Entrevista | 22-03-2026 18:00

“Alhandra tem mais a ganhar do que a perder com o alargamento da Linha do Norte”

“Alhandra tem mais a ganhar do que a perder com o alargamento da Linha do Norte”
Nuno Marques da Silva é o novo presidente da União de Freguesias de Alhandra, São João dos Montes e Calhandriz - foto O MIRANTE

Com 54 anos, um passado profissional que vai da fábrica da Coca-Cola à venda de salames em cafés e, por fim, à advocacia, Nuno Marques da Silva chegou a Alhandra há uma década e apaixonou-se pela vila ribeirinha. Envolveu-se no movimento associativo e foi convidado por Mário Cantiga a integrar o último executivo da junta. No ano passado aceitou o desafio do PS e concorreu à junta, tendo vencido com a filosofia de escutar as pessoas, cuidar da comunidade e deixar a freguesia melhor do que a encontrou.

Um humanista, progressista e liberal social, que acredita na capacidade criativa das pessoas: assim se descreve Nuno Marques da Silva, o novo presidente da União de Freguesias de Alhandra, São João dos Montes e Calhandriz, a maior freguesia em termos de área do concelho de Vila Franca de Xira. Aos 54 anos, tem pela frente o desafio de suceder a Mário Cantiga, um rosto que marcou a vida autárquica do concelho na última década. Já depois desta entrevista enfrentou a primeira polémica do seu mandato: a instalação de painéis publicitários em dois passeios da vila, que deram que falar, cuja notícia pode ser lida nesta edição. Mesmo só tendo chegado a Alhandra há uma década, tem um percurso de vida marcado por muitos caminhos profissionais. Diz, a brincar, que é “um índio da margem sul”, tendo sido criado em Almada, cidade onde cresceu e onde diz ter vivido com o Tejo sempre por perto.
O seu primeiro emprego foi numa fábrica da Coca‑Cola na Quinta do Conde. “Engarrafava Coca-Colas e Fantas. Aquilo é uma bebida um bocadinho estranha, mas bebia-se muita porque era de graça”, brinca. O segredo da fórmula, essa, nunca a descobriu. A partir daí fez várias coisas na vida, desde vendedor de salames de chocolate em cafés a angariações para o Cartão Jovem ou a realizar contagens de tráfego. Mais tarde entrou na faculdade e licenciou-se em Direito, começando a exercer advocacia. Pelo meio, ainda passou pela fábrica da Sicasal. De cada etapa da vida trouxe aprendizagens. “Aprendemos sempre. Sobretudo porque temos a oportunidade de contactar com muitas pessoas. Sempre trabalhei com equipas e procurei tirar o melhor das pessoas”, conta a O MIRANTE.

Da Graça para Alhandra
Durante anos viveu em Lisboa, na Graça mas há cerca de dez anos decidiu sair. “Lisboa transformou-se numa espécie de Disneylândia para turistas”, recorda. Conta que começou a sentir que a cidade estava a perder parte da identidade que em tempos o apaixonou. “A vizinha do lado era francesa, os vizinhos de baixo eram finlandeses que vi uma única vez. Comecei a cansar-me”, recorda. Procurou casa em vários locais periféricos à capital e acabou por escolher Alhandra, onde se fixou há dez anos.
O interesse pela política começou cedo. Cresceu num ambiente onde se discutia política em casa e estudou num concelho muito politizado. O seu primeiro contacto com o então presidente da junta, Mário Cantiga, aconteceu de forma inesperada. “A primeira coisa que fiz foi reclamar do sino da igreja. Eu ouvia o sino das sete da manhã às onze da noite e achei aquilo um bocadinho exagerado. Escrevi ao Mário a queixar-me disso e a pedir para ele rever aquele assunto”, partilha. Ambos foram conversando e um dia foi convidado pelo próprio Mário Cantiga para integrar o seu último mandato como tesoureiro, eleito como independente.
Quando agora assumiu a presidência da junta, alguns acusaram-no de ser um estrangeiro e não ter muita ligação a Alhandra por não ter nascido na terra. “Para mim um outsider é quem não vive aqui e não conhece nada disto. Eu estou todos os dias na Praça 7 de Março. Há pessoas que foram candidatas e eu nunca as vi no centro da vila. O que precisamos nos autarcas é de pessoas que gostem e amem o sítio onde vivem e que queiram dedicar-lhe o seu contributo”, defende.

