Entrevista | 18-04-2026 10:00

Da taberna da avó em Alqueidão, a responsável pela organização do Rock in Rio

Da taberna da avó em Alqueidão, a responsável pela organização do Rock in Rio
Ricardo Acto no Parque Tejo, espaço que acolhe a 'casa' do Rock in Rio Lisboa desde 2024 - foto O MIRANTE

Entre Lisboa, Alqueidão e os grandes palcos internacionais, Ricardo Acto construiu um percurso que diz nunca ter sequer sonhado. Director de operações de alguns dos maiores eventos de entretenimento do mundo, entre os quais o Rock in Rio Lisboa, continua a falar de Tomar e da sua aldeia com o mesmo entusiasmo de sempre.

Nesta entrevista a O MIRANTE, revisita a infância e a adolescência passada entre a rua, a associação e as festas da terra. Explica como essa vivência moldou a sua forma de liderar equipas e organizar eventos. É marido de Roberta Medina, a empresária responsável pela realização do Rock in Rio em Lisboa e em Madrid, e uma figura mediática que ficou ainda mais reconhecida por ser júri no programa Ídolos, da SIC. Juntos têm dois filhos, a Lua e o Theo.

O que representa Tomar enquanto homem e profissional? Tomar é sempre uma cidade muito especial, pela relação familiar, pelo crescimento, pela história que carrega e pela forma como me marcou. À medida que fui crescendo, sobretudo a partir da universidade, comecei naturalmente a dividir mais o meu tempo entre vários sítios. Mas isso nunca diminuiu a ligação. Antes pelo contrário: quando era adolescente, qualquer oportunidade que tivesse de sair de Lisboa, fugia para Tomar. Acho que Tomar tem uma característica muito própria, uma energia muito particular, que nos liga para sempre. Não sei se sentiria o mesmo se a minha história familiar estivesse ligada a outra cidade, mas a verdade é que sou muito apaixonado pela história de Tomar, pelos Templários. Ainda hoje mantenho esse vínculo muito forte e gosto muito de contar a história da cidade a quem vem de fora.
As suas origens familiares estão em Alqueidão. Sou natural de Lisboa, mas passava a vida em Alqueidão, porque os meus pais são de lá. Cresci com essa ligação muito forte à aldeia, à família, à comunidade. Ainda hoje tenho lá vários familiares, tios, primos. O meu pai, por exemplo, passa lá muito tempo. Tenho dois irmãos, também em Lisboa, e todos temos essa ligação. Depois a vida vai-nos puxando para outros lados, é normal. Mas a verdade é que a aldeia fez sempre parte da nossa identidade.
Como foi crescer na aldeia? Foi uma infância e uma adolescência muito marcadas pela rua, pela convivência, pelo grupo. Alqueidão sempre teve uma particularidade: havia sempre muitos jovens. Daí até vir aquele cognome dos “índios”, porque éramos muitos e, quando chegávamos às festas, sentia-se a nossa presença. Havia festas que pareciam só começar verdadeiramente quando a malta aparecia. É uma imagem que tenho muito viva. E isso deu-me também uma noção muito forte de pertença.
Tem alguma memória que guarde com especial carinho? Muitas. Desde logo as brincadeiras na rua, jogar futebol na relva do centro da aldeia, apesar de nem sempre nos deixarem, porque a bola batia nos fios do telefone e ficava tudo sem telefone. Depois íamos para a escola jogar, mas queríamos era sempre voltar àquele centro da aldeia, que era o nosso ponto de encontro. Depois há o rio, as festas, os encontros, os verões, tudo isso. São memórias muito fortes.
Ainda sente isso quando volta? Sinto. E a festa é um momento muito especial, porque junta toda a gente. É impressionante. Mesmo pessoas da minha geração que emigraram ou que vivem longe acabam muitas vezes por voltar nesses dias. Durante aqueles quatro dias parece que toda a gente volta a viver ali o ano inteiro. Há uma continuidade emocional muito forte.

