De servente de pedreiro a administrador bancário: a vida multifacetada do pragmático Francisco Patrício
Francisco Patrício é um homem com um longo percurso de trabalho que passou por várias etapas, entre elas a de projeccionista de filmes para adultos e não só, até chegar a administrador executivo da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de Pernes e Alcanhões. Começou a trabalhar aos 13 anos como servente de pedreiro, foi dirigente associativo, empresário e autarca em Santarém, criou dois filhos que são figuras públicas e hoje, como sublinha, faz o que quer, quando quer e para quem quer. Uma conversa aberta em que se falou de tudo um pouco, da família à política, da cidade ao Tejo, da morte e de Deus, passando pela Feira do Ribatejo que está aí novamente à porta.
Francisco Alberto Serrão Patrício, 77 anos, nasceu em 9 de Março de 1949 na Póvoa da Isenta, aldeia do concelho de Santarém. Actualmente, é administrador da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de Pernes e Alcanhões e presidente da assembleia-geral da empresa municipal Águas de Santarém. É um homem com um longo percurso ligado à vida associativa, autárquica e empresarial no concelho de Santarém, tendo sido dirigente da União Desportiva de Santarém, presidente da Junta de Freguesia de Póvoa da Isenta de 2009 e 2013 e, em mandatos anteriores, tesoureiro e secretário da então Junta de Freguesia de São Nicolau, em Santarém, cidade onde residiu antes de se mudar para Lisboa .
Foi sempre eleito pelo Partido Socialista, mas em meados da década de 1980 esteve entre os fundadores do Partido Renovador Democrático (PRD), juntamente com Hermínio Martinho, Carlos Beato e Marques Júnior, num projecto político que tinha como figura tutelar o general Ramalho Eanes. Encerrou a sua participação na política activa em 2013, mas continua a acompanhar a actualidade. Saiu da política por estar cansado. Diz que apanhou algumas desilusões mas também fez muitos amigos nesse meio. E, sobretudo, aprendeu “a conhecer melhor o ser humano, para o bem e para o mal”.
Integra a administração da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de Pernes e Alcanhões e é presidente da assembleia--geral da empresa municipal Águas de Santarém. Vai trabalhar até poder? Penso trabalhar mais dois ou três anos. No fundo, faço todos os dias aquilo que me apetece. O trabalho é a minha vida quase desde que nasci. É todos os dias assim.
Como diz o povo: parar é morrer? Nunca tive esse problema de estar parado. Também gosto de viajar, já fiz alguns cruzeiros, conheço quase o mundo todo. Viajar é um escape para sair da rotina. Até aos 50 anos nunca saí do país, porque tenho dois filhos e eles tinham que estudar. Conheci Portugal todo com duas canadianas e um Mini.
Como se sente na pele de administrador de um banco? Sinto-me bem, até porque temos um presidente, o engenheiro Nuno Fazenda, que tem gerido bem a instituição. Estou lá desde 2009 com ele, já passaram por lá outras pessoas e tem corrido tudo bem. As questões mais sensíveis nesta actividade são as que envolvem pessoas sérias, que querem pagar mas que, por dificuldades momentâneas ou por contingências da própria vida, não podem cumprir. Mas, felizmente, temos poucos casos desses. E os que temos vamos resolvendo. Não queremos criar problemas às pessoas. Somos uma banca de proximidade e conhecemos as pessoas.
Tem lidado bem com o passar dos anos? Perfeitamente. Nunca tive nada de especial, a não ser ter de usar óculos desde muito cedo.
A ideia da finitude não o angustia? Não. Sei que tenho que morrer e gostava de ser cremado, para desaparecer daqui. Uma das coisas que me impressiona é morrer e ter que apodrecer. De vez em quando penso nisso.
Deus é uma entidade presente na sua vida? A minha fé é no destino. Acho que quando nascemos temos um destino. Quando me acontece alguma coisa, para mim não é obra de Deus ou do Diabo, é o destino. Só acredito no destino e nós por vezes também o ajudamos. Têm-me
acontecido coisas na vida que não as procurei nem fiz força. Era o que tinha que acontecer. Se me perguntarem se sou crente, acho que há qualquer coisa...
O que faria hoje de diferente se pudesse recuar 50 ou 60 anos na sua vida? Acho que todos gostaríamos de alterar alguma coisa no nosso passado se pudéssemos. Já fiz algumas asneiras, um ou outro investimento mal feito.
Não é homem de arrependimentos? Não. Tenho feito sempre aquilo que quero. E assumo. Hoje faço o que quero, quando quero e para quem quero. Cheguei ao que sempre tentei na vida. Amanhã não sei.
