“A saúde mental tem de ser encarada como uma responsabilidade colectiva”
Sérgio Viana é presidente da Direcção Regional do Centro da Ordem dos Psicólogos Portugueses. Defende mais psicólogos nas escolas, nos cuidados de saúde primários e nas empresas e fala do impacto da pandemia, da solidão digital, do envelhecimento, da violência, da importância das artes e do desafio da inteligência artificial.
Nesta entrevista a O MIRANTE o psicólogo com mais de duas décadas de experiência afirma gostar de trabalhar no terreno, em contexto de saúde, com crianças, jovens, famílias e também na área dos cuidados paliativos. Nesta conversa que decorreu durante o Festival Mental, em Lisboa, fala também da evolução da saúde mental em Portugal, do estigma que ainda persiste, da urgência de prevenir em vez de remediar, dos riscos da literacia digital insuficiente e da necessidade de combater discursos de ódio.
Que diagnóstico faz da saúde mental? Para começar, é para mim uma honra ser presidente da Direcção Regional do Centro. A DRC representa aproximadamente cinco mil psicólogos numa área muito abrangente. E isso significa que temos problemas distintos, mas também muitos pontos em comum. E esse diagnóstico também será, no fundo, um dos objectivos do 7.º Congresso da OPP que estamos a preparar para Outubro e que será na região Centro, pela primeira vez. Em termos de saúde mental e saúde psicológica, sinto que tem havido cada vez mais sensibilização para a prevenção e promoção. Isso não acontecia com este impacto há alguns anos. Hoje fala-se mais de ansiedade, depressão, solidão, isolamento, bullying, violência e bem-estar psicológico. As pessoas estão mais disponíveis. Antigamente havia muito a ideia de que isto era coisa de fracos. A velha frase “os homens não choram” ainda existe, mas estamos a trabalhar para a desconstruir.
Essa abertura é igual no litoral e no interior? Há diferenças, naturalmente, mas também há muitos problemas comuns. Uma das coisas que mais me preocupa é a literacia digital e a velocidade com que tudo avançou. A pandemia agravou um problema que já estava instalado. Amplificou as questões da ansiedade, do isolamento e da dependência dos ecrãs. Hoje, tanto numa cidade como Lisboa como numa aldeia do interior, os gadgets estão lá. Os problemas chegam de forma semelhante. O digital trouxe muitas coisas boas, mas também acelerou processos de solidão.
Existem desigualdades no acesso ao apoio psicológico? Sim, claramente. O Serviço Nacional de Saúde é uma porta de entrada privilegiada para os cidadãos, mas ainda há um número insuficiente de psicólogos nos cuidados de saúde primários, nos hospitais e nas escolas. Tem havido investimento e evolução, mas continua a ser insuficiente face à procura. A saúde psicológica deve começar em casa, continuar na escola e ter resposta nos centros de saúde e nos hospitais. Muitas vezes, os primeiros sinais surgem nas crianças e nos jovens, e os professores conseguem detectá-los, porque acompanham os alunos no dia-a-dia. Em casa, por vezes, esses sinais passam despercebidos.
A procura é maior do que a resposta? Muito maior. Se olharmos para a relação entre disponibilidade e procura, percebemos que a necessidade está muito acima da capacidade de resposta. E isto não é apenas uma questão de tratar quem já está em sofrimento. É uma questão de prevenir. A psicologia tem um papel fundamental na identificação precoce de problemas, na promoção da saúde e na criação de respostas antes de chegarmos a situações limite.
O seu percurso passa pelos cuidados paliativos e pela intervenção com crianças e jovens. De que forma essa experiência influencia a sua forma de ver a profissão? Quando comecei a trabalhar era um “psicólogo de gabinete”. Estamos a falar de há mais de 20 anos. Entretanto, muita coisa mudou. A criação da Ordem dos Psicólogos deu identidade à profissão, trouxe reconhecimento e ajudou-nos a perceber que a psicologia é uma área ampla, com intervenção na saúde, educação, justiça, área social, organizações e até na política, entre outras. A experiência no terreno, o contacto com jovens, pais e famílias, mostrou-me a importância da literacia. A literacia digital, a sensibilização nas escolas, a prevenção do bullying, a articulação entre profissionais. Vemos o impacto que o bullying tem quando os jovens chegam aos gabinetes dos SPO, aos hospitais ou aos centros de saúde.
