Entrevista | 25-04-2026 10:00

Bruno Ventura: “os indicadores de qualidade de vida em Vila Franca de Xira são um desastre”

Bruno Ventura: “os indicadores de qualidade de vida em Vila Franca de Xira são um desastre”
Bruno Ventura, do Forte da Casa, está no seu segundo mandato como deputado na Assembleia da República - foto O MIRANTE

Bruno Ventura, 45 anos, é natural do Forte da Casa e está a cumprir o seu segundo mandato como deputado pelo grupo parlamentar do PSD, partido de que é líder distrital. Já foi autarca no concelho de Vila Franca de Xira e tem um olhar crítico sobre o concelho. Nesta entrevista a O MIRANTE diz que é urgente captar investimento qualificado e critica a falta de soluções de mobilidade. Diz que o fim da parceria público-privada no Hospital VFX foi um acto criminoso e que o aeroporto em Benavente é uma escolha acertada.

Por causa do seu apelido teme que o confundam com o André Ventura? Não me chateia. Há um oceano de diferenças entre mim e o André Ventura. Não estou preocupado com isso. Sentimos a responsabilidade de não desiludir o país. A exigência é muito grande e a responsabilidade também.
Divide um gabinete com outras três pessoas. Concorda com quem diz que os deputados têm uma grande vida? Essa é a percepção que existe e cabe a cada um dos deputados contribuir para desmistificar isso, porque não traz nada de bom à democracia. Divido o gabinete sem qualquer problema com dois colegas e todos trabalhamos imenso. E não é um trabalho das 08h00 às 17h00 que permita ter uma vida organizada, como a que tinha antes de vir para cá. Não temos horário e isto é um trabalho muito exigente e com elevado nível de escrutínio público. Não suporto a conversa do Calimero de muitos políticos quando lamentam ter feito um grande sacrifício para estar no Parlamento e que ganham muito pouco. Isso foi uma escolha de vida. No meu caso não me arrependo nada. Ter participado na revisão da lei da nacionalidade foi um marco pessoal.
Aceitaria o desafio de ser candidato à Câmara em VFX? Não. Fui candidato a presidente da Assembleia Municipal em Vila Franca de Xira nas últimas autárquicas e devemos candidatar-nos quando achamos que não há ninguém melhor para o cargo. Em Vila Franca de Xira temos o melhor dos candidatos, o David Pato Ferreira. O David conquistou com o seu esforço um grande resultado. Passou a ser a segunda força política no concelho. Algo assinalável. Ele é a pessoa mais qualificada, ligada à comunidade e preparada para oferecer um horizonte próspero em VFX.
O que falta para o PSD ser poder em VFX? As próximas autárquicas. Tudo isto é um trajecto. A única vez que o PSD foi governo no concelho de VFX foi na década de 80. Há um contexto sociológico que dificultou a afirmação e o crescimento do partido. O David mostrou que é possível inverter esse contexto. As pessoas valorizam a determinação, insistirmos naquilo em que acreditamos.
Como classifica a governação municipal em VFX? As alternativas entre Partido Comunista e Partido Socialista de governação pública foram um desastre. Os indicadores de qualidade de vida em Vila Franca de Xira, comparados com outros concelhos próximos da capital, são um desastre. Não há outra forma de classificar. As pessoas merecem mais qualidade de vida, ao nível da mobilidade, nível escolar e atracção de investimento. Se compararmos VFX com o desenvolvimento de outras comunidades, percebemos que, com boas políticas públicas e uma nova força política no comando, as pessoas poderiam ter um futuro muito diferente do que têm tido ao longo dos anos. Fico decepcionado porque cresci no concelho, conheço as potencialidades e as pessoas que lá residem. Não há direito que as pessoas tenham obrigatoriamente, por viverem lá, de ter menos qualidade de vida do que noutros concelhos em redor. Não é um problema de pessoas, é um problema do poder político.
O que sente quando regressa ao Forte da Casa para visitar os seus pais? Sinto-me abandonado pelo Partido Socialista. A primeira coisa que gostava de ver no concelho era maior atracção de investimento. A fixação de empresas de valor acrescentado que fixem emprego. Não faço parte dos políticos que se queixam das pessoas terem, nas áreas urbanas, votado em partidos populistas. As pessoas votaram porque se sentiram frustradas e abandonadas pela elite política à qual confiaram o Governo do país. Cansaram-se da escola pública deixar de estar a dar resposta para as famílias e de que, quando dependem do SNS, ficam sem médico. Sentiram que as elites políticas lhes viraram as costas.
A reorganização das urgências de obstetrícia em Vila Franca e Loures acabou com uma grávida a dar à luz no quartel dos bombeiros. Isso não é deixar a população sem respostas? Certo. É uma medida impopular mas não havia outra saída. No norte do país, este tipo de urgências já existe e sem tanta contestação, porque existe previsibilidade de meios. As pessoas sabem onde existe o serviço e sabem que hospital tem os meios para a servir. O pior que se fez durante anos do PS foram decisões erróneas do lado da saúde que levaram ao colapso de serviços no SNS. Fazia-se de conta que tínhamos urgências que depois não funcionavam. Esta reorganização não é perfeita mas pelo menos garante previsibilidade para as pessoas e meios para servir. E o que aconteceu no passado foi o contrário, uma política brutalmente ideológica do PS para contentar o PCP e o Bloco de Esquerda e ter o apoio parlamentar desses partidos, a troco da qualidade do SNS.