“Não faço fretes a ninguém”
Sucedendo a Mário Cantiga, reconhece que herdou uma figura forte da junta. “O que penso digo. Não faço fretes a ninguém. Não dependo da política para viver. Isto não é uma carreira para mim. Estou aqui por sentido de serviço”, conta. Nuno Marques da Silva acredita que muitas vezes os cidadãos transferem responsabilidades em excesso para o Estado. “Se tenho uma erva à porta de casa posso arrancá-la. Mas muitas vezes preferimos esperar que alguém pago para isso venha fazê-lo. Recuperar este espírito cívico é essencial”, defende.
A união de freguesias tem cerca de 27 km² e inclui realidades muito diferentes. Entre os problemas identificados estão os acessos em zonas rurais, especialmente em São João dos Montes. Durante as recentes intempéries, algumas pessoas ficaram isoladas e a junta decidiu avançar com obras de reparação urgente dos acessos considerados fundamentais.
Uma das principais prioridades do novo executivo é a melhoria do espaço público. “Somos produto do meio onde vivemos. Quanto mais cuidado for o espaço que nos rodeia, melhor nos sentimos”, refere. Por isso, a junta quer apostar na limpeza urbana, manutenção de passeios e controlo de ervas. O orçamento anual ronda 1,4 milhões de euros, valor que considera insuficiente. “Se tiver de escolher entre festas e limpar as ruas, escolho limpar as ruas”, garante.

Aterro da Valorsul “é um mau vizinho”
Para Nuno Marques da Silva, entre os projectos estruturantes para o território destaca-se a intervenção na Linha do Norte. Apesar dos incómodos das obras, acredita que o impacto será positivo. “Este pode ser o maior salto qualitativo que Alhandra dá em décadas”, entende. As melhorias na frequência de comboios e estacionamento poderão aumentar a atractividade da vila. “Não tenho procuração para defender a IP, o Governo ou a câmara neste projecto. E acredito sinceramente que a Alhandra tem mais a ganhar com este projecto do que a perder. Uma nova estação, melhores estacionamentos, será uma oportunidade de trazer mais gente a Alhandra”, considera.
Questionado por O MIRANTE sobre os impactos da fábrica da Cimpor na comunidade, o autarca admite que a empresa “não é o melhor dos vizinhos” mas admite que é preciso manter boas relações com a Cimpor, dado também o importante papel laboral que desempenha para as gentes da terra. Acaba por ser mais crítico em relação ao aterro sanitário da Valorsul em Mato da Cruz, próximo de Calhandriz, que considera ser um “passivo ambiental” que precisa de ser resolvido.
“Continua a ser um mau vizinho e é preciso resolver esse passivo ambiental porque não faz sentido. Vamos continuar a insistir para que seja encerrado este ano. Parto de um princípio de boa fé das pessoas e de quem está envolvido nos processos e por isso quero acreditar que a documentação e os prazos de funcionamento do aterro em vigor serão para cumprir, incluindo o seu encerramento”, avisa.
Para além das obras, o novo presidente da junta identifica um desafio social: recuperar o espírito comunitário da vila. Recorda uma iniciativa recente - as fogueiras de Natal e do Dia de Reis - que juntaram muitos moradores. “As pessoas começaram a trazer comida e bebida para partilhar. Foi fantástico. Hoje em dia as pessoas estão em casa a ver televisão ou nas redes sociais e convivem menos”, lamenta.
No final, resume o objectivo do seu mandato com uma ideia simples, a de deixar a freguesia melhor do que aquilo que encontrou. Uma variante do lema dos escuteiros, por onde também passou na infância, de que o mundo será mais belo se o deixarmos melhor do que aquilo que o encontrámos.

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