Entrevista | 16-06-2026 15:00

Manuel Mourato: da PJ para a presidência da Câmara de Vila Nova da Barquinha

Manuel Mourato: da PJ para a presidência da Câmara de Vila Nova da Barquinha
Manuel Mourato defende um concelho à escala humana, com qualidade de vida e crescimento controlado - foto O MIRANTE

O presidente da Câmara de Vila Nova da Barquinha quer um concelho que continue a primar pela qualidade de vida e pela oferta cultural diferenciada, de portas fechadas a indústrias poluentes, à construção desenfreada e a açudes no Tejo. Manuel Mourato, que foi militar da Força Aérea e perito forense na Polícia Judiciária, diz que entrou na vida autárquica também para ajudar a contrariar a imagem negativa que muita gente tem dos políticos.

Manuel Mourato, 57 anos, nasceu em Castelo de Vide, no Alto Alentejo, em 9 de Novembro de 1967. É casado, pai de três filhos, tendo o seu filho mais velho, então cadete da Escola Naval, falecido num acidente de viação na EN118, perto de Almeirim, em 2007.
Veio para o concelho de Vila Nova da Barquinha aos 17 anos para cumprir serviço militar na então Base Aérea 3, em Tancos. Foi militar da Força Aérea durante onze anos e saiu por iniciativa própria para ir para a Polícia Judiciária (PJ) como perito forense na área da contrafacção. Era especialista em análise de documentos e ali trabalhou durante quase trinta anos, tendo conciliado com as funções de professor universitário durante 15 anos. Possui um mestrado em Liderança de Organizações e uma licenciatura em Gestão Financeira. É autor de um livro e de vários artigos científicos. Durante a sua carreira na PJ chegou a ser presidente do Sindicato dos Peritos Forenses, que ajudou a criar.
No Ribatejo, inicialmente, teve residência no Entroncamento e fixou-se depois no concelho de Vila Nova da Barquinha, em 2002. Está ligado à Associação de Paralisia Cerebral de Vila Nova da Barquinha desde 2009, onde ainda é presidente da assembleia geral. Militante do Partido Socialista há cerca de uma década, de 2017 a 2025 integrou o executivo municipal de Vila Nova da Barquinha como vereador e vice-presidente na fase final do último mandato. Foi eleito presidente da câmara em Outubro de 2025. É também vogal do Conselho de Administração da empresa intermunicipal Tejo Ambiente.

