Entrevista | 27-05-2026 10:00

Cruz Vermelha de Torres Novas quer crescer mas falta-lhe espaço

Cruz Vermelha de Torres Novas quer crescer mas falta-lhe espaço
Artur Afonso, presidente da direcção da delegação de Torres Novas da CVP - foto O MIRANTE

Artur Afonso, presidente da delegação da Cruz Vermelha de Torres Novas, diz que a instituição tem portas abertas para quem precisa e ambição para ir mais longe. O responsável quer melhores instalações, reforçar a resposta na emergência médica e recuperar o projecto de uma escola profissional na área da saúde, que esteve perto de nascer no concelho.

Artur Afonso chegou à Cruz Vermelha de Torres Novas em 2015, numa fase de transição da vida militar para a vida civil. Reformado do Exército, natural da cidade, casado e pai de três filhos, nunca tinha feito voluntariado. Decidiu experimentar e acabou por ficar. Hoje preside a uma delegação que, diz, o tem enriquecido “muito do ponto de vista humano”, sobretudo por lhe mostrar realidades que muitas vezes passam despercebidas a quem vive o dia-a-dia a correr. “Há muita gente com fragilidade, com dificuldades a todos os níveis”, afirma.
À porta da Cruz Vermelha chegam famílias referenciadas pela acção social do município, mas também pessoas apanhadas de surpresa por uma doença, um divórcio, desemprego ou outra queda inesperada. “Num momento da vida dá um trambolhão e é preciso voltar a levantar-se”, resume. A delegação integra a rede social do concelho e trabalha em articulação com a Câmara de Torres Novas, que encaminha famílias em situação de vulnerabilidade.
O apoio passa sobretudo por um banco alimentar próprio, com distribuição de cabazes com bens essenciais, e por uma loja social onde está disponível roupa, roupa de cama e outros artigos que são entregues gratuitamente a quem é referenciado pela acção social. Mas doar exige responsabilidade, sublinha. Pois nem tudo o que chega à instituição está em condições de ser entregue “com dignidade” a quem precisa. Muitas vezes, lamenta, as doações parecem resultar de uma limpeza de armário, com roupa e objectos colocados em sacos sem triagem. Tarefa que acaba por ficar para as voluntárias, que são a esmagadora maioria na instituição.
A crise do voluntariado preocupa-o. Há quem se inscreva, apareça uma vez e depois desapareça. Artur Afonso acredita que a sociedade se fechou mais, que vive agora muito presa ao ecrã, às redes sociais e ao mundo digital. “As pessoas fecharam-se numa bolha, deixaram de conversar e de se preocupar muito com os outros”, diz, admitindo que é a sua percepção. Ainda assim, há histórias que compensam. Algumas pessoas que um dia chegaram à Cruz Vermelha em situação de fragilidade recuperaram, ficaram ligadas à instituição e acabaram por se tornar voluntárias, trazendo familiares e conhecidos para ajudar. “Reconhecem que fomos importantes naquele momento da vida, que fomos um porto de abrigo e vêm retribuir”, refere. A instituição conta com centena e meia de sócios. “Não são muitos, mas são generosos”, diz.

Falta de espaço limita crescimento
Mas foi na área da saúde que a delegação deu um salto mais visível. A aposta no transporte de doentes não urgentes começou em 2019, quando a direcção percebeu que havia necessidade de reforçar a resposta no concelho e na região. Hoje, a instituição tem quatro veículos de transporte de doentes não urgentes e uma viatura preparada para a área da emergência. Não é posto de emergência médica (PEM) do INEM, mas tem a ambição e os meios humanos e materiais para o ser, tendo, inclusive, já funcionado como reserva de PEM.
A delegação conta com nove operacionais contratados na área da emergência e uma administrativa. O serviço funciona entre as 06h00 e as 23h00, com a falta de espaço e de camaratas a impedir uma resposta de 24 horas. “Esta delegação cresceu muito e não cresce mais por falta de espaço”, reconhece, salientando que a compra de veículos tem sido possível com campanhas, caminhadas, apoios de empresas, particulares e alguma comparticipação municipal.
As actuais instalações, cedidas pelo município, são partilhadas com outras entidades e já não respondem às necessidades. Exemplo disso é que das cinco viaturas, uma fica na rua por falta de espaço na garagem. Artur Afonso diz que tem mantido reuniões com a câmara e que há preocupação conjunta em encontrar uma solução, com a saída para outro espaço a ser o cenário mais provável, desde que permita guardar viaturas, melhorar condições de trabalho e acolher novos projectos.

Passo a Passo no combate à solidão

A delegação tem também o projecto Passo a Passo, vocacionado para o combate à solidão. Um grupo de voluntárias, algumas já com idade avançada, reúne-se na instituição, apoia a loja social e produz peças de artesanato que depois são vendidas em pequenas feiras solidárias. Artur Afonso destaca o exemplo de Olinda, uma voluntária com mais de 90 anos, presença assídua e participante nas iniciativas, inclusive nas caminhadas anuais de angariação de fundos. “É uma alegria para todos nós e um exemplo”, afirma.
Na área da juventude, a Cruz Vermelha de Torres Novas mantém um grupo integrado na estrutura nacional da Juventude Cruz Vermelha. Os jovens promovem acções em escolas, partilham experiências sobre a transição para o ensino superior e participam em campanhas como o projecto “O Meu Sol”, de prevenção do cancro da pele, com sensibilização em piscinas e praias fluviais da região.

O sonho de uma escola profissional na área da saúde

A cumprir aquele que diz ser o seu último mandato à frente da delegação, Artur Afonso revela que entre os projectos que ficaram por concretizar, há um que ainda lhe custa particularmente: uma escola profissional na área da saúde em Torres Novas. O plano, trabalhado durante quatro anos, previa a criação de um pólo ligado à Cruz Vermelha, com cursos profissionais para alunos do 10.º ao 12.º ano. O primeiro curso seria de técnico auxiliar de saúde e havia já contactos para estágios na área hospitalar. “Esteve quase, quase”, lamenta. Para Artur Afonso, seria um “projecto estruturante”, com elevada empregabilidade e capaz de afirmar Torres Novas na formação em saúde. O assunto voltou recentemente à mesa com o município. Falta, diz, transformar vontade em plano de execução.

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