Entrevista | 16-05-2026 12:00

Bruno Pereira: “Sistema de segurança nacional está a sofrer uma tempestade perfeita”

Bruno Pereira: “Sistema de segurança nacional está a sofrer uma tempestade perfeita”
Bruno Pereira foi entrevistado por O MIRANTE no seu gabinete na esquadra de Alverca - foto O MIRANTE

Bruno Pereira, subintendente da PSP e comandante da Divisão Policial de Vila Franca de Xira, fala de uma polícia em esforço, envelhecida e com falta de efectivos, cada vez mais empurrada para a resposta ao incidente quando devia estar focada na prevenção. Escritor, cronista, professor de Direito Criminal e presidente do Sindicato Nacional de Oficiais de Polícia, defende uma polícia moderna, respeitada e capaz de se reorganizar sem medo de mexer em esquadras, edifícios, tecnologia e modelos de gestão.

Nesta entrevista a O MIRANTE, alerta para o aumento de condutores alcoolizados no concelho, rejeita a ideia de que os polícias continuem a trabalhar apenas “por amor à camisola” e considera que o sistema de segurança nacional vive uma “tempestade perfeita”. Antes de chegar a Vila Franca de Xira, Bruno Pereira passou por alguns dos territórios mais exigentes da Área Metropolitana de Lisboa, da Linha de Sintra às grandes divisões metropolitanas, da investigação criminal aos grandes eventos nacionais. Lidera mais de três centenas de polícias e diz acreditar que liderar é servir.

O último RASI coloca Vila Franca de Xira entre os concelhos mais seguros da Área Metropolitana de Lisboa. A que se devem estes resultados? Vila Franca de Xira já não é uma terra rural. É um concelho com mais de 140 mil habitantes e uma malha urbana que, felizmente, ainda não enfrenta os problemas criminais que há muito marcam zonas como Sintra, Amadora ou Loures. Mas há crime, porque onde há pessoas há crime. Os resultados devem-se sobretudo ao trabalho diário de polícias fantásticos. Não somos omnipresentes, mas uma polícia motivada ajuda a comunidade. A grande dificuldade é a carência crescente de recursos. Estamos a tornar-nos “bombeiros de segurança”, numa lógica de acudir ao problema quando ele surge, em vez de apostar primeiro na prevenção. Quem quer cometer crimes só se sente inibido se perceber que a polícia está presente e preventiva, não apenas reactiva.
Pela primeira vez em muitos anos, Vila Franca de Xira tem um comandante que comunica de forma regular com a comunidade. Isso faz diferença? Faz. As pessoas precisam de saber que os polícias não são soldados que reprimem, mas guardiões da paz social. Comunicar mais e melhor deve ser uma prioridade e também se reflecte na moral dos agentes. Todos gostamos de ver o nosso trabalho reconhecido. Digo à minha equipa que temos de ser inflexíveis na forma como respondemos às pessoas. Ninguém deve ficar sem resposta, mesmo que a resposta não seja a que procurava. O serviço público tem de ser transparente e a comunidade tem o direito de escrutinar a polícia.
Quais são os principais focos de criminalidade que identificou nestes primeiros meses? Nestes oito meses percebemos que não existem fenómenos permanentes. Tivemos furtos no interior de viaturas no Forte da Casa, na Póvoa de Santa Iria e no Sobralinho, bem como furtos em estabelecimentos comerciais durante a noite em Alverca e também na Póvoa. São situações semelhantes às que ocorrem noutras zonas da AML e podem resultar de grupos que não são daqui. Já tivemos 20 furtos numa noite e, depois, uma semana inteira sem um único furto. Isso obriga-nos a estar atentos aos padrões, mas sem dramatizar aquilo que não corresponde a um fenómeno instalado.
Nos últimos meses têm sido apanhados muitos condutores com excesso de álcool. Estamos perante um novo flagelo social? É uma bomba-relógio e ainda bem que estamos atentos. Conduzir sob o efeito do álcool aumenta o perigo para o próprio condutor e para terceiros. É um comportamento de risco que não pode ser relativizado. Prefiro, indiscutivelmente, apanhar 50 condutores alcoolizados a apanhar 200 em excesso de velocidade num radar escondido, embora a velocidade também seja um comportamento de alto risco.
Tem escrito sobre a desmotivação dos profissionais. Estamos perante uma ruptura iminente do sistema de segurança nacional? Os polícias têm segurado o sistema ano após ano, mas há uma perda progressiva de actividade e uma quebra nos ingressos. Ao mesmo tempo, temos impedido que polícias com 55 anos de idade e 36 de serviço possam sair, por força de uma lei travão. Isso cria uma polícia mais envelhecida, mais desmotivada, com menos gente jovem e menos vigor. Também passa a ideia de que esta já não é uma carreira atractiva. As novas gerações não procuram necessariamente carreiras estáveis e para a vida. É cada vez mais difícil atrair pessoas do mundo civil para o mundo policial. Tudo isto concorre para uma tempestade perfeita. O problema da atractividade não está apenas na PSP; também existe na GNR e nas Forças Armadas. A Polícia Judiciária é uma excepção porque recruta no universo dos jovens licenciados, tem uma carreira atractiva e é das mais bem pagas da administração pública. Nós temos de nos reinventar.
Finalmente há um ministro que olha para os problemas da PSP e da GNR? Temos um ministro que consegue perceber os problemas críticos e actuar sobre eles. Vamos ver. Do anúncio à materialização das decisões vai um grande passo. Ele conseguiu fazer a diferença na PJ, aumentando salários e suplementos, incluindo os de piquete e prevenção. Fazer o mesmo na PSP e na GNR será mais complexo, porque falamos de organizações maiores. Quando fui recebido pelo ministro como dirigente sindical, disse-lhe que tinha uma tarefa hercúlea pela frente, mas também que queremos estar junto da solução. Conhecemos os problemas e queremos colaborar. Acredito que ele compreende a nossa linguagem e conhece por dentro as instituições. Parece-me, neste momento, a pessoa certa para ajudar a dar um volte-face à situação.
Ainda é aceitável que os políticos acreditem que os polícias devem trabalhar apenas por amor à camisola? Isso já foi chão que deu uvas. Quem vem para esta profissão dá de si por gosto, sente a farda como se fosse a sua pele e não olha ao tempo que passa no trabalho, desde que se sinta valorizado. O problema é que é cada vez mais difícil manter níveis altos de motivação quando se acumulam perdas e não se vêem ganhos substanciais, desde logo na dignidade da condição policial. Não sou catastrofista; encaro o dia-a-dia com positividade. Mas compreendo por que razão tanta gente se sente descrente. Precisamos de medidas de fundo que tornem a organização mais autêntica e capaz de vincular as pessoas.
Os serviços remunerados estão a retirar capacidade operacional às ruas? Os remunerados não podem pôr em crise o serviço de primeira linha. Temos de ser criteriosos nas escalas. Quando alguém cumpre o serviço normal e depois ainda faz um remunerado, isso tem impacto na saúde. Uma coisa é fazer um ou alguns serviços. Outra é termos pessoas a fazer 15, 25 ou 30 remunerados. Isso não é saudável nem equilibrado.

