Carlos Tavares: “Portugal está a tentar andar para a frente mas tem o travão de mão puxado”
A viver na Póvoa de Santarém, depois de uma carreira internacional de topo na indústria automóvel, Carlos Tavares olha para Portugal sem complacência. Na primeira parte desta entrevista a O MIRANTE fala da burocracia como “um cancro”, critica a fragmentação do poder, a cultura do bloqueio, a falta de meritocracia e a incapacidade do país para dar perspectiva aos jovens.
Defende menos regulamentos, energia mais barata, um código do trabalho orientado para a criação de riqueza e uma economia menos dependente do turismo. Pelo meio fala da TAP, da Europa, dos construtores chineses, da sua vida em França, no Japão e nos Estados Unidos, da infância em Lisboa, da relação com o trabalho e da escolha da Póvoa de Santarém para viver e, como diz sem pudores, envelhecer. Esta conversa foi realizada no Centro de Solidariedade Social Nossa Senhora da Luz, onde Carlos Tavares lançou recentemente a sua autobiografia.
Carlos Tavares é uma das figuras mais influentes da indústria automóvel europeia nas últimas décadas. Nascido em Lisboa, em 1958, filho de um contabilista ligado a uma seguradora francesa e de uma professora de francês, cresceu num ambiente em que disciplina, estudo e abertura internacional tiveram um peso muito importante. A paixão pelos automóveis surgiu cedo: aos 14 anos, num dia de portas abertas no Circuito do Estoril, descobriu o automobilismo e ficou fascinado por um universo que mais tarde definiria a sua carreira. Estudou no Liceu Charles-Lepierre, em Lisboa, e mudou-se para França aos 17 anos para prosseguir os estudos em matemática, formando-se depois em engenharia na École Centrale Paris, em 1981.
Esse percurso académico sólido ajudou a moldar um perfil conhecido pelo rigor, pela exigência e pela capacidade de decisão. Ao longo da carreira, Carlos Tavares destacou-se em grandes grupos automóveis franceses, passando pela Renault e pelo Grupo PSA, até se tornar um dos nomes centrais na reorganização do sector. Em 2021, assumiu o cargo de primeiro director-geral da Stellantis, grupo criado pela fusão entre a PSA e a Fiat Chrysler Automobiles. A sua imagem pública ficou associada a uma liderança intensa, orientada para resultados, eficiência e metas ambiciosas. Além da actividade executiva, integrou conselhos de administração como o da Airbus. Em 2024, deixou o cargo de CEO da Stellantis, encerrando uma etapa marcante da sua trajectória. É casado e pai de três filhas.
Tem criticado muito a burocracia portuguesa. Onde está o problema? A minha análise, que obviamente pode ser contestada, é simples: houve, a dada altura, a vontade de empurrar as responsabilidades para baixo, talvez numa tentativa de combater a corrupção. O resultado foi o contrário do desejado. O poder ficou completamente fragmentado. Hoje temos um número muito importante de entidades que funcionam como silos, sem comando transversal, sem coordenação real, sem alguém que possa arbitrar e dizer “avança-se por aqui”. Nessa dinâmica de pôr a responsabilidade cá em baixo, deixou de se aceitar que as hierarquias façam o seu trabalho. Cada um ficou com o seu pequeno poder. E cada um levanta-se de manhã para exercer esse pequeno poder, enquadrado por regulamentos europeus, nacionais, regionais, municipais, administrativos, sectoriais, o que quiser. O resultado é que o sistema deixa de funcionar. Quando se monta uma sociedade assim, entra-se numa lógica em que todos parecem estar ocupados, todos parecem trabalhar muito, todos parecem estar a cumprir, mas o país não anda.
