Entrevista | 15-03-2026 18:00

Pedro Cabeleira: “As salas têm de programar filmes portugueses mesmo que tenham só 20 espectadores”

Pedro Cabeleira: “As salas têm de programar filmes portugueses mesmo que tenham só 20 espectadores”
Vasco Esteves e Pedro Cabeleira regressam às origens para contar uma história marcada por realidades sociais contemporâneas - foto O MIRANTE

“Entroncamento” estreia a 26 de Março em Portugal e chega às salas com o rótulo de um dos filmes portugueses mais aguardados de 2026. O realizador Pedro Cabeleira fala a O MIRANTE sobre a expectativa, a passagem por Cannes, o regresso à cidade natal e a responsabilidade de desenvolver temas como xenofobia, misoginia e violência de género sem perder humanidade.

Pelo meio, revela como trabalha com improvisação, como escolhe o elenco e como se sustenta uma parceria criativa de longa data com Diogo Figueira (argumento) e Vasco Esteves (produção). Entre o cinema de autor e a urgência de comunicar com o público, interessa-lhe filmar juventudes à margem, não como exotismo, mas como matéria dramática e social.

“Entroncamento” é falado como um dos filmes portugueses mais aguardados. Como está a viver este momento?
Com grande expectativa. Quero ver se esse “mais aguardado” se verifica quando for para sala e se vai fazer muitos espectadores ou não. Vive-se também com alguma ansiedade, claro, mas mais expectativa. Há sempre muitas coisas a acontecer que podem influenciar se vai correr bem ou mal: se vai ser programado em muitas salas ou em poucas, se a divulgação vai chegar a muita gente, e depois se as pessoas vão querer sair de casa para ir ao cinema.
A crítica preocupa-o? Não… quer dizer, a crítica é importante. Influencia se escrevem ou não sobre o filme, se há entrevistas, se há conversa. Mas o realizador não pode viver a pensar nisso. E neste caso, como o filme já estreou em Cannes e os críticos portugueses viram-no lá, quase todos gostaram. Já sei mais ou menos o que esperar. Ter o filme em Cannes é um sonho concretizado, sim, mas também é mercado. Existe o mercado comercial e existe o mercado de autor e filmes deste perfil, se não estrearem em festivais grandes, depois ficam com pouca viabilidade. Cannes serviu para validar o filme e para o filme ser falado.
Mesmo sendo uma secção mais pequena dentro do festival, sentiu esse efeito? A ACID não é a passadeira vermelha. Mas as sessões estavam cheias, a sala é muito boa, e isso é bom. Agora, Cannes é um meio um pouco artificial, é uma feira em ponto grande, as pessoas vão muito para fazer negócio. Serve para mostrar o filme. Gostei muito mais de mostrar o filme aqui, por exemplo no São Jorge, no Leffest, com muita gente do Entroncamento a ver e pessoas de Portugal que se relacionaram melhor com o filme, porque percebem os códigos.
O que o levou a contar esta história? Quando estava a acabar “Verão Danado”, um amigo meu daqui, que é artista de rap, convidou-me para fazer um videoclipe. E foi uma viragem: olhei para as ruas onde cresci, para as pessoas com quem cresci, mas com o ponto de vista de pôr a câmara. Quando tens uma ligação pessoal, as coisas ficam mais interessantes. A partir daí comecei a desenvolver uma história.
Também houve uma questão de produção, do que era possível fazer… Claro. Era uma coisa mais ao meu alcance do ponto de vista de financiamento. Não posso pensar em fazer um filme sobre a Segunda Guerra Mundial… onde é que vou arranjar dinheiro? Fazer um filme no Entroncamento, com pessoas que conhecia, estava mais ao alcance. E havia outra coisa: esta geografia não está muito representada no cinema português. Tens filmes muito rurais, tens filmes dos grandes centros urbanos… e este “in between”, cidade pequena que não se identifica como rural e que também não é grande centro urbano, acho que não tinha sido filmado assim.
Como foi filmar em casa, com família e comunidade por perto? Foi óptimo. Foram tempos maravilhosos. Adorei preparar o filme, adorei filmar aqui. As pessoas do Entroncamento aderiram muito, colaboraram muito. Houve muita gente da cidade a participar. Algumas cenas depois ficaram cortadas na montagem, com pena minha, mas para mim foi uma alegria. Foi tentar trazer para o filme aquela experiência boa que já tinha sentido nos videoclipes.

