Teresa Miguens: a farmacêutica de Benavente que faz do balcão uma porta aberta à comunidade
Distinguida pelo município no Dia da Mulher, a proprietária da Farmácia Miguens, em Benavente, fala da ligação à terra onde nasceu, da profissão que escolheu e da proximidade aos utentes.
Teresa Miguens fala da farmácia como quem fala de uma casa com a porta aberta. Não apenas um lugar onde se dispensam medicamentos, mas um espaço onde se escuta, aconselha, consola e, muitas vezes, se ajuda a encontrar resposta quando a vida se complica em termos de saúde. Farmacêutica há 30 anos e proprietária da Farmácia Miguens, em Benavente, foi uma das mulheres distinguidas pelo município no Dia da Mulher, reconhecimento que recebeu com emoção e que entende como sinal do caminho feito junto da comunidade.
“Foi uma grande emoção sentir este convite”, afirma Teresa Miguens, que está há 15 anos a servir Benavente através da farmácia em que também assume a direcção técnica. O prémio representa, diz, a valorização de uma profissão que procura estar presente “nos dias bons e nos dias maus” das pessoas. Para a farmacêutica, a farmácia comunitária é hoje muito mais do que um ponto de venda de medicamentos, pois é uma referência de proximidade.
A empatia com utentes e clientes tornou-se uma das marcas da Farmácia Miguens. Quando se instalou em Benavente, depois de anos a trabalhar noutras farmácias, sabia que queria construir um espaço onde o rigor profissional convivesse com a dimensão humana. “Isto de ser farmacêutico é muito mais do que distribuir medicamentos”, resume, falando de conversa, abraço, riso, choro e presença diária na vida das pessoas.
A farmácia conta actualmente com 15 colaboradores e forte marca familiar. Teresa trabalha com as irmãs, Ana e Filipa, ambas farmacêuticas. Foi a primeira das três a seguir a área e acredita que acabou por influenciar o percurso das irmãs, correspondendo também a um desejo do pai, que tinha orgulho em ter três filhas farmacêuticas e sonhava vê-las trabalhar juntas.
Quando abriu a farmácia, Teresa Miguens não hesitou em convidá-las. Quis colocar o conhecimento farmacêutico das três e os valores familiares ao serviço da comunidade. Admite que trabalhar em família trouxe desafios, sobretudo na separação entre laços pessoais e exigências profissionais, mas garante que esse equilíbrio foi alcançado. A doença do pai, que teve Alzheimer, marcou a família e reforçou a ligação da equipa, que descreve como uma extensão da própria casa.
Nascida e criada em Benavente, Teresa Miguens guarda da infância a memória de uma vila onde se andava na rua sem medos e onde todos se conheciam. Os pais e os avós eram da terra e esse enraizamento ajudou-a a olhar para a comunidade com proximidade. Cresceu entre vivências diversas, do médico às pessoas que trabalhavam no campo, e acredita que isso lhe deu capacidade para tratar todos “da mesma forma, com igualdade”.
Foi estudar Farmácia para Coimbra aos 18 anos. O pai queria que fosse médica, mas Teresa Miguens sempre se sentiu atraída pela farmácia. Trabalhou primeiro em Benavente, na única farmácia que então existia na terra, e depois em Lisboa, onde ganhou experiência no atendimento e na gestão. Durante anos construiu o percurso com um objectivo claro: se um dia houvesse concurso público para uma segunda farmácia em Benavente, queria estar em condições de o ganhar. Quando o concurso abriu, apresentou-se, venceu e instalou a farmácia.
Ser mulher, empresária e directora técnica trouxe-lhe desafios próprios. Teresa Miguens reconhece que as mulheres continuam a enfrentar obstáculos, sobretudo pela maternidade, pela vida familiar e por conceitos que ainda persistem à volta do papel feminino. Diz nunca ter faltado ao compromisso profissional nem aos utentes e sente orgulho em ser mulher, mãe, esposa e profissional numa vila onde construiu uma farmácia de referência.
Ter sido empregada por conta de outrem durante vários anos foi, diz, uma aprendizagem essencial para perceber que ambiente queria criar quando tivesse a sua própria equipa. Quis dar condições que nem sempre sentiu ter tido e, ao mesmo tempo, manter um elevado nível de exigência profissional. A distinção no Dia da Mulher teve, por isso, um significado acrescido. Às jovens que possam olhar para o seu percurso como exemplo, deixa uma mensagem directa de trabalho, de não desistir dos sonhos, de fazer-se ouvir e rodear-se das pessoas certas.
A falta de medicamentos é outro problema que continua a preocupar. Segundo a farmacêutica, a escassez mantém-se e obriga a uma gestão difícil, desde aumentar stocks, correndo riscos financeiros, até contactar médicos para procurar alternativas terapêuticas. Refere o caso do Tromalyt, medicamento que diz fazer parte do quotidiano de muitas pessoas e cuja falta obriga a discutir soluções ajustadas a cada doente. Preocupa-a também a situação socioeconómica dos utentes e a dificuldade em manter farmácias preparadas, com stocks suficientes e equipas estáveis.
“Como está, não serve”: farmacêutica defende melhor resposta na saúde em Benavente
Teresa Miguens considera que Benavente vive uma crise na saúde e precisa de uma resposta mais eficaz, defendendo um centro de saúde e uma urgência a funcionarem melhor, com médicos e capacidade para servir a população do concelho e dos territórios vizinhos. A farmacêutica lamenta falhas na referenciação pelo SNS e diz que há utentes enviados para outros serviços quando poderia existir resposta local. Refere que Benavente tem um serviço de urgência com médico 24 horas que, muitas vezes, não recebe os utentes que poderia receber, enquanto há pessoas encaminhadas para Vila Franca de Xira ou para outros locais. Na sua perspectiva, Benavente tem condições para servir também concelhos limítrofes, mas falta organizar melhor a resposta existente. Teresa Miguens diz que, no passado, viu muita gente satisfeita por recorrer à urgência local e ver os seus problemas resolvidos, mas lamenta que actualmente muitos utentes cheguem à farmácia, sobretudo à noite, sem saber para onde se dirigir. “Como está, não serve”, afirma, defendendo que uma entidade pública ou privada deve pegar no assunto “a sério” e dar uma resposta efectiva à população. Acredita ainda que as farmácias comunitárias podem aliviar a pressão sobre o SNS, fazendo despistes, orientando utentes e evitando idas desnecessárias às urgências, sem substituir os médicos.
Rastreios feitos em Benavente chegaram a congressos internacionais
A aposta da Farmácia Miguens na prevenção da doença já levou o nome de Benavente a congressos internacionais da área farmacêutica. Teresa Miguens refere que, nos últimos anos, a farmácia apresentou trabalhos em encontros mundiais em Brisbane, na Austrália, na África do Sul e em Copenhaga, na Dinamarca, além de ter participado no Congresso Nacional das Farmácias, em Maio.
Os rastreios ligados ao risco cardiovascular, obesidade e a outras áreas da saúde são uma das principais apostas da farmacêutica, que diz conseguir chegar perto de mil pessoas por mês em algumas acções. Teresa Miguens defende que estes despistes não devem ser vistos como iniciativas menores, lembrando que podem permitir encaminhar atempadamente utentes para o médico. Recorda que, na Farmácia Miguens, pelo menos uma situação de risco cardiovascular grave foi detectada através de um rastreio, permitindo o encaminhamento para cuidados médicos.


