me quisessem, era porque fazia sentido eu continuar; se não quisessem, teria que aceitar com normalidade. Da mesma forma que os outros partidos também aceitaram. É a democracia.

“É difícil explicar a uma criança que não pode usar o telemóvel na sala de aula”

Como é que a ‘primeira-dama’ encara esta nova fase da vida familiar?

A minha família sempre conviveu bem com esta minha forma de estar na vida. Sempre se habituou a que estivesse envolvido em muitas coisas e às vezes – e aqui peço-lhes desculpa – aceitaram que eu abdicasse um bocadinho da minha vida pessoal e familiar em prol dos outros.

Como é que pensa recompensá-los?

Vou tentar arranjar o melhor tempo possível e viver ao máximo com eles os momentos que tiver disponíveis. Eles sabem que esta missão obriga a muita ausência, mas é assim…

Costuma recorrer à Inteligência Artificial (IA) para tomar decisões?

É uma pergunta curiosa. Se calhar contam-se pelos dedos as vezes que recorri à IA. Acho que a Internet não deve ser um fim, mas sim um meio para atingir um fim. Mas dou-lhe um exemplo concreto: ontem, após ler vários diplomas sobre a questão dos sapadores bombeiros, decidi ir ver o que me dizia a IA sobre isso. E é engraçado que formulei a questão de duas formas diferentes e as duas respostas também foram um bocadinho diferentes. Acho que a IA é um bom instrumento, mas não devemos confiar em tudo o que nos aparece pela frente. Devemos ter sentido crítico, analisar e socorrer-nos de quem nos rodeia para tomar algumas decisões.

O que pensa da proibição de telemóveis nas salas de aula até determinado nível de ensino?

A nossa escola foi pioneira nisso, começou como um projecto-piloto. Sou do tempo das cassetes VHS e o meu pai e a minha mãe já achavam que eu perdia demasiado tempo em torno daquela coisa estranha que tinha invadido a casa. Aquilo que temos que aprender é a conviver com as tecnologias. E aqui os pais têm uma função muito importante, que é o poder regulador, que tem que ser exercido desde muito cedo. É muito difícil explicar a uma criança – a quem o pai, no restaurante, para a manter calada, lhe mete um telemóvel à frente – que no contexto escolar e da sala de aula não pode usar o telemóvel. Compreendo que esta regulação nos níveis de ensino mais baixos seja necessária, desde que nenhuma criança fique impedida do acesso à tecnologia. A tecnologia deve existir na sala de aula e temos que nos adaptar a isso.

Pedro Rosa, presidente da Câmara de Sardoal - foto O MIRANTE

A etapa na Zona J durante a volta a Portugal a dar aulas

Pedro Rosa é licenciado em Ensino de Educação Visual e professor do 2º e 3º ciclos. Não dá aulas desde que entrou como vereador da Câmara de Sardoal, em 2013. Começou a actividade docente em 1999 e correu boa parte do país a dar aulas. Leccionou na EB 2/3 de Samora Correia, onde fez o seu primeiro ano de serviço, depois passou por Paços de Ferreira, pela famosa Zona J, em Lisboa, Coruche, Alhandra, Marinhais e Tomar. A última escola onde deu aulas foi a de Alpiarça. “É a vida de professor”, resume.
Ia e regressava todos os dias a casa, com excepção de quando esteve destacado em Paços de Ferreira, no distrito do Porto. “Sempre fiz questão de vir a casa todos os dias, ainda que isso implicasse deixar o ordenado todo no alcatrão”, diz. Quando dava aulas na Zona J saía de casa às 05h00 da manhã para apanhar o comboio e regressava já perto das 22h00.
Confessa que tem “uma paixão inabalável pela educação”, ainda que por vezes sinta algum desalento pela forma como a classe docente tem sido tratada. “Se voltasse, voltava de coração cheio”, diz, referindo que “o destino será sempre voltar”, corra a experiência política como correr. Diz que tem saudades da escola, ainda que não de algumas coisas, e considera que a burocracia, de que muitos professores, se queixam “é um mal necessário”. Diz que nunca se impôs pela repressão, embora tenha lidado com muitos alunos reguilas, nomeadamente na Zona J. Procurava mostrar-lhes o rumo certo através das palavras.
Diz que as escolas, hoje, estão inundadas de alcatrão e de espaços que não permitem o contacto entre alunos e os jogos de recreio que havia noutros tempos. Considera que tem que haver.

Partiu uma perna em onze sítios e desistiu do motocross

Outra paixão é a que tem por desportos motorizados e por motas. Na garagem tem meia dúzia de veículos de duas rodas, uma delas de grande cilindrada, uma Virago 535. Chegou a praticar motocross e enduro mas, numa queda, partiu uma perna em onze sítios e acabou-se ali a carreira. “Mas sempre adorei motores, sempre gostei de mecânica, de restauro de motas”, vinca. Sempre que tem oportunidade pega no capacete e na mota e vai dar uma volta com um grupo de amigos. Fizeram a Nacional 2 recentemente. Em grupo, foi algumas vezes à Serra da Estrela por trilhos e caminhos de terra e deixou de ir porque um dos organizadores faleceu numa dessas viagens. “Custou-nos muito”, diz. Um trajecto pela raia até São João da Pesqueira ou a Costa Vicentina até ao Algarve foram outros percursos que ficaram na memória.
Apesar do amor pelas motas, Pedro Rosa não é um adepto ferrenho das concentrações de motards. “A última em que estive foi em Góis, mas não sou muito adepto. Até gosto de campismo, até gosto de música, também gosto de beber uma cerveja com os amigos, mas não sou muito adepto do espírito da concentração. Gosto mais da estrada e do vento a bater nos cabelos, que tenho poucos…”, refere.

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