“O fim da PPP em VFX deixou o hospital de joelhos”

Quando arranca o concurso da parceria público-privada (PPP) para gestão do Hospital Vila Franca de Xira? Não sei, mas defendo que deve ser uma prioridade. Quando acabaram as PPP não me lembro do PS em VFX ter feito uma contestação brutal. O mesmo presidente de câmara que agora vive muito indignado pelo fecho das urgências, não mostrou essa indignação quando se extinguiu a PPP. Zero! Nem de ninguém do PS em VFX. Com a extinção da PPP, a população passou a estar pior servida, os concursos de médicos ficaram vazios e durante anos não ouvi uma queixa nem um murmúrio do PS sobre o assunto. Isto, do ponto de vista político, é criminoso. O fim da PPP em VFX deixou o hospital de joelhos. Não nos interessa se o equipamento é do Estado ou não, interessa-me a prestação de um serviço público com qualidade. O PS em VFX foi conivente e colaborante com o fim da PPP.
Vê com agrado que o aeroporto aterre em Benavente ou preferia que a localização fosse Alverca? Tenho um amor imenso pelo sítio onde cresci, mas o que queria é que finalmente se tomasse uma decisão. Foi bem tomada. Ficou num bom local. O país precisa dessa infraestrutura. A localização foi decidida com base em critérios técnicos e a avaliação de uma comissão independente. Desde o 25 de Abril, o PS foi poder em mais de 70% do tempo e a última decisão que tomou sobre o assunto foi a do Pedro Nuno Santos, ao decidir três ou quatro novos aeroportos por decreto, numa manhã, no barulho das luzes, sem o primeiro-ministro saber...
O polémico projecto de duplicação da Linha do Norte em VFX agrada-lhe? Para as comunidades e o território, como é óbvio, não gera simpatia. Vai ter um impacto gigantesco nas comunidades, mas a modernização da linha férrea é uma aposta de desenvolvimento e não devemos abdicar dessa aposta. Este projecto não é de agora e só porque muda o governo não podemos começar a mudar projectos estruturantes para o país.

De guia no aeroporto a deputado

Bruno Ventura, 45 anos, natural do Forte da Casa, construiu um percurso marcado pela autonomia, pelo envolvimento político desde cedo e por uma forte ligação ao território onde cresceu. Desde jovem demonstrou independência, trabalhando durante as férias de Verão, incluindo como guia no aeroporto, para garantir alguma autonomia financeira e alcançar objectivos pessoais, como tirar a carta de mota sem depender dos pais. Hoje utiliza a mota como meio de transporte para o Parlamento. Antes de ingressar na política a tempo inteiro desempenhou funções como director de recursos humanos na EMEL. Em 2001 foi eleito para a Assembleia de Freguesia do Forte da Casa, tendo posteriormente passado pela Assembleia Municipal de Vila Franca de Xira como suplente. Militante de longa data do Partido Social Democrata (PSD), cresceu num ambiente familiar politizado que despertou o seu interesse pela vida pública. Entre as suas referências políticas destacam-se Francisco Sá Carneiro e Pedro Passos Coelho.
Foi eleito deputado pela primeira vez em 2024, marcando o seu primeiro contacto directo com o Parlamento. Destaca o contexto político actual como particularmente exigente, devido à fragmentação parlamentar, que obriga a um equilíbrio constante entre diálogo, negociação e firmeza de convicções.
Em Fevereiro assumiu a presidência da distrital do PSD em Lisboa, encarando o cargo como um grande desafio. Defende que o partido, estando no Governo, deve manter uma ligação próxima com a sociedade, sobretudo nas áreas urbanas e periféricas, onde problemas como a habitação, a saúde e a educação se manifestam com maior intensidade. “Temos a obrigação de não falhar ao país”, afirma a O MIRANTE.
É casado e pai de uma filha de 9 anos, a quem dedica grande parte do tempo livre. Apaixonado por viagens, destaca os Estados Unidos da América como o destino que mais o marcou. Adepto de futebol, assume-se como um homem realizado e feliz, cujo maior desejo é garantir um futuro próspero para a filha. Entre os locais que mais aprecia no concelho de VFX está a zona ribeirinha de Alhandra, que considera um espaço de grande encanto. Diz ser leitor regular de O MIRANTE, por onde sabe dos principais assuntos que acontecem na sua terra.

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