Cheias poupam principais culturas da Lezíria Grande mas deixam prejuízos de 3,5 milhões
Associação de Beneficiários da Lezíria Grande de Vila Franca de Xira registou prejuízos de 3,5 milhões de euros devido ao mau tempo, embora os diques tenham resistido graças à rápida intervenção das equipas.
As culturas de arroz e tomate não foram afectadas e a gestão da água foi determinante para evitar danos maiores. Nos últimos trinta anos foram investidos mil milhões de euros nos terrenos e a associação continua a apostar na modernização das infraestruturas. Estivemos à conversa com Catarina Madaleno, directora executiva, que explica que a pressão de projectos logísticos e a necessidade de água doce mantêm-se como desafios centrais para a agricultura na Lezíria Grande de VFX.
A Associação de Beneficiários da Lezíria Grande de Vila Franca de Xira registou prejuízos de 3,5 milhões de euros devido ao mau tempo, mas, graças à intervenção pronta das equipas no terreno, não houve rombos no dique. Ainda assim, a estrutura em terra que protege os quase 14 mil hectares de terrenos da Lezíria Grande, a maior parte localizada no concelho de Vila Franca de Xira e 60 hectares no concelho de Azambuja (Vila Nova da Rainha), sofreu danos bastante significativos. “As portas de água do dique estiveram expostas a condições excepcionais e não foram dimensionadas para isso. Foram quatro semanas com caudais muito elevados, com uma pressão hidráulica muito significativa, e tivemos deslizamentos no dique em várias zonas”, explica, ao MIRANTE, Catarina Madaleno, directora executiva.
A associação monitorizou 24 sobre 24 horas as intempéries com ameaça de cheias entre 22 de Janeiro e 23 de Fevereiro, um dos episódios meteorológicos e hidrológicos mais exigentes das últimas décadas na bacia hidrográfica do rio Tejo. Agora, a associação de beneficiários é das cerca de vinte que vai recorrer a apoio do Governo, no âmbito do aviso do PEPAC (Restabelecimento do potencial produtivo), para recuperar os danos em infraestruturas. O dique tem de estar enxuto antes do próximo Inverno, ou seja, a reparação terá de ser feita entre Setembro e Outubro. “Espero que a contratação pública seja de modelo simplificado, porque, senão, é impossível fazer. Tivemos medidas de mitigação nas zonas onde houve deslizamentos e agora temos de esperar que o dique enxugue para poder voltar com máquinas mais pesadas e levar materiais”, explica a responsável.
Agricultura protegida face a intempéries e períodos de seca
A maioria das culturas nos terrenos da Lezíria Grande de Vila Franca de Xira (VFX) é de arroz e tomate. Não foram afectadas pelo mau tempo porque ainda não estavam cultivadas. Os animais foram retirados das parcelas ainda antes da reunião com a Protecção Civil de VFX, a propósito de uma das seis tempestades que assolaram o país. “Sentimo-nos preparados para estes eventos, tendo sido fundamental a comunicação e interação com outras entidades. Temos uma óptima relação com a Agência Portuguesa do Ambiente, que me ligou às quatro da manhã a dizer que os caudais iam aumentar em Espanha”, relata.
A Lezíria Grande de VFX tem também sido fustigada por períodos de seca “bastante duros de ultrapassar”. A directora explica que é difícil dizer ao agricultor em que área deve ou não semear/plantar, porque não se sabe a quantidade de água que vai estar disponível, até porque não existe nenhuma barragem na zona. “Já passámos, em 2012, um período de seca em que já tínhamos plantações e sementeiras feitas. Tudo aquilo que não conseguimos satisfazer em termos de necessidades hídricas das plantas resultou em quebras na produção, depois do investimento já estar feito. Aí sim, a pressão é muito grande porque temos que salvar isto da melhor maneira possível”, reitera. Para isso, a associação gere os recursos diariamente, fazendo previsões baseadas em dados.
Mil milhões de euros investidos em três décadas
A associação tem 70 sócios, sendo os beneficiários entre 250 a 300 empresas. Em 30 anos foram investidos na Lezíria Grande cerca de mil milhões de euros, por entidades públicas e privadas. A organização vive exclusivamente dos sócios e recebe os valores das taxas de exploração e conservação dos terrenos. A água também é paga ao metro cúbico pelos beneficiários, assim como a taxa de conservação das infraestruturas que utilizam (estradas, redes de rega, estações elevatórias).
O rendimento anual é de 6 milhões de euros, correspondente ao mesmo valor em gastos. “Temos um proveito muito reduzido. Somos uma entidade sem fins lucrativos e fazemos por equilibrar isto”, diz a directora-executiva, uma das 20 funcionárias da associação e que, desde há três anos, é a primeira mulher no cargo.
A especialização dos agricultores em determinada cultura tem marcado os negócios na Lezíria Grande. Trata-se de uma vertente empresarial, com procura de muita mão-de-obra especializada, nomeadamente na operação de determinadas máquinas e equipamentos. “O agricultor que conheço é uma empresa e está focado no máximo rendimento. Seguramente trabalhamos com os melhores agricultores, com uma visão muito empresarial, e isso facilita muito a transição da geração”, considera.
Uma lezíria mais tecnológica e eficiente
Catarina Madaleno antevê uma lezíria mais tecnológica nas próximas duas décadas, com obras de modernização que tornarão a produção mais eficiente e económica, consumindo menos água e outros recursos. Na zona norte, toda a rede de água está infraestruturada, distribuindo-se ao agricultor em condutas sob pressão, com torneiras individuais e medição hora a hora do consumo, sendo cobrada a tarifa correspondente. A eficiência destas redes ronda os 90 a 98%, garantindo perdas mínimas.
O projecto dos blocos 5 e 6 foi terminado em 2020, com os últimos 2.200 hectares a serem infraestruturados com esta tecnologia. Já na Lezíria Sul ainda há muito caminho a percorrer, porque a distribuição é feita em canal e cabe ao agricultor bombear a sua própria parcela de terreno. Nesta área, a eficiência ronda os 70%. A responsável antevê ainda a introdução de inteligência artificial na gestão dos sistemas de rega e outros factores de produção, consolidando uma agricultura mais moderna, sustentável e tecnologicamente avançada.
Transporte de mercadorias pelo Tejo é uma ameaça à lezíria
A Lezíria Grande continua protegida em termos de ferramentas de ordenamento do território. No entanto, existe muita pressão por parte da plataforma logística de Castanheira do Ribatejo, devido à navegabilidade do rio Tejo, para transportar mercadorias em contentores desde e para a capital. “Se isso implicar dragagens do rio, terá um impacto muito significativo e quase dizimará aquilo que pode ser a agricultura na lezíria. Se houver dragagem, a cunha salina vai proliferar com mais liberdade até ao nosso principal ponto de captação e, com água salgada, deixaremos de conseguir regar. É um projecto que pode trazer muitas desvantagens”, alerta Catarina Madaleno.
Já sobre o projecto do novo aeroporto, a associação refere eventuais alterações ao nível da avifauna, mas, para já, sem certezas. “O nosso principal drama é continuar a viver aqui com água doce suficiente para regar, e temos vivido nos últimos anos bastante bem com a Agência Portuguesa do Ambiente a coordenar com Espanha caudais suficientes, de forma que, mesmo no Verão, nos períodos em que o caudal do Tejo é muito baixo, seja suficiente para não termos picos de salinidade”, diz.


