Jorge Paiva: “A defesa dos trabalhadores só era feita a gritar nas ruas”
Chegou a presidente da Junta de Freguesia de Samora Correia com a promessa de “ambição, competência e proximidade”, depois de a coligação PSD/CDS (AD) o ter anunciado como candidato às autárquicas num quadro de mudança que o próprio enquadrou como um “novo ciclo político” no concelho. Quatro meses depois de tomar posse, Jorge Paiva, que ganhou com uma margem de 65 votos para Augusto Marques, da CDU, faz um balanço que mistura pequenas intervenções do quotidiano com dossiês mais complexos. Coloca o desvio do trânsito pesado no topo das prioridades e não poupa críticas à anterior gestão comunista, sobretudo no que diz ter encontrado nas condições de trabalho dos funcionários e no investimento adiado.
O ‘slogan’ da campanha era “deixem o Jorge trabalhar”. Estão a deixá-lo trabalhar? Estão a deixar. Ainda há forças de bloqueio, já foram mais, mas, ao fim de quatro meses, são menos. E daqui a quatro meses serão ainda menos, porque percebem que viemos para mudar, para fazer cumprir regulamentos e transformar Samora Correia numa cidade melhor.
Disse que não precisa da política para nada. Agora que está no cargo mantém essa ideia? Mantenho, mas preciso muito da política para ser feliz. Permite-me ouvir as pessoas e tirar gozo do dia-a-dia ao fazer coisas pela terra. É uma forma de fazer acontecer de forma diferente daquilo que se fazia anteriormente.
O que traz do sector privado para a gestão pública? O que mais me desafia é liderar pessoas. Tanto nas actividades profissionais que tenho como na junta é tudo uma questão de pessoas. Se todos estivermos com o mesmo objectivo, vamos fazer as coisas de maneira diferente. É esse o principal desafio.
Qual é a primeira diferença quando analisa a gestão de uma empresa e de uma junta de freguesia? A paixão que os funcionários da junta têm pela própria terra. É difícil de explicar, porque a maioria das pessoas desta equipa não é o dinheiro que os move. Se fosse o dinheiro que os movia, acho que dificilmente estariam aqui. A função pública é muito mal paga. Depois, é o desafio de imprimir ritmos de organização empresarial numa estrutura muito focada no dia-a-dia e não no futuro, numa planificação para o ano inteiro.
E como concilia a junta de freguesia, as empresas e a família? Entrei com um registo de não permanência, que me deveria dar a liberdade de passar tempo em todas essas actividades, mas estou na junta a tempo inteiro, de manhã à noite, e deixei as empresas em autogestão. Isso não dura nem é compatível durante quatro anos. Tento não falhar com a família, com a minha esposa, e não posso ter os meus filhos a dizer que não tiveram pai durante quatro anos.
Ser filho da terra ajuda ou atrapalha? Ser conhecido por ser filho do senhor Delfim, que construiu um restaurante com 50 anos de história, para uns é um bom currículo, para outros é sinónimo de desconfiança. As pessoas têm muito medo das mudanças e do desconhecido. Samora sempre viveu assim, aponta defeitos, mas resiste à mudança. Quando se começam a querer alterar coisas, quem é afectado reclama. Dou um exemplo: as esplanadas estão todas ilegais e quase 100% não pagam, não têm licença, mas têm lucro com isso. No dia que isso mudar, quem for afectado vai dizer que o presidente é o “mau da fita”. Mas vai mudar.
O que encontrou quando assumiu funções? Alterar 47 anos de comunismo vai demorar muito tempo. A ideologia comunista é, por sistema, uma força de reivindicação e de defesa dos trabalhadores. Mas isto só é feito a gritar nas ruas, porque quando entrámos na câmara municipal, quando entrámos na junta de freguesia, o que vemos são funcionários com condições deploráveis nos balneários, nos refeitórios, nas condições financeiras, nos equipamentos de trabalho, que era tudo do mais básico ou inexistente. Os trabalhadores da junta não tinham cacifos, fardamento, botins para a chuva, impermeáveis, óculos, capacetes, entre outros. Nem sequer eram feitas as avaliações para progressão na carreira. Isto não é defender os trabalhadores. Foi o maior choque para mim.