É importante o psicólogo estar perto das pessoas? É fundamental. A comunicação verbal e não verbal é muito importante, sobretudo com os jovens. Quando se cria uma ligação, essa ligação acompanha-os ao longo do crescimento. Tenho jovens que acompanhei quando eram muito novos e que hoje voltam só para me cumprimentar, para dizer que estão bem, com um sorriso.
O que falta para a saúde mental ser prioridade de saúde pública? Falta olhar para a saúde mental como olhamos para outras áreas da saúde: com prevenção, planeamento e responsabilidade colectiva. Muitas vezes ainda funcionamos numa lógica de remediar. As pessoas habituaram-se a ir ao médico quando precisam de um diagnóstico e de uma prescrição. Mas muitos problemas não se resolvem apenas com uma resposta imediata. Precisam de prevenção, acompanhamento e mudança cultural. Como o SNS é uma porta de entrada gratuita e universal, muitas pessoas esperam até a situação estar muito avançada. Isto tem uma dimensão cultural. Mas a mudança tem de vir também de cima, das estruturas governativas, das entidades públicas, das empresas, das escolas e da Assembleia da República. Temos de actuar a montante. Políticas que defendam trabalhadores, empresas que criem condições para conciliar trabalho e família, acesso a psicólogos, gabinetes de saúde ocupacional que incluam verdadeiramente a saúde psicológica.
“A escola é absolutamente fulcral”
As escolas estão preparadas para lidar com ansiedade, depressão, bullying e outras problemáticas? Tem um papel absolutamente fulcral. O psicólogo na escola identifica, previne, informa e forma. Desde que há mais psicólogos nas escolas, há também maior capacidade das próprias escolas criarem ambientes seguros para as crianças e jovens aprenderem. A escola deve ser um lugar de segurança e conhecimento. As equipas multidisciplinares têm tido cada vez mais impacto. O que acontece muitas vezes é que a escola vai um pouco atrás do problema, porque tudo acontece muito depressa. Urge antecipar e prevenir mais.
O que é necessário reforçar? Mais profissionais, mais comunicação e mais pontes. A escola precisa de elementos capazes de ligar a perspectiva dos alunos, dos pais e dos professores. Esse triângulo é essencial. Precisamos de perceber porque é que alguns alunos se sentem sozinhos, porque é que outros se isolam, porque é que alguns têm comportamentos de risco.
O estigma na procura de apoio psicológico continua a existir? Continua, embora menos do que antes. Venho do interior e lembro-me bem de quando comecei a trabalhar. Ainda havia muito a ideia de que ir ao psicólogo era “coisa de malucos”. Quase tinha de fazer um briefing para explicar o que fazia um psicólogo. Costumava dizer que não estava ali para lidar com malucos, mas para evitar que ficássemos todos malucos. No fundo, é isto: prevenir. Hoje há mais abertura, mas o estigma não desapareceu.
Os cuidados de saúde primários são importantes nessa mudança? São fundamentais. O médico de família conhece as famílias e pode referenciar precocemente uma situação para psicologia. Uma mãe deprimida, um pai em luto, uma criança que não compreende o que se passa em casa, tudo isto tem impacto sistémico. A intervenção precoce nos cuidados primários permite perceber a família como um todo e evitar que os problemas se agravem.
“O não é uma palavra poderosa”
Escreveu um artigo intitulado “O Poder do Não”. Porque é tão difícil dizer não? Cada caso é um caso, mas há uma tendência para muitas pessoas terem dificuldade em dizer não porque não querem desiludir os outros, não querem falhar expectativas ou têm medo das consequências. Nos jovens, isso é ainda mais evidente. Um jovem pode dizer sim a tudo porque quer integrar-se num grupo. Se não desenvolver segurança e auto-estima, pode continuar pela vida adulta a dizer sim quando, na verdade, queria dizer não. Dizer não é uma das palavras mais poderosas que temos. Mas implica consciência das consequências. O problema é que muitas pessoas têm medo das consequências do não.
