Alfredo Amante: um cinturão negro no combate autárquico
O presidente da União de Freguesias da Cidade de Santarém, a mais populosa do distrito, é um homem de consensos e pouco dado a protagonismos, sem filiação partidária, embora represente a coligação PSD/CDS. O professor Alfredo Amante é um homem do desporto, foi praticante de judo, futebol e andebol e chegou à vida autárquica já depois dos sessenta. Está no primeiro mandato e enfrenta o desafio de governar a junta de freguesia sem maioria absoluta, procurando acertar os passos com a oposição, ou não fosse também um bom dançarino.
Alfredo Amante nasceu no dia 23 de Março de 1956 em Vila Nova da Barquinha, onde viveu até aos nove anos, quando a família se mudou para Santarém. Seria na capital de distrito que faria vida, como professor de Educação Física durante muitos anos na Escola Secundária Sá da Bandeira. No início da carreira docente passou também por Arganil e Almeirim e trabalhou na APPACDM de Santarém, na área da educação física especial. Pelo meio desempenhou durante alguns anos funções na área da gestão desportiva na delegação de Santarém da antiga Direcção Geral de Desportos e organismos que lhe sucederam. Está aposentado da carreira docente há três anos.
Casado, pai de uma filha e avô de uma neta com seis meses, Alfredo Amante foi um eclético praticante de desporto na sua juventude. Jogou futebol como extremo-esquerdo na Académica de Santarém, onde tinha a alcunha de ‘Speedy’, numa alusão à personagem de animação Speedy Gonzalez, conhecido pela sua rapidez na corrida. Também jogou andebol no Liceu de Santarém, no Belenenses e no antigo Instituto Superior de Educação Física - ISEF (onde se formou) e destacou-se no judo, chegando a cinturão negro e a participar em competições nacionais.
A sua primeira experiência na vida autárquica aconteceu nos anos 90, quando foi convidado para assessor a tempo parcial, na área do desporto, do então vereador socialista da Câmara de Santarém João Brigola. Na década passada, aceitou o desafio do então presidente do município, Ricardo Gonçalves (PSD), para chefiar a Divisão de Educação. E no último mandato integrou a lista do PSD à câmara, acabando por chegar a vereador, após a saída de alguns eleitos. Nas eleições autárquicas de Outubro de 2025 liderou a lista da coligação PSD/CDS (AD) à União de Freguesias da Cidade de Santarém e venceu, embora sem maioria absoluta, destronando da presidência da junta o socialista Diamantino Duarte. Assume-se como um homem de consensos, discreto na acção, que gosta do trabalho em equipa e que não assume derrotas antecipadamente. A vida de autarca roubou-lhe tempo para a família, que considera um porto de abrigo congregador e fundamental.
Já foi chefe de divisão e vereador na Câmara de Santarém e, há uns meses, foi eleito presidente da junta da união de freguesias mais populosa do distrito de Santarém. Era esta a sua cadeira de sonho? A minha cadeira de sonho é estar disponível para poder ajudar nas diversas competências que me estão atribuídas e em que posso ser uma mais-valia. Devemos valorizar essencialmente as ideias, os conteúdos e devemos estar em prol de... Sou pelo trabalho de equipa. Não é o Alfredo que está neste processo em prol da freguesia, é uma equipa.
Teve de se sujeitar a governar sem maioria absoluta e com vários elementos de outros partidos no executivo. Tem sido fácil trabalhar com eleitos da chamada oposição? Vamos dialogando. O diálogo é um propósito nosso. Cada vez mais temos que analisar o sistema também fora de um conteúdo político. Temos de analisar as coisas no contexto de estar ao lado da nossa população e sentir quais são as suas necessidades.
E tem sido fácil esse relacionamento, não só político mas também pessoal, com os eleitos da oposição? Vamos conquistando espaços, vamos colaborando dentro deste processo. Recentemente aprovámos o orçamento, com os votos favoráveis da AD e a abstenção do PS e do Chega.
Como é que encontrou as finanças da junta? Existem alguns problemas que temos de resolver. Não gosto de deitar situações cá para fora sem elas estarem estabelecidas nos locais próprios. Há alguns problemas, essencialmente de ordem financeira. O que penso é que há necessidade de termos os pés assentes na terra, verificarmos o que temos de fazer e irmos caminhando no sentido de construção. Uma das coisas que irei falar com o presidente da câmara é sobre a ajuda à junta para podermos fazer algumas obras.