Nunca sonhou ser doutor? Não. Quando andava a estudar em Santarém queria tirar o curso industrial, só que a minha mãe queria que eu fosse empregado de escritório, um trabalho mais limpo em que andava engravatado. Fui para o comércio, mas eu gostava era da indústria, de fazer. Se há um arrependimento, é este: não ter seguido o curso industrial e saber fazer qualquer coisa. O meu problema é saber fazer pequenas coisas, a chamada biscatada, mas não sou especialista em nada. Sou uma espécie de técnico do etcetera (risos)...
Não foi doutor, mas presumo que tenha ficado orgulhoso quando os seus filhos se formaram. Sim, claro. Foram anos e anos a estudar...
É pai de dois homens que são também figuras públicas: o mediático advogado Rui Patrício e Pedro Patrício, presidente da União de Santarém, gestor hospitalar no grupo Luz Saúde e empresário. Costuma dar-lhes conselhos? Não. Já dei. Tive sempre um princípio: eles estudavam até querer desde que não chumbassem. A partir daí, se chumbassem ficavam por conta deles. E a partir do momento em que eles se formassem e começassem a trabalhar cada um seguia a sua vida. Nem ninguém era filho de, nem ninguém era pai de. Hoje, cada um segue a sua vida, é independente e ninguém dá satisfações a ninguém.
Sente que há uma mãozinha sua nesses percursos? Habituei-os a serem independentes e a não serem super protegidos.
“As potencialidades do Tejo têm sido ignoradas”
Está satisfeito com o rumo que Santarém tem levado? Conheço o país desde Caminha a Vila Real de Santo António e, normalmente, a cada terra que vou, dizem-me que aquilo não presta e que em tal sítio é que é bom. E aqui em Santarém fazemos a mesma coisa. As pessoas nunca estão satisfeitas. Em relação ao que conheci de Santarém, a cidade progrediu. Poderia ter progredido mais? Poderia ter progredido muito mais!
Os destinos da câmara estão bem entregues ou o ex-presidente da Câmara de Almeirim podia ter sido uma opção melhor? Não! O Pedro Ribeiro fez um bom trabalho em Almeirim mas acho que o Partido Socialista em Santarém podia ter escolhido um elemento do concelho tão bom como ele. Não havia necessidade de ir a outro concelho buscar uma pessoa para ser candidata pelo PS. Não se trata da capacidade do Pedro Ribeiro, que acho que foi um bom autarca, mas o PS em Santarém tinha obrigação de candidatar uma pessoa do concelho.
E que expectativas tem em relação ao novo presidente de câmara, João Leite (PSD)? Acho que o João Leite é uma pessoa com ambição, é jovem, está no primeiro mandato e penso que vai fazer umas coisas. Se aquilo que foi anunciado se concretizar, Santarém vai ter um grande desenvolvimento.
Acredita que é desta que Santarém vai ter a sua frente ribeirinha requalificada, como promete o actual presidente da câmara? Acredito que haja essa intenção, mas só no fim de pronto é que acredito, porque já ouço falar disso há muitos anos. A frente ribeirinha é como a passagem de nível das Assacaias, já ouço falar nisso há 60 anos. Mas que era bem aproveitada era. Vamos acreditar.
Dói-lhe ver o Tejo sem aproveitamento? Custa-me bastante. Temos ali uma zona que podia ser extraordinária. Estamos no interior e nem todas as pessoas têm possibilidade de ir à praia. Em miúdo, quando andava a estudar, pagávamos dez tostões para ir no barco do senhor Lobo para o areal do lado da Tapada. Jogávamos à bola, tomávamos banho. E até hoje nunca se aproveitou o rio.
Os autarcas têm falhado nesse campo? As potencialidades do Tejo têm sido ignoradas.
O que sente quando anda pelo centro histórico de Santarém? Passei lá agora e senti um abandono total. É uma tristeza, digo-o sinceramente.
E que remédio há para isso? Contrariamente ao que muitas pessoas dizem, a circulação do automóvel nas cidades faz muita falta. Ninguém vai a lado nenhum sem levar o carro. Para mim, era arranjar condições para se reabilitar o centro histórico com moradores e arranjarem maneira de resolver os problemas de trânsito e de estacionamento. Porque ninguém vai para lado nenhum sem levar o carro. Agora, como isso se faz não sei. Talvez com estacionamento em altura, por exemplo. Sem estacionamento, as pessoas não vão à cidade.