A digitalização não resolve o problema? Não. A digitalização, quando muito, é uma camada por cima do resto. Não trata a burocracia. Só cria, muitas vezes, um obstáculo suplementar para uma parte da população que não tem a educação digital necessária. Estou a pensar sobretudo nas pessoas mais idosas, mas não só. Por baixo dessa camada digital, o mil-folhas da burocracia continua lá todo. Continua intacto. O formulário passa a ser online, a senha passa a ser digital, o portal substitui a repartição, mas a selva burocrática continua exactamente a mesma. Digitalizar uma má organização é só fazer uma má organização em versão electrónica.
É preciso redesenhar o Estado? Acho que devia haver uma sessão parlamentar completa dedicada ao cancelamento de regras e de leis. Estamos a abafar a sociedade portuguesa. A sociedade portuguesa está quase totalmente imobilizada por excesso de burocracia e por excesso de regulamentação. Os deputados deviam entrar numa sessão com 9.822 leis, regras e regulamentos e sair de lá tendo abatido mil. Mil passariam de leis e regulamentos para recomendações de comportamento cívico. Recomendações, não imposições. Porque o país está transformado num território onde as administrações do Estado andam a caçar coimas, a verificar formalidades mínimas, a criar afastamento entre a população e o aparelho do Estado. Isso não serve a coesão do país, serve o bloqueio.
Também costuma dizer que Portugal é “o país do quase”… Aí entramos noutra dimensão, que é a do rigor e a do rigorismo. Acho que em Portugal há uma confusão semântica enorme entre as duas coisas. O rigor é fazer o que é necessário, bem feito. O rigorismo é a aplicação cega de um conjunto de regras, mesmo que isso imobilize algo de bom durante um tempo infinito. Essa diferença é mal compreendida num país de alta intensidade burocrática. Enquanto não estiverem todos os papéis, não se faz. Mas o último papel que falta pode ser uma coisa sem importância nenhuma. Só que é esse papel insignificante que está a impedir que se faça a coisa certa. É assim que o rigorismo paralisa o rigor. O país está a perder o amor pelo trabalho bem feito. Eu posso estar a ficar velho e a achar que antes era melhor. Mas a verdade é que, tendo várias microempresas em Portugal, em áreas muito diferentes, não sinto esse amor pelo trabalho bem feito. Também se nota no respeito pelos prazos. Em Portugal o valor do tempo é quase zero. Não há compromisso de prazos em lado nenhum.
Isso explica o crescimento fraco do país? Explica uma parte importante, sim. Nós somos um país em que as pessoas têm a impressão de trabalhar muito. Fale com os portugueses e quase todos dirão que trabalham imenso. E provavelmente trabalham dez horas por dia, o que já é muito. O problema é que nessas dez horas têm sete horas de burocracia e três horas de criação de valor. São pagos pelas três horas de criação de valor, não pelas sete de burocracia. E depois sentem-se mal pagos. É normal. Se invertermos a lógica e passarmos a ter sete horas de criação de valor e três horas de burocracia, o país andava para a frente. O problema é que hoje temos um carro com um motor a trabalhar, toda a gente a empurrar, mas com o travão de mão puxado.
Disse que, ou nos adaptamos ao mundo, ou vamos perder o nosso modo de vida. Está mesmo assim tão grave? Estamos a empobrecer relativamente ao resto do mundo. Isso é mais do que óbvio. Quando se olha para o crescimento global e se compara com o crescimento europeu, vê-se logo onde está o problema. Há zonas do mundo que crescem muito mais do que a Europa. A Ásia cresce mais, os Estados Unidos crescem mais em vários momentos, e a Europa vai ficando para trás. Se estamos num mundo que cresce 2% ou 3% e a Europa cresce 1%, isso quer dizer que, em termos relativos, estamos a empobrecer. Os europeus vivem na ideia de que o modelo social é protegido pelo Estado. Isso é falso. O Estado não protege coisa nenhuma se não houver criação de riqueza. O que protege o modelo social é a riqueza criada pelas pessoas e pelas empresas. O modelo social custa caro. E não estou a criticar isso. Estou apenas a dizer que, se queremos manter um modelo social desta qualidade, temos de criar mais riqueza. A função do Estado devia ser precisamente largar o travão de mão.
