Entrevista | 09-07-2026 09:25

“O interior continua a desertificar-se e a floresta a arder sobre as cinzas do mesmo diagnóstico de sempre”

“O interior continua a desertificar-se e a floresta a arder sobre as cinzas do mesmo diagnóstico de sempre”
Carlos Lopes, presidente da câmara de Figueiró dos Vinhos: “o interior continua a desertificar-se e a floresta a arder sobre as cinzas do mesmo diagnóstico de sempre”. foto DR

Uma entrevista com Carlos Lopes, presidente da câmara de Figueiró dos Vinhos, um concelho que em 2017 sofreu uma das maiores tragédias dos fogos em Portugal: 115 mortos num território que quase 10 anos depois continua a sofrer dos mesmos males de uma governação que, segundo o autarca, condiciona a organização do território e, em certos aspectos, é uma força de bloqueio ao desenvolvimento, onde há zonas que podiam estar hoje infraestruturadas para a indústria ou para a habitação, mas que estão presas por teorias fundamentalistas que impedem as pessoas de rentabilizar o que é seu.

Uma das viagens de O MIRANTE pelos concelhos do interior começou em Figueiró dos Vinhos. Chegámos bem cedo à sede do concelho o que nos permitiu visitar o Memorial às Vítimas dos Incêndios de 2017, uma iniciativa que homenageia as 115 vítimas dos trágicos fogos. O monumento localiza-se junto à Estrada Nacional 236-1 (EN 236-1), na zona de Escalos Fundeiros/Troviscais, no concelho limítrofe de Pedrógão Grande, que liga Castanheira de Pêra a Figueiró dos Vinhos.

O espaço de homenagem ao ar livre foi inaugurado em junho de 2023 e pode ser visitado a qualquer momento, uma vez que se encontra num espaço público aberto. Sendo simples, o local impressiona, o silêncio da paisagem é estranhamento real.

A mancha florestal continua a dominar. Tivemos ainda tempo de visitar alguns aldeias de xisto, vazias, abandonadas à vegetação, São Simão, as suas fráguas e passadiços surpreende-nos sempre pela sua beleza.

Cerca de duas horas depois da nossa chegada rumamos até ao edifício dos Paços do Concelho onde nos esperava o presidente da câmara municipal, Carlos Lopes, que nos recebeu acompanhado da sua assessora para a comunicação.

Depois das apresentações, já sabendo ao que íamos, Carlos Lopes respondeu às nossas perguntas sem rodeios, nomeadamente sobre o que mais nos interessava ouvir que era a sua opinião sobre a floresta, a descentralização de competências, o ordenamento do território e a relação complexas com as grandes indústrias de celulose.

O senhor presidente tem uma longa experiência política e administrativa. Como avalia o processo de descentralização de competências para os municípios?

Revolta-me quando se transfere para as câmaras municipais competências em que nós ficamos responsáveis pelo pagamento do pessoal auxiliar, pela manutenção das escolas e por tudo o que é preciso para funcionar, e depois chegamos ao final do ano com um défice de 400 mil euros em Figueiró dos Vinhos. O Estado dá-me responsabilidades e dá-me um prejuízo de 400 mil euros todos os anos. O Estado, para não ter trabalho, diz: "Olha, tome lá". O pacote financeiro não acompanha a responsabilidade. Nós temos sempre, uma vez mais, de correr atrás do prejuízo. Qualquer autarquia do país pode fazer muito pelas comunidades, mas tem de ter condições para desenvolver esse trabalho.

Sente que a burocracia e a sobreposição de entidades dificultam a gestão do território e da floresta?

É isso tudo que acabou de perguntar e o que está subentendido na sua pergunta. Há organismos a mais a sobreporem-se uns aos outros. Devia haver uma concentração de competências que permitisse a agilização de procedimentos. Andamos aqui a correr de um serviço para o outro ; é o ICNF, é a APA, é a CCDR. Isto é nocivo e desgastante para quem precisa de tomar decisões. Numa reunião, cheguei a dizer que havia 10 comissões para resolver o mesmo problema, onde havia espaço para toda a gente se confundir.