O associativismo como escola de vida

Esteve ligado desde muito cedo ao movimento associativo. Começou cedo, sim. A associação de Alqueidão estava abandonada há já alguns anos. E eu, com 15 anos, desafiei os meus amigos para a reactivarmos. Acabámos por ser nós a fazê-lo. Tinha 15 anos e fui presidente da associação. A partir daí começámos a criar actividade com regularidade: bailes, torneios, iniciativas para a aldeia, apoio a uma banda que estava a nascer e que precisava de espaço para ensaiar. Começámos a dar vida à associação. Os momentos altos eram, claro, a festa da aldeia e tudo o que se articulava com a Festa dos Tabuleiros.
Essa experiência foi decisiva para si? Sem dúvida. Sempre gostei de organizar. Se havia uma festa, queria perceber como se fazia e, se possível, fazer mais duas ou três. Gostava de estar nas organizações, de pôr coisas a acontecer, de juntar pessoas, de estruturar. Não era só usufruir. Era também construir. Mesmo muito novo já tinha essa curiosidade sobre como funcionavam as estruturas. Ao mesmo tempo, já andava ligado ao movimento associativo estudantil em Lisboa. Sabia que existia a Confederação das Colectividades e fui logo inscrever a associação. Sempre tive esse gosto pela participação cívica.
O que o associativismo lhe ensinou? Ensinou-me imenso sobre comunidade, trabalho de equipa, organização e identidade. E ensinou-me também uma coisa muito importante: quando as pessoas sentem que uma iniciativa também é delas, tudo funciona melhor. Ainda hoje uso muito isso. Em grandes eventos, sempre defendi que não se pode chegar a um território como se ele fosse apenas um espaço vazio onde vamos montar uma operação. Estamos na casa das pessoas. Temos de envolver as comunidades, ouvir, integrar, fazer com que sintam que aquilo também lhes pertence.
Chegou a aplicar essa lógica em contexto profissional? No caso do Rock in Rio, por exemplo, sempre houve uma grande preocupação em envolver as comunidades locais. Na Bela Vista isso foi muito evidente. Eu dizia muitas vezes: se fosse a festa do bairro ou a festa da aldeia, ninguém reclamava do barulho, porque sentiria que aquilo fazia parte da sua vida e da sua tradição. Portanto, o nosso trabalho tinha de passar também por criar esse sentimento de pertença.
Essa capacidade vem também da sua história familiar? Acho que sim. A minha avó, a Maria Rosa, tinha a taberna da aldeia. E a taberna é uma grande escola de humanidade. Ela tomava conta das pessoas, conhecia os ritmos da aldeia, media conflitos, acolhia toda a gente. O meu pai também herdou muito disso. Cresci a ver isso e, de certa forma, também fui ficando com essa capacidade de intermediar, de perceber pessoas, de tentar organizar as coisas para que funcionem melhor para todos. Até nas festas da aldeia foi assim. Havia discussões porque uns trabalhavam mais do que outros, porque não havia organização. Nós, os mais novos, começámos a fazer escalas: quem ficava no bar, quem limpava. Era só organizar melhor. E funcionava.

