Entrevista | 02-05-2026 15:00

Nuno Mira: “Estou casado com a Câmara Municipal da Chamusca”

Nuno Mira: “Estou casado com a Câmara Municipal da Chamusca”
Nuno Mira defende uma gestão mais próxima das pessoas e admite que alguns dos principais dossiers do concelho só terão solução nos próximos anos

Seis meses depois de tomar posse como presidente da Câmara Municipal da Chamusca, Nuno Mira diz que o novo ciclo prometido tem de se traduzir em empatia, proximidade e capacidade de resolver problemas concretos.

Nesta entrevista a O MIRANTE, o autarca fala dos dossiers mais difíceis que herdou: as piscinas municipais, o arquivo municipal, o mercado, o centro de saúde, a requalificação urbana, a habitação, o Ecoparque do Relvão e a ponte da Chamusca. Assume críticas a obras que considera mal planeadas, admite que algumas soluções só chegarão em 2027 e defende uma gestão mais próxima dos serviços e das populações. Também fala da juventude e da vida pessoal sacrificada pelo cargo que diz desempenhar com muita vontade de fazer a diferença.

Nuno Mira é presidente da Câmara Municipal da Chamusca, eleito pelo Partido Socialista nas autárquicas de 2025, tendo sido o candidato mais votado no concelho com 1784 votos. Na tomada de posse apresentou-se como “um homem em missão”, prometendo uma governação assente na empatia, na honestidade e na proximidade, mas também intransigente quando necessário. Licenciado e mestre em Gestão, passou pela Assembleia de Freguesia, pela Assembleia Municipal, pelo gabinete de apoio ao anterior presidente da câmara, pela RSTJ e pela Comunidade Intermunicipal da Lezíria do Tejo. É o presidente de câmara mais jovem da região ribatejana, com 35 anos. Hoje, sentado na cadeira da presidência, diz que o poder local só faz sentido se estiver perto das pessoas e dos seus problemas. Nuno Mira considera que, sobretudo no último mandato, se perdeu ligação entre o município e a população. O novo executivo quer, por isso, recuperar essa relação.