Gostava de ter alguma obra marcante neste mandato, como teve o seu antecessor com a requalificação da designada Estrada da Carreira de Tiro? O que quero é que as obras a fazer sejam obras necessárias. Não são obras do Alfredo, são obras que têm que ser feitas. Não gosto que me ponham o título de que eu é que fiz esta ou aquela obra. Não quero nada disso.
Como é que é trabalhar com um presidente da assembleia de freguesia que o antecedeu na junta de freguesia, que é de outra cor política e que foi o responsável pela gestão que terá deixado essa situação financeira não muito favorável na junta? O contacto que tenho tido com ele tem sido muito esporádico. Tivemos a tomada de posse e, depois disso, tivemos agora uma reunião com os eleitos do PS por causa do orçamento. Para já não houve mais contactos. Mas tem que haver para começarmos a colaborar no sentido de termos uma ideia conjunta para os próximos quatro anos. Todas as propostas são bem-vindas, venham de onde vierem. Não estamos aqui para colocar entraves, queremos é que haja desenvolvimento.
Já houve algum momento em que amaldiçoou a hora em que se meteu na política? Não. Mas nem sempre é fácil. Sempre fui independente e nunca fui filiado em partidos. Penso que sempre fui convidado pelas minhas qualidades humanas e profissionais. Há alturas em que as coisas se tornam mais difíceis, mas isso são desafios que fazem parte da vida.
Como quando teve de ceder à oposição e aceitar não ter maioria absoluta no executivo da junta de freguesia. Custou-lhe ter que dar o braço a torcer? Claro que sim. Até porque tenho como princípio que quem vence as eleições deve governar. Acho que é um princípio básico.
Mas a AD não teve a maioria absoluta dos votos… Mas ganhámos as eleições. Entretanto, acabámos por chegar a um pequeno consenso que, pelo menos, nos dá visão de trabalho. E é isso que quero, ter condições para trabalhar. Se por acaso não der resultado, temos que pôr as coisas cá para fora, temos de dar a conhecer as situações...
Há quem diga que as juntas de freguesia são o poder mais próximo das populações, mas com menos poder real. Concorda ou é uma desculpa conveniente? As juntas de freguesia estão mais próximas das populações e são mais conhecedoras dos problemas de cada freguesia. Agora, tem que haver sempre partilha de conhecimento e partilha de dados. É fundamental um trabalho muito próximo com os nossos fregueses e com o nosso município.
Quando anda pela rua, as pessoas metem-se consigo? Abordam-no, fazem--lhe pedidos? Estou sempre disponível. Apanhámos agora uma situação muito complexa com as cheias e as barreiras a caírem. Sabemos que há muita coisa a fazer. As pessoas abordam-nos a queixar--se de situações, temos vindo a ajudar dentro do possível, mas a resposta exige um levantamento das necessidades, planeamento sobre quando e como vamos fazer. É o que estamos a fazer.
Pode apontar o exemplo de uma situação que urge resolver? O da entrada norte da cidade. Foram feitas obras recentemente que dão já uma visão diferente dessa zona…
Mas falta acabar o resto. Porque essas obras vieram expor ainda mais a situação degradante que ali existe há muitos anos. Exactamente. Aí, tem de existir colaboração da junta com a câmara para se começar a criar ali uma situação mais harmoniosa.
E que outra obra gostava de deixar feita neste mandato? Gostava muito que as pessoas se sentissem bem nos nossos bairros. O bairro não pode ser apenas um local de dormitório, tem que ser vivido. E temos de dar qualidade de vida nesses espaços, com passeios, espaços verdes, locais para os nossos miúdos poderem brincar.
“Santarém esteve sempre um pouco virada de costas para o Tejo”
Qual foi a crítica mais dura que recebeu de um cidadão? Não tenho tido grandes críticas, mas sinto que as pessoas por vezes exigem respostas rápidas a determinados problemas e nós não conseguimos chegar a todo o lado. Mas sabemos aquilo que as pessoas querem e aquilo que vamos fazer. Por exemplo, a nível do centro histórico, vamos criar uma equipa multifuncional que esteja a tempo inteiro, para reparações e manutenção no espaço público. E temos que trabalhar também ao nível da melhoria das condições de algumas artérias na cidade.
Fala-se há décadas da necessidade de revitalizar o centro histórico, do seu definhamento. Os políticos não saem mal na fotografia?
