“A floresta de Vouzela só deixará de arder quando voltar a dar lucro a quem é dono dos terrenos"
Vouzela foi mais um dos concelhos do interior em que a tragédia dos fogos de 2017 deixou muitas marcas. Carlos Oliveira, o presidente da câmara municipal, aceitou conversar com O MIRANTE sobre a floresta e a eucaliptização do território, mas deixou claro que não embarca em "fundamentalismos". Não deixou, no entanto, de criticar o peso do Estado nas decisões, a má gestão do território e, nomeadamente, das florestas. Uma entrevista realizada antes do fogo do início de Julho deste ano que consumiu mais de 13 mil hectares e voltou a deixar uma marca pesada num território já muito castigado pela tragédia dos fogos.
Vouzela foi a nossa base numa nova deslocação ao interior do país. Assentámos arraiais por 3 dias num alojamento local, mesmo em frente dos Paços do Concelho. Vouzela não tem hotéis de renome, mas têm dezenas de alojamentos locais excelentes, e no centro da cidade, confidenciou-nos mais tarde Carlos Oliveira, presidente de câmara municipal.
Tínhamos mais dois concelhos para visitar, mas, entretanto, fomos conhecendo os arredores, os acessos, as praias fluviais e essencialmente a mancha florestal. Desde 2017 que o concelho não sofre um grande incêndio. Tudo estava verde, compacto, omnipresente. Vouzela, a cidade, ela própria completamente rodeada de verde. A vista é soberba, quer do quartel dos bombeiros, que aproveitámos para visitar e falar com o seu comandante, Francisco Lima, quer das varandas dos Paços do Concelho.
Carlos Oliveira recebeu-nos no seu gabinete acompanhado da sua assessora de comunicação e presenteou-nos com uma viagem descritiva ao logotipo adoptado pelo concelho “Vouzela – O Coração do Centro”. Da informalidade dos temas, aos assuntos importantes, a conversa decorreu fluída.
Carlos Oliveira apresenta uma visão pragmática sobre o desenvolvimento local, a fixação de jovens e a reorganização da floresta pós-tragédia de 2017. Defende que a floresta, assim como de muitos outros concelhos, só faz sentido se gerar valor e rendimento para os proprietários, apostando fortemente nas Áreas Integradas de Gestão da Paisagem (AIGP) e na introdução de rebanhos de sapadores para controlo de combustível. Olha para o futuro com a convicção de que o planeamento rigoroso e o trabalho com as comunidades são as únicas armas eficazes contra o abandono e os incêndios.
“A educação não é despesa”
Vouzela tem como marca territorial "o coração do centro". Como é que um município do interior se posiciona para fixar pessoas e atrair investimento?
A nossa estratégia desenvolve-se em várias áreas. Desenvolvimento económico, fixação de população, turismo, lazer e habitação. Nos últimos anos fomos o concelho da região que captou mais investimento privado para os nossos parques industriais. Temos em fase final quase 30 fogos para arrendamento acessível e vamos continuar a desenvolver essa vertente. A nossa população cresceu cerca de 3%. Temos muitas nacionalidades no nosso concelho e isso também se reflete nas escolas, onde registámos nos últimos anos um aumento de mais de 150 alunos. A educação não é despesa. Temos tido bons resultados com os professores e funcionários das escolas para envolver a comunidade educativa. Em dois anos letivos a escola pública de Vouzela subiu bem acima no ranking nacional e nas entradas no ensino superior.
O turismo também desempenha um papel central nessa estratégia?
Sim, o turismo de natureza e a floresta. O incêndio de 2017 foi um golpe duríssimo; em pouco mais de meia hora perdemos 75% do nosso território florestal, mas isso também nos deu outras oportunidades, como o desenvolvimento da nossa vertente arqueológica, o turismo de natureza e da floresta. Insistimos nele, faz parte da nossa marca, faz parte da comunidade. A floresta é uma riqueza brutal para quem, como nós, não tem o mar por perto. É um caminho que temos de manter.
“A AIGP é um projeto que nós, como município, queremos liderar”
Como é que Vouzela está a abordar a reorganização da floresta após a destruição de 2017?
Temos em mãos o projeto das AIGP (Áreas Integradas de Gestão da Paisagem), que é um processo de transformação profunda e uma oportunidade para gerir o território daqui a 20 ou 30 anos. É um projeto que a autarquia quer liderar diretamente. O grande desafio surge quando constatamos que a estrutura proprietária é muito envelhecida e o minifúndio, por si só, não tem escala nem rentabilidade. Limpar um hectare de mato custa cerca de dois mil euros, e as pessoas não têm rendimento para suportar este custo. Por isso estamos a disponibilizar apoios para transformar a floresta, permitindo que os proprietários adiram e retirem rendimento anual para a manutenção. Se não houver rendimento, o território vai ser abandonado ainda mais.
E quem é que está a gerir operacionalmente essa AIGP no terreno? Há algum conflito de interesses com os produtores?
A AIGP está a ser gerida pela Verdelafões. E não há nenhum conflito de interesses. O interesse da Verdelafões e da Câmara Municipal no território vai exatamente no mesmo sentido. De acordo com a legislação, tínhamos de ter uma entidade que desse a cara para acompanhar este processo. Nós vamos passando toda a informação para que todos possam acompanhar. O interesse do proprietário é retirar rendimento da terra; se não limpar e não gerir, não há rendimento nenhum. Portanto, estamos todos alinhados no mesmo objetivo.
