Entrevista | 10-07-2026 07:00

Nuno Morgado: “O Sardoal não pode pagar sozinho a segurança da população”

Nuno Morgado: “O Sardoal não pode pagar sozinho a segurança da população”
Nuno Morgado, comandante dos Bombeiros Municipais de Sardoal, está ligado à corporação desde os 14 anos - foto O MIRANTE

Natural da vila de Sardoal, Nuno Morgado está ligado aos bombeiros desde os 14 anos e é comandante da corporação do concelho desde 2014. Nesta entrevista a O MIRANTE fala da comunidade, da exigência emocional do socorro, da evolução da corporação e do futuro da Protecção Civil. Defende a imparcialidade de quem comanda, reclama mais apoio do Estado aos corpos de bombeiros municipais e vê como “um retrocesso” o regresso a uma organização assente nos distritos. Tem 48 anos, é casado e pai de três filhos.

É natural de Sardoal e tem uma vida muito ligada à terra. Que papel sente que tem tido na comunidade? Tenho procurado estar presente da forma que consigo. Já passei por algumas associações e tento apoiar sempre que possível, embora as funções de comandante e de responsável pela Protecção Civil retirem muito tempo. Quando alguém me aborda com um problema, tento resolver ou encaminhar para quem tenha essa responsabilidade. Quero que as pessoas sintam que têm aqui alguém para ajudar. Mas também temos de ser realistas: somos todos falíveis e não conseguimos resolver todos os problemas.
Essa presença pública cruza-se com a política. Já ouvi dizer que tem simpatia pelo PSD. É verdade? Não acho que possa ser visto dessa forma. No lugar que ocupo, o meu entendimento é claro: quem está no comando não pode ter parcialidade. Tem de ser completamente imparcial. É lógico que todos temos preferências, mas trabalho com umas pessoas como trabalho com outras. Qualquer partido com representatividade aqui sabe que, da minha parte, há respeito institucional. O comando não pode ser condicionado por preferências pessoais.
Quando percebeu que queria ligar a vida aos bombeiros? Foi algo que se proporcionou. O meu pai tinha sido bombeiro voluntário e, com colegas da mesma idade, entrei para o corpo de bombeiros aos 14 anos. Nessa altura não pensávamos nisto como profissão. Era uma forma de ajudar. Mais tarde, com os piquetes, o socorro, o salvamento e sobretudo os verões, comecei a olhar para esta actividade de outra forma. A componente profissional surgiu depois, já com vinte e tal anos, através de contratos com o município.
Há alguma ocorrência que o tenha marcado? Recordo o grande incêndio de 1995, que começou no concelho de Mação e se propagou ao Sardoal. Foi violento, ameaçou habitações e exigiu muito do corpo de bombeiros. Também houve um acidente rodoviário, complexo no salvamento, com vítimas projectadas para fora da viatura e outras encarceradas. E houve um incêndio urbano em Alcaravela, onde morreram duas crianças. Essa ocorrência afectou-me muito. Quando falamos de crianças, a dimensão emocional é outra.
Consegue deixar esse peso no quartel? Por muito que se diga que o trabalho fica no trabalho e que em casa está a família, quem está no socorro não consegue desligar completamente. No meu caso, tento brincar com os filhos, fazer actividades com eles, desligar um pouco. Mas quem está em funções de comando leva sempre trabalho para casa. Posso não levar papéis nem computador, mas levo mentalmente. É um sacrifício, mas também é uma escolha.