Isso acontece quase por todo o lado. Uma das questões que tem que ser analisada é a do estacionamento e o município está a trabalhar nisso, para que possa haver mais respostas nesse campo.
O problema é que, ao longo dos anos, ouve-se falar muito em estudos e projectos, mas depois as coisas tardam a sair do papel. Muitas das vezes o problema está na catadupa de situações que surgem no dia-a-dia e que obrigam a reestruturações e a estabelecer prioridades.
Parece-lhe uma boa ideia a compra do antigo e degradado Teatro Rosa Damasceno pelo município? Aquele espaço é pertença de Santarém. Se o perdêssemos, as pessoas iriam sentir que se estava a perder um bocadinho da história de Santarém. A aquisição daquele espaço, para mim, foi muito bem feita. Agora, requer obviamente de um estudo sobre o que deve lá ser feito.
A Câmara de Santarém está a fazer também um grande investimento ao nível das infraestruturas desportivas. Por que é que o município demorou tanto tempo a acordar para essa necessidade? Santarém tem muitos clubes e muitos espaços desportivos. Mas está verificar-se que é necessário caminhar para mais. Por isso é que se vai criar um outro pavilhão na antiga EPC e a Cidade Desportiva será a parte final a nível desse trabalho, com um pavilhão de alta qualidade e uma pista de atletismo.
Se tivesse orçamento ilimitado durante um ano, qual seria o primeiro projecto que avançava? Teria vários. Um deles é o do Parque Tejo. Ter um rio é uma mais-valia e Santarém esteve sempre um pouco virada de costas para o Tejo, quando temos ali um tesouro que deve ser vivido.
O CNEMA tem sido o parque de exposições que a cidade precisa? O CNEMA deve ser rentabilizado e potenciado. Aliás, o râguebi agora está lá a utilizar aquelas instalações. Mas com o potencial que tem, o CNEMA deveria ser um espaço mais aberto às pessoas, ser usado pela população para desporto informal, por exemplo. Teria que ser estudada a questão da segurança, que é fundamental, mas ali está um pulmão da própria cidade. E as pessoas necessitam desses pulmões, tal e qual como a ex-Escola Prática de Cavalaria, onde temos outro pulmão da cidade que deve ser aproveitado.
Pink Floyd, Benfica, desporto e dança
Qual é o desporto em que passou ao lado de uma grande carreira? Sem dúvida o judo. Mas quando joguei futebol na Académica de Santarém tive alguns convites para representar outros clubes e fica sempre a incógnita.
Já alguma vez pegou um touro? Na altura de estudante, nas garraiadas, andei nessas brincadeiras. Correu sempre bem.
Se lhe pedissem para cantar uma música, qual escolhia? Não é fácil. Na minha juventude apanhei grandes músicos e compositores. Sou um adepto fervoroso dos Pink Floyd, talvez escolhesse uma música deles.
Qual o estilo de dança em que se sente mais confortável? Sempre fui um bocadinho dançarino. Gostava e gosto muito de dançar, rock’n’roll, por exemplo, mas também valsas. A esse nível não sou um pé de chumbo.
Escreve os discursos ou fala de improviso? Tomo notas de parâmetros, para poder desenvolver. É muito mais facilitador falar com as pessoas abertamente, olhar as pessoas e ir transmitindo as nossas ideias. Quando se escreve um discurso, muitas vezes estamos mais agarrados ao papel do que às pessoas.
A Inteligência Artificial faz parte da sua vida? Faz e pode ser um elemento fundamental. A medicina tem tido progressos extremamente importantes com a IA; agora não sei se determinados progressos noutras áreas não podem tornar-se degenerativos.
Usa gravata por gosto ou por obrigação? Gosto de usar gravata quando sinto que a devo utilizar.
Costeleta de novilho ou sardinha assada? As duas. Em dias diferenciados, mas as duas.
No vinho, branco ou tinto? Prefiro o vinho tinto, mas gosto também de saborear um vinho branco.
Que receita usa para combater a insónia? O pensamento. Muitas vezes, para adormecer, faço uma reflexão do que foi o meu dia e penso também no dia seguinte.
No futebol: vermelho, verde ou azul? Sou benfiquista, adepto, gosto de ir ao estádio, mas sou essencialmente pelo desporto. Não sou uma pessoa que só veja o Benfica à frente. É o meu clube favorito, mas se jogarem mal e os outros jogarem melhor, naturalmente o sentimento que fica é que o Benfica devia jogar um pouco melhor.


