Entrevista | 14-04-2026 18:00

Zulmira Ganhão: a mulher que faz do folclore uma missão de vida em Benavente

Zulmira Ganhão: a mulher que faz do folclore uma missão de vida em Benavente
Zulmira Ganhão está ligada ao folclore desde a juventude e mantêm ligação ao Rancho Típico Saia Rodada - foto O MIRANTE

Natural de Benavente, Zulmira Ganhão começou a trabalhar ainda criança e construiu um percurso marcado por dificuldades, afectos e um compromisso inabalável com as tradições populares.

Zulmira Lina Marques da Silva Ganhão, nasceu a 10 de Agosto de 1954, em Benavente, e construiu uma vida feita de trabalho precoce, perdas profundas e uma dedicação contínua às tradições populares, mantendo até hoje uma ligação activa ao Rancho Típico Saia Rodada. Oriunda de uma família numerosa e com poucos recursos - eram dez irmãos -, começou a trabalhar ainda criança. O pai foi funcionário da câmara municipal, ligado à limpeza urbana, e a mãe era doméstica. Teve uma infância dividida entre a pobreza familiar e a vivência numa casa com melhores condições, onde foi criada durante algum tempo por uma prima, o que lhe permitiu frequentar o colégio de Benavente.
A necessidade levou-a, contudo, a abandonar cedo os estudos para ajudar a família. Trabalhou no campo, passando por todas as tarefas associadas à cultura do arroz, desde a plantação à monda, e também na apanha do tomate. Mais tarde, já casada, continuou a trabalhar “a dias”, conciliando a vida profissional com a criação dos filhos.
Aos 15 anos iniciou uma relação que culminaria em casamento dois anos depois, união que dura até hoje e que soma já 55 anos. Com o marido José Augusto Ganhão Ruivo, também natural de Benavente, partiu durante vários períodos para campanhas de trabalho no estrangeiro. Trabalhou em Inglaterra, Holanda e França, sobretudo em fábricas alimentares e em vindimas, enquanto o marido esteve também na Alemanha.
Foi ainda muito jovem que começou a sua ligação ao folclore, integrando o grupo Ceifeiras e Eirantes, onde aprendeu a dançar com João Ramiro, falecido o ano passado e irmão de Fernando. Foi com ambos que aprendeu os primeiros passos no folclore. Mais tarde, já com família constituída, integrou o Rancho da Casa do Povo, seguindo depois para o Rancho Folclórico Saia Rodada, onde permanece há várias décadas.
Para Zulmira Ganhão, o folclore é mais do que uma actividade cultural, é uma missão. Considera que esta expressão popular continua a ser desvalorizada, classificando-a como “um primo pobre da cultura”, e alerta para o afastamento das novas gerações, muito influenciadas pelas novas tendências tecnológicas. Ainda assim, insiste na importância de preservar aquilo que define como “uma memória viva” das raízes.
O reconhecimento recente como uma das nove mulheres homenageadas no Dia Internacional da Mulher, com uma fotografia sua numa janela do Palácio do Infantado, em Samora Correia, foi recebido com humildade, mas também com orgulho, sobretudo pelo impacto junto da família. Define-se como uma pessoa frontal, incapaz de dissimular sentimentos, e acredita que a sua alegria constante é uma das razões pelas quais é reconhecida em Benavente.
A sua rotina mantém-se activa. Levanta-se cedo para tratar dos animais, num terreno que lhe foi cedido há cerca de 27 anos, onde cria várias espécies, e dedica-se ainda às tarefas domésticas e à produção de peças em croché para apoiar financeiramente o rancho. Tudo, garante, “em prol do Saia Rodada”. A ligação ao grupo é também emocional. Diz que chora sempre que vê o rancho actuar, mesmo em ensaios, e que o projecto representa o seu “segundo amor”, a par da família. Ao longo dos anos, tem procurado incentivar os mais novos a manterem-se no grupo, defendendo a persistência perante as dificuldades.

Sede do rancho a necessitar de obras

Actualmente, Zulmira Ganhão manifesta preocupação com as condições da sede do Rancho Saia Rodada, que considera degradadas, apontando a necessidade de obras profundas. Apesar disso, mostra compreensão perante outras prioridades sociais e mantém a esperança de ver o espaço requalificado. O grupo conta actualmente com cerca de 14 pares de adultos e apenas seis pares no rancho infantil, realidade que evidencia as dificuldades em atrair novos elementos. Ainda assim, destaca o ambiente de união e amizade que ali se cria, envolvendo já três gerações da sua própria família, incluindo um bisneto.
Zulmira Ganhão olha para o futuro com esperança moderada, reconhecendo as mudanças na vila que a viu nascer, mas mantendo o apego à terra. Defende a criação de um espaço onde as colectividades possam conviver e dinamizar actividades conjuntas. Sobre o legado, deseja deixar uma sede renovada e um rancho fortalecido. Quanto à forma como gostaria de ser recordada, resume numa ideia simples: “uma pessoa alegre, pobre, mas feliz”, que nunca deixou de ajudar os outros e de lutar pelo que acredita.

A dor imensa de perder dois filhos

A história de vida de Zulmira Ganhão é igualmente marcada por momentos de dor. Perdeu dois filhos, um à nascença e outro aos 32 anos, experiências que descreve como as mais difíceis da sua vida. Foi no convívio e na actividade do rancho que encontrou forças para continuar, incentivada também pelos restantes filhos. Mãe de nove filhos, sete dos quais vivos, orgulha-se do percurso familiar e da educação que procurou transmitir. Ao longo da vida, criou também sobrinhos e ajudou quem lhe bateu à porta, mantendo uma postura solidária que diz resultar das dificuldades que viveu.

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