Foi perito forense na PJ durante quase trinta anos. O que lhe deu para se meter na política autárquica? Fui desafiado pelo anterior presidente, Fernando Freire, que já conhecia e com quem tinha alguma ligação. A minha vida profissional não o permitia nessa altura, pois além de ser perito forense na PJ, era o representante português para a contrafacção em Bruxelas. Tinha uma vida extremamente ocupada, com uma ou duas reuniões por mês em Bruxelas; e ia também a Frankfurt por causa do Banco Central Europeu e da questão da contrafacção das notas. Ainda dava aulas numa faculdade, no Instituto Superior Egas Moniz, e também dava aulas online para o Brasil. Por isso, quando vim para a Câmara de Vila Nova da Barquinha foi sem tempo atribuído. Mas tinha pelouros, como os da juventude e da segurança.
E acabou por ficar a tempo inteiro… Uma coisa que se tem nesta actividade, contrariamente àquilo que era a minha vida profissional, é o gosto do ver feito. Sabendo-se um pouco como funciona a justiça, nós já tínhamos era o desgosto do não ver feito. Fazíamos determinada investigação, reuníamos provas, íamos para tribunal e o senhor doutor juiz mandava-os embora. Às vezes saíam mais depressa do tribunal do que eu. Aqui, conseguimos ver resultados do nosso trabalho.
Perguntámos-lhe porque se meteu na política porque se trata de um meio que nem sempre é bem-visto pela opinião pública. Venho exactamente para tentar contrariar essa imagem e tenho um chefe de gabinete que também vem de um meio completamente diferente, pois é professor. As pessoas têm que perceber que nós não somos um bando de malfeitores. O meu percurso fala por mim e sou um acérrimo defensor de que a política é válida, é necessária e faz todo o sentido.
Como perito forense da PJ, chegou a trabalhar em investigações ligadas a autarquias? Tive muito poucas ligações com municípios, apesar de ter tido contactos nalgumas situações. As autarquias são muito investigadas pela parte da corrupção, um tipo de criminalidade que não tem a ver com a contrafacção. Eu estava ligado sobretudo à contrafacção documental, como cartas de condução, passaportes, cartões do cidadão, além da contrafacção de moeda.
A PJ visita frequentemente autarquias. Na maior parte das vezes são investigações que não dão em nada. Há mais fumo que fogo? Há. A PJ tem que investigar e está a fazer o seu papel. É essencial que o faça e num Estado de Direito devemos respeitar isso. Mas algumas vezes, sobretudo em época de disputa política mais acentuada, cria-se este tipo de situações, que é: uma pessoa não gosta de mim e à mínima situação lança a suspeita. Basta uma denúncia anónima e a PJ tem que investigar. Por isso é que muitas vezes os processos chegam àquele ponto em que se diz que se investigou muito, mas não resultou em nada.
Isso não contribui para generalizações abusivas e para criar uma percepção negativa sobre autarcas e autarquias? Seguramente que sim. Porque muitas vezes generaliza--se e faz-se o julgamento na praça pública. E a própria comunicação social, muitas vezes, também é culpada disso. O facto de se fazer uma busca numa autarquia não significa que o presidente da câmara e o seu executivo sejam culpados. A busca faz-se precisamente para verificar a existência do crime, ou não. No Estado de Direito, a presunção de inocência é fundamental.
A divulgação desses casos e o julgamento na praça pública interessa a muita gente. E pode ter consequências políticas e pessoais para os visados. O problema é que fica a sensação que são todos culpados e que os políticos são todos uns corruptos e uns bandidos, o que favorece algumas agendas políticas que andam por aí.
Assume-se como um autarca de continuidade ou quer deixar a sua marca na Câmara de Vila Nova da Barquinha? As duas coisas. Quero ser um autarca de continuidade e deixar a minha marca em Vila Nova da Barquinha. Porque não há duas pessoas iguais e cada um tem o seu cunho. Entrei como presidente num momento político conturbado e, obviamente, o meu mandato não vai ser igual aos anteriores.
Conturbado em que sentido? Assistimos nos últimos tempos a um crescimento do partido Chega.
E o Chega tem-lhe dado muito trabalho? Quem está cá como eleito do Chega faz o seu papel, mas devia estar junto do executivo para construir e não para dizer mal só por dizer ou criticar só por criticar. Se calhar, deviam ter uma posição mais construtiva. Temos um acordo de governação com a vereadora que foi eleita pela AD, é um acordo feito com a pessoa e não com o partido. Até porque entendo que as autarquias locais vivem de pessoas e não de partidos.
Quais as diferenças mais marcantes em relação ao seu antecessor? Sou uma pessoa diferente. Tenho uma história de vida diferente, cheguei cá de forma diferente. Seguimos uma política de continuidade e os projectos que já cá estavam, mas, obviamente, também temos novos projectos e novas ideias.
Como tem sido a relação com os autarcas vizinhos? Temos tido uma relação excelente no Médio Tejo. Aliás, a nossa Comunidade Intermunicipal tem um enquadramento em que as pessoas, apesar de serem de partidos diferentes, revêem-se nas posições uns dos outros.
O seu vizinho do Entroncamento é o único presidente de câmara do Chega na região e um dos poucos no país. Tem sido mais fácil lidar com ele do que com os vereadores do Chega na Barquinha? Seguramente que sim. A relação que tenho com ele é de cordialidade e de coordenação em situações em que temos de trabalhar juntos. Tem sido também um elemento na Comunidade Intermunicipal que tem contribuído para agregar.
A proximidade ao Entroncamento é um problema ou uma oportunidade? Temos as duas coisas. Temos projectos comuns, como a ciclovia que vai ligar o Entroncamento à Barquinha. A ligação ao Entroncamento, à ferrovia e ao próprio aglomerado populacional de mais de 20 mil pessoas é uma oportunidade para a Barquinha, seguramente que sim. O problema é a sobrecarga urbana que pode vir a trazer e algumas situações de que o Entroncamento sofre neste momento e que podem transferir-se para aqui.
Há uma percepção negativa em relação à imigração no Entroncamento, visível sobretudo nas redes sociais, e que é associada também a alguma insegurança. Acho que a imigração no Entroncamento cresceu de uma forma exponencial em muito pouco tempo e, se calhar, não teve o enquadramento que devia ter tido. Mas isso é um problema deles, que quero ver se não se torna um problema da Barquinha.

