Entrevista | 28-04-2026 07:00

“As intempéries deixaram Arruda dos Vinhos de joelhos e vamos demorar a recuperar”

“As intempéries deixaram Arruda dos Vinhos de joelhos e vamos demorar a recuperar”
TRÊS DIMENSÕES
André Agostinho foi um dos fundadores do festival de cinema Curt’Arruda, uma referência do concelho de Arruda dos Vinhos - foto O MIRANTE

André Agostinho, 37 anos, é natural de Arruda dos Vinhos e estudou no concelho. Foi eleito nas últimas autárquicas para ser vereador na Câmara de Arruda dos Vinhos, com uma postura pragmática e discreta.

Tem um perfil marcado por uma forte ligação às artes, ao desporto e à comunidade. Desde cedo revelou interesses criativos e uma disciplina pessoal que o levou a formar-se na área. Profissionalmente, construiu carreira na área técnica audiovisual, com experiência em iluminação, direcção de fotografia e realização, mantendo uma relação prática e sensível com a criação artística. Fundou projectos culturais em Arruda dos Vinhos, valoriza a cultura como pilar essencial da sociedade e defende maior investimento no sector.

No ensino secundário segui artes visuais porque achava que queria ser artista plástico. Também pensei em seguir bailado contemporâneo. Sempre tive muitos sonhos e vontades ligadas às artes e ao desporto. Sempre pratiquei muito desporto e um dos meus sonhos quando era miúdo era ir aos Jogos Olímpicos. Só que a modalidade que praticava e gostava mais, o kenpo, não era modalidade olímpica, por isso acabei por não seguir esse desporto profissionalmente.
Na parte final do secundário, já na transição do 11º para o 12º, é que decidi que queria estudar cinema. Isto depois de conversar com um amigo que já estudava cinema e trabalhava no meio. Foi uma decisão tardia mas que mudou a minha vida. Sempre gostei muito de ver os Making Of dos filmes, às vezes mais do que os próprios filmes, e isso despertou em mim a vontade de querer estar do outro lado das câmaras. Quando fui estudar cinema não tinha um grande conhecimento da história do cinema, dos filmes, do que era isto de realizar. Fui-me apaixonando e quando entrei na faculdade obriguei-me, durante todos os dias dos três anos de curso, a ver um filme por dia. Vi muita coisa, novos, antigos, sobretudo os clássicos, que fizeram parte da história do cinema. Até os filmes a preto e branco, que era algo que eu dizia não gostar e passei a adorar.
Entretanto entrei na RTP, onde trabalho há 15 anos, como técnico de iluminação. Sou a pessoa responsável pelo desenho de luz dos programas, algumas peças de teatro ou concertos, galas, etc... Também fiz a direcção de fotografia de alguns programas. Cheguei a realizar alguns filmes, que estiveram em festivais de cinema, alguns ganharam prémios. Era algo que gostava e gosto muito de fazer. Espero voltar a ter tempo para o fazer. Com esta missão autárquica é algo que, para já não, dá para conciliar.
Esta é a minha primeira vez na política. Confesso que nunca tinha pensado em estar num cargo deste género. Sempre fui alguém com uma participação muito activa na comunidade, em Arruda dos Vinhos, através da criação de um festival de cinema, o Curt’Arruda, do qual fui um dos fundadores, e mais tarde também criei uma associação cultural na vila, a Cultura Degrau. Nesse aspecto já tinha um papel político, porque tudo aquilo que fazemos em sociedade acaba por ter essa índole política. Sempre fui uma pessoa com uma voz bastante activa e crítica no concelho. Não partidária, mas política. Acabei por ser eleito agora como independente na lista do PS. A política está em tudo o que fazemos.
Andamos sempre a lutar pelos pouco financiamento que existe e por aquele 1% do orçamento do país para a cultura. Essa falta de financiamento crónica tem muito a ver com os anos em que passámos em ditadura, com as portas fechadas para a experimentação, para o conhecimento, para esta aprendizagem colectiva em torno das artes. Acabámos por ficar muito moldados e por não ter mundo nem horizonte. Quando estamos mal é na cultura que nos refugiamos. Veja-se o que aconteceu na pandemia, quando toda a gente se refugiou nos livros, nos filmes, na cultura e nas artes. Isso salvou-nos de consultas no psicólogo e no médico. Há certos médicos que dizem mesmo que o ideal é prescrever aos pacientes uma ida ao teatro ou uma ida a um concerto. Por isso é tão importante investir na cultura.
