Projecto Eucalipto | 14-07-2026 16:45

António Nunes: “Portugal não precisa de mais organismos; precisamos de saber quem manda”

António Nunes: “Portugal não precisa de mais organismos; precisamos de saber quem manda”
António Nunes, Presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses. Foto Antonio J.M. Montez

António Nunes é presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses. Nesta conversa com O MIRANTE deixou bem claro o que pensa sobe os fogos e a gestão do território: há demasiadas estruturas, responsabilidades pouco claras e uma prevenção que ainda não chegou verdadeiramente ao terreno. Jurista de formação e homem ligado ao socorro, olha para a floresta, para as aldeias e para os grandes acidentes com a experiência de quem sabe que, quando a emergência começa, já é tarde para improvisar.

A nossa viagem continua pelo país e pela floresta. As realidades e informações que vamos encontramos e recolhendo são surpreendentes, avassaladoras e reveladoras. Há que parar, consolidar informação e ideias e partir de novo. Procuramos um testemunho diferente, alguém que sempre esteve no centro do furacão.

António Nunes é presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, e falou com O MIRANTE sem rodeios sobre incêndios, protecção civil e a forma como o país continua a responder às crises. Defende que há demasiadas estruturas, responsabilidades pouco claras e uma prevenção que ainda não chegou verdadeiramente ao terreno. Para o entrevistado, a resposta aos fogos não se resolve apenas com mais aviões ou helicópteros, mas com território cuidado, comando assumido e comunidades preparadas. Jurista de formação e homem ligado ao socorro, olha para a floresta, para as aldeias e para os grandes acidentes com a experiência de quem sabe que, quando a emergência começa, já é tarde para improvisar.

“O primeiro fogo fica sempre na memória”

Qual foi o primeiro fogo que o marcou?
Foi na Serra de Sintra. Era uma queimada, daquelas situações que começaram por parecer uma coisa pequena e depois se transformaram num fogo de dimensão considerável. Saímos de manhã e aquilo foi-se desenvolvendo. Nesses momentos percebe-se muito depressa que o fogo não espera por ninguém. Ou há capacidade de decisão no início, ou depois já estamos a correr atrás do prejuízo.

O país aprendeu com os grandes incêndios?
Aprendeu alguma coisa, mas não aprendeu tudo o que devia. Depois de cada tragédia há sempre discursos, conferências de imprensa, anúncios de mudanças e documentos com lições aprendidas. O problema é que muitas vezes se mexe na forma e não no essencial. Criam-se organismos, alteram-se nomes, fazem-se reformas no papel, mas no terreno continua a faltar clareza sobre quem decide, quem manda e quem responde.

Está a dizer que há demasiada estrutura?
Estou a dizer que Portugal não precisa de mais organismos. Precisa de responsabilidade. Chegamos a ter várias entidades a trabalhar sobre a mesma área, cada uma com a sua missão, a sua hierarquia, a sua lógica e a sua comunicação. Depois, quando acontece um incêndio ou uma ocorrência grave, pergunta-se: quem está a comandar? Quem assume a decisão? Quem dá a cara? Essa é a questão principal.

Mas a protecção civil não evoluiu?
Evoluiu, naturalmente. Hoje há mais tecnologia, mais planeamento, mais capacidade de análise e mais meios do que havia há décadas. Mas também se criou uma estrutura muito pesada, por vezes demasiado complexa. E a emergência não se compadece com excesso de camadas. Numa ocorrência, a decisão tem de ser rápida, técnica e assumida. Se cada organismo quiser ter a sua palavra e ninguém quiser ficar de fora da fotografia, perde-se tempo.

“Nos incêndios, a decisão tem de ser técnica e às vezes draconiana”

O comando é o ponto mais frágil do sistema?
É um dos pontos centrais. Num incêndio de grande dimensão, a estratégia tem de incorporar o vento, o território, a disponibilidade de meios, os acessos, as populações em risco e a capacidade de primeira intervenção. E depois alguém tem de decidir. Às vezes a decisão tem de ser draconiana. Não pode ser uma soma de opiniões soltas. Ou há comando, ou há confusão.

E a política pesa demasiado nas operações?
A política deve criar condições, definir prioridades e garantir meios. Mas a operação tem de ser técnica. O problema é quando a comunicação política se sobrepõe à condução operacional. Em certos momentos parece que o país está mais preocupado com quem aparece na conferência de imprensa do que com a clareza da mensagem à população. As pessoas querem saber se estão seguras, para onde devem ir, que estradas devem evitar e o que vai acontecer nas próximas horas.