O que o anunciado novo ciclo tem de diferente em relação ao que vinha de trás? As duas palavras que mais caracterizam são empatia e proximidade. Isso é essencial em qualquer político que faça do trabalho no poder local a sua missão. Se nós não tivermos empatia com os problemas do dia-a-dia da população, não somos chamados a pensar como é que os conseguimos resolver. E se não formos próximos das pessoas, também acabamos por não ter conhecimento desses problemas. A proximidade serve para conhecer os assuntos e a empatia serve para termos a vontade de os resolver. As outras partes mais técnicas vêm depois.
É o presidente de câmara mais jovem da região. É uma vantagem ou fonte de desconfiança? Quando iniciei a candidatura não senti desconfiança das pessoas que me conheciam. Pelo contrário. Mas, das pessoas que não me conheciam, houve alguma desconfiança. Creio que conseguimos, com trabalho, proximidade e diálogo, mostrar que não havia razões para essa desconfiança. Hoje, para a exigência do trabalho autárquico, das muitas horas por dia e da disponibilidade total, acho que a juventude é uma vantagem.
Tem 35 anos, não é casado e não tem filhos. Alguma vez se arrepende por ter um cargo que lhe condiciona a vida pessoal? Não. Neste momento a minha prioridade é o município. No fundo acabei por casar com a câmara municipal. Se me perguntarem se imaginava, aos 35 anos, estar solteiro e sem filhos, não imaginava. Mas a vida nem sempre corre como esperamos. Temos de aceitar as circunstâncias. Neste momento estou completamente casado com a Câmara Municipal da Chamusca.
O mercado municipal foi requalificado, mas continua sem a dinâmica prometida. O que pensa fazer? Tendo em conta a requalificação que foi feita, está à vista que o mercado não teve a dinâmica esperada. Creio que isso se deve muito à concepção do espaço. Estamos a falar de lojas muito pequenas, onde é difícil os lojistas conseguirem desenvolver a sua actividade económica, e de duas ilhas que se pretendia que fossem de restauração, mas que acabam por não ter condições para isso. Ultimamente têm acontecido algumas actividades ao fim-de-semana no mercado e isso surgiu também porque algumas pessoas começaram a utilizar mais o espaço. Existe um grupo, que poderá vir a constituir-se como associação, os Amigos do Mercado.
O novo arquivo municipal tornou-se um dos investimentos mais controversos do concelho. Afinal, para que vai servir? O arquivo municipal vai ter principalmente duas vertentes. A primeira é a parte do arquivo propriamente dito. Era necessário um espaço para guardar o arquivo da câmara, que está espalhado por vários locais e a deteriorar-se. Neste momento já estamos a tratar do procedimento necessário para ir buscar os documentos, limpá-los, prepará-los e colocá-los no arquivo municipal. Depois há outra vertente, que é a questão do núcleo museológico. Temos de encontrar, em termos museológicos, aquilo que fará mais sentido expor ali para a população. Vamos ter um arquivo muito bem equipado e estará aberto às escolas para desenvolverem actividades.
As piscinas municipais continuam fechadas há cerca de seis anos. Já admitiu que aquela obra envergonha o município. O que falhou? O nosso principal interesse é terminar a obra. Estamos a falar da segunda fase. Houve uma primeira fase, que foi a requalificação dos balneários, depois entrou-se numa segunda fase, que é a piscina interior, e já dei indicação aos serviços para começarmos a tratar da terceira fase, que será a piscina exterior. Creio que o que faltou principalmente foi a ligação entre a primeira e a segunda fase. Deparei-me há pouco tempo com o facto de a energia projectada para o equipamento funcionar não servir. Desde que sou presidente de câmara já houve mais reuniões entre fiscais da obra, serviços técnicos, empreiteiro e projectista do que houve desde que a obra começou.
Quando poderão abrir? Sinceramente, não acredito que as piscinas estejam abertas no início do próximo ano lectivo. Com muita pena minha, aponto para que a segunda fase esteja em funcionamento em 2027.
Acha que a Chamusca precisava de uma obra daquela dimensão? Naquele sítio, não. Creio que, em termos paisagísticos, era considerada uma zona nobre da Chamusca e um edifício daquele tamanho não se adequa ao espaço. Mas, como já está a ser construído, agora não há nada a fazer. Temos de trabalhar com aquilo que temos e garantir que a obra termina e que o edifício fica ao serviço da população.

Saúde, escola e requalificação urbana

O novo centro de saúde custou milhões e foi apresentado como solução para os problemas da saúde. Mas as queixas continuam… A principal questão é a falta de médicos. Não é só um problema do concelho da Chamusca. É um problema de todos os territórios do interior. Neste momento temos três médicos e meio. O ideal seria termos os cinco. Já falei com o doutor César e pedi-lhe para procurar activamente médicos que queiram vir para o concelho da Chamusca. Da nossa parte, estamos disponíveis para oferecer aquilo que for necessário, dentro do bom senso.
Dois anos depois da inauguração, o município ainda não tinha a posse do edifício. Continua sem ter? Continuamos sem ter a posse do edifício. Neste momento fazemos a gestão dos funcionários, mas o edifício ainda não é nosso. Isso acarreta sempre alguns problemas. Deve-se essencialmente ao facto de a entidade detentora do espaço ter sido extinta. Há aqui questões jurídicas na transferência do edifício, mas creio que neste momento as coisas já estão a ser encaminhadas.
A requalificação da Escola Básica e Secundária da Chamusca ainda não está concluída? Ainda não está formalmente, mas está praticamente concluída. A obra ainda não foi entregue. Os pavilhões estão em funcionamento, faltam alguns equipamentos e falta rever algumas situações no âmbito da obra. Foi uma intervenção extensa e já há locais com alguma deterioração.
Justifica-se um investimento desses quando a escola tem perdido alunos? A desertificação combate-se com investimento. Se não investirmos nos territórios do interior, eles ficam cada vez mais desertificados. Se queremos dar boas condições aos alunos e às populações para viverem nos territórios do interior, temos de ter infraestruturas de qualidade e promover boa qualidade de vida. Perdemos cerca de 16% da população entre 2011 e 2021, cerca de 1500 pessoas. Mas acredito que nos próximos anos vamos conseguir estabilizar e até inverter esta tendência.
As obras de requalificação urbana geraram muitas queixas. Que opinião tem? Não concordo com a requalificação urbana nos termos em que foi feita. Somos uma vila do interior. Quando se fala de regeneração urbana, há uma lógica de grandes cidades, como Pontevedra, de retirar carros do centro para devolver a cidade às pessoas. Essa questão não se coloca da mesma forma numa vila do interior. Não precisávamos de passeios mais largos, não precisávamos de retirar estacionamento, não precisávamos de cortar vias. Isso pode dificultar ainda mais a vida ao comércio local.