Esquadras, território e política

Ainda faz sentido que no concelho de VFX existam localidades divididas entre GNR e PSP? Há descontinuidades territoriais que ainda não foram resolvidas. À primeira vista, não faz grande sentido. Tudo o que sejam descontinuidades não é bom. Uma esquadra não tem necessariamente de estar alocada a uma freguesia, mas deve estar adequada à sua essência funcional. Por isso, algumas esquadras terão provavelmente de ser repensadas. É legítimo perguntar se continuam a fazer sentido quando absorvem recursos que poderiam ser usados de forma mais eficaz.
Como é estar de farda e defender a farda perante políticos que por vezes boicotam a corporação? Muitas vezes não sabemos explicar convenientemente, com sentido de oportunidade, qual é o problema e qual é a solução. Quero acreditar que quem assume funções políticas quer deixar um legado e que todas as forças políticas compreendem o valor das forças policiais. São elas os garantes da liberdade. É verdade que há comentários mais exuberantes sobre a polícia e conclusões precipitadas sobre certas actuações. Por isso peço sempre moderação. É preciso cuidado antes de crucificar a actuação de um polícia.
É um polícia cronista. Já arranjou inimizades? Ainda não. As crónicas geram discordância, mas isso é a democracia a funcionar e a liberdade de expressão no seu melhor. Nunca recebi recados nem fui afrontado. Sinto-me livre para continuar a escrever, com moderação, afinação e sentido utilitário. Quero acreditar que as crónicas ajudaram certas decisões a serem discutidas, reflectidas ou até tomadas.
O que sente quando um juiz põe na rua alguém que acabou de ser capturado? Além de polícia, sou uma pessoa do direito. Admito que possa haver decisões esdrúxulas, que ficam aquém daquilo que parecia óbvio. Isso pode causar quebra de motivação. Mas lembro sempre aos meus agentes que o nosso trabalho acaba quando apresentamos o detido ao tribunal. Quando há uma má decisão, há outras cem boas decisões ao lado. Não devemos demonizar o sistema judiciário, que tem interlocutores fantásticos. Mas há sempre quem não esteja à altura do desafio ou não revele suficiente sensibilidade de vida.
Pode ser culpa do sistema? É uma questão de juízo crítico. Há magistrados que não trazem uma experiência do mundo muito alargada. Tem sido discutido se deveria haver uma experiência profissional e de vida mínima antes da entrada nas magistraturas. Esse debate é fundamental. Um jovem com 23 ou 24 anos que ingressa na magistratura tem pouca experiência. Precisa de sensibilidade social para perceber o impacto de determinado fenómeno. Às vezes não existe uma percepção realista do efeito negativo que libertar determinado arguido pode ter na vida das pessoas.

