Entrevista | 19-04-2026 07:00

João Tremoço critica falta de fiscalização da câmara e não se recandidata a Vialonga

João Tremoço critica falta de fiscalização da câmara e não se recandidata a Vialonga
João Tremoço considera o orçamento da junta demasiado curto para todas as necessidades - foto O MIRANTE

Presidente da Junta de Freguesia de Vialonga já decidiu que não será candidato nas próximas autárquicas, em 2029. João Tremoço aponta a falta de fiscalização por parte da Câmara de Vila Franca de Xira como um dos principais problemas sentidos na freguesia, a par do depósito ilegal de resíduos.

João Tremoço, presidente da Junta de Freguesia de Vialonga, eleito pelo PS, iniciou há meio ano o segundo mandato, mas avança já a O MIRANTE que não se vai recandidatar ao cargo, que exerce a tempo inteiro. A decisão já foi, inclusive, comunicada ao partido e um dos motivos é a falta de apoio da Câmara de Vila Franca de Xira, apesar de ter a mesma cor política. “Tentei fazer alguma coisa por Vialonga, mas sinto-me frustrado: umas consegui fazer, outras não. Há muitas situações na freguesia em que a fiscalização da câmara não actua”, diz o autarca, dando como exemplo a Rua 28 de Setembro que, após as obras e o alcatroamento há cerca de três meses, já apresenta buracos e abatimentos no piso. “Estou farto de mandar e-mails e lá recebi a resposta do gabinete do presidente, de que tomaram nota e vão tapar os buracos. Mas eu quero alcatrão novo naquela avenida toda, que tem muito movimento, e não meteram o alcatrão com os centímetros que deviam. A obra não foi acompanhada pela fiscalização”, reitera.

Parque canino é para avançar

Outra das situações tem a ver com o parque canino, projecto aprovado no mandato passado em assembleia de freguesia e que ainda não avançou devido à discordância entre a junta e a câmara quanto à localização. Um dos locais propostos podia incomodar os residentes, outro diminuía uma zona verde, mas João Tremoço já decidiu que vai propor a realização da obra pela junta após a inclusão do saldo de gerência, sendo a localização na Quinta das Índias. “Vou avançar. Com a concordância da câmara ou não. Estou na minha freguesia, tenho direito a fazer alguma coisa em Vialonga”, afirma.
O executivo da junta tem ainda prevista a criação de 32 novos lugares de estacionamento e a instalação de um baloiço panorâmico no Moinho do Machado, que já tem projecto de arquitectura e o aval do proprietário do terreno. João Tremoço relata ainda problemas com as podas de árvores, dando como exemplo situações na Flamenga, onde as árvores estão muito grandes e os ramos batem nas janelas dos prédios. A câmara não autoriza nem o abate nem as podas, sublinha o autarca, que muitas vezes admite ajudar os fregueses nesse tipo de situações.