“Sou completamente contra um açude no Tejo”

A Barquinha tem aproveitado bem a sua frente ribeirinha? Vamos começar a intervir no trilho dos templários, que fica entre a foz do Nabão e a foz do Zêzere, que ficou muito danificado no Inverno. O trilho do Tejo, entre Constância e Barquinha, também vai necessitar de intervenção, sobretudo entre Constância e Praia do Ribatejo, que também sofreu danos. O aproveitamento turístico tem que ir muito por aí. Sou pouco adepto do aproveitamento náutico, a não ser para remo e canoagem. Desportos motorizados não.
Então não deve ser muito adepto da ideia de se criar um açude a montante do Castelo de Almourol? De todo! Não faz sentido nenhum! É uma questão de perceber que temos o Caima, o Castelo de Almourol - que gostaria que continuasse a ser uma ilha -, temos toda esta envolvência da canoagem que desce o Zêzere e o Tejo. Imaginem uma barragem ali e todos os inconvenientes que traria… Sou completamente contra. Aquele açude não iria trazer nada de bom. Iria inundar a praia fluvial de Constância, iria ter a descarga directa da ETAR do Caima dentro do açude, iria secar o Tejo a jusante, dar cabo da diversidade de peixe no rio… Pedir que seja a favor de uma questão destas é impossível.
Vai lutar até à última contra essa possibilidade? Seguramente que sim. Mas acho que isso já caiu. Daqui a 20 ou 30 anos é capaz de voltar.
É quase como os parques temáticos para a zona da Atalaia... Tenho muita pena que não se tenham concretizado, mas é preciso é que os investidores privados tenham condições para os fazer. No entanto, a zona industrial está toda ocupada e a zona contígua, para onde esteve previsto o bioparque, vai servir para a ampliar.
Como é que pretende afirmar a Barquinha na região? Temos de nos afirmar na região por duas ou três razões. Primeira: manter a qualidade da educação que cá temos. Segunda: economia e desenvolvimento empresarial. Temos dois projectos nesse campo e vamos fazer o centro de negócios 2. A terceira é a qualidade de vida. Manter e melhorar esta qualidade de vida que traz as pessoas a Vila Nova da Barquinha. O aumento de população que temos tido é em busca de qualidade de vida. Estamos no centro do país, temos todas as condições para crescer, mas temos de manter esta qualidade e ter muito cuidado com os investimentos que se trazem para aqui e com a construção que se faz. Não queremos indústrias poluidoras ou que possam causar problemas. A Barquinha não precisa disso para crescer.
O potencial turístico do Castelo de Almourol tem sido devidamente explorado? Ainda há margem para explorar. O Almourol tem muito a ver com a temática templária, que devemos explorar até onde for possível e torná-la num atractivo turístico, criando marca e produto turístico.
O parque de escultura contemporânea tem tido o retorno expectável? Sim. Temos um turismo de nicho que nos visita exclusivamente para esse fim. O parque está sempre associado à nossa galeria de arte onde temos diversas exposições da Fundação EDP e muitas vezes até do próprio museu do MAAT (Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia), em Lisboa. Esta descentralização da cultura e do turismo que vem à Barquinha com este fim faz todo o sentido. A cultura não deve estar só em Lisboa e isso traz-nos seguramente uma diferenciação no território. Foi uma aposta excelente.
Consegue ter vida para além da câmara ou esta função é demasiado absorvente? Sofri ao longo da minha vida de um problema, que é nunca ter muita vida para além do que era a minha vida profissional. Sempre fui muito focado naquilo que faço e de que sou responsável. E sinceramente não tenho muito mais vida para além disto. Neste momento, a minha vida ocupa-se quase a 100 por cento com a câmara e com os problemas que tenho aqui para resolver.
É daqueles presidentes que vai a todas? À festa na aldeia, à pequena iniciativa, à grande iniciativa? Não. Seguramente que o presidente anterior era muito mais assíduo nessas questões. Uma das mudanças que fiz foi a repartição dessa função pelo executivo com pelouros. Sou um bocadinho adepto de que o presidente não tem que estar em tudo, até porque vai gastar muito a sua imagem. O presidente deve estar nas iniciativas em que achar que faz sentido a sua presença. E nessas estarei certamente.

