Carlos Tavares: um olhar duro sobre o país a partir da Póvoa de Santarém
Instalado na Póvoa de Santarém, onde escolheu viver depois de uma carreira internacional de topo na indústria automóvel, Carlos Tavares fala de Portugal com a frontalidade de quem olha o país de fora há muitos anos, mas também com a atenção concreta de quem hoje participa no quotidiano de uma comunidade local. Na segunda parte da entrevista a O MIRANTE, o gestor defende a importância simbólica e estratégica de activos como a TAP, critica a captura burocrática da decisão política, alerta para o drama silencioso do envelhecimento. Faz ainda questão de começar pelo que está mais perto: a ligação à Póvoa de Santarém, ao Centro Social e à responsabilidade de não viver numa terra apenas como vizinho ausente, mas como parte dela.
Segunda parte de uma entrevista realizada por Bernardo Emídio
O que o levou a escolher a Póvoa de Santarém para viver? A razão é quase caricata, porque começou por ser muito prática. Quando era presidente da Stellantis passava a vida em aviões e precisava de estar a menos de uma hora de um aeroporto conveniente, fosse Lisboa, Tires ou Alverca. Esse era o primeiro critério. O segundo era encontrar uma propriedade com uma garagem grande, porque sou, assumidamente, um doente do desporto automóvel e precisava de espaço para os carros, as peças, os troféus, os livros, tudo isso. Encontrámos aqui essa combinação. Comprámos em 2019 e vivemos cá permanentemente desde 2022.
Mas a ligação à terra parece já ir além dessa escolha inicial. Sim, claramente. Uma pessoa pode instalar-se num sítio por razões práticas e depois decidir viver ali como mera presença física, quase sem criar laços. Não foi isso que quis fazer. Eu vivo aqui, conheço as pessoas, cruzo-me com elas, observo a realidade da aldeia e da freguesia. E achei que, estando aqui, tinha a obrigação moral de perceber como podia ser útil. Não fazia sentido estar instalado na Póvoa de Santarém e comportar-me como alguém que apenas dorme cá e depois desaparece para o seu mundo. Isso, para mim, seria uma forma errada de habitar um lugar.
Foi isso que o aproximou do Centro Social Nossa Senhora da Luz? Foi exactamente isso. Fui bater à porta para perguntar como podia ajudar. Não fiquei à espera de convite, nem acho que tivesse de ficar. Tenho consciência de que a sorte que tive, o trabalho que fiz, o percurso que construí, fazem de mim um privilegiado no contexto desta aldeia. E o privilégio traz responsabilidade. O mínimo que uma pessoa deve fazer é perguntar onde pode ser útil. Foi isso que fiz com toda a naturalidade.
O lançamento do seu livro na freguesia teve também essa intenção? Achei simbolicamente muito importante apresentar o livro aqui, e não num grande centro urbano, precisamente para não passar uma mensagem de distância ou até de desprezo em relação às pessoas com quem vivo todos os dias. Seria estranho viver aqui e depois ir procurar validação noutro lado, como se o território onde moro fosse apenas um cenário. Além disso, as receitas do livro revertem para a instituição, o que dá um sentido muito concreto ao gesto.
Foi distinguido como associado honorário. Tocou-o esse reconhecimento? O título em si, sinceramente, não me interessa por aí além. Não vivemos de títulos. Mas o acto, esse sim, é importante. Receber um reconhecimento vindo de quem trabalha todos os dias na instituição, de quem cuida dos outros, de quem conhece a realidade concreta da fragilidade humana, isso tem significado. Isso tocou-me, naturalmente. E o diploma está bem visível no meu gabinete, não por vaidade, mas porque me recorda uma coisa essencial: a forma como tratamos os mais velhos diz tudo sobre a qualidade moral de uma sociedade.
Um país que envelhece e uma máquina que bloqueia
Essa atenção às respostas para os mais velhos também ajuda a perceber a insistência com que fala das estruturas residenciais para idosos? Estamos perante um drama anunciado. Temos uma população a envelhecer num país que não cria riqueza suficiente para responder ao desafio. Hoje, colocar um familiar numa estrutura desse tipo pode custar entre 1.500 e 2.000 euros por mês. Quantas famílias conseguem suportar isso? Muito poucas. E, ao mesmo tempo, para criar novas respostas, a carga burocrática vai aumentando. Nem estou a falar apenas de dinheiro; estou a falar de obstáculos administrativos, de processos, de exigências sucessivas, de uma máquina que complica tudo.
