Entrevista | 11-04-2026 18:00

“Ninguém pode ficar por tratar por falta de sangue”

“Ninguém pode ficar por tratar por falta de sangue”
João Meirinho Moura defende uma medicina transfusional cada vez mais integrada e próxima dos doentes - foto O MIRANTE

Assinalar o Dia Nacional do Dador de Sangue é, mais do que cumprir o calendário, reconhecer publicamente o papel decisivo de quem, de forma voluntária e altruísta, ajuda a sustentar tratamentos, cirurgias e respostas clínicas que salvam vidas todos os dias.

Nesta entrevista, o director do Serviço de Imunohemoterapia da ULS Lezíria, João Meirinho Moura, fala da importância de ouvir os doentes, dos desafios na gestão das reservas de sangue, dos mitos que continuam a afastar potenciais dadores e do objectivo de voltar a realizar colheitas na unidade. João Meirinho Moura tem liderado nos últimos anos um trabalho de reorganização interna, reforço da articulação clínica e optimização da gestão do sangue. Defende uma medicina transfusional cada vez mais integrada, assente na segurança, na comunicação entre equipas e numa visão de proximidade com os doentes e com a comunidade.

Já referiu que muitas vezes não se dá voz a quem beneficia do sangue. Porque é tão importante ouvir testemunhos dessas pessoas? No ano passado, a nossa equipa decidiu explorar o tema da gratidão. Muitas vezes, os doentes expressam frustração por não conseguirem demonstrar o seu agradecimento a quem, de forma anónima, os ajudou. Decidimos então dar voz a quem quis dizer “obrigado” e essa foi uma experiência muito gratificante para todos.
O que representa para si assinalar o Dia Nacional do Dador de Sangue? O Dia Nacional do Dador de Sangue visa homenagear toda uma comunidade que, de forma voluntária e graciosa, sustenta uma rede terapêutica essencial para muitos doentes que, em determinada fase da sua doença, necessitam de suporte transfusional. Associarmo-nos a esta data enquanto ULS é reconhecer que, sem estes heróis anónimos, não conseguiríamos levar a bom porto a nossa principal missão: cuidar.
De que forma o contacto com doentes e beneficiários ajuda a sensibilizar a população para a dádiva de sangue? Quando reconhecemos um vizinho, um amigo ou alguém da nossa cidade ou aldeia, percebemos que a necessidade de sangue tem rosto, tem nome e tem história. Deixa de ser apenas uma estatística. E acredito que isso é um factor de motivação muito forte para a dádiva.
Qual é hoje a realidade das reservas de sangue na região? A nossa região é tão afectada por esta diminuição como o resto do país. A dádiva tem decrescido significativamente nos últimos anos, e essa situação tem impacto directo na disponibilidade de componentes sanguíneos. No nosso caso, pesa ainda mais o facto de não conseguirmos, para já, fazer colheitas na nossa ULS, o que nos deixa mais dependentes de entidades externas e por isso também mais vulneráveis.
Que impacto isso pode ter nos serviços de saúde? Há uma frase muito citada na nossa área: “o sangue que salva vidas hoje já tem de estar no inventário desde ontem”. A diminuição marcada das dádivas de sangue tem impacto negativo nas disponibilidades de stock e, se olharmos apenas para a relação entre existências e necessidades, isso causa naturalmente apreensão. Felizmente, a Medicina Transfusional evoluiu muito no sentido de minimizar as necessidades de transfusão. A optimização do estado hematológico através de alternativas, no âmbito do chamado patient blood management (PBM), e uma maior interdisciplinaridade acabam por beneficiar os doentes e as instituições, reduzindo o impacto que a falta de sangue possa provocar. Na nossa ULS, fruto de um trabalho muito intenso que se tem desenvolvido desde que assumi a direcção do serviço, e também da fantástica disponibilidade dos meus colegas médicos, a comunicação tem assumido um papel central na optimização da gestão do sangue e dos doentes. É uma luta diária, mas que tem dado frutos e é motivo de satisfação. Um dos marcadores internos de qualidade e desempenho que imponho ao nosso Serviço de Imunohemoterapia é o “cancelamento zero”: há seis anos que nunca se deixou de operar um doente ou de iniciar quimioterapia por falta de sangue.
Qual é a importância de manter dadores regulares? A resposta à necessidade de sangue não pode viver apenas de apelos pontuais. Os hospitais precisam de previsibilidade e de estabilidade para garantir resposta clínica segura. É por isso que a regularidade da dádiva é tão importante: permite planear, assegurar stocks e responder aos doentes com maior tranquilidade.