Um corpo misto para um território exigente

Como olha para a evolução da corporação? O corpo de bombeiros tem feito o seu caminho. Não gosto de fazer grandes comparações com o passado, porque cada tempo cria oportunidades e dificuldades diferentes. Somos um corpo de tipologia mista, com profissionais e voluntários, e para territórios do interior considero que essa é uma solução adequada. Temos baixa densidade populacional, muita área florestal e agrícola e riscos sazonais marcados, sobretudo os incêndios rurais. A componente profissional garante a permanência e o socorro imediato; a componente voluntária permite reforçar a resposta quando a necessidade aumenta.
O Sardoal tem investido muito na protecção civil. Esse esforço devia ser mais apoiado pelo Estado? Devia. A câmara municipal, enquanto entidade detentora do corpo de bombeiros, assume uma responsabilidade muito grande. Percentualmente, o Sardoal canaliza verbas significativas para a protecção civil. Isso garante segurança, mas também significa que dinheiro que podia ir para uma estrada, um jardim ou um edifício tem de ser aplicado nos profissionais, nas viaturas e nos equipamentos. As associações humanitárias recebem apoios directos do Estado; os corpos municipais de tipologia mista não são apoiados da mesma forma.
Que qualidades considera essenciais num bom bombeiro? Altruísmo, disponibilidade, capacidade física e capacidade psicológica. Ao longo da carreira, um bombeiro vive situações difíceis e precisa de resiliência. Também são importantes a disciplina, o rigor, a capacidade intelectual e o sentido de equipa.
Num teatro de operações, como se decide combater ou não combater? Quem comanda não se pode envolver demasiado na manobra. Se estiver demasiado próximo da acção, deixa de conseguir ver o todo. Por vezes, a equipa quer avançar, mas quem está atrás percebe que aquela pode não ser a prioridade ou que o risco é elevado. É uma gestão entre a coragem necessária e a prudência que protege as equipas. Depois é fundamental explicar a razão da decisão. O diálogo evita dúvidas e ajuda a criar confiança.
Como constrói uma liderança numa estrutura onde a autoridade é indispensável? A autoridade é essencial num corpo de bombeiros e é uma obrigação legal de quem comanda. Mas essa autoridade também tem de ser reconhecida pelos outros elementos. Quem entra numa organização destas tem de saber que há hierarquia. Ao mesmo tempo, quem comanda tem de exercer essa autoridade correctamente. Podemos falhar, porque somos humanos, mas temos de corrigir e dialogar. A liderança não se faz apenas com ordens.
Esteve numa missão de combate a incêndios no Chile. O que trouxe dessa experiência? Trouxe gratidão por ter tido essa oportunidade e também uma leitura diferente daquilo que às vezes se diz em Portugal. Fala-se muito do Chile como exemplo nos incêndios rurais, mas aquilo que vivi mostrou-me que não é exactamente como por vezes se quer vender. A nossa forma de combater incêndios rurais é, no meu entendimento, mais adequada, embora tenha de ser aperfeiçoada, nomeadamente na maquinaria e na gestão de combustível. No Chile vi muita resiliência da população, mas também situações em que a nossa estratégia teria resolvido muitos problemas.
Como olha para a possibilidade de regresso a uma organização distrital da Protecção Civil? Quando trabalhávamos por distritos, trabalhávamos bem, e ninguém está a julgar o passado. Mas, no meu entendimento e no de muitos colegas do Médio Tejo, a organização em sub-regiões melhora a proximidade, a disponibilidade e a articulação com o poder local. As autarquias foram envolvidas em investimentos, fundos comunitários e aquisições conjuntas. Foram investidos quase cinco milhões de euros em veículos e módulos para os 11 municípios da sub-região e foi lançado um concurso de quase meio milhão de euros para módulos de tendas e equipamento de emergência. Isto é trabalho feito em conjunto.
Seria um retrocesso? Para mim, sim. Seria um retrocesso completo. Não nos revemos nessa mudança. Operacionalmente, trabalhar em
sub-região não impede pedir meios aos territórios vizinhos. Se precisarmos de Vila de Rei, da Golegã ou da Chamusca, solicita-se e, estando disponíveis, os meios vêm. Territórios mais pequenos não significam menor capacidade; podem significar mais proximidade e melhor coordenação.
Que ambições tem ainda para os Bombeiros de Sardoal? Quero continuar a contribuir para que o corpo de bombeiros esteja preparado, equipado e organizado para responder às necessidades da população. Mais equipamentos, viaturas, formação, reforço de meios humanos e melhores condições de trabalho. Nenhum corpo de bombeiros pode dizer que está completamente fechado ou acabado.
Já sabe quando deixará de ser comandante? A minha comissão como comandante foi renovada em Fevereiro e é de cinco anos, mas isso não significa que amanhã cá esteja obrigatoriamente. Uma coisa tenho certa: serei sempre parte da solução, nunca do problema. Enquanto estiver, estarei disponível para servir. Internamente há pessoas válidas, mas o lugar é ocupado por concurso público e essa decisão pertence à câmara municipal.
E quando sair, que missão gostaria de sentir que cumpriu? Ainda estou longe da reforma, embora já não falte assim tanto. Gosto muito de estar no Sardoal e tenho dificuldade em pensar que vou estar longe daqui, mas nunca fecho portas. No plano pessoal, interessa-me muito a gestão florestal. Gostava de me dedicar à gestão de áreas florestais, porque é uma realidade que conheço e vivenciei muito.