Da engenharia civil aos grandes eventos

Como é que se faz a transição de um jovem curioso para responsável operacional de um dos maiores eventos internacionais? Foi uma transição muito natural e, ao mesmo tempo, nada planeada. Vinha de uma ligação familiar à construção civil e acabei por seguir essa área. Tirei o curso ligado à construção, depois fui para Engenharia Civil. Tudo isso me ajudou e ajuda até hoje. Nunca pensei que pudesse viver disto. A ideia era trabalhar na construção civil e continuar a fazer festas pelo meio. Não via isso como uma carreira possível.
Quando é que as coisas começaram a mudar? No último ano da universidade, queria muito fazer uma grande Semana Académica de Lisboa. Havia a ideia de que em Lisboa isso não funcionava, que não havia massa crítica, que não tinha o peso de Coimbra ou do Porto. Eu achava que podia funcionar, desde que fosse bem organizado. Em 2005 conseguimos fazer a Semana Académica no Parque da Bela Vista e foi um grande sucesso. Foi a primeira vez que se conseguiu juntar realmente todas as universidades de Lisboa. E foi precisamente aí que a organização do Rock in Rio reparou no trabalho que estava a ser feito. Depois falaram comigo e convidaram-me para ajudar no Rock in Rio de 2006, inicialmente numa lógica de estágio e apoio. Fui experimentar e correu muito bem. Voltei depois à construção, a achar que seguiria por aí, mas meses mais tarde voltaram a ligar-me. Chamaram-me primeiro para ajudar noutros projectos e, a partir daí, nunca mais saí.
Já tinha contacto com a área? Em 2004 já tinha estado muito envolvido, ainda que não na organização do festival propriamente dita. Estávamos muito envolvidos no acompanhamento do Euro 2004 e do próprio Rock in Rio, sobretudo do ponto de vista da segurança e da fiscalização. Havia uma comissão municipal de segurança para acompanhar grandes eventos, e fazia parte dela. Foi uma altura muito intensa. Acabei por acompanhar os planos de segurança e as estruturas operacionais desse lado. Isso deu-me uma leitura muito concreta da complexidade dos grandes eventos.
Foi aí que sentiu o peso da responsabilidade? A pressão veio um pouco mais tarde. No início havia sobretudo entusiasmo. O entusiasmo de fazer, de ver as pessoas felizes, de perceber que era possível montar grandes coisas. A responsabilidade foi crescendo à medida que as funções se tornaram mais amplas. Comecei como assistente de engenharia, mas rapidamente fui acumulando outras áreas, porque também tinha facilidade no relacionamento com entidades públicas, licenciamento, câmaras municipais, essa parte toda mais institucional. Em 2008 já fazia muita coisa nessa frente, enquanto ajudava na produção. Em 2010 fiquei com uma responsabilidade mais abrangente na produção e, em 2011, já assumi funções de direcção de operações em Lisboa, no Brasil e em Madrid.
O que distingue o Rock in Rio de outros grandes eventos? O Rock in Rio nasceu com um ADN muito próprio. Não nasceu apenas como festival de música no sentido tradicional. Em 1985 já era, de certa forma, uma grande experiência de marca, uma experiência imersiva. Foi criado para lançar uma marca de cerveja no Rio de Janeiro e desde o início teve uma visão muito diferenciadora. Foi pioneiro em muita coisa: soluções de consumo, experiência do público, qualidade do espaço, grandes espectáculos para além dos concertos. Sempre houve a preocupação de criar um dia inteiro de experiência e não apenas uma sucessão de actuações em palco. Isso obriga a um padrão de exigência muito elevado.
O que é mais difícil de gerir numa operação dessas? Cuidar de 100 mil pessoas por dia é uma operação gigantesca. É muita logística, muita coordenação, muita antecipação. Transportes, acessos, alimentação, segurança, limpeza, comunicação, relações com o território, resposta a incidentes, equipas próprias e subcontratadas. É uma máquina muito complexa. No Parque Tejo, sendo um espaço novo, tivemos de fazer todo o planeamento quase de raiz. E aí voltam muito as memórias das grandes festas tradicionais: estacionamento, circulação, apoio logístico, zonas de comércio, formas de orientar pessoas. Às vezes, aquilo que se faz numa grande festividade popular ensina mais do que parece.

Liderar milhares de pessoas

Como se gere uma estrutura humana tão grande? Com proximidade e com cultura de equipa. Não trabalhamos com voluntários no sentido operacional da palavra, embora durante muito tempo essa imagem tenha existido. O que temos são milhares de pessoas envolvidas, muitas delas altamente motivadas para fazer parte do evento. Essa é a parte boa: do ponto de vista emocional, muita gente quer trabalhar num projecto destes. Há orgulho, sentimento de pertença, vontade de participar. A parte mais desafiante é que esse mesmo entusiasmo também significa que as pessoas querem aproveitar o evento. Querem ver concertos, viver o ambiente. E alguém tem de continuar a trabalhar. Por isso é muito importante construir cultura interna, relação entre equipas, momentos de convívio, entrosamento.
E como se organizam em termos de hierarquias? Temos uma estrutura formal, obviamente, porque trabalhamos numa empresa com governação, conselho, sócios, tudo isso. Mas, no dia-a-dia, a lógica tem de ser muito humana. Gosto de apresentar toda a gente como colega. Os cargos servem sobretudo para definir responsabilidade e resposta perante os accionistas e a estrutura de decisão. Mas para pôr um evento de pé precisamos de toda a gente. Há uma imagem que gosto muito de usar: numa operação desta dimensão, a pessoa que está com a vassoura é tão importante como o engenheiro.
Que palavra escolheria para se definir profissionalmente? Resiliência. Sem dúvida. É a palavra que mais uso e aquela em que mais me revejo. Estamos sempre a trabalhar com datas-limite absolutamente inadiáveis. Se o evento abre no dia 20, tudo tem de estar pronto no dia 20. Não há margem. O que não estiver pronto nesse dia vai traduzir-se em milhares de pessoas frustradas. Isso significa que estamos permanentemente a reavaliar, a decidir, a ajustar, mas com foco absoluto na entrega. A liderança e a capacidade de decisão fazem parte disso, claro, mas a resiliência é o que sustenta tudo o resto.
Nunca se desliga verdadeiramente do trabalho? Hoje já entro mais em velocidade de cruzeiro, mas é evidente que há momentos em que dormimos e acordamos com o trabalho. Sobretudo em fases críticas. Não é como há 10 anos, talvez, mas continua a acontecer em determinados momentos. A diferença é que, com o tempo, com a experiência e com a estrutura que foi sendo criada, aprendemos a distribuir melhor o peso.
Qual é a sua maior conquista? Talvez seja poder dizer que fiz um caminho que nunca imaginei e que, ainda assim, faz sentido com aquilo que eu era desde novo. Nunca pensei que fosse viver de organizar eventos. Achava que iria trabalhar na construção civil e fazer umas festas pelo meio. E, no entanto, acabou por ser esta a minha vida. Se há alguma conquista, é essa coerência: continuar a ser, no fundo, o mesmo miúdo que gostava de organizar as coisas, de juntar pessoas e de ver os outros felizes. Com outra escala, com outra responsabilidade, mas com a mesma base.

