Manuel Ribeiro, o “Pato Bravo” de Tomar que ajudou a construir Lisboa
Saiu do Alqueidão ainda menino, trabalhou desde a infância e construiu uma vida entre andaimes, sacrifício e ambição. Manuel Ribeiro, hoje com 86 anos, é um dos muitos ribatejanos que trocaram a terra natal pelos estaleiros da capital e deixaram a sua marca em dezenas de prédios, moradias e armazéns.
Natural do Alqueidão, na freguesia de Olalhas, concelho de Tomar, Manuel Ribeiro é um exemplo de uma geração moldada pela dureza da vida e pela força do trabalho. Perdeu o pai muito cedo e, ainda criança, começou a trabalhar na agricultura para ajudar a sustentar a família. Tinha apenas 10 anos quando conheceu o peso do trabalho. Aos 13 partiu para Lisboa, como tantos outros tomarenses da época, à procura de um futuro que a terra não lhe conseguia dar. Na capital começou por viver num barracão com outros conterrâneos e a trabalhar como servente na construção civil, a troco de 18 escudos por dia. Numa Lisboa em expansão, muitos iam e vinham conforme as estações do ano, regressando às aldeias na Primavera e voltando no Outono. Manuel Ribeiro fez diferente: ficou, aprendeu carpintaria, agarrou-se ao ofício e abriu caminho com persistência.
Em 1962 interrompeu o percurso para cumprir o serviço militar obrigatório durante três anos. No regresso retomou a ligação à construção civil e, em 1966, deu um passo decisivo ao construir o primeiro prédio num terreno que adquiriu na Rua dos Bombeiros Voluntários, em Odivelas. Cinco anos depois, em 1971, fundou com um sócio uma empresa, hoje sediada na Ramada, em Odivelas. Após a morte do sócio, em 1987, assumiu integralmente a empresa, que continua em actividade.
Ao longo de décadas, Manuel Ribeiro ajudou a levantar cerca de 60 imóveis em Lisboa, Odivelas, Loures e Porto Alto, no concelho de Benavente. Nas últimas duas décadas, a empresa passou a dedicar-se sobretudo à construção e gestão de arrendamento de imóveis, numa continuidade assegurada também pelos filhos. Mesmo com 86 anos e mais de 70 ligados à construção e ao imobiliário, continua a acompanhar diariamente a actividade da empresa. “As crises abalaram-nos, mas conseguimos ultrapassar”, resume. Manuel Ribeiro recorda os tempos de crescimento económico entre 1968 e 1974 como decisivos para o arranque da empresa, mas não esquece os períodos difíceis que se seguiram, como a recessão de 1983, a travagem económica de 1993 e a crise global de 2008. Em todas essas fases, diz, a resistência falou mais alto.
Sobre Tomar, o olhar é de quem fala com saudade, mas também com desilusão. Diz visitar menos o concelho desde a morte da mãe, mas considera que a terra perdeu força por falta de investimento, emprego e indústria. Na sua opinião, Tomar fechou-se sobre a história, o turismo, a hotelaria e a restauração, deixando para trás oportunidades capazes de fixar população e criar futuro. “O concelho de Tomar necessita de apostar na industrialização”, defende.
A história de Manuel Ribeiro prolonga-se também na geração seguinte. O filho, Miguel Ribeiro, advogado especializado em Direito do Ordenamento do Território, Urbanismo e Ambiente, fundou em 2004 a Predimed, hoje apresentada como a maior rede portuguesa de mediação imobiliária. A expressão “Pato Bravo” assenta, positivamente, em Manuel Ribeiro, como uma luva. A expressão utilizava-se para os construtores civis improvisados que saiam da zona de Tomar e iam construir casas em Lisboa. Entretanto o termo evoluiu para descrever um “espertalhão”. A verdade é que a única esperteza de Manuel Ribeiro foi contruir um percurso que nasceu à sombra do trabalho de um homem que saiu do Alqueidão para ajudar a construir Lisboa.