E as Comunidades Intermunicipais (CIM) não ajudam a esbater essa burocracia? As comunidades intermunicipais acabam hoje por ter uma vantagem que é a escala, conseguindo agregar e obter financiamento para projetos que nós, sozinhos, não conseguiríamos alavancar. Mas essa entidade depende depois da política definida em relação às Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR). E aí é um problema, porque muitas vezes aquilo que parte das CIM`S, em termos de habitação, desenvolvimento económico ou transportes, esbarra num poder que acaba por emperrar o desenvolvimento mais capaz de uma determinada região. Além disso, fico muito cético relativamente aos critérios de distribuição central de incentivos e ajudas.

“Temos uma comunidade que se autoprotege muito e está desconfiada”

Figueiró dos Vinhos tem em curso o projeto da Forestgal na freguesia da Aguda, associado a uma das primeiras Áreas Integradas de Gestão da Paisagem (AIGP). Como está a correr esse processo?

Temos um relacionamento institucional muito próximo com a Forestgal. Tivemos recentemente de nos juntar e ir ao encontro dos proprietários numa acção de sensibilização. Tivemos de fazer pedagogia e explicar que ninguém as pode obrigar, por enquanto, a prescindir do que é seu, mas que era importante darem as mãos para que as suas propriedades fossem mais resilientes e eficientes. Participei numa reunião na Aguda com mais de 150 proprietários para os mobilizar para esta estratégia, mas também para os descansar. Estamos perante comunidades sempre desconfiadas, porque estão saturadas de ser castigadas. É uma comunidade que se auto protege muito. As pessoas sabem que não conseguem tratar do terreno, mas abrir mão de tudo também é complicado para elas.

O cadastro simplificado e o BUPi têm ajudado a resolver esse desconhecimento da propriedade?

O cadastro atualizado e o recenseamento da propriedade são fundamentais. Nós temos pessoas a trabalhar a tempo inteiro nesse balcão e já estamos muito perto dos 80% de reconhecimento de todo o património que existe no concelho a esse nível. Mas temos de reconhecer que hoje a floresta não é um negócio rentável para quem é produtor. Limpar um hectare de mato custa cerca de 2 mil euros, o que é incomportável.

E se os proprietários não limparem os terrenos? A câmara vai avançar com limpezas coercivas?

Procuraremos esgotar o diálogo e a sensibilização. Mas não nos vamos demitir, em circunstância alguma, das nossas responsabilidades. O proprietário pode estar identificado, mas estar ausente em Lisboa ou nos Estados Unidos e não fazer nada. Nós temos financiamento que dá 1.500 euros por hectare para convidar os proprietários a remover o material que está no solo. Mas se não o fizerem, nós temos de colocar o bem público, a segurança dos cidadãos e a proteção de pessoas e bens acima dos interesses individuais. Durante muitos anos, as autarquias pecaram por cálculos eleitorais ao não aplicarem coimas e deixarem andar porque isso tira votos. Connosco, o interesse público irá sempre sobrepor-se ao interesse individual.

“Não podemos aceitar tudo o que as grandes empresas nos querem impor”

As grandes empresas de celulose defendem que se lhes dessem a gestão dos matos e baldios haveria menos incêndios, pois fazem a gestão de florestas de forma profissional. Concorda com esta visão?

A vida faz-se de equilíbrios e nem tanto ao mar, nem tanto à terra. A ideia do lucro não se pode sobrepor ao resto. Tenho uma atitude muito cautelosa relativamente a essas abordagens. Não será muito útil à paisagem haver uma continuidade florestal que amanhã possa criar outro grande problema. Percebo as expectativas dessas empresas em gerar o máximo lucro possível, mas nós temos de procurar não ceder com toda a facilidade a interesses minimamente calculistas e lucrativos. Temos de ordenar o nosso território de forma mais racional, onde todos possam ganhar alguma coisa. Não podemos aceitar tudo o que essas grandes empresas nos querem impor.

