António Figueiredo: O artista ribatejano que o país esqueceu
António Figueiredo, foi uma voz conhecida e reconhecida em muitos palcos nacionais e internacionais, que vive entre a memória dos espectáculos e a mágoa do esquecimento. Actuou com Marco Paulo na Guiné, onde esteve como militar na Guerra Colonial, e percorreu países como Inglaterra, Alemanha, França, Itália, Suíça, Finlândia e Brasil.
Foi vendedor de peças para automóveis e a maior fortuna que tem é a voz potente que muitos descrevem como única, já que a música não o enriqueceu. Entre discos gravados, homenagens inesperadas — como o poema dedicado a Eusébio — e episódios de generosidade, António Figueiredo carrega também tragédias profundas. Enviuvou aos 30 anos e perdeu dois filhos. Carrega mágoas antigas com a terra natal. Perdeu todo o equipamento de som e luz numa penhora alheia. Hoje, aos 81 anos, ajuda no café da companheira em Perofilho, cuida do jardim, escreve poemas melancólicos e tem como grande amiga a guitarra que ainda dedilha. Depois de 22 temas em que assinou a letra e a música e que foram gravados entre dezenas de outras composições, sente-se uma pauta esquecida que não teve o reconhecimento que merecia.
António Figueiredo é uma das vozes mais singulares do Ribatejo que, aos 81 anos, ainda espera o reconhecimento nacional que ambicionava, depois de ter corrido mundo e actuado em tantos palcos que perdeu a conta. Com apenas seis ou sete anos já subia aos palcos na sua terra natal, Alcanhões, que na carreira lhe deixou mais mágoas do que alegrias. Foi quando morou em Almeirim, ao longo de 45 anos, que consolidou a sua veia artistica. Guitarrista e compositor autodidacta, gravou 22 temas originais, alguns dedicados à sua região, destacando-se referências à capital da sopa da pedra em tributos ao salão de festas Moinho de Vento, famoso nas décadas de 80 e 90 por ter uma lista de espera de meio ano para casamentos, e à Tendinha, uma casa de fados que também já não existe.
A guitarra de Fontes Rocha, a actuação com Marco Paulo e a madrinha Tonicha
O vício pelo fado fortificou-se durante o serviço militar na Guerra do Ultramar, na Guiné. Foi lá que cantou ao lado de nomes como Marco Paulo — de quem era amigo — e com o conjunto de Mário Simões, um dos mais populares conjuntos ligeiros das décadas de 50 e 60 do século XX, ou acompanhado por um guitarrista de Amarante. A sua veia poética e de compositor despertou por volta dos 40 anos. Ao longo da sua carreira, gravou dois discos, um deles patrocinado pelo empresário de Almeirim e seu amigo Francisco do Carmo Ribeiro. Um marco da sua discografia em que também assina a letra e música é o fado “Foi Ontem”, uma composição dedicada à mãe, orquestrada pelo cantor Emanuel. Durante a gravação, ao ouvir o tema, o prestigiado guitarrista professor Fontes Rocha pediu para introduzir a sua guitarra— um gesto de alto valor porque, segundo relatos do meio artístico, era muito raro o professor pedir para tocar num tema.
Apesar de ter tido como madrinha artística a conhecida cantora Tonicha nunca chegou ao mais alto patamar artístico nacional porque o talento e a voz valiam menos que a capacidade financeira. O artista de uma voz potente que enche o ouvido, aponta a falta de união na classe artística em Portugal, a inveja e a necessidade de dinheiro e “cunhas” como os principais entraves ao sucesso no país, contrastando a realidade portuguesa com a de países como Inglaterra, França ou Estados Unidos, onde, diz, existem “olheiros” à procura de talento. António Figueiredo já não realiza espectáculos há meia dúzia de anos, sentindo que o público e o meio artístico se esqueceram dele.