Quando o presidente, Carlos Alves, me desafiou para vir para o executivo não aceitei logo. Ainda demorei três a quatro meses a decidir. Sei que ainda é cedo e que há pessoas que querem ver já resultados da minha chegada, mas isso demora algum tempo. Quero dar o máximo de ferramentas e estar o mais perto possível das associações e, nesse sentido, é um trabalho que vai demorar algum tempo. Ainda me sinto um virgem dentro do mundo político. Há coisas em que percebo que são jogos políticos e questões de poder. Tento ignorar algumas dessas questões. Estou aqui com uma missão para Arruda dos Vinhos e é nisso que estou focado, para daqui a quatro anos sair deixando o concelho um pouco melhor do que como o encontrei.
Começámos este mandato com o problema das intempéries, que mudaram muitas das coisas que tínhamos previsto fazer em termos de orçamento. Inclusive cortes que não tínhamos planeado. As intempéries deixaram Arruda dos Vinhos de joelhos e vamos demorar meses a recuperar. Foi algo que nunca nos tinha acontecido com esta dimensão. Não me recordo de alguma vez ter assistido a uma desgraça tão grande em Arruda e as despesas serem tão grandes. Estamos de joelhos perante a inoperacionalidade do Governo, com apoios financeiros que deviam ser mais rápidos a chegar. As vidas das pessoas continuam em suspenso, são mais de 50 pessoas que ficaram sem casa.
Os meus dias favoritos da semana são as sextas e os sábados. Gosto sempre de pensar que vou conseguir descansar aos domingos. Poucas coisas me irritam, sou uma pessoa bastante paciente, calma e compreensiva. Mas às vezes a falta de compromisso e de responsabilidade irrita-me. Gosto muito de ver jogos de ténis e patinagem artística. Tenho três cineastas de eleição na minha vida: o Andrei Tarkovsky, um realizador russo; o Béla Tarr, realizador húngaro; e o Ingmar Bergman. Gostava de criar em Arruda dos Vinhos uma cidade do cinema e criar uma espécie de Via Verde para o cinema nacional, para chamar para o concelho mais cineastas e a produção nacional.
O melhor de Arruda é esta paz que nós conseguimos encontrar e esta tranquilidade. Podermos parar e contemplar o nosso vale. O pior é talvez o facto de muitas pessoas ainda não comparecerem nos eventos que se vão fazendo por cá. Os arrudenses precisam de acreditar que a sua terra tem valor e tem iniciativas de valor como em qualquer outro lugar. Os projectos quando são implementados demoram muito tempo até as pessoas ganharem essa confiança, por isso acho que as pessoas têm de acreditar mais na nossa comunidade.
Gostava muito de viajar e ir a certos museus e galerias que fazem parte do meu imaginário de infância, como o MoMA em Nova Iorque, e conhecer alguns dos restaurantes dessa cidade. Os meus pais tinham um restaurante eu cresci num restaurante. Durante 27 anos vivi num restaurante e também tenho uma grande paixão por gastronomia. Cheguei a ajudar bastante a servir nos fins de semana, durante a minha adolescência. Isso ajudou-me a perceber o que é ter um negócio de família. Ajudou-me a perceber a questão da responsabilidade.
Nunca pensei em sair de Arruda. Gosto demasiado da vila e é o meu cantinho. Gostava muito que no fim do mandato conseguíssemos ter uma Arruda mais cultural. com mais associações com projectos enraizados de sucesso e com pessoas fidelizadas a fazer os seus projectos. Gostava de ter também clubes desportivos com modalidades onde os miúdos consigam ter a prática desportiva de uma maneira regular e rigorosa. Espero que consigamos melhorar os nossos complexos culturais e desportivos.

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