Uma nova ponte sobre o Tejo e a reactivação da antiga base aérea de Tancos

O Entroncamento tem sentido uma pressão demográfica e urbanística que poderá estender-se à Barquinha, em resultado da extinção das portagens nas autoestradas A23 e A13, e também com a redução do preço do passe ferroviário, que tornam inevitavelmente o território mais apetecível. Este conjunto de factores não poderá levar à descaracterização urbana, como aconteceu no Entroncamento? Enquanto eu cá estiver, isso não vai acontecer. A construção em altura é reduzida ao mínimo. Vamos continuar com o tipo de construção que existe. Por outro lado, temos beneficiado da vinda de muitos habitantes do Entroncamento, que se têm mudado para o concelho da Barquinha à procura da qualidade que temos para oferecer. Isso agrada-nos muito.
Não faria sentido uma fusão dos municípios de Entroncamento e Barquinha, até por haver uma continuidade urbana entre as duas sedes de concelho e a reduzida dimensão territorial dos dois concelhos? A Barquinha tem um território multifacetado. Há uma malha urbana muito grande nesta zona da Barquinha e Atalaia, mas temos uma extensão de território ainda muito rural, nas freguesias de Praia do Ribatejo e Tancos. Depois, temos um fenómeno muito importante que é preciso não deixar escapar: um terço do nosso território é servidão militar afecta ao campo militar de Tancos.
Até que ponto isso limita o desenvolvimento e novas ideias para este território? Cria vantagens e desvantagens. Há a desvantagem de criar aqui uma espécie de divisão no concelho. Muitas pessoas revêem-se nesse discurso de que temos dois concelhos: o de Tancos para cá e o de Tancos para lá. E temos de ser claros e dizer que essa divisão existe. Mas, por outro lado, também cria vantagens. Vamos receber, em Outubro, os helicópteros do Exército, que vão trazer muito mais movimento a Vila Nova da Barquinha e à Praia do Ribatejo. Vão para a antiga BA3, agora Brigada de Reacção Rápida. E há novos projectos, inclusivamente privados, que estão na calha para lá.
De vez em quando aflora-se a possibilidade de adaptar a antiga BA3 à aviação civil. O que pensa disso? Penso que ter em degradação uma infraestrutura com aquelas dimensões, num território central como é este, junto a infraestruturas ferroviárias e rodoviárias, não faz sentido. O aproveitamento militar ou civil, ou ambos, tem que existir e vai acontecer.
Sobre essa questão da antiga BA3, tem havido falta de vontade política ou falta de afirmação desta região perante o poder central? Acho que isto passou muito pelas políticas de Defesa que têm havido. É um capítulo que está agora em desenvolvimento num sentido diferente. Até porque as estratégias de Defesa estão a passar muito pelo Campo Militar de Santa Margarida, que não tem uma pista com as condições da que temos em Tancos. A ligação entre Santa Margarida e Tancos tem que existir, forçosamente.
E essa ligação exige uma ponte que não será a actual, que liga Constância Sul e Praia do Ribatejo. A actual ponte não serve os militares, porque não podem passar carros com mais de 3,5 toneladas. E serve mal as populações, porque não é solução ter o trânsito apenas a circular num sentido, alternadamente.
Acha que é possível uma nova travessia nesta zona e outra na zona da Chamusca, onde também é reivindicada há muitos anos uma nova travessia sobre o Tejo? Haverá fôlego financeiro do Estado para duas obras tão próximas geograficamente? Julgo que sim. Com a questão estratégica da Defesa neste momento, e com os fundos europeus que existem para essa área, há condições para resolver esse problema da ponte da Praia do Ribatejo. A outra, na Chamusca, julgo que é um problema que o Governo já tem elencado noutro tipo de projectos e de orçamentos.
A actual conjuntura bélica pode ser uma oportunidade para o concelho. Sim, pode ser uma excelente oportunidade para desenvolver aquela área do concelho. Estamos a preparar-nos nesse sentido. Temos projectada a construção de uma creche na Praia do Ribatejo, porque quem vem traz crianças; assim como o desenvolvimento do actual agrupamento de escolas, que terá de ter novas infraestruturas dentro de algum tempo.
A conclusão da A13 entre Almeirim e Barquinha, aguardada há anos, é uma espinha atravessada na garganta desta região? Para a Barquinha não, ela termina no nosso território.
Mas há também a ligação a sul… Sim, a ligação a sul é que está sem andar há muito tempo, com aquele problema dos condicionamentos de trânsito na ponte da Chamusca por resolver.
Pelas suas respostas, parece que olha mais para norte do que propriamente para sul. Tenho que olhar para norte e para sul. Até porque se o futuro aeroporto for para onde está projectado, e tudo indica que sim, temos que ter uma ligação a essa infraestrutura. A conclusão da A13 faz todo o sentido e já devia ter acontecido há muito tempo. Embora tenhamos a alternativa pela A1 para ligação à margem sul do Tejo.

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