Considera que o problema é mesmo de fundo? Estamos a construir uma divergência explosiva. Por um lado, temos mais envelhecimento. Por outro, temos menos capacidade de resposta. E, em cima disso, vamos colocando mais barreiras burocráticas a quem quer criar soluções. Depois, o próprio Estado manda fechar estruturas privadas ou informais porque não cumprem a norma X ou o regulamento Y, mesmo quando, na prática, até podem estar a prestar um serviço humano aceitável ou até bom. O resultado disto tudo é terrível: mais solidão, mais famílias sem saída, mais pessoas a envelhecerem sem apoio. Vamos ter pessoas a morrer sozinhas em casa.
Fala muitas vezes de coesão social e diz que ela também se faz em coisas pequenas. Quero dizer que a coesão não nasce apenas de grandes programas, de discursos ou de conferências. Faz-se também no quotidiano, em gestos mínimos que parecem insignificantes mas não são. Eu acredito muito no factor de 10%. É a palavra que se diz quando se entra num café, numa loja, quando se cruza alguém na aldeia, quando se vê um vizinho no tractor ou um pastor ao longe. Um “bom dia”, um aceno, um “como está?”. Isto custa muito pouco e, no entanto, funciona como óleo na caixa de velocidades da sociedade. O contrário é areia. Dou-lhe um exemplo gravíssimo: depois das intempéries, os mais altos responsáveis do país visitaram zonas destruídas, ficaram comovidos, como qualquer ser humano normal, e decidiram que, para reparar danos abaixo de 10 mil euros, não seriam precisos papéis. Faz-se e o Estado paga. Era uma decisão humana, sensata e ajustada.
E o que aconteceu depois? A máquina burocrática apropriou-se da decisão e começou a destruí-la por dentro. Passados meses, a execução era mínima. Isto é de uma gravidade absoluta. Temos o poder político a decidir uma coisa justa e a administração a desfazê-la. Se deixarmos a democracia funcionar assim, destruímos a confiança das pessoas na democracia. E depois admiramo-nos com o crescimento dos extremos.
TAP, Estado e interesse nacional
Qual a sua posição sobre a privatização da TAP e de outras grandes empresas estratégicas? A minha posição assenta em duas vertentes. A primeira é simbólica e tem a ver com os jovens. Quando se privatiza a TAP para estrangeiros, está-se a dizer aos jovens engenheiros, gestores, juristas e diplomados portugueses que não acreditamos neles. Está-se a dizer: esta empresa só pode ser bem gerida por franceses, alemães ou outros. Isso é uma péssima mensagem num país que quer reter talento e que, ao mesmo tempo, se lamenta por perder os seus melhores. A segunda vertente é estratégica. Se o primeiro sector do PIB português é o turismo, a primeira ferramenta com poder económico desse sector é a TAP. É a TAP que traz americanos, brasileiros, passageiros do Médio Oriente e de outros mercados de elevado valor acrescentado. Não controlar, de uma forma ou de outra, a principal ferramenta do principal sector do país é, para mim, um contrassenso.
Ainda assim, compreende que o Estado queira alienar esse activo? A TAP é um activo tóxico. Pôr as mãos naquilo, tentar endireitar aquilo, limpar aquilo, é uma obra gigantesca e politicamente muito penosa. Percebo perfeitamente que um Governo, com tantos problemas para gerir, queira livrar-se de um activo desse tipo. Uma coisa é eu compreender a decisão do ponto de vista da conveniência política e administrativa. Outra, muito diferente, é considerar que isso seja bom para o país do ponto de vista estratégico. E eu acho que não é.
O que figuras como Donald Trump, Putin ou Milei trouxeram ao mundo em termos políticos e económicos? O que trouxeram foi a confirmação brutal de que certos países são essencialmente transacionais e egoístas. Isso sempre existiu, nomeadamente nos Estados Unidos, mesmo quando a narrativa vinha mais embrulhada em valores. O que Trump fez foi pôr isso a nu. A camada de valores liberais, democráticos, de liderança moral do Ocidente, foi atirada para segundo plano. Veio ao de cima a dimensão meramente transacional, nua e crua.
E isso obriga a Europa a mudar? Sim, e aí há até uma consequência positiva, se quisermos olhar para isto desse ponto de vista: a perda de ingenuidade. A Europa precisa de perder ingenuidade. Precisa de perceber que o mundo está mais fragmentado, mais perigoso, mais egoísta e menos regulado por consensos éticos abstratos. Não basta ter boas intenções ou um discurso moralmente confortável. É preciso perceber a dureza do mundo tal como ele é.
E no caso português? Portugal devia ter uma posição mais clara de defesa dos seus interesses europeus. Somos um país que respeita a sua assinatura, respeita compromissos, e isso é um valor muito importante da nossa história. Mas isso não quer dizer que tenhamos de andar a lamber botas. Temos de defender a ordem internacional, claro, mas também temos de defender os nossos interesses. E os nossos interesses estão na construção de uma Europa forte, lúcida e menos ingénua.