Essa é também uma crítica à forma como o país fala com as pessoas? Não estamos a dizer a verdade às pessoas. Esse é um problema central. As pessoas não estão a ser preparadas para perceberem o que está em causa. Deviam ouvir com clareza que a nossa burocracia e a nossa tecnocracia estão a consumir recursos raros, tempo, energia, capital humano e dinheiro, e que isso impede a criação de riqueza. E que, ao impedir a criação de riqueza, está a destruir o próprio modelo social que tantos dizem querer preservar.
Já falou na ambição de Portugal poder ser a “Califórnia da Europa”. O que falta para isso deixar de ser só uma metáfora? O ponto fundamental é perceber porque é que os nossos jovens diplomados não ficam em Portugal. Fui à Universidade de Coimbra falar sobre inovação e podia ter feito o discurso fácil sobre inteligência artificial, tecnologia, empreendedorismo e por aí fora. Mas não estou interessado na inovação em si. Estou interessado no propósito da inovação. Para que servem as cadeiras de inovação numa universidade? Servem para dar mais trunfos aos jovens diplomados, para que a sua competência, a sua perícia, o seu diploma, sejam comprados pelas empresas. O problema é que estamos a fazer tudo isso para quê? Para que, logo que tenham o diploma na mão, os jovens saiam do país. É esse o absurdo. Estamos a formar talento com bom nível, que os outros querem comprar, mas não estamos a criar em Portugal condições para que esse talento veja aqui uma perspectiva de vida linear, progressiva, com futuro.
O problema é falta de talento, fuga de talento ou incapacidade de transformar talento em indústria? É sobretudo o terceiro ponto. Os jovens saem da escola com um nível de educação que, felizmente, é suficientemente bom para ser comprado lá fora. Mas não vêem em Portugal uma perspectiva de vida. Vêem bom tempo, segurança aceitável, praias, qualidade de vida, cerveja numa esplanada, tudo isso. Mas não vêem uma trajectória de progresso. Sabem que o país está esmagado pela burocracia. Sabem que há uma nação de favores e de cunhas. Sabem que o código do trabalho não funciona bem. Sabem que as empresas têm dificuldade em oferecer carreiras sólidas. Sabem que há corrupção de influência. Sabem tudo isso. E portanto concluem que Portugal pode ser um bom sítio para passar férias mas não para construir uma vida.
Somos um país de cunhas
E em termos de modelo económico? Tem defendido que o turismo não devia ultrapassar um certo peso… Acho que temos um problema de excesso de dependência do turismo. Uma coisa é reconhecer a importância estratégica do turismo. Outra é permitir que se torne excessivamente dominante. Eu diria que temos de ter uma indústria entre 15% e 20% do PIB e um turismo abaixo dos 40%. Para mim, até 30% já começa a ser perigoso. Porquê? Porque se houver uma crise externa, sanitária, geopolítica, um atentado, uma instabilidade internacional, como se viu noutras regiões do mundo, isso cai logo. Uma economia demasiado dependente do turismo fica vulnerável de um dia para o outro. É preciso diversificar o “footprint” do PIB. Indústria, serviços, turismo, exportações.
O país tem muitas empresas pequenas. Falta escala? Falta, sem dúvida. Em Portugal temos essencialmente dois tipos de grandes estruturas: empresas do Estado e empresas estrangeiras. Tudo o que é realmente grande ou é do Estado ou é estrangeiro. Depois temos as micro e pequenas empresas portuguesas. Não se oferece uma carreira de 30 anos numa empresa muito pequena. Isso é uma dificuldade objectiva. Eu próprio tenho uma empresa de engenharia automóvel e vou buscar engenheiros à saída do Técnico. Ficam connosco, adoram o que fazem, aprendem muito, são felizes durante cinco anos. Mas ao fim de cinco anos a empresa já é pequena de mais para lhes oferecer aquilo de que precisam.