Comandante Nuno Morgado critica a monocultura sem critérios - foto O MIRANTE

“Não sou contra o eucalipto; sou contra a monocultura do eucalipto”

Nuno Morgado recusa a ideia de que o eucalipto seja o grande inimigo da floresta, mas deixa o aviso de que uma paisagem dominada por monoculturas, sem gestão, sem rendimento e com proprietários ausentes continuará a alimentar incêndios cada vez mais difíceis de travar. O comandante dos Bombeiros Municipais de Sardoal defende uma floresta produtiva e diversificada, com eucaliptais bem conduzidos, áreas compartimentadas e projectos capazes de devolver valor aos terrenos.

O eucalipto domina grande parte da paisagem florestal da região e continua a dividir opiniões entre quem o vê como ameaça ambiental e quem o encara como uma das poucas fontes de rendimento capazes de manter os proprietários ligados à terra. Nuno Morgado, comandante dos Bombeiros Municipais do Sardoal, recusa a demonização da espécie, mas deixa o aviso de que o problema não está no eucalipto por si só, está no excesso, na falta de ordenamento e no abandono de vastas manchas florestais que ardem sem gestão, sem compartimentação e sem rendimento. “Não sou contra o eucalipto, sou a favor do eucalipto. Entendo é que não pode ser só eucalipto”, afirma a O MIRANTE. Para Nuno Morgado, Portugal tem condições favoráveis à produção de eucalipto e essa realidade não pode ser ignorada num país onde a floresta privada só é cuidada quando tem retorno económico. “A floresta não se quer só na sua componente natural e de protecção. Também tem que ter produtividade. Se não tiver produtividade, é aquilo a que assistimos: um completo abandono da floresta”, sustenta.
O ciclo de incêndios, sublinha, é hoje tão curto que muitas espécies não conseguem gerar rendimento antes de uma nova passagem do fogo. “De dez em dez anos, ou de onze em onze anos, está a arder uma determinada área. Qualquer espécie florestal, à excepção do eucalipto, não dá rendimento em onze anos”, explica. Por isso, defende que a solução não passa por riscar a espécie da paisagem, mas por integrá-la numa estratégia mais inteligente, com áreas limpas, compartimentadas e alternadas com outras espécies. Para Nuno Morgado, o erro está na monocultura contínua e sem critério. O eucaliptal deve existir em quantidades adequadas, com produtividade real e com interrupções que permitam proteger o solo, a água e as populações. “Sabemos que a percentagem actual do eucalipto é demasiado elevada, mas muita dessa área não é gerida correctamente”, adverte. O comandante aponta eucaliptais “completamente sujos, abandonados e em subprodução”, considerando que, nessas condições, a floresta perde função económica e aumenta o risco.
O equilíbrio entre economia florestal e segurança das populações é o ponto decisivo. Um eucaliptal bem conduzido pode, na sua leitura, reduzir a área percorrida por incêndio, mas isso exige trabalho regular e capacidade financeira. Nuno Morgado dá o exemplo das zonas junto a estradas, caminhos e povoações, onde a limpeza tem de ser repetida com frequência. Se essas áreas tivessem produção organizada, a receita gerada poderia ajudar a pagar as intervenções necessárias, refere. No Sardoal, a gestão florestal tem vindo a ser encarada como prioridade estratégica, sobretudo através de candidaturas a programas públicos de transformação da paisagem. Um dos projectos mais relevantes é a Área Integrada de Gestão da Paisagem (AIGP), com um investimento aprovado de cerca de 11 milhões de euros para intervenção nas freguesias de Alcaravela e Santiago de Montalegre. O projecto foi impulsionado pelo município, mas a gestão foi entregue à Associação de Agricultores de Abrantes, Constância, Sardoal e Mação. O problema, reconhece Nuno Morgado, é que muitos proprietários ainda olham para estes instrumentos com desconfiança. Há quem tema perder o controlo da propriedade ou ficar condicionado nas decisões futuras, receios que o comandante considera infundados. “As pessoas pensam que vão perder a titularidade da propriedade, o que é totalmente falso. Não perdem nada”, esclarece. A adesão, porém, continua desigual e esse é um dos grandes obstáculos à criação de uma paisagem mais resistente ao fogo.
