Inês Fonseca: a vida em dois países, duas línguas e duas profissões
Inês Fonseca não é só uma marketeer responsável pela marca Johnnie Walker para a Europa e uma cantora que encontrou na música uma identidade inevitável. É um corpo de misturas emocionais que absorveu várias influências com um percurso de vida entre a sensação e a razão.
Cresceu entre Lisboa, a Charneca da Caparica e Almoster, concelho de Santarém, num triângulo afectivo marcado pela música, pela família e por memórias que ainda hoje a definem. Filha de músicos: Idália Serrão e de Silvestre Fonseca, e criada também com o maestro, músico e compositor Carlos Alberto Moniz, diz que tem “uma mãe e dois pais”, porque a vida lhe deu três referências que nunca se anulam. Cantou na Arca de Noé, estudou guitarra clássica durante 20 anos, mas foi o acaso que a levou ao marketing, área onde se tornou uma das profissionais mais reconhecidas de Espanha. Em Madrid, para onde foi por amor, enfrentou uma depressão, reconstruiu a vida, divorciou-se, voltou a apaixonar-se e construiu uma carreira que a levou a ser distinguida como “Melhor Directora de Marketing de Espanha”. Autora de mais de 40 canções, vive entre dois países, duas línguas e duas vidas — a do trabalho e a da música que ocupa noites e fins-de-semana. Sensível, disciplinada e guiada por uma filosofia muito própria, acredita que as decisões devem ser tomadas com clareza e com a consciência da mortalidade. Quando tem tempo livre vai falar da vida com o condutor do autocarro que é o seu companheiro. Para Inês Fonseca, 39 anos, dormir bem à noite e não gastar a vida com o que não faz sentido são coisas essenciais num percurso singular, feito de talento, coragem, afectos e escolhas improváveis que se tornaram destino.
Já viveu no Brasil e vive em Espanha há 14 anos. É caso para dizer que Portugal não é o melhor país do mundo. Mas é. Na faculdade não fiz Erasmus porque nunca tive aquele chamamento de ir para fora. Nunca tive aquela ideia de que Portugal ficava pequeno para mim. Se não tivesse sido por amor, nunca teria saído de Portugal. Já tive muitas oportunidades de fazer uma carreira ainda mais internacional e nunca quis. Quando comecei a sair com o meu namorado actual, disse-lhe que, se ele quisesse ser meu companheiro de vida, tinha de estar aberto a um dia viver em Portugal.
Está com os pés em Madrid e o pensamento em Portugal… Quando uma pessoa emigra e continua com os pés no seu país de origem também não absorve o país de destino. Nunca me desliguei de Portugal, do sítio onde vivi e onde regresso uma vez por mês, nem quero, mas não deixo de viver a vida espanhola.
Perante as duas realidades, como é que classifica a vida dos jovens portugueses? O que mais me angustia é que o país não está difícil apenas para os jovens, mas para toda a gente. Quando fui para Espanha, os salários em Portugal eram mais baixos, mas os portugueses tinham as casas mais baratas e a vida não era tão cara como agora. Os portugueses continuam a ganhar menos do que os espanhóis, mas é mais caro ter uma casa em Lisboa do que em Madrid. Tenho notado que o supermercado já está mais caro do que em Espanha. Isto afecta a independência dos jovens portugueses e de muita gente trabalhadora que faz tudo o que pode e não consegue ter uma vida digna.
Vale a pena fazer loucuras na vida? Uma loucura não tem de ser uma coisa escandalosa. Há uns anos, o meu padrasto, vindo de um funeral, reflectiu que, quando morre alguém que nos é muito próximo, cancelamos tudo, a reunião mais importante, o compromisso inadiável, mas não fazemos isso em vida. Mudei na maneira de viver a emigração e passei a tratar com a mesma urgência o que não são funerais como se fossem funerais.
Que loucuras já cometeu? Um dia estava no escritório, deviam ser umas 16h00, uma amiga liga-me a dizer que se estava a divorciar. Comprei um bilhete de avião para as 19h00, fui jantar com ela e às seis da madrugada apanhei um voo para ir trabalhar. É uma maluqueira com humanidade.
Como é que conjuga o seu lado mais sensível, sensitivo, de artista, com o lado mais racional? São duas partes que se complementam na minha vida. Somos um bocado educados de uma maneira em que ou somos racionais ou somos emocionais, ou somos criativos ou somos analíticos. Sempre fui as duas coisas e sou uma acérrima defensora de que se podem ser as duas coisas.
