A comandante que transformou a dor em missão de ajuda ao próximo
Perdeu o pai de forma repentina e transformou a dor em missão. Ex-militar da Força Aérea, veste a farda de bombeira há mais de 20 anos, mantendo acesa a chama de servir e salvar. A comandar a corporação da Golegã desde 2020, gosta de liderar pelo exemplo. Nesta entrevista, a propósito do Dia da Protecção Civil, fala do estado das florestas, da disparidade de meios entre corporações e dos riscos que têm de correr quando alguém decide transgredir indicações.
Oriana Brás sentiu desde muito nova um fascínio por fardas, mas a mãe teimava em pôr um travão no sonho de se tornar bombeira. Depois de o seu pai falecer, vítima de doença súbita aos 52 anos, tudo mudou. “Após a morte do meu pai foi a minha própria mãe que me incentivou”, recorda. Sem influência familiar nos bombeiros que a levasse a seguir esse caminho, como acontece em muitos casos, Oriana deixou o trabalho num escritório e ingressou, aos 21 anos, na corporação dos Voluntários da Izeda. “Não fui preencher um vazio, porque esse continua a existir e nunca se vai preencher. Fui antes em busca de ajudar o próximo já que ninguém conseguiu ajudar o meu pai”, afirma a transmontana, natural de Macedo de Cavaleiros.
Ao comando, desde 2020, dos Bombeiros Voluntários da Golegã, actualmente com 32 elementos, garante que continua com o mesmo sentido de missão: ajudar e salvar, embora admita já ter sentido vontade de atirar a toalha ao chão. “Esta vida é difícil, temos de abdicar de muito. Deixamos praticamente de ter vida própria. E é muito complicado para as pessoas à nossa volta entenderem o que nos faz levantar da cama, durante a noite, sempre que a sirene toca”. E nesse quartel, embora haja um sistema de alerta via mensagem telefónica, faz questão que a sirene toque. “As pessoas precisam de saber que existimos e que alguém naquele momento está a precisar de nós. Precisamos disso e é uma forma de mantermos a chama acesa com a população”, justifica. Nessas alturas, conta, ainda há quem saia à rua ver os meios sair do quartel e quem ligue para saber o que se passa.
Mulher prática, não abdica do cabelo amarrado sempre que farda, nem usa unhas pintadas ou brincos compridos. Normas que segue, talvez, admite, por herança do seu percurso na Força Aérea Portuguesa, iniciado em 2001, no Campo de Tiro, em Samora Correia. Após cessar funções militares, ingressou na corporação de Salvaterra de Magos e no dia em que foi fazer a entrevista para uma vaga na Golegã, em 2016, teve de “usar GPS porque não sabia o caminho”. Hoje, conhece-os melhor do que a palma da sua mão.
De sangue frio, mas com “coração de manteiga”, é-lhe difícil traduzir por palavras o que se sente ao salvar a vida de alguém. Mas a vida de bombeiro, adverte, também se faz de actos mais simples como ouvir um doente durante um transporte hospitalar, ou estar presente em momentos que marcam a vida das pessoas. “Falo muitas vezes no menino que fui buscar ao IPO no dia em que recebeu alta. Tive de lhe explicar que ia ter de esperar e que ia voltar. Agarrou-se às minhas pernas e implorou para que não fosse embora e o deixasse ali. Não acreditava que ia embora, mas foi. Já tive, depois, outra situação com ele quando abriu o sobrolho e fez a triagem ao meu colo, porque não queria mais ninguém. “Há situações e pessoas que ficam connosco”, vinca.
Oriana Brás conta nesta conversa a propósito do Dia Internacional da Protecção Civil, que se assinala a 1 de Março, que já sentiu medo ao ficar cercada pelas chamas, dentro de um carro, num incêndio na Glória do Ribatejo. “Não pensei em mais nada a não ser em arrancar dali. É preciso ter coragem para combater um incêndio mas também é preciso saber quando ir embora. E às vezes deixar a missão para trás é o que nos salva”. Com carta de veículos pesados e articulados, diz que ser mulher não atrapalhou o seu percurso e lamenta que ainda faça confusão a muita gente ver mulheres em cargos de comando. “Já ouvi comentários sexistas, que ignoro. Não vale a pena discutir com quem não tem mente aberta”, afirma. Prefere o teatro de operações à secretária e reconhece que é difícil conseguir “escalar o muro” para chegar à sua amizade. Transmontana com o “coração ao pé da boca”, para Oriana Brás “a missão fala sempre mais alto”.