Além da AIGP, o concelho avançou com candidaturas aos programas dos condomínios de aldeia, destinados a transformar áreas de floresta e matos em redor das povoações em espaços com menor risco de incêndio e maior utilidade económica. No conjunto dos avisos a que o Sardoal concorreu, estão em causa apoios próximos de um milhão de euros. O objectivo é actuar nas faixas de gestão de combustível, substituindo espécies mais perigosas por culturas menos inflamáveis e capazes de gerar rendimento, como oliveiras, medronheiros e sobreiros. “São modelos mistos”, resume Nuno Morgado, defendendo que a chave está em retirar perigosidade sem retirar valor aos terrenos. Se a gestão florestal for apenas uma despesa obrigatória, muitos proprietários continuarão a resistir; se criar rendimento, a adesão aumenta.
A fragmentação da propriedade continua a ser uma das feridas abertas do interior. Terrenos pequenos, dispersos, herdados por vários familiares e muitas vezes sem identificação dos limites dificultam qualquer operação de gestão à escala da paisagem. “Temos situações com cabeças de casal da herança em que são seis, sete, oito herdeiros que, em alguns casos, nem se entendem. Não sabem onde são as propriedades ou já não querem saber da propriedade”, descreve. O resultado é abandono e combustível acumulado, lamenta a O MIRANTE. Questionado sobre se existe legislação a mais, o comandante não aponta esse como o principal problema. Considera que poderia haver mais facilidade nas operações no terreno, mas entende que os grandes bloqueios estão noutro lado: fraca adesão dos proprietários, propriedade fragmentada, desconhecimento dos terrenos e falta de mão-de-obra. “Há muito pouca mão-de-obra na área florestal”, afirma, lembrando que essa escassez condiciona limpezas, plantações, desbastes e outras intervenções no tempo certo.
As faixas de gestão de combustível junto a casas, estradas e povoações são uma obrigação legal, mas Nuno Morgado rejeita a ideia de que se esteja apenas a actuar na periferia do problema. O trabalho tem sido feito, diz, embora este ano tenha sido particularmente difícil devido aos estragos provocados pela tempestade Kristin, que atrasou processos e criou problemas adicionais em vários terrenos. A vegetação cresceu depressa e há locais já intervencionados a apresentar novamente erva alta poucas semanas depois. A limpeza da floresta continua a ser vista como custo, e Nuno Morgado não foge a essa realidade. “E é um custo”, admite. Mas volta ao ponto central: a floresta tem de criar riqueza, caso contrário a gestão transforma-se apenas numa despesa sem retorno. “A floresta vem criar riqueza. Se for para criar riqueza, não pode estar sempre a ser feita gestão de combustível, porque senão é prejuízo. Tem é de ser gerida nos locais certos, no momento certo, para que tenha efeito”, defende.


O MIRANTE está a trabalhar num projecto editorial para identificar as consequências da eucaliptização no ambiente e no tecido socioeconómico de Portugal e da Galiza. O trabalho é apoiado pelo Journalismfund Europe e é realizado em parceria com o jornal digital Galiciapress. A Journalismfund Europe é uma organização sem fins lucrativos, com sede em Bruxelas, que procura fortalecer a democracia na Europa através do apoio ao jornalismo de investigação independente.

Pode consultar todas as notícias do projecto neste link

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