Dizer não também é uma questão de auto-estima? Sim. Tem a ver com respeito por nós próprios, com definição de limites, com capacidade de afirmação pessoal. Trabalhar a auto-estima é também trabalhar a capacidade de percebermos o que queremos para a nossa vida. A psicologia ajuda muito nesse desenvolvimento pessoal. Ajuda jovens inseguros a tornarem-se adultos mais fortes, com estrutura, carácter e capacidade de definir as suas ideias.
A auto-estima deve assentar mais no respeito pelo que conseguimos cumprir? Sim, mas acrescentaria uma nuance: é preciso termos consciência daquilo que conseguimos cumprir. Uma coisa é respeitarmos o que conseguimos fazer; outra é sabermos realmente quais são as nossas capacidades e limites. Isso vem com experiência. Mas também é importante aceitar quando algo não é o nosso patamar ou a nossa área. A auto-estima não é achar que conseguimos tudo. É termos consciência do que somos, do que conseguimos e do que ainda precisamos de trabalhar.
As redes sociais distorcem essa percepção? Muito. Vivemos uma espécie de viagem do ego, muito alimentada pelas redes sociais. Cria-se uma imagem, muitas vezes com filtros, quase ficcional. Pessoas reais tornam-se personagens. E depois há uma dependência da validação, dos cliques, dos gostos, da dopamina que isso gera. Muitas vezes, por trás de uma imagem muito forte está uma pessoa muito frágil. O narcisismo também passa por aí. Atrás de um ego aparentemente superior pode estar uma grande fragilidade.
Sente que há uma normalização da agressão, do ódio e da violência? Sim. E isso preocupa-me muito, sobretudo quando vem de camadas da sociedade que deviam dar o exemplo. Quando se criam discursos de superioridade e inferioridade entre seres humanos, estamos a abrir uma porta muito perigosa. Isso já existiu e sabemos o que aconteceu. Hoje voltamos a ver discursos que alimentam a ideia de que uns são superiores a outros. A chamada “manosfera”, por exemplo, recupera ideias arcaicas de superioridade masculina e alimenta ódio contra as mulheres. Isto não é inocente.
Isso tem impacto na violência doméstica e na violência de género? Claro. Vivemos num país onde a violência doméstica mata mais de 20 mulheres por ano. Estamos a falar de discursos que tentam normalizar comportamentos racistas e machistas como se fossem apenas opiniões ou brincadeiras. Isto é grave. Temos de defender o respeito e a dignidade humana. Também me preocupa a ideia do “pôs-se a jeito”. Ainda se ouve isto em casos de violência sexual, como se uma mulher não pudesse vestir-se como quer ou ter a liberdade de sentir-se bem consigo mesma.
A identidade de cada pessoa também deve estar no centro dessa discussão? Mais do que falar apenas de identidade de género, devemos falar da identidade de cada um. Cada pessoa merece respeito e dignidade. A homofobia, o racismo, o machismo, o ciberbullying e todas as formas de ódio têm de ser desconstruídas. A psicologia tem um papel importante, mas esta é uma responsabilidade colectiva.
Trabalha também em cuidados paliativos e fim de vida. O que essa área ensina sobre saúde mental? Ensina muito. Antes de mais, acredito que temos de ter vocação para as áreas em que trabalhamos. Se não sentimos vocação, dificilmente nos sentimos confortáveis e úteis. No meu percurso, entrei na Psicologia por curiosidade pelo ser humano, pelo comportamento, pela forma como somos todos únicos e diferentes. Mais tarde, surgiu a oportunidade de trabalhar em cuidados paliativos, área para a qual já tinha feito formação por interesse.
A consciência da finitude muda a forma como se olha para a vida? Muda muito. A percepção da nossa própria finitude e da finitude do outro transforma-nos. Faz-nos valorizar aquilo que muitas vezes ignoramos no frenesim diário. Vivemos rodeados de estímulos, informação, canais, internet, notificações, redes sociais. Temos tanta coisa à nossa volta que, por vezes, perdemos o foco do mais importante: o outro.