Quais seriam então as prioridades para libertar a economia? Para mim, são muito claras. Primeiro: energia. Temos de ter um custo de energia para as empresas entre os mais competitivos da OCDE, idealmente no pódio dos mais baixos. Segundo: um código do trabalho orientado para a criação de riqueza e para a meritocracia. Não para a protecção sistemática daqueles que fazem menos em detrimento dos que fazem mais. Meritocracia não quer dizer exploração. Quer dizer que quem produz mais, quem se empenha mais, quem cria mais valor, deve ser melhor remunerado. Isso parece uma banalidade, mas em Portugal ainda é dito em voz baixa. Terceiro: administrações do Estado ao serviço do desenvolvimento económico e não ao serviço da receita fiscal. Este ponto é absolutamente central. Quarto: combater a corrupção de influência, o país das cunhas. E a melhor forma de fazer isso é reduzir a fragmentação do poder.
Os jovens percebem isso tudo? Percebem perfeitamente. Sabem que isto é um país de cunhas. Sabem que há corrupção de influência generalizada. Sabem que o código do trabalho não é incitativo à meritocracia. Sabem que é difícil dizer-se em voz alta que se quer ganhar dinheiro, enriquecer, criar valor, crescer. Se queremos que eles fiquem, temos de lhes dar perspectiva. E essa perspetiva não se cria com pequenos programas de ajuda. Cria-se tirando travões.
A má governação europeia
Na indústria automóvel, tem dito que os fabricantes chineses podem tornar-se os “salvadores” da indústria europeia. Parece uma provocação... Não é uma provocação, é uma consequência lógica daquilo que foi mal decidido em Bruxelas. E isso entristece-me muito, porque mostra um problema grave de má governação europeia. Não é o sonho europeu que está errado. É a forma como ele está a ser governado que o está a destruir. Tudo isto começa com o escândalo da Volkswagen em 2015. Aquilo foi muito habilmente comunicado como “Dieselgate”, mas na verdade era um “Volkswagen gate”. Foi vivido pelos líderes políticos europeus como um insulto, com alguma razão, porque a batota era grosseira. O problema é que, em vez de baterem na Volkswagen, generalizaram a resposta a toda a indústria. E aí falharam os três pilares da governação europeia. Em vez de fixar objectivos ambientais severos e deixar a indústria encontrar a melhor solução tecnológica, decidiu a tecnologia. Disse: vão fazer carros eléctricos. Isso é uma regulamentação não neutra tecnologicamente, e é uma burrice.
E que consequências teve? Enormes. Já se queimaram, grosso modo, 70 mil milhões de euros. E ninguém pede responsabilidades a quem tomou essas decisões. Mas o mais grave é outro ponto: obrigou-se a indústria automóvel europeia a entrar num campeonato para o qual a China se preparou durante vinte anos. É como pegar num campeão mundial de hóquei em patins e dizer-lhe: agora vais disputar a NBA e vais ganhar. Não vai. Foi isso que a Europa fez à sua própria indústria automóvel. A China tem um modelo social menos dispendioso. Isso permite-lhe fabricar carros eléctricos com uma vantagem de custo muito importante face à Europa. Com esse diferencial, os construtores chineses conseguem vender na Europa carros eléctricos ao preço dos carros térmicos. E é precisamente isso que a classe média quer: um eléctrico ao preço do térmico e uma rede de carregamento densa. Não quer pagar muito mais só por virtude. Se os chineses chegam a 10% do mercado europeu, estamos a falar de 1,5 milhões de carros. Isso representa a perda de actividade equivalente a dez fábricas europeias. Estamos a transferir aparelho industrial europeu para os chineses como consequência de uma regulamentação errada.
E a Stellantis estava preparada para essa transição? Estava. Havia um plano estratégico, validado, decidido e em execução, focado na redução das emissões. O problema é que o “board” não quis executar esse plano com coerência. E foi uma das razões pelas quais eu me fui embora. Não aceitei a incoerência.