Menos edifícios, mais polícia na rua

Num dos seus artigos escreveu que Portugal é um país onde a GNR é uma das maiores proprietárias de terrenos, por causa de promessas de construção de quartéis que nunca avançam. Entre PSP e GNR falamos de mais de mil edifícios em todo o país. Instituições com esta envergadura infraestrutural trazem muitos problemas, desde logo a gestão e a manutenção dos espaços. Temos de abandonar a ideia obsoleta de que mais edifícios significam mais segurança. Não significam. Podem significar mais património para tratar, mais pessoas para o guardar e mais despesa. O que precisamos é de estruturas dimensionadas às necessidades securitárias da região, do concelho e do município. A prioridade deve ser ter polícias na rua, com capacidade de resposta rápida, e não fechados em edifícios.
Defende, então, que muitas esquadras sejam repensadas? Defendo que olhemos para isto de forma racional. Qual é o problema de termos atendimento à distância por videochamada em certas situações? Porque não desmaterializamos papel? Porque continuamos presos a burocracias que tornam tudo mais lento? Estamos a falar de coisas simples: câmaras e tasers incorporados na farda, computadores nos carros, sistemas interoperáveis, ferramentas que permitam identificar rapidamente suspeitos, pessoas procuradas ou com mandados. A polícia humana será sempre o pilar, mas a tecnologia permite ganhar escala, eficiência e rapidez.
Não há falta de militância da PSP e da GNR junto do Governo? Na função sindical temos sido vocais. Não estamos a pedir coisas de vanguarda, mas soluções que noutros países já existem há décadas. Já nem falo apenas de análise preditiva ou inteligência artificial para apoiar investigação criminal e produzir intelligence. Falo do básico: câmaras, computadores nos carros e sistemas que comuniquem entre si.
Os jornais não deviam fazer mais manchetes sobre a falta de cumprimento do Governo na compra de equipamento fundamental para a polícia? A segurança faz manchete, mas muitas vezes pelos piores motivos: homicídios, violações ou confrontos entre adeptos. Os temas estruturais, que deveriam gerar pressão cívica junto de quem governa, ficam esquecidos. A segurança começou a aparecer mais no debate público, mas durante muito tempo foi quase tabu. É importante trazê-la para cima da mesa com sobriedade, realismo e com quem percebe do assunto.
Defende também maior articulação entre municípios, por exemplo nas compras de videovigilância? Sim. Os municípios poderiam ganhar escala se apostassem mais em centrais únicas de compras ou em soluções de âmbito regional. A videovigilância é um bom exemplo. Em vez de cada município comprar isoladamente câmaras, sistemas e equipamentos, faria mais sentido pensar em lotes maiores, com ganhos de eficiência e melhores condições. A regionalização também permitiria olhar para estes problemas de forma mais integrada.
Quando teve de se mudar para Lisboa, sentiu o impacto de sair de um mundo à parte, como é o interior? Gosto de dizer que a Beira é o ponto de equilíbrio de Portugal e a melhor região do país. É verdade que os privilégios e as oportunidades são menores por lá, mas o estímulo e a experiência são maiores. Isso continua a ligar-me à minha terra. Até o oxigénio é diferente por aquelas bandas. Vou lá sempre que posso. É onde me sinto bem e onde consigo reequilibrar este meu desequilíbrio permanente. Mas ambientei-me bem. Hoje não me veria a trabalhar lá. Idealmente, viveria lá e trabalharia cá.