Mitos, receios e o apelo à comunidade

Quais são os maiores mitos ou receios que ainda afastam muitas pessoas da dádiva de sangue? Como sabe, lido com uma população óptima para a dádiva de sangue (os desportistas) e tenho-me apercebido de que ainda existe um medo muito arreigado da perda de rendimento desportivo. Curiosamente, a ciência já nos mostrou que é precisamente o contrário. Por outro lado, o eterno medo de agulhas continua a afastar muita gente.
O que diria a alguém que nunca doou sangue e está indeciso em dar esse passo? Se tem condições e gostaria de ajudar o próximo, tente ir uma primeira vez. Se correr bem, continua. Se não correr, não repete. Simples como isso.
Quem pode ser dador de sangue e quais são os critérios essenciais para o fazer em segurança? Basicamente, uma pessoa adulta e saudável é uma boa candidata a doar sangue. O resto deve ser avaliado caso a caso pelo médico que valida a colheita, sempre com segurança para o dador e para quem vai receber.
Em que situações clínicas a dádiva de sangue pode fazer a diferença entre a vida e a morte? As necessidades dirigidas são muito raras e prendem-se com particularidades imunológicas, mas são situações muito críticas. Aí, sim, a dádiva pode fazer claramente a diferença entre a vida e a morte de alguém.

Uma especialidade transversal e um serviço em mudança

O que o motivou pessoalmente a dedicar-se à área da Imunohemoterapia? Quando escolhi a especialidade, sabia que queria uma área médica transversal, que me permitisse contacto com muitas especialidades diferentes e em que pudesse ser um especialista diferenciado e raro. A Imunohemoterapia permitiu-me isso e muito mais.
O que mais o apaixona nesta especialidade e neste trabalho em particular? Já me perguntaram se mudaria de especialidade e para qual seria. Costumo dizer que voltaria a escolher a minha, mas que hoje construiria o meu currículo formativo com outras particularidades e com enfoque no futuro brilhante que a Terapia Celular e a Inteligência Artificial nos prometem. Mas deixo isso para os mais novos.
Que desafios enfrenta diariamente enquanto director do Serviço de Imunohemoterapia? Todos os dias tenho de tomar decisões críticas e com algum impacto ético. Felizmente, existem regras e evidência científica que nos ajudam a sustentar essas decisões, mas não deixo de levar algumas dessas angústias para a almofada. Por outro lado, dirigir um serviço que tem de responder 24 horas por dia, sete dias por semana, com amplas necessidades técnicas e de consumíveis, e numa área regulamentada a um nível quase radical, é um grande desafio. Felizmente conto com uma equipa extraordinária.
Já falou na necessidade de descentralizar o acesso aos cuidados. O que significa? As Unidades Locais de Saúde vieram reforçar a necessidade da integração dos cuidados. Na nossa ULS temos um projecto pioneiro de referenciação rápida de doentes com anemia, com critérios muito próprios de inclusão, que permite retirar doentes do serviço de urgência e colocá-los nos percursos assistenciais mais adequados à sua situação. Esse projecto já foi apresentado a nível nacional e foi muito elogiado. Se a este acesso diferenciado e rápido conseguirmos juntar a possibilidade de tratar estes doentes em contexto de cuidados de saúde primários, estaremos a descentralizar de forma efectiva os cuidados numa especialidade tão peculiar.

Dar sangue: um gesto simples com impacto real

O sangue continua a ser um recurso insubstituível: não se fabrica, não se improvisa e não aparece quando faz falta. Tem de existir antes de ser preciso. É por isso que cada dador regular representa uma margem de segurança para o hospital e uma oportunidade concreta de tratamento para quem enfrenta uma cirurgia, sessões de quimioterapia, anemia grave ou outras situações clínicas críticas. Na ULS Lezíria, a meta do “cancelamento zero”, como refere o médico João Meirinho Moura nesta entrevista, traduz bem essa exigência diária: garantir que ninguém fica sem resposta por falta de sangue. Neste momento, o Serviço de Imunohemoterapia está a ser transferido para novas instalações, numa mudança há muito considerada necessária. A melhoria e ampliação do serviço abrem também novas possibilidades: permitirão tratar mais doentes e criar condições para apresentar à Direcção-Geral da Saúde uma proposta com vista à retoma das colheitas de sangue em dadores.
A autorização para colheitas foi revogada em 2010, devido a falhas na organização dos processos e circuitos internos do serviço. Quando se tentou corrigir a situação, tornou-se claro que seria necessária uma reformulação profunda dos espaços e do funcionamento, algo que nunca chegou a concretizar-se. Com o passar dos anos, as instituições adaptaram-se à solução existente e faltou uma vontade comum para resolver o problema de forma definitiva. Ainda assim, o serviço defende que o caminho deve ser o da auto-suficiência. E essa meta só será possível quando o hospital voltar a ter capacidade para captar dadores e recolher dádivas nas suas próprias instalações.

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