Para além da limpeza mecânica, que outras soluções estão a implementar para gerir o combustível no terreno?
Não se trata apenas de limpar; trata-se de criar uma paisagem mais resiliente. Lancei o repto ao senhor ministro da Agricultura para avançarmos com o "rebanho do povo": pastoreio de ovinos e caprinos para controlo natural do mato. Queremos avançar com recursos próprios para trazermos este negócio para o território. Os animais, além de limparem o combustível, produzem leite para a indústria do queijo. Também apoiamos a produção de outros produtos florestais, como a castanha, que tem forte expressão económica no nosso concelho.
“Não sou contra o eucalipto. Ele tem de estar no sítio correto”
Qual é a sua posição sobre a expansão do eucalipto no concelho?
Eu não sou contra o eucalipto. O eucalipto é importante para a nossa economia, para os empregos e para a indústria da pasta e do papel. Mas tem de ser bem gerido e no sítio correto, definido claramente no PDM. Há sítios onde ele não tem condições climáticas para crescer e onde não vai dar rendimento nenhum, gerando apenas abandono e aumentando a probabilidade de incêndios. Portugal continua a importar demasiada madeira para a sua indústria; não precisamos de mais área de eucalipto, precisamos de ter a área actual melhor gerida.
Como avalia o papel das grandes empresas florestais e de associações como a Bio Living na conservação do ecossistema?
Olhamos para a floresta como uma área multifuncional. A produção de madeira é essencial, mas a conservação, a biodiversidade e os serviços ambientais (como o sequestro de carbono) são igualmente fundamentais para que a floresta seja sustentável. Após os incêndios de 2017, as nossas ribeiras e rios sofreram imenso com a erosão, destruindo pontões, levadas e açudes. Tivemos de investir mais de 100 mil euros para recuperar estas linhas de água. A floresta tem de ser gerida como um ecossistema gerador de valor global, e não apenas como um fornecedor de matéria-prima rápida.
“Trabalhamos em rede. Se a informação não for partilhada, o sistema falha”
Como funciona a articulação do município com os bombeiros voluntários e com a proteção civil?
Temos uma relação muito próxima e de grande confiança com os bombeiros. Criámos protocolos que dão previsibilidade à corporação, apoiando-os não só nas operações de socorro, mas também na aquisição de viaturas e no suporte aos nossos eventos municipais. Além do corpo de voluntários, contamos com duas equipas de intervenção permanente e mais de 20 sapadores florestais a tempo inteiro. No entanto, eles não podem fazer tudo sozinhos. O combate eficaz prepara-se no inverno, com planeamento e gestão de combustível.
E como operacionalizam essa estratégia de prevenção no terreno?
Trabalhamos em rede e partilhamos toda a informação. Os bombeiros, as juntas de freguesia e o município sabem exatamente o que está planeado. Temos um plano operacional que entra em vigor a 17 de abril, definindo locais estratégicos de pré-alerta para os dias mais complicados de calor. Este ano utilizámos pela primeira vez a intervenção com fogo controlado. Realizámos 13 queimadas controladas no concelho para criar descontinuidades na carga de combustível em zonas estratégicas. É fundamental queimar na altura certa, com técnicos credenciados no terreno, para evitar os grandes incêndios no verão.
“A legislação nacional é demasiado rígida e ignora as realidades locais”
Sente que as leis nacionais ajudam ou dificultam a ação dos autarcas no ordenamento do território?
A legislação que temos é demasiado rígida e tem muitas limitações. O governo deveria ser mais flexível e permitir que as leis se adaptassem às realidades locais, que são muito diferentes de região para região. Nós tentamos manter uma boa relação com todas as instituições; o ICNF, a APA, a CCDR, mas nem sempre concordamos com os pareceres que emitem. Muitas vezes esses pareceres são emitidos com base numa visão nacional abstrata que ignora as dificuldades e as especificidades do nosso território. Precisamos de mais rapidez e de menos burocracia para conseguir trabalhar.
O PRR tem sido uma ferramenta útil para financiar estas intervenções?
Sim, temos aproveitado os recursos do PRR, nomeadamente através da Comunidade Intermunicipal (CIM), para a manutenção de caminhos florestais, que são fundamentais para a proteção civil, e para projetos de apoio ao pastoreio. As CIM facilitam esta visão de conjunto e permitem-nos desenhar estratégias de desenvolvimento integradas. No entanto, o cadastro do território (BUPi) continua a ser o pilar fundamental. Sem sabermos de quem é a terra, não conseguimos ordenar nada.
(entrevista realizada presencialmente em Vouzela, junho de 2026)
O MIRANTE está a trabalhar num projecto editorial para identificar as consequências da eucaliptização no ambiente e no tecido socioeconómico de Portugal e da Galiza. O trabalho é apoiado pelo Journalismfund Europe e é realizado em parceria com o jornal digital Galiciapress. A Journalismfund Europe é uma organização sem fins lucrativos, com sede em Bruxelas, que procura fortalecer a democracia na Europa através do apoio ao jornalismo de investigação independente.