Ficção, realidade e personagens com “áreas cinzentas”

O filme retrata uma juventude marcada pela desigualdade de oportunidades e desejo de fuga. Até que ponto nasce de histórias reais? O filme é ficção. Claro que é sempre baseado na realidade, mas não me inspirei em ninguém em concreto. Não vou dizer “esta personagem é aquela pessoa”. O meu objectivo era um retrato da sociedade. Há uma realidade alternativa, construída com coisas que ouvi, com o que vi, e depois com colaboração dos actores. Eles deram muito de si.
A Laura, protagonista, divide-se entre um emprego “honesto” e pequenos esquemas. O que interessava nessa ambiguidade moral? Gosto da ideia dos fora da lei mas representado a uma escala mais realista. Não é aquela coisa de “grandes mafiosos”; são pessoas reais. Muitas vezes vivem disso porque não têm opção, porque têm poucas expectativas, ou porque as coisas são muito monótonas. A Laura traz também uma ironia: vem de fora, chega a um grupo de rapazes que se acham senhores da cidade, “grandes mauzões”, muito masculinos… e ela provavelmente tem muito mais bagagem, viu coisas mais perigosas, e mesmo assim é tratada com condescendência. Isso dá-lhe a força para dar a volta ao jogo.
O Entroncamento aparece também como metáfora de partidas e chegadas. A estação tem muita presença. O movimento dos comboios está sempre ali. É uma cidade ferroviária, uma cidade em movimento. Isso dá identidade, mas pode ser frustrante para quem fica: estás a ver pessoas a sair e a chegar e tu estás no mesmo sítio. Acho que isso tem um peso psicológico, e tentei explorar.
O filme aborda misoginia, xenofobia, violência de género, imigração. Sentiu uma responsabilidade acrescida? Tem de haver muita responsabilidade. Não se pode tratar isto de forma leve ou superficial. Eu tentei sempre dar humanidade às personagens, independentemente da raça, etnia, cor, género. E trabalhar áreas cinzentas: há pessoas que acabam por ser xenófobas e podem parecer “boas pessoas”, mas aquilo é um problema. E há pessoas discriminadas, portanto é delicado. Também não tenho medo de mostrar as coisas como são na realidade que conheço. E nas realidades que conheço menos, tento falar com as pessoas, perceber, não escrever “de cor”.

Parcerias, elenco e o método

Trabalhou novamente com o Diogo Figueira. Como funciona a parceria? É mais fácil ter alguém. Eu, o Diogo e o Vasco trabalhamos juntos desde a escola de cinema, éramos um “triângulo”. Continuamos juntos. Sem o Diogo, não era a mesma coisa. E quero continuar a trabalhar com ele.
Na fotografia, a Leonor Telles. Que universo visual procuraram? Muito intuitivo. Falamos de lentes, câmara… e depois a rodagem é ver o que funciona. Ela às vezes gosta de “apagar” luzes para não ficar demasiado iluminado, outras vezes mete uma luz para dar uma cor. É esse trabalho de sentir.
E a improvisação dos actores: porquê abrir esse espaço? Porque queria diálogos mais reais. Às vezes os escritores têm dificuldade em pôr a fala “realista” na boca das personagens. O improviso mete na boca dos actores aquilo que as personagens diriam. Sai mais autêntico. E traz reacção: eles não estão à espera, estão a reagir. Isso torna as cenas mais orgânicas, mais próximas da vida. Sair da juventude e abrir outro caminho.
Que histórias ainda precisa de contar? Vou explorar outras coisas, sem dúvida. Já estou a trabalhar numa ideia, não vou falar porque ainda vai a concurso, mas é outro caminho. Infelizmente não tenho ideias todos os dias. Adorava ser desses, mas não sou. Agora estou focado numa ideia e tenho o privilégio de estar a receber para poder trabalhar nisso, é uma sorte. Depois logo se vê se acontece.
O Pedro e o Vasco conhecem-se desde os 18 anos. Diria que um não estaria aqui sem o outro? Seguramente não estaria aqui hoje sem o Vasco. Isso é certíssimo. No primeiro filme ele emprestou-me a câmara, emprestou-me a casa… e “Entroncamento”, não via ninguém a produzir isto desta maneira se não fosse ele. O Vasco gere as contas para as coisas não correrem mal. Consigo filmar quase tudo o que quero porque ele consegue segurar o orçamento.
O que é que ele traz ao set? Ele tem muito jeito com pessoas, gera tranquilidade, resolve conflitos. Produtores às vezes são figuras “difíceis”; o Vasco não. É paciente. Eu digo “quero isto”, ele diz “está apertado”, e tenta encontrar solução. É quase como o “pai paciente”. E sim: ele também tem ideias criativas. É uma parceria win-win. Espero que ele continue a fazer os meus filmes… mesmo sendo eu chato (risos).