“Só se lembram dos bombeiros quando as desgraças batem à porta”
Acabámos de sair de uma cruzada de eventos extremos onde comunicações falharam, concelhos ficaram sem meios de emergência e eletricidade. Que lições há a retirar? Temos todos de aprender com o que aconteceu. Tivemos a primeira tempestade e logo a seguir um comboio delas e, depois, um sismo. Não temos noção do que pode vir a seguir, e muitas vezes desvalorizam-se os alertas dados pela Protecção Civil. As pessoas sofrem, mas quando passa toda a gente esquece. E não devia. As alterações climáticas são uma constante e não devíamos subestimá-las, pois são superiores a nós. Mas parece que só quando o mal bate à porta é que as pessoas se lembram.
Continua a haver falta de investimento preventivo, ou concorda com o presidente da ANPC que diz que a prevenção foi “à prova de bala”? Tivemos prevenção, os alertas foram dados com tempo e houve articulação entre bombeiros, câmara, GNR. Aquilo que senti foi que não estávamos preparados para tudo, para a dimensão. Desde 28 de Janeiro tivemos briefings diários com o comando sub-regional. Reuni com os meus bombeiros, expliquei o que estávamos a acompanhar e o que podia vir aí. Depois, com as chuvas e a estrada submersa, aloquei equipas para a Azinhaga para não falhar o socorro à Azinhaga e ao Pombalinho, porque passámos de 12 minutos para 40 minutos de percurso, por causa da estrada submersa, que ainda continua com zonas submersas.
E mesmo assim há quem tente passar. Falta literacia em protecção civil? É um facto: as pessoas têm consciência de que estão a transgredir e que podem ser punidas. Aliás, a GNR fez alguns autos relativamente a isso. As pessoas acham que um palmo de água dá para passar, mas não compreendem o perigo que pode estar debaixo. As valetas têm profundidade e uma distracção pode ser fatal e é isso que as pessoas não compreendem e ainda levam a mal quando se fecham estradas por segurança.
Quando há uma falha os bombeiros são muitas vezes os primeiros a serem criticados. Como é que lida com isso? Não é fácil. É sempre fácil apontar o dedo a quem usa uma farda. Custa, mas se temos razão precisamos de argumentar, explicar, justificar.
Antes da renovação da sua comissão de serviço, houve tensão na associação e uma demissão na direcção, alegadamente em ruptura com o comando. Nunca houve ruptura com o comando. Aliás, alguns elementos que saíram estão hoje nos órgãos sociais e o comando é o mesmo. Houve sempre articulação, desde que sou comandante nesta casa. Houve visões diferentes, o que é natural. O que interessa é que estamos alinhados: reuniões quinzenais, contacto diário com o presidente, abertura e articulação.
Quais são os maiores desafios que a sua equipa enfrenta? Ser bombeiro não é fácil, cativar bombeiros não é fácil. É preciso amor à camisola. Nem sempre trabalhamos nas condições ideais, nem com os meios ideais, e não somos reconhecidos como deveríamos. Só se lembram de nós quando as desgraças batem à porta. Se não for em cheias, incêndios e acidentes, ninguém se lembra dos bombeiros. Mas somos nós que nos colocamos em risco para salvar outros, mesmo quando vamos salvar porque as pessoas descuram as indicações dadas. Vivemos um desafio diário, onde temos de lutar para ter um ordenado ao final do mês que também depende dos serviços que fazemos.
Equilibrar e gerir meios para assegurar os serviços programados e os que advêm de ocorrências de maior escala é um dos maiores desafios? Exige um esforço tremendo de todos, porque tudo tem de continuar a ser feito. A associação tem contas para pagar e os serviços têm de continuar, mesmo em situações extremas. Tivemos recentemente equipas alocadas 24 sobre 24 horas em Azinhaga, e o quartel continuou a funcionar, os serviços continuaram. Foi um esforço tremendo. Falo por mim, que do dia 3 ao dia 14 de Fevereiro dormi no quartel. Se peço aos meus homens um esforço extra, tenho de estar com eles. Liderar a dar o exemplo, não se comanda à distância.