Mas é um facto que as propriedades geridas por elas ardem menos...

É verdade que os terrenos que são propriedade deles são os que menos ardem. Mas, por outro lado, há a questão da biodiversidade. Aquilo torna-se um terreno completamente asséptico, não tem mato, evitam o incêndio mas também evitam todo o resto da vida. E eu não quero isso para o concelho. Precisamos de proteger a biodiversidade que temos. Sou contra os fundamentalistas em tudo.

Essa falta de gestão nas áreas envolventes acaba por afetar as linhas de água?

Sim, as zonas de linhas de água acabam por arder em vez da floresta gerida, porque são as únicas em que ninguém toca, e isso destrói toda a biodiversidade. É uma realidade. Estamos a trabalhar num programa com o Ciência Viva para fazer uma produção de insetos numa mata que foi dizimada, para ligar as comunidades a essa biodiversidade que precisamos de proteger.

“O PDM de Figueiró dos Vinhos é uma força de bloqueio ao desenvolvimento”

O Plano Diretor Municipal (PDM) deveria ser a ferramenta por excelência para ordenar o território. No seu caso, ajuda ou bloqueia?

O PDM, pelo menos o de Figueiró dos Vinhos, é uma força de bloqueio ao desenvolvimento, ponto final. Temos zonas que estou convencido que podiam estar hoje infraestruturadas para a indústria ou para a habitação, mas que estão presas por teorias fundamentalistas que impedem as pessoas de rentabilizar o que é seu. Determinadas zonas agrícolas e florestais podiam estar hoje povoadas de outra forma, permitindo uma proximidade maior que ajudaria a prevenir os incêndios. O que vemos são terras abandonadas porque não são rentáveis e onde não se pode fazer rigorosamente nada devido às regras do PDM.

Como se inverte este ciclo de abandono e de risco no interior do país?

O Estado central tem de fazer uma opção definitiva: ou continua a investir apenas para dar qualidade de vida a quem afunila nos centros urbanos do litoral, ou cria condições para que os territórios com menos capacidade financeira tenham uma discriminação positiva. E essa discriminação positiva faz-se, desde logo, com uma política fiscal atrativa para atrair empresas e pessoas. Eu não estou disponível para passar os próximos anos apenas a pagar prejuízos.

Que alternativas económicas propõe para a floresta e para o concelho?

Estamos a apostar fortemente no conceito da bio economia, procurando que o desenvolvimento económico se faça a par das nossas riquezas ambientais. Temos o exemplo de uma empresa de óleos essenciais em Figueiró que utiliza matéria-prima local para produtos de dermatologia e perfumaria que exporta para o estrangeiro. Estamos também a lançar o concurso para um novo campus empresarial, num investimento de 4,5 milhões de euros numa antiga serração de madeiras, vocacionado para a bio economia. Vamos oferecer espaços num conceito "chave na mão" com arrendamento acessível, para que os investidores se foquem apenas no seu negócio. Além disso, estamos a investir no turismo científico através do Centro de Recuperação de Ecossistemas Ribeirinhos em Campelo, para atrair alunos e investigadores de todo o país para a freguesia mais idosa e menos populosa do concelho.

“O diagnóstico está feito há 500 anos. Continuamos com a mesma receita”

O senhor presidente já coordenou a comissão parlamentar de defesa da floresta contra incêndios. O que mudou desde então?

É curioso. Passados estes anos todos, o diagnóstico está feito há 500 anos. Já na altura falávamos do cadastro, da necessidade de prevenção estrutural, da vigilância. De facto, veio 2005, veio 2017, veio 2021, veio 2025 e continuamos a ter uma política de defesa da floresta que não é a mais assertiva. Há incompreensão e choques de competências entre a Protecção Civil, os bombeiros e as forças no terreno. E as comunicações continuam a falhar. Na última tempestade, o país inteiro comunicava, mas nós aqui só conseguíamos falar através de um telefone satélite que os bombeiros voluntários nos disponibilizaram. O resto não funcionava.