De quem é que herdou essa dualidade? Não sei, talvez tenha nascido comigo. Este triângulo que foi a minha infância e adolescência também me terá dado essa riqueza. O meu pai sempre foi o mais criativo com ideias loucas, uma criatividade sem espartilhos; a minha mãe sempre teve um lado mais racional, mas depois muito empático, capaz de entender profundamente a sociedade. O meu padrasto é a pessoa tranquila, com um peculiar sentido de humor.
Já andou de autocarro conduzido pelo seu namorado? Quando ele tem turnos ao fim-de semana e eu não tenho nada para fazer, faço uma ida e volta para conversarmos, porque às vezes não o conseguimos fazer com os horários desencontrados. Vou ali à frente, a falar com ele, a falar da vida, a organizar as férias. À noite também fazemos questão de conversar um bocadinho.
Já teve uma desilusão? Infinitas. Um divórcio, por exemplo, embora no meu caso tenha sido uma decisão mútua e amigável, é sempre uma queda, uma queda vital. É uma desilusão, não com a pessoa, mas com a situação. É um projecto que não correu bem, mas é natural que existam inícios e fins.
Há muitas coisas que a chateiam? Como sou obcecada pela gentileza e pela empatia, chateia-me cruzar-me com pessoas no dia-a-dia que não são agradáveis e é tão fácil ser agradável. Às vezes, um bom dia com um sorriso pode salvar uma pessoa. Tenho grandes desilusões quando dou isso ou tento entender uma pessoa e, perante a minha boa intenção, essa pessoa faz alguma maldade ou tenta passar a perna. É uma situação que me frustra.
A “indignidade” de passar o concerto de Tony Bennett a chorar, o lixo musical e a aversão ao rock
A música é uma necessidade emocional, um passatempo, uma fonte de rendimento? São todas essas coisas. Lembro-me de o Carlos Alberto Moniz me dizer: “A música é uma inevitabilidade”. Ou seja, não se escolhe, não se acorda um dia e diz-se: Vou ser músico. É mais do que uma necessidade. Há uma parte em mim em que a música é identidade inevitável e não posso fugir dela. E outra parte que é também um ofício e não uma via de escape. Antes de começar a trabalhar em marketing gravei muito para desenhos animados, fiz coros para cantores, sempre compus.
Qual é a via de escape? É não fazer nada. Estar no sofá a ver algo na televisão. É deitar tempo para o lixo, como costumo dizer. Às vezes os meus dois ofícios são tão mentais que preciso de ficar simplesmente parada. Mas também gosto de fazer outras coisas, de estar com os amigos, de ir a um sítio em Madrid em que se bebe vinho e ao mesmo tempo, se pinta um quadro.
Sobre a mais recente canção, Céu de Safiras, disse que nasceu de um sonho que a deixou num estado de felicidade intensa ao despertar. O que é que para a Inês significa dormir? Custa-me sempre adormecer porque a minha cabeça é muito ruidosa. Tudo o que seja entreter a cabeça e distraí-la é paz. Quando distraio o cérebro, então consigo adormecer e depois durmo maravilhosamente bem. E há os sonhos, uns mais angustiantes do que bons, outros que são maravilhosos. Mas acordo sempre bem-disposta.
Há sonhos que se confundem com a realidade… Tinha um grande amigo e desde pequena correspondíamo-nos por cartas em poesia. Há uns anos ele ficou com demência. Ia vê-lo, mas já não me reconhecia. Antes de falecer tive um sonho em que ele me dizia: “Sei que vens ver-me e obrigado”. Eu disse: “Olha, por acaso até fiz uma tatuagem dedicada a ti” e mostrei-lhe no sonho. Lembro-me de acordar e pensar: “Vou acreditar que eu vi, que há um plano aqui em que todos nos encontramos, os que estão vivos, os que estão mortos, os que estão dementes”. Para mim o sono também tem essa conotação, essa oportunidade.
Porque é que admira tanto o Tony Bennett? Uma das minhas tatuagens é dedicada a ele. Tudo começou quando eu tinha uns 15 anos e fiz um acordo com o Carlos. Ele dava-me o disco preferido e eu dava-lhe o meu. Dei-lhe um disco do Eminem, que na altura estava na berra. E ele deu-me um disco do Tony Bennett, ouvi o álbum Perfectly Frank e apaixonei-me, porque parece que cada palavra do Bennett é intencional e não consegues parar de ouvir.