Colete Encarnado é o próximo desafio

Bruno Pereira é Subintendente da Polícia de Segurança Pública e lidera a Divisão Policial de Vila Franca de Xira. Paralelamente, preside ao Sindicato Nacional de Oficiais de Polícia e leciona Direito Criminal na Universidade Europeia e na Universidade Aberta. Natural da Beira Interior, nasceu numa pequena vila perto da Covilhã chamada Paul. Foi também na Covilhã que estudou até aos oito anos. Desde cedo revelou paixão pelas ciências e, durante o ensino secundário, sonhou seguir Medicina. Sempre gostou “do conforto dos números, daquilo que é certo”, embora reconheça que nada deve ser visto de forma absoluta ou fechada.
O destino acabaria, porém, por levá-lo noutra direcção. Um pequeno detalhe no exame de Química fez a diferença na nota de acesso: para Medicina eram necessários 18,5 valores e Bruno Pereira ficou-se pelos 18,1. Os pais tentaram persuadi-lo a estudar em Espanha - Salamanca fica mais perto da terra natal do que Lisboa - mas recusou. Quis permanecer em Portugal. Foi então que um irmão, já polícia, o convidou a ingressar na Escola Superior de Polícia. Entrou sem ter a certeza de que aquele seria o seu caminho, mas depressa se identificou com a essência do comando: liderar, gerir recursos, interagir com pessoas e exercer uma influência positiva sobre a vida dos outros. Desde 2003 integra o comando de Lisboa.
A sua especialidade consolidou-se na investigação criminal, área pela qual desenvolveu um gosto “superlativo”. Desde 2010 trabalhou nessa vertente, comandando várias subunidades de Investigação Criminal. Mais tarde assumiu funções de coordenação como comissário de investigação criminal da Divisão de Investigação Criminal. Passou por diversas estruturas no plano metropolitano, incluindo algumas das mais exigentes no combate à criminalidade violenta e grave. Uma das primeiras grandes experiências foi em Sintra, onde permaneceu oito anos. Havia roubos com arma de fogo praticamente diários, homicídios e graves esfaqueamentos com elevada frequência. Bruno Pereira recorda esse período como um desafio colectivo, sublinhando que “ninguém singra sozinho, só colectivamente”. Muitos criminosos foram detidos e acredita que a Sintra que deixou já não era a mesma que encontrou.
Seguiu-se a passagem pela divisão de Loures, Odivelas e Torres Vedras, a maior de Lisboa, experiência que descreve como fantástica. Com 12 esquadras e uma realidade territorial muito diversa, encontrou ali um desafio de grande dimensão. Mais tarde trabalhou com aquele que considera um dos melhores oficiais da PSP: José Pedro Franco, primeiro comandante da Divisão de Vila Franca de Xira. Foi ele quem o incentivou a aceitar o desafio de liderar a divisão ribatejana. Antes disso, passou pela divisão dos Olivais, Chelas, Campo Grande e Alvalade. Nessa fase enfrentou um dos maiores desafios da carreira: as Jornadas Mundiais da Juventude e a recepção ao Papa. Esteve destacado no Parque Tejo, num contexto em que o planeamento de grandes eventos se tornara rotina. Rock in Rio, MEO Kalorama, Web Summit e outras operações especiais exigiam, semana após semana, novos dispositivos de policiamento. O maior susto que viveu aconteceu em 2012, no terreno, durante a perseguição a ladrões de uma carrinha. Os suspeitos tinham desmontado a parte basculante do veículo e, ao tentar atravessar o espaço, foi atingido pela estrutura de muitos milhares de quilos. Ficou preso, convencido de que tinha perdido as pernas e de que iria morrer esvaído em sangue.
Agora prepara-se para outro marco: o seu primeiro Colete Encarnado, festa emblemática de Vila Franca de Xira, conhecida em todo o país e repleta de particularidades. Sabe, pelo que tem ouvido, da paixão dos vilafranquenses por esta tradição e encara-a como uma experiência especialmente interessante. Vive no centro de Lisboa. O trabalho prolonga-se frequentemente até muito tarde, mas a sua vida não se esgota na farda. Também cultiva uma faceta literária. Gosta de escrever poesia e encontra na noite o seu momento de maior criatividade. Já publicou vários livros, alguns ligados à sua veia de jurista e centrados em matérias criminais, além de artigos de opinião em diversos jornais, incluindo em O MIRANTE.

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