Pedro Cabeleira e Vasco Esteves conhecem-se desde os 18 anos - foto O MIRANTE

A mulher que é actriz e a filha que é a luz dos seus olhos

Está com a Ana Vilaça, protagonista do filme, desde 2018, têm uma filha. Como é a dinâmica familiar?
Como temos profissões semelhantes e trabalhamos juntos, temos sempre assunto. Falamos de projectos, do que ela está a fazer, do que eu estou a fazer. É como os meus pais, são professores e falavam muito de trabalho; aqui muda o trabalho, mas a lógica é parecida. Quando o casal está na mesma área, é automático.
E conseguem manter autonomia nos projectos?
Sim, completamente. Ela é convidada para outras coisas como actriz, vai e faz. E com uma filha pequena, que é a luz dos meus olhos, vamos conciliando: quando foi preciso, tivemos ajuda dos meus pais e dos pais da Ana. Agora estamos mais por Lisboa e vamos gerindo.
E as cenas românticas com outros actores: mexe consigo?
Quando é em filmes de outras pessoas, nem estou lá. Vejo o filme e não faz grande diferença, é trabalho. Há um distanciamento. No meu filme nem calhou ter cenas assim muito românticas. E eu também sou muito amigo do Tiago, portanto… (risos).

Cinema português: o nicho encolheu e o preconceito ficou

Há espaço para cinema de autor em Portugal? Cinema de autor é sempre de nicho, seja português, japonês… tem a ver com gosto comum e gosto específico. Mas o problema em Portugal é que o nicho ficou muito reduzido e está a ficar cada vez mais reduzido. Filmes de autor têm tido, em média, mil espectadores. Mil espectadores é menos do que a população de uma aldeia. Isso é preocupante.
Onde está o bloqueio? As salas têm de programar mais. Mesmo que no início sejam 20 ou 30 pessoas, essas 20 ou 30 vão ao próximo, levam mais alguém… há um trabalho de continuidade. Há 25 anos isto era diferente: havia filmes portugueses com 20 mil espectadores, havia mais hábito. E também faltam cinemas independentes, cinemas de bairro. Os centros comerciais programam muito comercial. Cineteatros são importantes culturalmente, mas não substituem uma rede de salas.
E os obstáculos para a sua geração? Financiamento e logística. E há um preconceito muito grande com o cinema português. Os privados não investem porque não vêem atractivo, as exibidoras não metem porque acham que não dá espectadores. E há um estigma que vem de casos antigos e foi ficando. Ao mesmo tempo, é curioso: as pessoas gostam de futebol, de músicos portugueses, vêem telenovelas. Portanto não é “a língua” ou “o audiovisual” em si. É mesmo o cinema português que ficou com um rótulo.