Lembra-se quando viu Tony Bennett pela primeira vez? Foi em 2012 em Málaga e eu estava na primeira fila do concerto. Assim que entrou no palco comecei a chorar e fiquei a chorar o concerto todo, uma vergonha, uma indignidade enorme. Quando estou com um ataque de ansiedade ou mais nervosa, a única coisa que me acalma é ouvir aquele álbum.
Como é que vê o panorama musical actual? É muito heterogéneo. Antigamente não existiam as redes sociais, nem o Spotify e o que nos chegava eram só as coisas efectivamente mais mainstream ou maiores. Hoje é mais fácil as músicas circularem, mas também há muito lixo musical.
O que acha das modas musicais em que vai tudo atrás de um estilo, como é o caso agora das músicas alentejanas… É como a moda da roupa: quando, de repente, as calças à boca de sino estão na moda, anda tudo com essas calças. Sou muito partidária da heterogeneidade, portanto isso é um bocado enjoativo. Podíamos, se calhar, ser um bocadinho mais activistas e apoiar outro tipo de artistas e encher salas pequeninas também.
Sente-se mais apoio em Portugal ou Espanha? Sinto-me mais apoiada em Espanha, se calhar também porque já estou há vários anos no país. Mas os espanhóis têm mais hábitos culturais e tenho muito menos dificuldade em encher uma sala em Espanha. Em Espanha, as pessoas consomem mais música, mais cultura. Há uma efervescência cultural em Madrid. Há muito mais oferta também e há público para tudo. Em Espanha as pessoas vão, não interessa o dia, não interessa a precedência. Normalmente esgoto os bilhetes dos meus concertos dois meses antes.
O que é que não gosta de ouvir? Não ouço muito rock, por exemplo, e não ouço reggaeton. Se for a uma festa, prefiro música electrónica e, depois, o que eu ouço mais é jazz, pop e R&B (Rhythm and Blues). É o que mais gosto. Também gosto de canção de autor.
Para trabalhar marcas de whisky aprendeu a apreciar a bebida
Para ser responsável pela marca Johnnie Walker a nível europeu tem de beber whisky? Nos meus 18 anos de carreira no marketing sempre trabalhei para marcas que adoro, como a Lego ou a McDonald’s. Mas quando comecei na área do whisky - antes da Johnnie Walker fiz o marketing da J&B - odiava a bebida. Só de olhar para uma garrafa fazia-me espécie. Pensava como é que iria entender o produto para poder trabalhá-lo em termos de marketing. Pedi ao meu pai, apreciador de whisky, para me ajudar a entender a bebida e, aos poucos, fui aprendendo a apreciar e agora faz parte de alguns momentos da minha vida.
Já apanhou uma bebedeira? Já, e é sempre desagradável. A parte boa de trabalhar agora neste sector é que também vemos todo o trabalho que há de responsabilidade, de ensinar as pessoas a beber bem em vez de beber à maluca, de beber coisas com qualidade. É tão importante consumir de forma responsável, porque senão não se desfruta dos momentos.
O que é que aprendeu com a bebedeira? Aprendi a não as apanhar. Tenho a sorte de nunca ter tido problemas nem com o jogo, nem com a bebida, nem nunca experimentei drogas. O que se aprende com o álcool é que não vale a pena consumir de forma irresponsável para tentar esquecer ou tentar fugir de algo. Isso só piora, porque se pensa e sente com mais intensidade e potenciam-se os disparates.
É uma pessoa que liga muito às marcas, que só compra roupas, malas ou sapatos de marca? O que para mim é mais fascinante é a história das marcas, o facto de elas serem o sonho de alguém, as histórias, o que lhes deu origem. O que gosto mais no meu trabalho é poder fazer parte da história de uma marca. Em termos de consumo tenho algum carinho por certas marcas, no mundo das guitarras, dos carros, das bebidas. Mas não sou uma pessoa que só calce sapatos de determinadas marcas ou que use malas de marca.
Qual era a marca que sonhava trabalhar? Quando estava na faculdade tinha dois sonhos possíveis. Era trabalhar no IKEA e no Oceanário de Lisboa, que considero marcas espectaculares. E depois a Lego, mas nessa tive a sorte de trabalhar. Lembro-me da primeira vez que fui ao Oceanário e fiquei fascinada com aquela paz, com os ecossistemas, os diferentes oceanos num espaço, os pedaços de poesia da Natália Correia. É fascinante a história de Portugal ligada ao mar, à navegação.
