O sapateiro que queria ser bate chapas e que aos oitenta e oito anos ainda não pensa na reforma
Ernesto Alves leva 73 anos de sapateiro, ofício que começou a aprender aos 15 anos contrariando o desejo de ser bate-chapas, que era um trabalho mais bem pago e mais bem visto pelas moças casadoiras. Com 88 anos, que ninguém lhe dá sem saber a sua idade, não quer ir sentar-se no sofá a ver televisão porque há ainda muita gente que precisa dele e muito calçado que merece mais uma oportunidade antes de morrer no lixo.
Na Rua José Cardoso da Silva Júnior no centro histórico de Santarém, o silencio é quebrado por quem apressadamente se dirige ao número 21, onde Ernesto Alves dá há quatro décadas novas vidas a sapatos, botas e sapatilhas. A desertificação da zona não afecta o negócio porque quem precisa de prolongar a vida ao calçado, com umas novas solas, uns pontos no couro ou uma colagem não se importa de andar dezenas ou centenas de metros pela calçada imprópria para saltos altos, arriscando até deixar o carro mal estacionado por falta de lugares na zona. No seu canto, o mestre sapateiro recebe os clientes, muitos habituais, com uma jovialidade que ninguém acredita ter 88 anos de idade.
Entre formas de madeira que já não são usadas para fazer sapatos ou botas, porque agora toda a gente compra artigos fabricados maquinalmente em série, sacos que são deixados no chão ou numa prateleira atafulhada com calçado à espera de atenção, Ernesto esboça um sorriso para dizer que é sapateiro desde os 15 anos. Só interrompeu a carreira nove anos para trabalhar como polivalente na Clock, a marca de cerveja onde a Unicer produzia a Super Bock. Voltou à profissão que aprendeu por “engano” e não se arrepende. A fábrica já fechou, Ernesto resiste às modernidades.
Não era a arte de sapateiro que queria aprender, queria ser bate-chapas porque dava mais dinheiro e atraía mais pretendentes. Mas não lamenta o curso que a vida lhe deu e dedica-se de corpo e alma ao ofício que o torna uma pessoa importante sem internet, sem redes sociais, sem vídeos à influencer. A sua riqueza são os olhos, as mãos e a habilidade. Estabeleceu-se pela primeira vez na zona do Parisal. O momento de receber o calçado serve para fazer o diagnóstico, definir o prazo, mas também para dois dedos de conversa sobre a vida, curiosidades sobre o humanismo das relações.
Não foi a profissão ser fraca de dinheiro, como diz, que o impediu de se enamorar da sua mulher com quem casou aos 26 anos. Também não foram os fiados, o trabalho à espera de recompensa, que impediu o amor que deu dois filhos e uma filha. Um empresário de mudanças, outro pintor da construção civil e ela trabalha num hipermercado. Quando fechou a oficina do Parisal com 30 anos queimou três livros de dívidas e não desistiu. Sentado a apanhar a luz de uma janelinha que lhe aclara a face esquerda, Ernesto Alves diz que ainda há bom calçado, mas na generalidade a qualidade é pior. Mesmo assim alguns ainda merecem um tratamento para mais uns meses. Agora aparecem muitas sapatilhas para colar e algumas nem as colas mais fortes as conseguem domar. A maior parte dos clientes são mulheres.
Não deixa a profissão porque tem alergia a ficar em casa a ver televisão e porque também sente que faz falta ainda a muita gente. A máquina de costura que usa tem mais anos que ele tem de profissão e ainda cose bem. “Até coze o dedo às vezes”, diz a rir quem já fez botas e botins de cabedal a 300 escudos (cerca de 1,5 euros) e que cumpre religiosamente a paragem para lanchar entre ferramentas e calçado.


