Entrevista | 24-07-2026 10:00

Kevin Monteiro: “prefiro ser criticado por tomar más decisões do que por não decidir”

Kevin Monteiro: “prefiro ser criticado por tomar más decisões do que por não decidir”
O coordenador municipal de Protecção Civil da Chamusca continua ligado aos bombeiros voluntários, uma actividade que considera fazer parte da sua identidade - foto O MIRANTE

Nasceu na Austrália, mas está há mais de três décadas na Chamusca. Kevin Monteiro entrou nos bombeiros aos 16 anos, levado por amigos do rancho folclórico.

A aventura juvenil transformou-se numa vida dedicada à emergência, ao voluntariado e à protecção das populações. Licenciado em Gestão do Território e Património Cultural, no ramo de Ambiente e Planeamento, foi nomeado coordenador municipal de Protecção Civil da Chamusca em 2020. Nesta entrevista a O MIRANTE, fala das origens, do peso emocional das ocorrências, das dificuldades de um concelho extenso e envelhecido e da convicção de que liderar é ouvir, decidir e assumir as consequências.

Quem era Kevin Monteiro antes dos bombeiros e da Protecção Civil?
Nasci na Austrália. Os meus pais eram emigrantes e, quando se separaram, o meu pai ficou lá e eu vim para Portugal com a minha mãe. Ela teve um café na Chamusca, o Forcado, e foi a partir daí que fiquei ligado à terra. Vivo aqui há mais de 30 anos e, neste momento, não me imagino a viver noutro concelho. Foi aqui que cresci, que criei amizades, que constituí família e que construí o meu percurso profissional e humano.
Como é que entrou nos Bombeiros Voluntários da Chamusca?
Entrei aos 16 anos, com um grupo de amigos. Andávamos no rancho folclórico e cinco ou seis decidimos ir para os bombeiros. Tinha também um tio, o Francisco Pedro, conhecido por Chico Pedro, que era bombeiro e falava desse mundo em casa. Mas a decisão nasceu sobretudo da amizade e da vontade de fazermos alguma coisa juntos. Na altura, não pensava que a minha vida passaria por aqui. Entrei quase numa brincadeira e nunca mais saí.
Quando percebeu que já não era apenas uma aventura de juventude?
Foi acontecendo com o tempo. A continuidade, as ocorrências, o contacto com os mais velhos e as histórias de vida foram-me mostrando o significado de ser bombeiro. Tive várias referências: o antigo comandante Manuel Rufino, o Vítor Chora, o Armando Mira e muitas outras pessoas que me ajudaram a crescer. Foram elas que me transmitiram valores, conhecimento e responsabilidade. Quando entrei, não imaginava que este seria o meu futuro, mas fui ganhando motivação e percebi que gostava verdadeiramente de ajudar.
Que valores retirou da família, da escola, dos amigos e da comunidade?
Procuro ser parte da solução. Muitas pessoas não resolvem um problema porque não sabem a quem recorrer ou não dominam os meios necessários. Tento ajudá-las e trato todos da mesma forma. Gosto de tratar os outros como gostaria de ser tratado. Nem sempre a Protecção Civil tem competência directa, mas podemos encaminhar, contactar outra entidade ou explicar o que deve ser feito.
Continua como bombeiro voluntário apesar das funções profissionais. Porquê?
Porque não devemos esquecer aquilo que nos deu muito. Já trabalhei numa Equipa de Intervenção Permanente, mas há vários anos que sou apenas voluntário nos bombeiros. Continuo a fazer serviço e a integrar turnos. Às vezes perguntam-me por que razão continuo e a resposta é simples: isto faz parte de mim. Dá-me orgulho e satisfação poder ajudar alguém num momento difícil. Há períodos em que andamos mais cansados ou desmotivados, mas não me vejo a abandonar esta ligação.
Sente falta da componente operacional?
Muita. Gosto da coordenação, do planeamento e da articulação entre entidades, mas foram mais de 20 anos ligados à parte operacional. É mais de metade da minha vida. Tenho dificuldade em separar totalmente as duas dimensões e continuo a sair para emergências quando é necessário. A experiência do terreno ajuda-me a compreender melhor quem está na operação e a tomar decisões mais realistas. Não quero ser apenas alguém que coordena a partir de uma secretária.