E financeiramente? Foram deixadas condições para a junta poder fazer muita coisa. Herdámos uma junta financeiramente saudável, com uma boa poupança para investir, mas uma junta não é uma conta poupança. Pode ter algum valor para uma situação de emergência, mas não pode ter quase o valor do seu orçamento em poupança, não é admissível, tal como não o é não fazer as coisas e ficar eternamente a dizer que a competência é do Estado ou da autarquia. Os fregueses não querem saber disso; querem os problemas resolvidos e quando o buraco na rua aparece tapado não querem saber se foi a junta, a câmara ou o Estado. Enquanto a junta tiver capacidade humana e financeira para resolver, vai resolver e depois pedir o dinheiro.
Viu-se isso na tempestade e na Protecção Civil… Foi a primeira vez que se formaram piquetes e entraram no registo da Protecção Civil. A junta era, das quatro no concelho, a única que nem rádio da Protecção Civil tinha, tivemos de pedir emprestado. A junta passou a ser vista como guardiã da população e isso sai do esforço de todos.
Nestes quatro meses, o que mais mudou? Muitas coisas pequeninas, mas que mexem com a vida. Limpar, organizar os ecopontos e o lixo, tirar obstáculos da via pública, juntar sinais, pôr caixotes de lixo nos sítios, arranjar mais estacionamento, fazer processos de carros abandonados, abrir a capela, organizar cemitério e casa mortuária - espaços em que eram as funerárias que mandavam e não pode ser assim. No mercado mensal havia 130 lugares e só 45 ocupados. Estamos a organizar, a acabar com as dívidas e evitar que seja necessária a presença da GNR no mercado. E estamos a tentar revitalizar o mercado diário, os polidesportivos vão receber relva sintética, as podas em todas as árvores, precisamos de mais estacionamento. Vamos ter uma cara de Samora totalmente diferente.
E os assuntos que apelida de “maratona”? Muitos deles andamos a tratar com a câmara, e que as pessoas não vêem, como é o caso do problema com a Segurança Social e, sobretudo, o trânsito pesado. O desvio dos pesados está parado desde 23 de Agosto de 2013. António José Ganhão e a sua equipa deixaram um protocolo preparado para ser assinado com a Infraestruturas de Portugal e não aconteceu mais nada. As pessoas não sabem disto e, diria eu, andámos a ser enganados 12 anos a dizer que estava a ser feita alguma coisa. Não sei se foi pelo facto de poder ter sido resolvido este problema e de ele deixar de existir que, igualmente, deixaria de haver motivo para reclamar com o Estado; ou se, por outro lado, seria por medo de resolver em Samora e não haver solução para Benavente. Não podemos é ter dois problemas e deixar de resolver um porque o outro tem uma solução diferente.
Está alinhado com a Câmara de Benavente? Totalmente. Estarei ao lado deles para tudo aquilo que for preciso, porque sei que querem bem ao concelho e bem a Samora Correia. Não tenho dúvidas disso. A rivalidade Samora-Benavente está na cabeça das pessoas e não faz sentido. Em 15/20 minutos atravessa-se o concelho. Não se pode ter tudo à porta de casa.
“Quem vem, ou se adapta ou escolhe outro sítio para viver”
Samora tem condições para atrair investimentos sem perder identidade? A zona industrial, que tem muito espaço livre, está ao abandono há cerca de 20 anos. Nada é feito lá e tem condições para crescer. A nível habitacional, hoje não temos capacidade para absorver o impacto que um aeroporto pode trazer. O executivo anterior não conseguiu executar uma única casa, nem foi feito um trabalho com os construtores para os acarinhar. Há sempre um medo do privado. O público e o privado têm regras e o empreiteiro não é o diabo. Se houver aeroporto, será crescimento rápido, com coisas boas e más; sem aeroporto, pode ser uma cidade organizada, disciplinada e agradável. Se crescermos 5% ou 10% em população ao ano é uma coisa, se crescermos 100% é impossível segurar isso em qualquer parte do mundo.
Onde fica a identidade deste território? Se forem dadas condições para as colectividades existirem, e se apoiarem as festas e eventos, as tradições mantêm--se. Não pode acabar-se com o toiro, o cavalo, as largadas e a festa brava. Quem vem tem que saber ao que vem. Ou se adapta ou escolhe outro sítio para viver.
