Entrevista | 10-02-2026 07:00

Nuno Catorze: “A atractividade na Saúde começa a ganhar-se pela diferenciação”

Nuno Catorze: “A atractividade na Saúde começa a ganhar-se pela diferenciação”
Nuno Catorze, médico - foto DR

Médico há mais de 30 anos, Nuno Catorze foi o responsável pela criação da Unidade de Cuidados Intensivos do então Centro Hospitalar do Médio Tejo, instalada no Hospital Manoel Constâncio, em Abrantes, depois de aceitar o desafio em 2008.

A unidade nasceu com uma equipa reduzida, mas altamente motivada, e viria a assumir um papel decisivo durante a pandemia de Covid-19. Esta curta conversa com O MIRANTE decorreu após a cerimónia oficial de início do Internato Médico em Medicina de Urgência e Emergência, que teve lugar no próximo dia 29 de Janeiro, no Auditório do Hospital de Torres Novas, da Unidade Local de Saúde do Médio Tejo. Nuno Catorze defende a consolidação de competências no SNS do Médio Tejo para fixar profissionais e melhorar a resposta aos utentes.

Como descreve o estado actual da Saúde no Médio Tejo? É um sistema de saúde integrado no Sistema Nacional de Saúde, que trabalha em rede. É, no entanto, um sistema que precisa de crescer e, acima de tudo, de ser solidificado. Tem de ganhar competências próprias, fixar médicos através dessas competências e captar diferenciação médica. Isso faz-se trabalhando áreas gerais como os cuidados de saúde primários, os cuidados hospitalares e, naturalmente, os cuidados terciários, nomeadamente na área social. Mas é fundamental consolidar competências e criar áreas de diferenciação próprias. Nos cuidados de saúde primários, por exemplo, podem existir hospitais de dia, núcleos de estudo específicos de doenças autoimunes, cardiovasculares ou outras áreas de interesse. O objectivo é fixar profissionais e tornar o Médio Tejo uma região mais atractiva.
Quais são os principais problemas sentidos pelos utentes no Médio Tejo? O principal problema é a acessibilidade. Existe uma maior facilidade de acesso dos utentes, provavelmente por razões relacionadas com a resposta dos cuidados de saúde primários. Os utentes procuram soluções no tempo que consideram adequado e que muitas vezes não são dadas pelo sistema. O crescimento da população, incluindo migrantes que têm vindo para a região, fez com que ainda não tenha havido resposta suficiente. Como consequência, os cuidados hospitalares acabam por ser inundados, sobretudo na área da urgência.
Existe falta de médicos e profissionais de saúde no Médio Tejo? Faltam sempre. O Médio Tejo sofre com a questão da regionalização. Apesar de se ter conseguido ganhar médicos com diferenciação técnica, estamos afastados das áreas centrais e dos hospitais centrais, o que reduz a atractividade. Quando não existe diferenciação técnica, remuneratória ou reconhecimento da prática clínica diferenciada no interior, os profissionais acabam por sair. Existe também competição entre instituições do SNS. Médicos que ganham competências, inclusive na ULS do Médio Tejo, acabam muitas vezes por ir exercer para hospitais centrais, onde encontram as mesmas condições ou condições mais atractivas.

Diferenciação é a chave para o futuro da saúde

O que considera prioritário para melhorar a saúde no Médio Tejo nos próximos anos? A atractividade começa-se a ganhar pela diferenciação. Uma diferenciação simples, quer nos cuidados de saúde primários, quer nos cuidados hospitalares, através do ganho de competências e da criação de áreas de interesse fundamentais. Essas áreas devem ser relevantes para os profissionais, mas também para os utentes, e precisam de ser reconhecidas como tal.
O Médio Tejo tem capacidade suficiente em cuidados intensivos? Sim. Neste momento, o Médio Tejo é provavelmente uma das poucas unidades hospitalares do conjunto das ULS que cumpre a métrica internacional de número de camas de cuidados intensivos por 100 mil habitantes.
Onde devem ser feitos os principais investimentos nos cuidados intensivos: recursos humanos ou técnicos? Os cuidados intensivos fazem parte de um sistema de saúde e não podem existir de forma isolada. Não se mantêm diferenciáveis nem atractivos se toda a instituição não tiver competências e interesse clínico. A forma de os cuidados intensivos crescerem é manter ou aumentar a competência das outras áreas médicas às quais dão apoio. Não são os intensivos que fazem crescer as outras áreas; são as outras áreas que fazem crescer os intensivos. Se temos doentes e não os conseguimos tratar, temos de os encaminhar para fora. Se tivermos áreas complementares dentro do hospital que dêem apoio, conseguimos continuar a crescer e a tratar mais doentes.
O que melhorou nesta unidade de saúde desde a pandemia? O maior impacto foi a diferenciação e o ganho de competências da própria instituição. Os profissionais podem mudar, mas a instituição fica com as competências. Hoje existe capacidade para tratar determinados tipos de patologias que anteriormente não eram abordadas. Esse é, para mim, o principal legado da pandemia.

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