Trabalham com os meios ideais ou os possíveis para o socorro e combate a incêndios? Os possíveis. Temos um défice de meios pelos anos que têm, quer no socorro quer no combate a incêndios. A frota está envelhecida, tem muitos quilómetros e precisa de renovação. Mas a associação não tem capacidade financeira para renovar como gostaríamos. Temos um veículo florestal com trinta e muitos anos a precisar de ser substituído. Mas a segurança dos operacionais é fundamental: se houver anomalia que ponha em perigo, o carro não sai da garagem.
Têm uma ambulância INEM protocolada. É suficiente para as solicitações? Depende. Geralmente, conseguimos dar resposta a duas ou três solicitações em simultâneo. E ainda respondemos a pedidos de concelhos vizinhos. Em saídas, andamos ali entre 700 e 900 por ano.
Os bombeiros profissionais sabem ou não mais do que voluntários? Não, é mito. A formação é exactamente igual. O que muda é a capacidade financeira das associações humanitárias para investir em formação e equipamentos. E aí há disparidades. Há as que conseguem fazer um investimento grande em formação e equipamentos e outras não.
Faz sentido essa responsabilidade recair sobre as associações humanitárias? Não. Temos uma Escola Nacional de Bombeiros que deveria ser o principal impulsionador para a formação contínua de bombeiros. Nomeadamente ao nível de custos.
Há formações que gostaria de implementar e não consegue? Tenho muitas. Resgate em grande ângulo, por exemplo. Aqui faria diferença, por causa de campos agrícolas e poços, para um resgate em profundidade com mais segurança. Mas não faz sentido formar sem ter equipamento e, neste caso, é caríssimo: alguns equipamentos ultrapassam os quatro mil euros.
Entre tantas formações já se começou a apostar a sério na promoção da saúde mental dos bombeiros? Acontece mais quando há necessidade. Já accionei equipas de psicólogos em situações marcantes, para famílias das vítimas e para os operacionais. O trabalho preventivo poderia ser interessante, mas cada um reage de maneira diferente e há ocorrências que envolvem mortes para as quais dificilmente se está preparado.
Os comandos sub-regionais vieram facilitar ou atrapalhar o socorro?
Facilitar. Havia uma carga enorme, quando éramos comando distrital, na gestão de 28 corpos de bombeiros. Agora há mais proximidade com corporações, populações e território. Não veio atrapalhar a resposta, nem a articulação de meios.
O profissionalismo é o caminho
Em vésperas de ser accionado o último dispositivo especial de combate a incêndios rurais, o Governo aprovou um aumento do valor diário pago aos voluntários de 67,3 euros para 75 euros. Que comentário lhe merece esta decisão? Os bombeiros exercem uma profissão de risco e são muito mal pagos. 75 euros não paga o risco, e para chegar a esse máximo têm de trabalhar 24 horas, não um dia normal de trabalho. Depois, questionamos por que é difícil cativar voluntários. E ser decidido em vésperas do accionamento do dispositivo…
É quase uma piada de mau gosto? Sem dúvida, mas enfim. Continuamos cá para servir.
Que modelo defende para o futuro? Se vestimos todos uma farda e a nossa missão é salvar pessoas e bens, devíamos ser equiparados. O profissionalismo é o caminho. Podiam continuar a existir as associações de bombeiros, mas ter outro tipo de apoios que conseguissem colmatar o défice que há e dar suporte igual para todos. E faz sentido reflectir: se uma associação for mal gerida pode pôr em causa o socorro e não faz sentido que assim seja.
Acredita numa “indústria dos incêndios”? Não tenho conhecimento oficial. Tenho opiniões pessoais: há incêndios estranhos, sobretudo nocturnos. Não será a luz da lua a incidir num vidro a provocar uma ignição...
Como classifica o estado da nossa floresta? Em muitos locais está de bradar aos céus. Falta prevenção e criação de acessos antes da época de incêndios por parte dos serviços municipais de protecção civil. Faltam estradas nas florestas.
A floresta de eucalipto, que tem vindo a ganhar peso em vários concelhos da região, é uma realidade que a preocupa? Sim. O eucalipto é um problema: cresce rápido, larga folha que, incandescente, pode voar metros e metros, tal como a casca. E quando há desbastagem e a limpeza é mal feita vira pólvora. Temos as florestas cobertas de pólvora. Devíamos reflorestar com espécies autóctones.
Como é que uma ex-militar olha para o papel das forças armadas no combate e prevenção a incêndios? Faz todo o sentido. As forças armadas têm ao dispor equipamentos, como as máquinas de rastos, que podem ajudar logo de início a criar acessos, na logística. Acho é que há burocracias a mais.