Entre os espectáculos, a vida de vendedor e as tragédias familiares
Por trás do artista que correu o Ribatejo, o país e as comunidades portuguesas na diáspora, há um homem cuja vida pessoal foi marcada pela tragédia familiar. Perdeu uma filha e aos 30 anos, perdeu a mulher, vítima de esclerodermia, doença rara que lhe secou a pele, músculos e tendões, levando-a a falecer no Hospital de Santa Maria com apenas 22 quilos. Mais tarde, já casado pela segunda vez, sofreu a perda de um filho bebé, que nasceu morto após a sua esposa ter sofrido um enorme susto decorrente de um pequeno toque de automóvel (espelho com espelho) na descida de Santarém. Tem actualmente uma filha viva e uma irmã, Donatília, que é a sua incondicional e primeira fã.
A sua vida também teve momentos de grande generosidade e aventura. Nunca viveu exclusivamente da música. Durante a semana, trabalhava como vendedor de peças de automóvel para a já desaparecida Novicar, em Santarém. Era nessa qualidade que percorria a região, sendo amplamente reconhecido pelos clientes. Os espectáculos ficavam reservados para os fins-de-semana e feriados. A música não o deixou rico, tendo até perdido todo o seu equipamento de som, luzes e máquinas de fumo devido a uma penhora de bens na casa do seu antigo técnico de som, onde tinha o material guardado.
O que de melhor a carreira artística lhe proporcionou foi a oportunidade de viajar. Actuou diversas vezes para as comunidades portuguesas em Inglaterra, Alemanha, França, Itália, Suíça, Finlândia e Brasil. Agora passa os dias a ajudar no café da companheira em Perofilho, onde nunca cantou, e a cuidar do jardim (adora flores). Às vezes pega na guitarra, que está à mão debaixo do telheiro do quintal ou noutro sítio onde a deixou para “arrefecer” as cordas. Ainda vai escrevendo músicas que gostava de gravar e a irmã Donatilia adorava para ficar uma memória da criatividade do irmão.
Embora guarde saudades e uma profunda tristeza pelo esquecimento a que foi votado, a sua voz permanece intacta, como provou recentemente ao cantar três temas na festa da Gouxaria, Alpiarça, desafiado por um amigo que o acompanhou ao som do órgão. Os poemas que vai escrevendo reflectem a sua melancolia e a passagem do tempo, definindo a sua própria voz como “uma pauta perdida na sala das emoções”.
A mágoa com a sua terra e a generosidade
A relação de António Figueiredo com a terra natal, Alcanhões, é complexa e pautada por mágoas. O artista sente que a população local não gosta dele devido a três mal-entendidos do passado. O primeiro teve a ver com o boato de que ele renegava Alcanhões ao dizer que era de Almeirim, algo que desmente, garantindo que sempre se apresentou como “natural de Alcanhões a viver em Almeirim”. Outro foi um incidente num espectáculo, onde o seu nome foi colocado no cartaz sem o seu consentimento e, apesar disso, disponibilizou-se para participar quando acabasse outro compromisso que tinha assumido em Vila Franca de Xira, mas quando chegou foi insultado publicamente pelo organizador.
António Figueiredo também não compreende e lamenta a incompreensão do público após ter organizado um espectáculo de beneficência gratuito para angariar fundos para as famílias das vítimas do trágico acidente do Rancho Folclórico de Alcanhões (ocorrido a 8 de Agosto de 1988). Em vez de agradecimento, o cantor acabou por ser criticado por realizar o evento. Apesar destas mágoas, a sua generosidade revelou-se também quando escreveu e dedicou um poema a Eusébio no dia do funeral do futebolista. Mesmo não sendo adepto do Benfica, compôs a homenagem em apenas 25 minutos no café que explorou em Alpiarça, musicando-a de seguida na viola para os clientes, um gesto que hoje se encontra imortalizado numa placa na Casa do Benfica de Alpiarça.