Falta melhor comunicação às populações?
Falta comunicação clara. Dizer à população que o incêndio está a evoluir desta forma, que durante a noite vamos posicionar meios aqui e ali, que amanhã de manhã a prioridade é esta. Isso é informação útil. A população não precisa de discursos vagos. Precisa de saber o que fazer. E os órgãos de comunicação social também precisam de informação rigorosa, não apenas de declarações genéricas.

Há demasiados actores no terreno?
Há muitos actores e todos são necessários em determinados momentos: bombeiros, GNR, PSP, ICNF, municípios, protecção civil, sapadores, forças especiais. Mas muitos actores não podem significar muitos comandos. A coordenação tem de ser clara. Uma coisa é a complementaridade, outra é a dispersão. Se todos tiverem autonomia total e ninguém tiver responsabilidade final, o sistema não funciona.

“A floresta não se salva só com aviões”

Sempre que há incêndios volta a discussão dos meios aéreos. Faz sentido?
Faz sentido discutir meios, mas é um erro reduzir tudo aos aviões e helicópteros. Os meios aéreos são importantes, mas não resolvem sozinhos a falta de gestão do território. Não vale a pena pensar que comprando mais aeronaves se resolve a floresta. Se a paisagem estiver abandonada, se os caminhos estiverem em mau estado, se as aldeias estiverem cercadas por combustível, os meios chegam sempre com dificuldade.

Mas há quem diga que faltam aviões.
Pode faltar capacidade em certos momentos, mas o essencial é desenhar as necessidades do país para 24 horas por dia, 365 dias por ano. Não podemos decidir em cima da emoção do momento. Também há limitações de mercado. Na Europa não existem meios infinitos disponíveis. Muitas vezes estamos todos a disputar os mesmos helicópteros e aviões às mesmas empresas. Portanto, é preciso planeamento sério, não apenas reacção mediática.

O que deve estar antes do combate?
A prevenção. Mas prevenção a sério, não apenas no discurso. A prevenção começa na organização do território, na limpeza onde faz sentido limpar, na gestão agrícola e florestal, nos caminhos acessíveis, nas faixas de segurança e na responsabilização de quem tem responsabilidades. Não se pode olhar para o território apenas no Verão. O trabalho tem de ser feito no Outono, no Inverno e na Primavera.

As aldeias continuam vulneráveis?
Muitas continuam. E há aqui uma questão que o país precisa de assumir: as comunidades têm de voltar a ser parte da solução. O chamado espírito de aldeia, a capacidade de as pessoas conhecerem o território, ajudarem na prevenção, perceberem os riscos e saberem como agir, perdeu-se em muitos sítios. Não estou a dizer que se volte ao passado, mas sem comunidades preparadas não há sistema nacional que chegue a todo o lado a tempo.

“Temos de transformar a paisagem”

A transformação da paisagem é inevitável?
É inevitável e urgente. Há zonas do país em que se acumulou floresta, abandono e risco. No centro do país, no Pinhal Interior, em zonas de transição, nas serras, há realidades muito diferentes. Não se combate da mesma forma numa área de sobreiro trabalhada, numa zona agrícola ou numa mancha contínua de floresta com aldeias pelo meio. O país tem de olhar para cada território e adaptar a estratégia.

Isso exige mais poder aos municípios?
Exige responsabilidade aos municípios, mas responsabilidade acompanhada de meios e fiscalização. Não basta passar o problema para as câmaras. É preciso que haja planos locais, auditoria, capacidade técnica e ligação às populações. A prevenção não pode ser uma ordem central que depois ninguém consegue aplicar no terreno. Tem de haver uma rede organizada, de baixo para cima e de cima para baixo.

E os proprietários?
Também têm responsabilidade. A propriedade é um direito, mas implica deveres. Quando uma parcela representa risco para a comunidade, não podemos fingir que o problema não existe. A mesma coisa se aplica a infraestruturas, empresas, caminhos, bermas, zonas junto a linhas eléctricas. Tudo isso conta. O fogo aproveita cada falha.

O país está preparado para incêndios mais difíceis?
Temos mais conhecimento, mas os incêndios também são hoje mais difíceis. O território mudou, o clima mudou, há mais abandono, há caminhos piores em algumas zonas e as populações estão mais envelhecidas. O fogo chega mais depressa às casas e obriga a decisões mais complexas. Não basta ter bombeiros corajosos. É preciso ter território defendível.