O que Pedro Cabeleira diz que não quis fazer

Numa conversa atravessada por temas difíceis, o realizador insiste num ponto: “Não quero que o filme esteja a provocar ninguém, nem quero mal-estar em ninguém.” Mas logo a seguir explica porque escolheu o desconforto: “Para mim o cinema serve também para falar de coisas que não são confortáveis. Não gosto de fazer filmes em que as pessoas saem e ficam ‘estou-me a sentir muito bem’”. O Entroncamento, diz, “é muito mais coisas” do que aquilo que o filme retrata. “O filme não são as pessoas todas do Entroncamento”, mas a cidade pequena, com códigos próprios, pouca fuga e pouco escape, pode ser “um sítio opressor”, e isso “não podia ficar de fora”.

O produtor de Santarém que explica como se faz um filme fora das metrópoles

Natural de Santarém, Vasco Esteves acompanhou desde o início o desenvolvimento de “Entroncamento”, a primeira longa-metragem que produz de forma directa. Depois de anos dedicados sobretudo às curtas-metragens, o produtor viu o filme estrear no Festival de Cannes e iniciar um percurso internacional que antecede a chegada às salas portuguesas.

Para Vasco Esteves, produzir “Entroncamento” foi também um regresso a um território familiar. Natural de Santarém, o produtor reconheceu desde cedo no projecto um universo humano e cultural muito próximo daquele em que cresceu. “Quando o Pedro começou a desenvolver as histórias com o Diogo, percebi logo que havia ali uma proximidade muito grande com aquilo que conhecia”, explica. A forma como as personagens falam, se relacionam e se movem naquele contexto social eram elementos que lhe eram familiares. A ligação ao território não se limita apenas ao Entroncamento. O produtor recorda também a relação com Torres Novas, onde passou muitas férias de Verão enquanto a mãe trabalhava na cidade e onde a equipa tinha filmado anteriormente uma curta-metragem.
Apesar de inicialmente conhecer pouco do Entroncamento, a preparação e as filmagens, cerca de um mês de preparação e três meses de rodagem, permitiram-lhe descobrir a cidade em profundidade. Para Vasco Esteves, trata-se de um lugar com um forte potencial cinematográfico, ainda pouco explorado. O percurso de “Entroncamento” até às salas de cinema foi longo. A primeira vez que a equipa começou a trabalhar no projecto foi em 2018. Desde então, passaram vários anos de desenvolvimento, financiamento e produção até à estreia mundial no Festival de Cannes. Para o produtor, acompanhar este caminho é motivo de enorme orgulho. “Foi um projecto que ajudei a construir praticamente desde o zero”, afirma. A partir da ideia inicial do realizador Pedro Cabeleira, Vasco Esteves esteve envolvido em todo o processo, ajudando a transformá-lo num filme.
Produzir um filme numa cidade real traz desafios específicos. No caso de Entroncamento, Vasco Esteves recorda que a equipa foi sempre bem recebida pela comunidade local, mas que muitas vezes foi necessário explicar como funciona realmente a produção cinematográfica. “Muitas pessoas imaginam que chegamos a um sítio, filmamos em meia hora e vamos embora”, conta. Na realidade, cada cena exige preparação, visitas técnicas e dias de trabalho. Grande parte do esforço da produção passou por explicar esse processo e negociar a logística necessária para as filmagens. Ainda assim, o produtor sublinha a abertura da cidade e o apoio institucional recebido, nomeadamente da autarquia, que facilitou licenças, logística e apoio à equipa.
Para Vasco Esteves, um dos grandes desafios do cinema português é chegar a públicos que muitas vezes não se vêem representados nas histórias exibidas no grande ecrã. É precisamente aí que acredita que “Entroncamento” pode fazer a diferença. O filme retrata realidades sociais e territoriais fora dos grandes centros urbanos e aborda temas que muitos espectadores reconhecem na sua própria vida. Depois de anos de trabalho, a recompensa chega no momento mais simples: quando as luzes se apagam na sala e o filme começa. “É nessa altura que pensamos: valeu mesmo a pena”, conclui.

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