Gostava de inaugurar as futuras piscinas de Vialonga? Estamos a falar de um concurso internacional e só no final de 2028 ou início de 2029 é que as coisas avançam. E se nenhuma empresa contestar, senão o processo pode alongar-se. Mas gostava de inaugurar.
Vialonga ainda vai ter metro? Primeiro o metro tem de chegar ao Infantado (Loures). Depois disso são cerca de 8 Km até à nossa freguesia e acredito que pode ser uma realidade. Será metro de superfície, mas acredito que é viável.
Defende a construção e novos projectos na Várzea de Vialonga? Acredito que com a alteração ao Plano Director Municipal, cuja revisão já era para ter sido feita, se possa construir. Não estou preocupado com a construção de habitações, gostava que fossem criadas zonas de lazer e um skate parque como o do Parque das Nações. Mas é muito caro para ser uma junta a fazer, só com comparticipações. Se tudo correr bem vou integrar à volta de 200 mil euros com o saldo de gerência, mas estamos a falar de uma junta em que 70% são custos com pessoal de cerca de 1 milhão e 200 mil euros. Fico com muito pouco para governar a freguesia.
Qual é a solução para a deposição de lixo e sobrantes de obras, de forma reiterada, na Verdelha do Ruivo? Era muito importante a videovigilância chegar ao concelho, a todas as freguesias. Não há civismo. Acabam de fazer uma pequena obra em casa e vai tudo directamente para o lixo. A câmara tem investido em equipamentos e viaturas, mas depois há pouco pessoal para trabalhar na recolha de residuos. Na zona industrial do Olival das Minas, a câmara com carros descaracterizados apanhou duas pessoas que apanharam uma multa pesada e a partir daí, através do passa a palavra, nunca mais aconteceu. Ninguém me contou, fui eu que assisti a pessoas que deitam o lixo fora do contentor para não sujar as mãos e até já vi a não pararem o carro e atirarem o lixo pela janela.
Tem sido saudável a relação da freguesia com a empresa que explora a pedreira de Santa Eulália? Sim, a Bucelbritas tem uma boa relação connosco. Se as pessoas separarem o entulho das obras, o ferro, o betão, entre outros, a empresa aceita sem nenhum custo. O problema é que as pessoas não querem ter trabalho. É mais fácil despejar. Na Fonte Santa a situação está melhor, mas recordo-me de terem lá despejado quatro bidões de 200 litros de óleo queimado. A sorte foi não terem rebentado, senão tínhamos um problema ecológico e de saúde publica. Na linha de água na Mata do Paraíso tive de mandar lá quatro homens porque despejaram sacos de entulho. Acredito que são pessoas de fora da freguesia.
Qual é o principal problema de Vialonga? É a questão dos resíduos e devíamos ter mais zonas de lazer. Não consigo ter mais funcionários. Temos 38 e é insuficiente. Mas não compensa ter empresas a prestar serviços. Tinha aqui uma empresa a receber 10 mil euros por mês mais IVA e não dava conta do recado. Reestruturámos a equipa e vamos tentar dinamizar de outra forma. Temos muitas zonas verdes e só pedimos orçamentos a empresas para as desmatações maiores. Só tenho 8 ou 9 funcionários para os jardins, não é suficiente.
Por que é que os problemas de trânsito e infraestruturas ainda não estão resolvidos no Casal do Freixo? A meio do meu primeiro mandato aconteceu a reunião com a população no salão da colectividade, e com todos os partidos, em que a câmara levou as plantas da zona. Todos concordaram em mudar o trânsito, mas até hoje nada foi feito. Não consigo perceber porquê. Depois há problemas com a electricidade, porque o PT que lá existe não chega para o número de habitantes. Fez-se um abaixo-assinado com a população, que foi para a autarquia, que reencaminhou para a E-Redes. O que dizem é que o problema só vai ficar resolvido quando terminarem as obras na escola de Alpriate quando fizerem um PT diferente. Estamos a falar de ano e meio a dois anos. Recentemente os moradores ficaram 24 horas sem luz.
A junta foi muitos anos da CDU, mas deu-se uma reviravolta com o Chega. A CDU tinha quatro eleitos e o Chega um no meu primeiro mandato. Agora o Chega tem quatro e a CDU tem um eleito. Na minha opinião tem a ver com o Chega ser contra o sistema e dizer o que as pessoas querem ouvir. Em Vialonga acho que muita gente CDU votou Chega.
Qual é o seu compromisso com a população? Ser sincero. Às vezes não sou bem interpretado, mas comprometo-me que vou continuar a lutar pela freguesia. Sempre aqui vivi e acho que merece mais e melhor. Acho que a câmara devia ter uma palavra mais séria para com as freguesias, mas eu falo da minha.

“Não sou político”

“Não sou político”, diz o presidente da Junta de Freguesia de Vialonga, assumindo ter aceite o desafio do PS por considerar que poderia ser útil à terra onde cresceu. “Fiquei orgulhoso e estou cá para lutar pelas pessoas e pela terra”, afirma, destacando a proximidade com a população: “Ando na rua, toda a gente me fala, mas sempre falou, não é por ser presidente”, refere.
Com 65 anos, nasceu no Alentejo, mas chegou a Vialonga com apenas três meses de idade. Viveu 12 anos na Chasa, em Alverca, mas manteve sempre uma ligação diária à freguesia de Vialonga, onde viviam os pais. Depois do divórcio mudou-se para Vialonga definitivamente.
Esteve ligado ao Grupo Desportivo e à Casa do Povo, tendo desempenhado funções de direcção em várias colectividades de Vialonga. João Tremoço é conhecido pelo envolvimento na extinta associação Os Companheiros da Noite, que prestava apoio a sem-abrigo e pessoas carenciadas do concelho de Vila Franca de Xira. No plano profissional, trabalhou mais de duas décadas na Promocasa, como desenhador projectista e medidor orçamentista. A entrada na junta ocorreu numa fase em que a empresa atravessava um processo de insolvência. “Cheguei a ter ordenados em atraso e ainda aguardo valores desse processo”, sublinha. Pai de um filho e padrasto de dois enteados, é também avô de dois netos e mantém uma forte ligação à família e à comunidade de Vialonga.

Número de habitantes é superior ao contabilizado

Vialonga tem 18.500 eleitores recenseados, mas João Tremoço estima que existam cerca de 23 mil habitantes na freguesia. O autarca passa muitos atestados de residência e comunicou recentemente à GNR o número elevado de documentos emitidos para a antiga padaria de Santa Eulália, onde poderão estar a residir várias pessoas. Mas não é caso único. “Já passei mais de 40 atestados para uma moradia na Granja, comprada por um empreiteiro de fora. A partir do sétimo atestado aviso a GNR, mas a empresa é credível e traz para cá pessoas que depois vão para fora de Vialonga. Não posso recusar passar atestados, é a lei”, vinca.

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