Há soluções para a falta de creches? Foi deixada uma herança de muitas crianças em lista de espera. Elas existem, são reais, são do passado e do presente. Há duas formas de fazer creches: uma delas de raiz, com processos longos de dois, três e quatro anos; e há a adaptação de edifícios que pode demorar alguns meses. A câmara, e bem, começou os processos para uma nova creche em Samora, mas também deu arranque à identificação de edifícios para serem adaptados no curto prazo. A Fundação Padre Tobias tem um projecto a decorrer, pago pela autarquia, mas é a instituição que está a levar para a frente a construção. Estamos, com a câmara, a tentar perceber e a identificar mais soluções, que ainda não tinham sido identificadas e que podem criar até 80 vagas.
Qual é hoje o maior problema estrutural da freguesia? Estacionamento, creche, trânsito e a terceira idade. Desta última não se fala muito. A Fundação Padre Tobias faz um excelente trabalho, seja como lar, seja como centro de dia e como apoio domiciliário. Tem capacidade de resposta para centro de dia e para apoio domiciliário, mas não tem capacidade de resposta para os idosos. A valência de lar comporta 68 idosos, mas teremos outros tantos ou uma centena à espera. A necessidade de um equipamento para acolher esta faixa etária é estritamente necessária em Samora Correia, mas faltam fundos europeus ou estatais.
Em relação ao estacionamento queremos implementar bolsas de estacionamento mais longe do centro para quem vai trabalhar para Lisboa, que ocupa o lugar durante todo o dia. E para quem trabalha, quem se quer deslocar ao comércio, ir ao banco ou à pastelaria e não consegue, implementar o estacionamento temporário de 30 minutos ou uma hora no máximo.
“Estava cansado de 47 anos de comunismo”
É um presidente de rua ou de gabinete? Queria estar cem por cento na rua, mas os problemas também se resolvem no gabinete. Sou 80% rua e 20% gabinete. A rua identifica os problemas; os gabinetes resolvem os problemas de maratona e o que não é possível no terreno.
Consenso ou confronto? Prefiro confronto quando o consenso não é possível, sem perder o respeito. Às vezes é preciso para haver consensos.
Tem no seu executivo um ex-eleito pelo Chega e foi também buscar apoio ao PS. Porquê? Porque a cidade está acima dos partidos. Primeiro estão as pessoas. A lista foi feita por pessoas que podiam acrescentar e mesmo quem não foi eleito está a ajudar em tarefas.
Candidatou-se com que objectivo? Não tenho qualquer objectivo político. O meu projecto é de quatro anos. Gostava de dar quatro anos à minha terra. Candidatei-me porque tinha verdadeiramente a necessidade de perceber se é difícil fazer melhor. Estava cansado de 47 anos de comunismo. Não quero ser mais do que presidente de junta, porque não me adequava a uma câmara municipal.
No fim de quatro anos, o que gostaria que dissessem sobre si? Que isto deixou de ser a freguesia de uma pessoa só e passou a ser uma junta de 26 pessoas. Que se elogie mais em público e se critique no sítio certo. Se quem lidera as autarquias for sempre enxovalhado, o nível de pessoas que se candidatam vai ser cada vez pior. Quem tem uma vida boa, como eu tenho, quem tem vida empresarial e que não precisa nada das autarquias, cada vez tem menos vontade. Se conseguir mudar isso na minha terra, saio feliz.
Empresário na política para perceber se é difícil
Jorge Paiva, 45 anos, natural de Samora Correia, entrou na política local pela Aliança Democrática nas mais recentes eleições autárquicas. Licenciado em Economia pelo ISEG, passou pela banca, pelo sector empresarial e pela comunicação social. Gere o restaurante marisqueira da família, “A Torre”, no Porto Alto, que está a comemorar 50 anos de existência, e é o rosto da empresa de publicidade em outdoors, Resulta.
Assume-se “filho da terra” e do senhor Delfim, condição que tanto abre portas como desperta reservas, num meio onde a proximidade traz também escrutínio acrescido. Quando foi apresentado como candidato, defendeu “libertar” Samora Correia de uma gestão “ultrapassada”.
Casado e pai de dois filhos, reconhece que a presidência empurrou-o para uma dedicação quase total, com impacto nas empresas e na vida pessoal, e aponta como desafio não “abrir frentes a mais” nem falhar com a família. Gosta de andar de bicicleta e de futebol, mas admite dificuldade em desligar. Apresenta-se como um líder exigente, avesso ao marasmo, que prefere o contacto directo e a responsabilidade à crítica feita para “likes”, insistindo que “não precisa da política para nada”, apenas para servir a terra onde nasceu e cresceu.