A menina que seguia formigas, que tem dois pais e uma mãe
e não desperdiça a vida com o que não faz sentido
Inês Fonseca nasceu em Lisboa, em 1987, mas cresceu entre três geografias afectivas que moldaram a pessoa e a artista que é hoje: a capital onde estudou e trabalhou, a Charneca da Caparica, casa do pai, guitarrista clássico, localidade que escolheu para ter a sua casa, e Almoster, concelho de Santarém, terra do avô Salvador, onde guarda as melhores memórias da infância. Uma pauta repartida em que a música esteve sempre presente.
Filha de Idália Serrão, violinista, ex-presidente da Junta de Almoster, antiga vereadora da Câmara de Santarém e secretária de Estado Adjunta e da Reabilitação (2005-2011) e de Silvestre Fonseca, guitarrista clássico, cresceu num ambiente onde os cabos, as colunas, os ensaios, os concertos e as canções eram tão naturais como respirar. Quando a mãe casou com Carlos Alberto Moniz, a família multiplicou-se e a música também: foi no universo da Arca de Noé, programa infanto-juvenil da RTP, apresentado pelo padrasto, que Inês começou a dar nas vistas a cantar, a gravar coros e a aprender, desde pequena, como se constrói a narrativa de um espectáculo.
A infância dividiu-se entre estúdios de televisão e aventuras em Almoster, onde seguia colónias de formigas com uma lanterna e construía com legos “hospitais” para os bichos. A memória mais forte é a do avô a empurrá-la num carrinho de mão. A separação dos pais nunca foi uma ferida; foi apenas um capítulo. Inês diz que tem “uma mãe e dois pais”, porque a ligação ao Carlos Alberto Moniz permanece intacta, afectiva e familiar. Estudou guitarra clássica durante 20 anos, cinco horas por dia, encontrando no instrumento um refúgio e uma disciplina que ainda hoje a acompanha. Na escola era discreta, pouco popular, mas sempre consciente do essencial: não ser infeliz.
Quando chegou a altura de escolher a faculdade, sem saber que caminho seguir, abriu o livro dos cursos ao acaso e saiu marketing — uma sorte que lhe mudou a vida. Começou a trabalhar aos 20 anos, passou pela Coca-Cola e pela Nobre até que um amor a levou para Madrid em 2012. A mudança trouxe um período de depressão, mas também um percurso profissional notável. Trabalhou na Lego, reconstruiu a vida, divorciou-se do espanhol a quem se tinha declarado por e-mail, depois de uma paixão à primeira vista numa reunião de trabalho.
Voltou a apaixonar-se por um condutor de autocarro da empresa pública de Madrid que também é músico, é percussionista, que compreende a sua dupla vida: o trabalho das 9h00 às 18h00 e a música que ocupa noites e fins-de-semana. Conheceram-se numa despedida de solteiro e têm vários pontos em comum a começar pelas famílias muito parecidas, com muitas multiplicações e filhos e divórcios e toda a gente se dá bem. Também há uma ligação ao avô Salvador, de Almoster, que era condutor da Carris e “estava sempre a falar espanhol e ninguém sabia porquê”. A mãe do companheiro, já falecida, era cantora. Inês tem uma teoria esotérica de que o avô e a mãe dele andaram lá em cima a congeminar para se conhecerem.
Hoje, Inês Fonseca é uma das profissionais mais reconhecidas do marketing em Espanha. Foi distinguida como Melhor Directora de Marketing de Espanha pelo Grupo Control de Publicidad, na 55.ª edição dos prémios CTRL — os mais antigos da indústria e os únicos decididos por votação pública. É autora de mais de 40 canções em português, inglês e castelhano, artista que leva para o palco a narrativa que aprendeu em criança, e mulher que vive com a intenção de não desperdiçar a vida em coisas que não fazem sentido.
Acredita que as decisões devem ser tomadas com clareza e com a consciência da mortalidade: “Quando tenho de decidir algo importante, penso no que quero sentir no momento da minha morte”, revela, reconhecendo que pode parecer um pouco mórbido. O essencial é dormir bem à noite e estar bem com a vida. Entre Madrid, Almoster e Lisboa, Inês Fonseca construiu um percurso singular, feito de música, disciplina, coragem e escolhas improváveis que se tornaram destino.