O que pensa da compra do Teatro Rosa Damasceno pela câmara, com a intenção de o recuperar? Acho que é uma óptima ideia, até porque o edifício tem uma arquitectura com uma certa beleza. Pode ser um contributo para recuperar e dar vida àquela zona da cidade.
Devia haver mais serviços públicos no centro histórico? Exactamente, para as pessoas serem obrigadas a ir lá.
E em relação à antiga Escola Prática de Cavalaria, o que acha do aproveitamento que tem sido dado a esse complexo? Acho que podia ser melhor aproveitado, dadas as condições que tem. Há muita coisa que pode ser feita. Tem faltado pragmatismo. Fazer projectos, dizer que se vai fazer é fácil. Pragmatismo é difícil. Como sou mais pragmático que projectista, gosto é de fazer. Já vi tanta coisa prometida que depois deu bola… Conheci a EPC de ponta a ponta como soldado e devia ser melhor aproveitada.
Chumbou por faltas e foi trabalhar como servente aos 13 anos
Com origens humildes, Francisco Patrício ficou sem pai aos oito anos e a mãe, doméstica até enviuvar, foi trabalhar para a fábrica IPETEX, no Alto do Vale, primeiro nas limpezas e depois no refeitório. A sua vida profissional começou aos 13 anos como servente de pedreiro, depois de ter chumbado um ano por faltas. Foi o ‘prémio’ que a mãe lhe deu por ligar mais ao futebol e aos banhos no Tejo do que às aulas na então Escola Industrial de Santarém.
Foi o início de um percurso laboral multifacetado em que foi também marçano na cantina da Fonte Boa, dactilógrafo nos Correios, escriturário no serviço militar, que cumpriu durante 39 meses, empregado de escritório em Santarém e director de serviços de exportação na IPETEX. Lançou-se também como empresário por conta própria, como representante em Santarém de duas marcas de tintas e como mediador imobiliário. Acabou por continuar a estudar à noite na Escola Industrial e fez mais tarde uma pós-graduação no ISCTE, na área da banca.
Projeccionista de filmes para adultos e ponta de lança dos Leões
Na altura em que trabalhava na IPETEX, tinha também a representação de tintas e era projeccionista de cinema no Teatro Rosa Damasceno. Às quintas-feiras, único dia de folga no Rosa Damasceno, projectava filmes para adultos no Teatro Sá da Bandeira. Trabalhava todos os dias da semana, de manhã à noite. “Não havia descanso”, diz.
Está reformado, mas a sua vida continua bastante activa. Dá apoio como “motorista” nas rotinas diárias das netas, em Lisboa, e vem a Santarém com frequência, em virtude de ser, desde 2009, administrador executivo da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de Pernes e Alcanhões. É também presidente da assembleia-geral da empresa municipal Águas de Santarém. Francisco Patrício, casado, pai de dois homens e avô de quatro netas, faz questão de reconhecer e elogiar o papel que a esposa, Fernanda, teve ao longo do trajecto em comum, “segurando as pontas” e tomando conta da casa e dos filhos enquanto ele andava numa roda viva no auge da sua vida profissional, empresarial e associativa.
O futebol é uma das paixões de Francisco Patrício. Fervoroso adepto do SL Benfica, mora perto do Estádio da Luz e é espectador atento dos desafios do seu clube. E as derrotas são das poucas coisas que o deixam aborrecido. Jogou futebol a ponta de lança durante a sua juventude, nos extintos Leões de Santarém e no Alcanhões (terra da esposa), onde foi campeão do Inatel.
Feira do Ribatejo descaracterizou-se com a transferência para o CNEMA
A Feira Nacional de Agricultura/Feira do Ribatejo mudou há três décadas para o Centro Nacional de Exposições (CNEMA). Continua a ser um entusiasta do certame? Vou todos os anos à feira e acho que o certame é bom para a cidade e para a região. Era um entusiasta das picarias, das largadas… Gostava de ver mas não me aventurava. Posso dizer que sou um médio entusiasta da feira. Acho que se descaracterizou um pouco com a transferência para o CNEMA, passou a ser uma feira mais nacional do que cá em cima, que era mais uma Feira do Ribatejo.
A relação entre a cidade e o CNEMA tem sido a desejável ou aquele complexo merecia ser melhor aproveitado pela população? Talvez pudesse ser melhor aproveitado, mas não me perguntem como porque não sou grande estratega para isso. Passo ali quase todos os dias e às vezes olha-se para lá e parece que aquilo está abandonado. Acho que aquele espaço merecia ter uma actividade mais contínua.