Depois de tantos anos fora, qual foi o país que mais o impressionou? O Japão. Eu devo tudo à França. Foi a França que me deu a formação, as oportunidades, a carreira, a possibilidade de fazer aquilo que fiz. Tenho uma dívida de gratidão para com esse país. Mas o país que mais me impressionou foi o Japão. Porque é uma sociedade de funcionamento extremamente harmonioso à superfície e, ao mesmo tempo, de uma crueldade impressionante em profundidade. É uma sociedade muito fechada sobre si própria, que não aceita bem a imigração, que vive a sua insularidade de forma muito particular. É disciplinada, enquadrada, educada, harmoniosa na aparência, mas com uma dureza de fundo muito grande.
Consegue dar exemplos concretos dessa impressão? Num elevador, se eu entrar no terceiro andar e sair no décimo, mas lá dentro estiverem pessoas que entraram no rés do chão e vão mais acima, quando saio carrego no botão de fecho rápido para lhes reduzir a espera. Na rua, as pessoas andam organizadas. Há um sentido de respeito colectivo pelo espaço e pelo tempo dos outros que impressiona. É um país de enorme sofisticação social no comportamento. Agora, isso não significa que eu preferisse viver numa sociedade japonesa. Provavelmente, se tivesse de escolher, preferiria viver numa sociedade americana. Mas o Japão impressionou-me.
Com opiniões tão fortes, porque não aparece mais vezes na televisão? Não é por falta de interesse. Gosto de pensar por mim próprio e gosto muito de discutir com jornalistas e com jovens, sobretudo quando trazem perguntas interessantes, até surpreendentes. Gosto de debater, de pôr o meu raciocínio à prova, de ver se alguém o consegue destruir e encontrar coisa melhor. Isso estimula-me intelectualmente. Agora, há uma coisa que não faço: não faço 200 quilómetros para ir a um estúdio só porque eles têm as máquinas lá. Eu digo muitas vezes: querem entrevistar-me, venham a Santarém. E fica tudo apavorado.
Valoriza muito a opinião dos jovens. Sente-se com a idade que tem? Não sei responder a isso dessa forma. O que eu sei é que é interessante levantar todas as manhãs para aprender qualquer coisa e para criar valor. Criar valor pode ser uma boa conversa, pode ser plantar tomates, pode ser gerir uma empresa, pode ser ajudar uma instituição. O importante é isso. Quando se chega à minha idade, a única coisa que faz sentido é tentar deixar um país, uma sociedade e um planeta melhores para os que vêm a seguir. Se eu não estiver aqui para preparar uma melhor vida para os meus netos, então a minha vida perde sabor. É por isso que ouço os jovens. É por isso que me interessa o que pensam. Porque é para eles que estamos a construir…ou a destruir.
“Temos de trabalhar melhor”: a ética do trabalho sem romantismos
Quais são as suas origens? Nasci em Lisboa, numa família portuguesa de classe média. Sou filho único. Os meus pais trabalharam sempre com dois empregos cada um. Dois empregos de dia e dois de noite. Havia quatro vencimentos a entrar em casa. Tudo isso para me proporcionarem estudos de qualidade. Eu cresci a ver o valor do trabalho, não como discurso, mas como facto. Era o centro da família. Os meus pais acabaram por morrer relativamente cedo, ambos com cancro. O preço que pagaram foi muito duro. Mas a educação que me deram ficou para sempre.
Essa relação com o trabalho explica a frontalidade com que diz aos portugueses que “temos de trabalhar mais”? Não me faz confusão nenhuma dizê-lo. Embora eu acrescente sempre que também podemos trabalhar melhor. E, se trabalharmos melhor, talvez nem seja preciso trabalhar mais horas. A questão é esta: temos de passar de uma lógica de três horas de valor e sete de burocracia para a lógica inversa. Isso, por si só, já mudava muita coisa.
Como era o adolescente Carlos Tavares em Lisboa? Fazia parvoíces, como todos. Lisboa era óptima nessa altura. Havia menos trânsito, mais liberdade de circulação. Tinha a minha mota, andava por todo o lado, jogava intensamente basquetebol no Belenenses, treinava muito, tinha boas notas e uma liberdade muito grande. O princípio era simples: enquanto tivesse boas notas, a liberdade era total. E como sempre tive notas boas, vivi uma adolescência muito livre. Isso marca.