Ponte, IC3 e Ecoparque do Relvão

A ponte da Chamusca continua no centro das preocupações regionais. Qual deve ser a estratégia política? A estratégia política tem de ser fazer pressão constante sobre os governantes para que o assunto nunca fique esquecido. Mas não é um concelho sozinho, nem um presidente de câmara sozinho, que conseguirá levar esta demanda a bom porto. É muito importante envolver outros concelhos e as comunidades intermunicipais. Neste momento, a conclusão do IC3 já foi declarada obra prioritária pelo Governo e foi lançado um concurso público de 1,4 milhões de euros para o estudo e projecto. Mas sabemos que isto não é uma solução de curto prazo. O estudo e projecto terão uma execução superior a 400 dias e depois há a avaliação de impacto ambiental. Tudo isto vai demorar.
O remendo feito na ponte não foi gozar com quem trabalha e passa ali todos os dias? Acho que as Infraestruturas de Portugal já deviam ter resolvido o assunto. Estamos a criar mais um problema dentro de um problema que já existia.
Ecoparque do Relvão. A Chamusca ganhou ou paga um preço demasiado alto pela sua instalação? Em termos económicos, claramente o concelho da Chamusca ganha em ter o Ecoparque do Relvão. A questão é que, quando o Ecoparque se efectivou, foram prometidos acessos ao concelho, como o IC3, que não se materializaram. O Ecoparque é uma mais-valia em termos financeiros e de criação de postos de trabalho. Mas também há aspectos negativos: deterioração das estradas, insegurança, circulação de camiões com resíduos, muitos deles perigosos, e impacto ambiental. Esse impacto vai existir sempre e tem de ser minimizado e controlado ao máximo.

Habitação, emprego e creches

Há cerca de 1500 casas abandonadas ou em ruínas e mais de 800 segundas habitações no concelho. O que pode o executivo fazer para pôr casas no mercado? Em primeiro lugar, temos de criar condições fiscais. A Área de Reabilitação Urbana da Chamusca caiu no Verão do ano passado. Neste momento não existem essas condições fiscais vantajosas para as pessoas investirem na regeneração da Chamusca. Estamos a trabalhar para que isso seja reforçado e queremos alargar a zona da ARU. Depois, antes de avançarmos com grandes planos, temos de resolver aquilo que o município tem. A câmara tem casas fechadas há vários anos e a população precisa de casas. Existem 13 apartamentos que neste momento são do IHRU. Foi feito um protocolo para o município avançar com a sua requalificação. Estiveram sempre fechados e precisam de requalificação.
Na campanha colocou várias áreas no centro das prioridades. Em quais aceita ser mais cobrado no final do mandato? Em todas. Mas há duas que são claramente as mais difíceis: a habitação e o emprego. As pessoas só se fixam se tiverem habitação ou emprego.
Como é que um concelho com cinco freguesias e cerca de oito mil habitantes só tem uma creche? Estamos a trabalhar nisso. Já dei indicação aos serviços e é uma das coisas que constava no orçamento. Queremos iniciar este ano o projecto de uma creche na Carregueira, que é a segunda maior freguesia do concelho. Depois, mais tarde, pensaremos se há necessidade de outra resposta na zona sul.
Falou recentemente na baixa taxa de execução do orçamento do ano passado. Onde vê os maiores riscos no orçamento deste ano? Fui criticado pelo anterior presidente de câmara, hoje deputado municipal, por o orçamento ser pouco ambicioso. E respondi-lhe que não me interessa fazer um orçamento para dizer que é o maior orçamento de sempre se depois tiver uma taxa de execução baixíssima. Temos de ter orçamentos o mais realistas possível. Este ano tivemos ainda um problema enorme com as tempestades. Estamos com muita urgência a resolver problemas, principalmente na freguesia da Parreira e Chouto, onde as pessoas estão a sofrer muito com estradas cortadas.