“A primeira intervenção decide muita coisa”

A primeira intervenção continua a ser decisiva?
É decisiva. Se conseguirmos chegar cedo, com meios adequados e comando claro, muitas ocorrências não passam de pequenos incêndios. Quando se perde essa janela inicial, tudo fica mais difícil. O fogo muda de sítio, ganha vento, entra noutras zonas, aproxima-se das populações e obriga a mobilizar meios que já chegam tarde para o problema inicial.

O que falha nessa primeira resposta?
Às vezes falha a proximidade, outras vezes falham acessos, comunicações ou disponibilidade de meios. Mas falha sobretudo quando se acha que a solução vem sempre de fora. O território tem de ter capacidade própria de resposta. Não podemos esperar que tudo seja resolvido por estruturas distantes. Numa aldeia, numa serra ou numa zona isolada, os primeiros minutos são determinantes.

Os bombeiros continuam a ser o pilar do sistema?
Os bombeiros são indispensáveis. Mas não podem ser vistos como a solução para tudo. Há riscos urbanos, rurais, industriais, acidentes rodoviários, busca e salvamento, emergência pré-hospitalar, incêndios florestais. O país pede tudo aos bombeiros e muitas vezes não lhes dá tudo o que precisam. É preciso olhar para o sistema como um todo e perceber onde estão as falhas.

Fala também de outros riscos, para além dos incêndios. Porquê?
Porque a protecção civil não é só fogo. Um sismo, um acidente aéreo, uma grande derrocada, uma inundação ou uma ocorrência urbana de grande dimensão obrigam a outra forma de pensar. Num prédio colapsado, por exemplo, não se pode agir como num incêndio florestal. É preciso equipas especializadas, regras de construção, planeamento, treino e resiliência da população.

“A protecção civil começa no nível zero”

O que quer dizer com nível zero?
Quero dizer que a protecção civil começa antes da sirene tocar. Começa na educação, na sensibilização, nas regras de construção, na forma como as pessoas usam o espaço público, na maneira como se encara o risco. Até coisas aparentemente pequenas, como trotinetes sem matrícula ou comportamentos perigosos na estrada, mostram uma sociedade que muitas vezes não leva a prevenção a sério.

É uma questão cultural?
Também é. Temos tendência para reagir depois do acidente. Mas a protecção civil é, antes de mais, preparação. É saber o que fazer, é ter regras, é cumpri-las e é aceitar que a liberdade individual não pode colocar a comunidade em risco. Isso vale para a floresta, para a estrada, para a construção e para a vida nas cidades.

O país gosta demasiado de soluções imediatas?
Gosta. Depois de uma tragédia queremos respostas rápidas, culpados rápidos e medidas rápidas. Algumas são necessárias, mas muitas não mexem no essencial. O essencial é mais difícil: ordenar território, responsabilizar entidades, preparar populações, manter caminhos, garantir comando e avaliar o que falhou sem medo das conclusões.

Está optimista?
Estou preocupado, mas não derrotado. Portugal tem bons bombeiros, bons técnicos e pessoas com enorme dedicação. O que falta é organização, coragem política e responsabilidade clara. Se continuarmos a multiplicar estruturas sem resolver o comando e o território, vamos continuar a repetir problemas. Se tivermos a coragem de mudar o que tem de ser mudado, podemos melhorar muito.

O presidente da Liga dos Bombeiros termina com uma ideia central: o país não pode continuar a discutir os incêndios apenas quando as chamas chegam às televisões. Para ele, a protecção civil começa muito antes do combate e deve assentar em três pilares simples: território cuidado, comunidades preparadas e comando claro. Crítica a multiplicação de organismos, a dispersão de responsabilidades e a tentação de transformar cada crise numa operação de comunicação política. A verdadeira prevenção passa por caminhos acessíveis, gestão da paisagem, municípios responsabilizados e populações capazes de agir nos primeiros momentos. No fundo, a mensagem é directa: quando o fogo começa, já não há tempo para inventar o sistema que devia estar preparado.

(entrevista realizada presencialmente em Lisboa, junho de 2026)


O MIRANTE está a trabalhar num projecto editorial para identificar as consequências da eucaliptização no ambiente e no tecido socioeconómico de Portugal e da Galiza. O trabalho é apoiado pelo Journalismfund Europe e é realizado em parceria com o jornal digital Galiciapress. A Journalismfund Europe é uma organização sem fins lucrativos, com sede em Bruxelas, que procura fortalecer a democracia na Europa através do apoio ao jornalismo de investigação independente.

Pode consultar todas as notícias do projecto neste link

Mais Notícias

    A carregar...
    Logo: Mirante TV
    mais vídeos
    mais fotogalerias

    Edição Semanal