Com raízes no concelho de Tomar, Ricardo Acto construiu um percurso ligado à organização de grandes eventos, mantendo uma ligação forte às origens que marcaram o seu caminho - foto O MIRANTE

Roberta Medina, família e trabalho: a vida a dois no centro da mudança

A paternidade trouxe uma mudança profunda na forma como Ricardo Acto vive o trabalho e essa transformação aconteceu ao mesmo tempo que cresciam as responsabilidades profissionais. Se antes havia margem para jornadas intermináveis, noites seguidas de entrega total e uma disponibilidade quase sem limites, hoje existe outra consciência sobre o peso das escolhas, o valor do tempo e a necessidade de impor travões. Com o casamento e a chegada dos filhos, a vida deixou de poder ser organizada apenas em função da exigência profissional, refere em conversa com O MIRANTE. A família passou a ser um centro de equilíbrio e também um factor de medida. Não há super-heróis, reconhece, e essa noção tornou-se essencial para perceber que o trabalho, por mais absorvente que seja, não pode ocupar todo o espaço.
Essa adaptação ganhou uma dimensão ainda mais particular pelo facto de ser casado com Roberta Medina, alguém que conhece por dentro o mesmo universo de pressão, exigência e desgaste. A relação entre os dois nasceu precisamente desse mundo profissional. Roberta, figura há muito associada à dimensão pública do projecto do Rock in Rio, criado pelo seu pai, Roberto Medina, faz parte dessa história desde o início. Por isso, mais do que um obstáculo, o trabalho em comum tornou-se uma linguagem partilhada. Em casa, essa realidade sente-se todos os dias. Os próprios filhos já identificam os sinais de que se aproxima uma grande edição em Lisboa e percebem que pai e mãe entram numa fase diferente, mais intensa e menos disponível. Ainda assim, essa pressão nunca foi encarada como um problema estrutural. “Foi sendo gerida com aprendizagem, experiência e ajustamentos. Durante muito tempo, aliás, nem trabalhámos directamente um com o outro. Só mais tarde as funções se aproximaram”, refere.
A exposição pública também nunca foi um objectivo de vida para o casal. Houve períodos em que Roberta Medina esteve mais visível, sobretudo pela ligação à televisão e a formatos como “Ídolos”, mas, fora dessa dimensão, prevalece um perfil discreto. São pessoas caseiras, ligadas à casa, aos amigos, a Alqueidão e a uma vivência longe da fama.

“O Rock in Rio mais incrível de sempre”

Ricardo Acto assume que foi construindo o caminho com “vontade, alegria, verdade” e deixa claro qual é a marca que gostava de imprimir: a capacidade de juntar pessoas, criar pontes e pôr ordem de forma positiva. “Fui fazendo”, resume, explicando que o percurso se foi desenhando com naturalidade, sem a ansiedade de chegar depressa. Quanto à edição deste ano do Rock in Rio, não podia haver mais entusiasmo. A promessa é do evento “mais incrível de sempre”, impulsionado por condições que permitem concretizar ideias que, em Lisboa, nunca tinham sido totalmente possíveis por limitações de espaço e de contexto. O objectivo, sublinha, é reforçar a identidade do projecto enquanto experiência total e não apenas sucessão de concertos: um grande espectáculo, um dia inteiro de emoções, surpresa e memória.

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