Saiu de Portugal muito novo, com 17 anos. Como é que isso moldou a sua identidade? Moldou muito. Mas isso foi também o resultado da educação que tive. Quando vivíamos em Rio de Mouro, por exemplo, o meu pai ia buscar-me à escola ao fim do primeiro emprego, levava-me para comer qualquer coisa, depois ia para o segundo emprego e deixava-me na estação. Eu tinha sete anos. Fazia sozinho o resto do percurso até casa, chegava a uma moradia escura, fechada, abria a porta com a chave e ficava sozinho até os meus pais chegarem perto da meia-noite. Essa autonomia entrou muito cedo na minha vida. Depois, em França, quando entrei nas classes preparatórias para as escolas de engenharia, levei na cara como nunca. Eu tinha sido um herói no liceu, com óptimas notas, e de repente comecei a ter 5 e 7 a matemática em 20. Era brutal. Até ao Natal metade da turma desistia. Havia uma selecção muito dura. Passei meses e meses a trabalhar sob enorme pressão. Mas isso forma carácter. Eu sabia que estava ali por causa do sacrifício dos meus pais. A missão era muito simples: diploma de engenharia na melhor escola possível. Ponto final.
E depois veio a carreira internacional. Sim. Entrei na Renault, depois tive responsabilidades ligadas à Nissan, passei pelo Japão, pelos Estados Unidos, voltei à Renault como número dois do Carlos Ghosn, mais tarde fui para a PSA, fiz o turnaround da empresa, depois a Opel, depois a fusão com a Fiat Chrysler, depois toda a construção estratégica da Stellantis. Foi uma carreira muito intensa, muito rica e muito exigente.
No meio disso tudo, como se gerem as distâncias em família? Não é fácil. Tenho três filhas. Quando fomos para o Japão só levámos uma; as outras duas ficaram em França. Foram percursos de formação de carácter para todos. Elas fizeram os seus estudos, emanciparam-se com ajuda dos pais, como é natural. Hoje tenho também netos. A família vive estes percursos com custos, claro. Não vale a pena romantizar isso. Há sempre um preço a pagar.
Como gestor, foi mais de elogiar ou de criticar? Os dois. A expressão que mais ouvi de colaboradores meus, quando os jornalistas lhes perguntavam como era trabalhar comigo, foi esta: It’s tough but fair. É duro, mas é justo. E eu acho essa definição boa. Sou exigente e tenho de ser, por respeito pela empresa, pela sua sustentabilidade, mas também por respeito pelas pessoas. Se eu acho que alguém tem potencial, vou pedir-lhe coisas difíceis. Se achar que é um caso perdido, não lhe peço nada. Pode-se ser exigente com justiça. E numa empresa isso é essencial. Quem manda é o cliente. Estamos cá para servir o cliente. O resto são tretas.
E como controla empresas tão diferentes? Em cada área tenho um responsável. Mas há uma coisa que aprendi em 45 anos de gestão: a informação vai-se buscar à frontline. Ao cliente, ao chão de fábrica, à operação, ao contacto directo. Porque 80% da informação que sobe numa grande organização é falsa, incompleta ou enviesada. O trabalho de um líder é descodificar isso. Por isso vou sempre à linha da frente.
A autobiografia e a pergunta decisiva
A autobiografia surgiu porquê, nesta fase da vida? Para deixar um encorajamento. A minha vida foi, acima de tudo, gestão de risco. Desde o momento em que os meus pais me mandaram para França, num período agitado da história portuguesa, até hoje, foi sempre gerir riscos. Carreira, mudanças, geografias, empresas, decisões difíceis, tudo isso. Quis deixar aos mais novos a ideia de que não devem ter medo de tentar. O medo do risco está a tornar-se um problema geracional. E eu acho importante dizer-lhes que a vida se faz de risco bem gerido, não de imobilismo.
Se tivesse de resumir a grande questão nacional numa pergunta, qual seria? A pergunta é esta: qual é a nossa ambição colectiva? O que é que queremos ser? Isso preocupa-me muito. Nós somos um povo com uma história extraordinária, que fez os Descobrimentos, que assinou o Tratado de Tordesilhas, que lutou pela sua autonomia durante séculos. E hoje esse ADN parece pouco visível. Não me preocupa apenas a ambição individual. Essa existe. O que me preocupa é a ambição colectiva. Será que queremos ser os medíocres da Europa? Será que nos basta ser um país simpático, de bom clima, razoavelmente seguro, de serviços medianos e crescimento anémico? Ou queremos outra coisa? Para mim, a missão devia ser clara: libertar o país do peso morto burocrático, restaurar a meritocracia, criar riqueza, proteger a coesão social e dar perspectiva aos jovens. Se não fizermos isso, o país vai continuar a perder os melhores, a empobrecer relativamente aos outros e a viver abaixo daquilo que podia ser.