Como avalia a aplicação dos recursos financeiros na floresta?

Antigamente a União Europeia dava subsídios para destruir vinhas, olivais e culturas. Acho que agora deve ser o contrário: deve haver incentivos financeiros, não para destruir, mas para construir e fomentar o desenvolvimento de espécies autóctones e resilientes a longo prazo. Se plantarmos espécies autóctones numa AIGP e elas não tiverem um apoio ao rendimento, as pessoas abandonam e aquilo transforma-se em mato rapidamente. Estou cansado de ouvir falar todos os anos do negócio dos helicópteros, das aeronaves e do combate, e muito pouco do negócio da floresta. Isso entristece-me. Repetimos todos os anos a mesma receita e esperamos resultados diferentes.

Sente que o peso da responsabilidade civil e criminal é hoje injustamente empurrado para os autarcas?

Completamente. Hoje, se as coisas correm mal, a responsabilidade é do autarca. Se um terreno não foi limpo convenientemente e há um problema, o autarca é acusado de negligência grosseira, pode ir para a prisão e perder o mandato. Nós temos de repartir melhor as responsabilidades e convergir mais entre a administração central e local. Julgo que o papel das CIM é crucial, mas devia ser reposto um patamar intermédio; como eram os governos civis; que servisse de ligação direta para encaminhar as aflições das comunidades junto de quem decide a nível central.

À Margem

O presidente da Câmara Municipal de Figueiró dos Vinhos, Carlos Lopes, deixa claro nesta entrevista o seu descontentamento em relação à organização das instituições do país. Num discurso sem meias palavras diz que “há uma sobreposição asfixiante de organismos públicos”, que “o pacote financeiro do Estado não acompanha as responsabilidades transferidas para os municípios” e que “o PDM atual funciona como uma autêntica força de bloqueio ao desenvolvimento”. Com uma longa carreira na administração pública e autárquica, e tendo já coordenado no Parlamento uma comissão especializada para a defesa da floresta contra incêndios, olha para o interior com a determinação de quem recusa o papel de vítima e exige uma verdadeira discriminação positiva para fixar pessoas e empresas. A meio da conversa deixa, no entanto, uma mensagem de união e pragmatismo: “o território não se gere com fundamentalismos ecológicos nem com o abandono ditado por regulamentos cegos”. A floresta só terá futuro se for economicamente viável para quem nela trabalha, ordenada com base no equilíbrio e protegida por um Estado que assuma a sua quota-parte de responsabilidade em vez de empurrar o fardo financeiro para os municípios”. Em final de conversa critica “o ciclo vicioso de um país que gasta milhões a combater o fogo no verão, mas asfixia as autarquias que tentam fazer prevenção no inverno”. No fundo, o seu aviso é claro: “sem uma política fiscal diferenciada, sem a revisão urgente dos PDMs e sem o apoio direto ao rendimento dos proprietários, continuaremos a ver o interior a desertificar-se e a floresta a arder sobre as cinzas do mesmo diagnóstico de sempre”.

(entrevista realizada presencialmente em Figueiró dos Vinhos, junho de 2026)


O MIRANTE está a trabalhar num projecto editorial para identificar as consequências da eucaliptização no ambiente e no tecido socioeconómico de Portugal e da Galiza. O trabalho é apoiado pelo Journalismfund Europe e é realizado em parceria com o jornal digital Galiciapress. A Journalismfund Europe é uma organização sem fins lucrativos, com sede em Bruxelas, que procura fortalecer a democracia na Europa através do apoio ao jornalismo de investigação independente.

Pode consultar todas as notícias do projecto neste link

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