Luísa Carvalho despede-se da escola onde continua a sentir-se em casa
A poucos meses da reforma, a directora do Agrupamento de Escolas de Samora Correia olha para mais de quatro décadas de ensino com pragmatismo, gratidão e a convicção de que a relação humana continua a ser a base da educação.
Luísa Maria Rodrigues de Carvalho entrou numa sala de aula do ensino público aos 21 anos e nunca deixou de sentir que estava no lugar certo. Aos 65 anos, quase 66, com 43 anos de serviço e a poucos meses da reforma, a actual directora do Agrupamento de Escolas de Samora Correia continua a dizer que gosta muito da escola. “A escola é a minha casa”, afirma sem hesitações, mesmo depois de anos exigentes, marcados por desafios crescentes.
Professora de Português e Francês, Luísa Carvalho está a viver o último ano lectivo antes da reforma com a preocupação de deixar tudo organizado para quem vier a seguir. Ainda não teve tempo para pensar na nostalgia, garante. Até ao fim, quer continuar concentrada no agrupamento. Depois, haverá tempo para arrumar a vida noutro sentido, viajar, ler, estar mais presente junto da família e encontrar uma ocupação que a faça sentir útil.
Recentemente homenageada como uma das nove mulheres distinguidas no Palácio do Infantado, no âmbito das comemorações ligadas ao Dia da Mulher, Luísa Carvalho agradece o reconhecimento, mas admite que estar em evidência não combina com a sua forma de ser. Define-se como uma pessoa “extremamente tímida”, de relações sociais restritas. Ver a sua fotografia exposta ou sentir o foco da comunidade sobre si provocou-lhe algum incómodo, que encara de forma positiva, por perceber que o gesto reconhece a pessoa que é e o trabalho que procurou realizar. “Não é a minha praia, de todo, vir a público neste tipo de situações”, reconhece.
Para Luísa Carvalho, a homenagem acaba também por tocar no valor da escola pública e de quem trabalha nela. A directora lembra que o melhor de cada profissional nem sempre agrada a todos e que nem sempre se conseguem atingir os objectivos inicialmente definidos. Pelo caminho surgem “areias”, “pedregulhos” e contratempos que obrigam a mudar de direcção ou até a fazer inversão de marcha. O que importa, sublinha, é a vontade de fazer.
Numa profissão historicamente muito ligada às mulheres, entende que a educação tem uma presença feminina maioritária há décadas, mas isso não dispensa ninguém de trabalhar para merecer respeito. Em qualquer área, defende, é necessário que as pessoas sejam reconhecidas como seres humanos e como profissionais. Reconhece, no entanto, que há profissões onde o caminho das mulheres continua a ser mais difícil e onde muitas ainda não chegam a lugares para os quais têm mérito.
O percurso de Luísa Carvalho começou por Lisboa, passou pelo Entroncamento e pela Chamusca, pelo Alentejo e pela Beira Baixa, até chegar a Samora Correia, onde está há 22 anos. Nascida em Macau, filha de um militar, veio para Portugal em 1964, com quatro anos, quando o pai terminou a comissão. A família radicou-se em Castelo Branco, onde passou a infância e a adolescência. Mais tarde estudou em Lisboa e iniciou o seu “périplo” pelo país, como tantos professores. Recorda com especial carinho os anos no Baixo Alentejo, onde esteve oito dos dez anos que passou no Alentejo. Fala da forma de estar das pessoas, inicialmente mais fechadas, mas capazes de criar relações extraordinárias quando se abrem. De todos os lugares por onde passou, garante, aprendeu alguma coisa.
Apesar de estar na direcção, Luísa Carvalho continua a falar dos alunos como “meninos”, numa expressão assumidamente carinhosa. Gosta de conversar com eles, embora reconheça que as responsabilidades actuais nem sempre permitem essa ligação. A dimensão humana é uma das marcas que mais valoriza no ensino. Defende que um professor não deve entrar numa sala, limitar-se a dar a matéria e sair. A relação com os alunos e com as famílias é cada vez mais importante numa escola com realidades diversas, acrescentando que se ensina melhor quando há vínculo, confiança e conhecimento mútuo.