Relação com juntas, associações e serviços municipais

Que relação deve existir entre câmara e juntas? Enquanto presidente de câmara, vou procurar sempre ter uma boa relação com todos os presidentes de junta. Os presidentes de junta e os seus executivos têm de ser tratados todos por igual. Neste momento temos uma excelente relação com todas as juntas de freguesia, independentemente de serem ou não do Partido Socialista. Não há qualquer diferença em termos de relação institucional.
E com o tecido associativo? O município tem de valorizar o papel das associações e apoiá-las. As pessoas que dedicam tempo pro bono a uma causa têm de sentir que esse trabalho é valorizado por quem dirige os destinos do concelho. Voltamos à empatia e à proximidade. As relações pessoais, o respeito e a valorização das pessoas são muito importantes no trabalho autárquico.
Na tomada de posse disse que seria intransigente quando se justificasse. Como é que isso se materializa? Normalmente, pela minha forma de ser e de estar, consigo manter boas relações com as pessoas e não é necessário dar murros na mesa. Mas recordo, por exemplo, a questão das tempestades. Fui muito assertivo sobre o papel do Governo e sobre a resposta que estava a ser dada.
O que seria um fracasso quando deixar a presidência da Câmara da Chamusca? Quero que as pessoas reconheçam que tiveram um presidente de câmara que defendeu o concelho da Chamusca, defendeu os seus interesses e dignificou sempre, em todas as circunstâncias, o concelho e as suas gentes. Naturalmente, quero deixar o concelho melhor do que o encontrei. Qualquer político, quando sai, quer deixar trabalho feito e ter o reconhecimento da população para a qual trabalhou.
São poucos os presidentes de câmara com o gabinete tão arrumado. Tem pouco trabalho burocrático ou é muito organizado? Há várias razões. Tenho trabalho burocrático e sou organizado, mas também arrumei a secretária antes desta entrevista (risos).

O autarca reconhece falhas em obras estruturantes e aponta a habitação e o emprego como os maiores desafios do mandato - foto O MIRANTE

Aos ataques políticos responde-se com trabalho

Nuno Mira responde ao ambiente de crítica e ataque político de que tem sido alvo com uma palavra: trabalho. O presidente da Câmara da Chamusca considera que há “determinados grupos que ainda não aceitaram o resultado das eleições” e defende mais “maturidade democrática” no debate local. “As oposições devem fazer oposição. Oposições fortes contribuem para um melhor trabalho dos executivos, mas esse trabalho tem de respeitar as instituições, quem exerce cargos políticos e ser feito com verdade e boa fé”, afirma, recusando a política do “mandar abaixo”. Sobre a proximidade ao poder ser confundida com favoritismo, Nuno Mira é peremptório: “Neste momento não represento o Partido Socialista. Represento a Câmara Municipal da Chamusca”. O autarca diz ter sido eleito para trabalhar por todos, “por quem apoiou e por quem escolheu outras candidaturas”. Quanto a contratos e adjudicações, garante rigor no cumprimento da lei: “Não há favoritismos para ninguém. Tem de se cumprir a lei”.

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