Na região Centro, marcada também pelo envelhecimento, que desafios identifica? Há três palavras que me vêm logo à cabeça: demências, isolamento e sedentarismo. Estão interligadas. Temos uma população idosa com muito potencial, com experiência e sabedoria, mas muitas vezes muito isolada. As famílias estão dispersas, os apoios nem sempre chegam e os hábitos diários nem sempre incluem actividade física ou participação social. Também há um estigma em relação ao envelhecimento. Em muitas situações continuamos a olhar para os idosos como se fossem dispensáveis.
“Sem empatia não se consegue ser um bom psicólogo”
Que competências considera fundamentais para quem começa a exercer Psicologia? Há uma base incontornável: trabalhamos com pessoas. Trabalhamos com emoção e razão. Temos de ter consciência do impacto que a nossa intervenção tem no outro. Sem empatia não se consegue. Sem consciência do outro e consciência de si, também não. A Psicologia estuda o comportamento humano e os processos mentais. Se não nos compreendermos minimamente a nós próprios, dificilmente compreenderemos o outro.
Mas há competências transversais? Sim. Saber comunicar, ser empático, lidar com a emoção do outro, aceitar o outro como ele é, conhecer os próprios limites, ter vontade de continuar a aprender, investigar e crescer. Também é importante gostar da área onde se trabalha.
As artes e a cultura também podem ajudar na promoção da saúde mental? Muito. As artes têm um poder extraordinário. O associativismo surgiu cedo na minha vida e sempre tive uma ligação à fotografia, ao cinema, à literatura. As artes permitem-nos expressar emoções que nem sempre conseguimos pôr em palavras. Através do cinema, da música, do teatro, da dança ou das artes plásticas conseguimos abrir portas de comunicação. As artes ajudam no luto, na inclusão, no combate ao estigma e aos preconceitos. Com as artes, eu diria que somos melhores psicólogos.
É preciso também formar os adultos
O seu mandato é de quatro anos. Quando sair da presidência o que gostava de deixar feito? Quando entrei na Ordem, desde as primeiras eleições, senti isso como uma grande responsabilidade e um grande desafio. Sempre gostei de desafios. Há três palavras que definem aquilo que quero deixar: missão, determinação e proximidade. Desde o início quis mostrar a importância da nossa ciência e da nossa profissão para a saúde colectiva e para o cidadão. Senti isso no interior, quando trabalhava praticamente sozinho num pequeno hospital. O reconhecimento das pessoas mostrava-me que a Psicologia fazia a diferença nas suas vidas. E continuo a sentir isso todos os dias, cada vez mais.
A proximidade aos colegas é também uma prioridade? Sim. Antes de tudo isto, muitos de nós trabalhávamos sozinhos. Eu era o único psicólogo em diferentes contextos. Com o tempo percebemos que unidos damos melhores respostas e que, em equipa, trabalhamos melhor e temos mais impacto. A Ordem tem esse papel de unir, criar dinâmicas, aproximar colegas e reforçar a profissão. Quero que os psicólogos se sintam apoiados.
A inteligência artificial pode ser um risco na saúde mental? Pode ser risco e pode ser ferramenta. O problema surge quando as pessoas recorrem a conselheiros virtuais que estão programados para validar tudo aquilo que o utilizador diz. Isso pode resultar em consequências perigosas. Por isso, precisamos de literacia digital. Não apenas para os jovens, mas também para os pais e para a sociedade em geral.
É pai e marido. Como distingue o papel de psicólogo do papel de pai? É difícil, como é difícil para todos os pais. A literatura e a formação ajudam-nos, mas os nossos filhos não são nossos utentes. São os nossos filhos. Há emoção, há apego, há erros, há aprendizagem. E ainda bem que há emoção. Se ficássemos apenas na razão, não valia a pena. Todos os pais erram. Eu já errei muitas vezes. E é importante termos consciência disso e sabermos pedir desculpa. Já pedi desculpa aos meus filhos porque errei.