Essa visão acompanha também a sua forma de liderar. Luísa Carvalho acredita que dirigir uma escola exige equilíbrio entre firmeza e escuta. Há momentos em que é preciso decidir e outros em que é necessário ouvir, ponderar e dar resposta às pessoas. No seu caso, diz ter procurado passar sempre aquilo que realmente é. Nunca tentou ser outra pessoa, porque acredita que ninguém consegue representar um papel durante muito tempo. A sua forma de estar assenta na honestidade, na verticalidade e no humanismo.
O silêncio da escola vai pesar
A reforma é assumida com pragmatismo. Luísa Carvalho sempre defendeu que, salvo situações excepcionais, quando chega a idade definida pela legislação, é altura de sair. Poderia continuar, porque a lei permite, mas considera que chegou o momento. “Há mais mundo para além da nossa vida profissional”, afirma. Quer ter calma, fazer coisas de que gosta sem estar presa a horários, situações por resolver ou responsabilidades permanentes.
Também quer usufruir mais da família, que reconhece ter sido muitas vezes penalizada pela dedicação à escola. Divorciada, mãe de dois filhos e avó de dois netos, espera conseguir estar mais presente. Entre os planos estão ainda as viagens e a leitura. Tem sempre livros em espera, de autores e géneros diversos, da ficção ao romance histórico. Não compra um livro apenas quando acaba outro; vai acumulando. Gosta de José Saramago, apesar de reconhecer que não é uma escrita fácil, e costuma sair da Feira do Livro com sacos cheios. Ao longo do ano, quando encontra um livro que lhe interessa, compra-o e deixa-o à espera da sua vez.
Ainda assim, não quer apenas ocupar o tempo. Quer ocupar-se com algo que tenha utilidade e finalidade. Por agora, diz, ainda não tem disponibilidade mental para pensar a sério no que fará quando deixar a escola. Até lá, a prioridade é concluir o ciclo que tem em mãos. O que mais lhe vai custar deixar são os alunos. As rotinas, acredita, substituem-se por outras. Os alunos, não. Basta-lhe pensar no mês de Agosto, quando a escola fica sem crianças e adolescentes. Nos primeiros dias, o silêncio sabe a acalmia e permite fazer tarefas com mais calma. Depois, começa a pesar.
Luísa Carvalho não sabe ainda se ficará definitivamente em Samora Correia ou se seguirá outro caminho. Tem casa na cidade e admite que tudo está em aberto. Aos professores mais novos deixa um conselho: não desistam à primeira. Quem entra numa sala de aula deve lembrar-se que do outro lado estão seres humanos em crescimento. É preciso tentar percebê-los, não desistir deles e manter a consciência de que a educação se faz com pessoas.
Crescimento demográfico acentua falta de instalações
O crescimento de Samora Correia e do concelho de Benavente é hoje uma das grandes pressões sobre a comunidade escolar. Luísa Carvalho considera que a falta de instalações é a principal dificuldade logística do agrupamento. A Câmara de Benavente e o Ministério da Educação estão a avançar com um projecto para uma nova escola secundária, que a directora considera necessária para responder às necessidades das famílias, dos alunos, das turmas e dos horários. A pressão já se sente há vários anos, mas tornou-se mais evidente no pós-pandemia, com a chegada de mais famílias a Samora Correia. Algumas trabalham na freguesia, outras deslocam-se para outros locais, beneficiando também de novas formas de trabalho que permitiram a procura de zonas fora da confusão dos grandes centros.
O exemplo do Porto Alto mostra a dimensão do crescimento. Quando foi agrupado, tinha 11 ou 12 turmas; este ano tem 27. As turmas têm entre 20 e 28 alunos. Também os alunos de outras nacionalidades fazem parte da realidade há muitos anos. Luísa Carvalho lembra que, quando chegou a Samora Correia, há 22 anos, já havia muitos alunos estrangeiros. O número absoluto aumentou, mas a percentagem tem-se mantido relativamente estável, com pequenas variações. A diferença é que essa percentagem incide hoje sobre um universo muito maior de alunos.


