Rodrigo Pereira Esteves: o jovem actor e cineasta que coloca a Póvoa de Santa Iria no grande écran
Na pandemia, Rodrigo Pereira Esteves realizou uma curta-metragem sobre o isolamento e agora foca-se no mouchão da cidade onde vive e cresceu, a Póvoa de Santa Iria. Nesta conversa à beira rio com O MIRANTE, o jovem realizador fala do futuro, da paixão pelo cinema, do potencial do concelho e do sonho de ter uma estrutura cultural mais forte na Póvoa de Santa Iria.
Aos 25 anos Rodrigo Pereira Esteves já percorreu um caminho que muitos só começam a desenhar mais tarde. Natural da Póvoa de Santa Iria, o jovem cineasta soma mais de uma dezena de curtas-metragens, duas longas-metragens, distinções em festivais nacionais e uma identidade artística que foge às convenções. Realiza, escreve, interpreta, monta e acompanha todas as etapas dos seus filmes, porque acredita que cada projecto é uma extensão da sua forma de olhar o mundo. “Não gosto de me considerar só um actor, nem só um realizador. Gosto muito de navegar nestas áreas. Também escrevo e não tenho grande vontade de me colocar numa caixa de ser isto ou aquilo. Vou sendo”, resume a O MIRANTE.
É precisamente essa recusa em aceitar fronteiras que explica o percurso de um autor independente que construiu quase tudo a partir da persistência. Sem grandes orçamentos, sem produtoras e muitas vezes acumulando funções por necessidade, Rodrigo Esteves foi encontrando o seu espaço através do trabalho. “Os projectos que desenvolvo acabam sempre por precisar de alguém para fazer um corpo, para pegar num papel. Não me importo de o fazer porque gosto de navegar entre essas áreas”, explica.
A paixão pelo cinema surgiu muito cedo. Não nasceu de uma tradição familiar nem de uma influência directa dos pais. Em casa via filmes e séries com a mãe, mas foi sozinho que descobriu o caminho que queria seguir. Apesar das dúvidas de quem o rodeava nunca deixou de acreditar. “Ser artista em Portugal é muito difícil. Vou fazendo o meu caminho e sendo um bocadinho teimoso nesse sentido”, refere.
Viveu a infância sempre na Póvoa de Santa Iria, cidade onde continua a viver e guarda a memória de uma vida tranquila e uma adolescência passada entre a escola e os livros. Nunca foi um aluno brilhante em todas as disciplinas mas era persistente. Foi apenas quando entrou na Escola Superior de Teatro e Cinema que sentiu verdadeiramente que o mundo se abriu. Licenciou-se em Teatro mas nunca deixou de olhar para o cinema como o lugar onde queria construir uma voz própria. Mais tarde aprofundou a formação na ETIC através de uma bolsa conquistada graças ao reconhecimento do seu trabalho.
Isolamento, identidade e relações familiares
Ao longo dos últimos anos realizou mais de dez curtas-metragens e duas longas. Submundos, o primeiro filme, nasceu durante a pandemia e explora o isolamento, a identidade e as relações familiares. Seguiu-se A Fenda, uma obra mais intimista e filosófica, construída em torno de uma personagem feminina que dialoga consigo própria e questiona o infinito, o corpo e a procura da outra metade.
Os seus filmes raramente vivem isolados. Rodrigo Esteves gosta de criar pequenas pontes entre eles, seja através de personagens, objectos, músicas ou imagens recorrentes. Entre os projectos mais marcantes destaca Coreomania: Hora de Ponta, uma curta de cinco minutos onde a dança deixa de ser apenas movimento para se transformar numa personagem. O filme foi distinguido em vários festivais e abriu-lhe novas portas.
O trabalho mais recente levou-o ao Mouchão da Póvoa, a ilha situada no Tejo, onde filmou uma história que cruza ficção, memória e preocupação ambiental. Gostava agora que o filme pudesse ser mostrado no concelho, em espaços como o Museu do Neo-Realismo, o Ateneu Artístico Vilafranquense, a Sociedade Euterpe Alhandrense ou o Grémio da Póvoa.
Sem o apoio de grandes produtoras acredita que fazer cinema independente nos subúrbios de Lisboa exige uma persistência redobrada. Também olha para a Póvoa de Santa Iria com um misto de orgulho e preocupação. Gosta particularmente da zona ribeirinha, mas observa a rápida transformação urbanística da cidade e questiona até que ponto esse crescimento preservará a identidade local.
Defende igualmente que o concelho precisa de investir mais na criação artística. Faltam espaços de encontro, oficinas, residências e locais onde jovens criadores possam desenvolver projectos. Nos próximos anos gostaria de integrar uma produtora, trabalhar como realizador ou argumentista e fazer um mestrado no estrangeiro. “Há alguma coisa que me chama para sair do país”, confessa.
As referências passam por Andrei Tarkovsky e Denis Villeneuve, realizadores que admira pela força visual das suas obras. Mas quando lhe pedem para definir o que é para si o cinema a resposta resume todo o seu percurso. “O cinema independente é uma capacidade de encontrar um espaço para mim e para outras pessoas. É um porto de abrigo que nós não reconhecemos, mas quando acedemos a ele queremos só zarpar e ir para outro lugar”, defende.
E deixa uma mensagem para quem sonha seguir o mesmo caminho: “Saibam que não estão sozinhos. Façam coisas. Não tenham medo. Mandem os vossos filmes para festivais. Comecem com a câmara do vosso pai, da vossa mãe ou com o telemóvel. Não há desculpas para não fazer. Chamem amigos e façam coisas”, conclui.