A FORMAÇÃO COMO INVESTIMENTO NO FUTURO

Por que decidiu investir numa licenciatura e noutras formações?
Porque o conhecimento não ocupa lugar. Licenciei-me em Gestão do Território e Património Cultural, no ramo de Ambiente e Planeamento, e fiz também formação ligada à Protecção Civil e à higiene e segurança no trabalho. Não estudei porque soubesse exactamente que um dia seria coordenador municipal. O objectivo era preparar-me, melhorar as minhas condições futuras e ter mais ferramentas para mim e para a minha família. Nesta área temos de estar sempre a actualizar conhecimentos, porque os riscos, os procedimentos e as exigências mudam.
Como concilia um trabalho tão imprevisível com a vida familiar?
Não é fácil. Há situações em que a família tem de fazer sacrifícios. Recentemente, tínhamos uma viagem marcada para assinalar o aniversário do meu filho e, perante um cenário meteorológico grave no concelho e no país, decidi ficar. Ninguém me obrigou, mas eu não conseguiria estar fora sabendo o que podia acontecer. A minha companheira e o meu filho compreenderam. Desde o início da nossa relação, ficou claro que o voluntariado nos bombeiros era uma parte da minha vida que não iria abandonar. Felizmente, ela sempre respeitou isso.
Quem é Kevin Monteiro quando tira a farda?
Sou uma pessoa caseira. Gosto de pescar, muitas vezes com o meu filho, passear os cães junto ao Tejo e estar com a família. Também convivo com amigos, mas não sou muito de cafés. No dia-a-dia já lido com muitas pessoas e problemas. Até no supermercado, ao fim-de-semana, há quem tenha dificuldade em separar o coordenador municipal do cidadão comum. Compreendo que procurem ajuda, mas também precisamos de momentos reservados à família.
Que ocorrências mais o marcaram ao longo destes anos?
Há várias. Quem diz que não fica marcado não está a ser verdadeiro. Não somos máquinas, somos seres humanos. Os incêndios de 2003 marcaram muita gente, mas recordo também um acidente, na altura do Carnaval, em que morreram dois rapazes que estudavam comigo. Foi uma das primeiras ocorrências de grande gravidade que apanhei e nunca esqueci. Num concelho pequeno, há ainda uma dificuldade acrescida: quase sempre conhecemos a vítima, os pais, os filhos, os avós ou alguém próximo da família.
As ocorrências com crianças são as mais difíceis?
Para mim, sim. Tudo o que envolve crianças mexe muito connosco. Houve uma situação em que estivemos durante muito tempo a tentar reanimar uma criança. Mesmo quando a gravidade é evidente, é muito difícil alguém dizer que se deve parar. Quando somos pais, ganhamos outra sensibilidade, porque nos colocamos no lugar daquela família. Também nos acidentes em que uma criança ou um jovem é transportado em estado muito grave fica sempre uma esperança. Sabemos tecnicamente o que está a acontecer, mas emocionalmente queremos acreditar que vai resultar.
A experiência operacional influenciou a sua maneira de liderar?
Muito. Todas as opiniões podem ser válidas, mesmo quando vêm de alguém que tem dificuldade em expressar-se. Tento ser uma pessoa acessível e ouvir quem está comigo. A decisão final pode ser minha, mas uma decisão torna-se mais sólida quando integra a experiência e o conhecimento de várias pessoas. Na Protecção Civil precisamos de criar sinergias entre bombeiros, forças de segurança, autarquia, juntas de freguesia e restantes agentes. Quanto melhor for a relação antes da emergência, melhor será a resposta quando ela acontece.
É preciso preparação emocional para decidir sob pressão?
Sem dúvida. Em determinadas situações, temos poucos segundos ou minutos para escolher um caminho. Às vezes, vale mais tomar uma má decisão do que não decidir. Todos cometemos erros e eu também já tomei decisões menos boas, mas uma equipa precisa de sentir que quem lidera está a avaliar e a avançar. Se o responsável demonstrar incapacidade para decidir, transmite ainda mais pressão a quem está no terreno. Isso não significa agir de forma irresponsável; significa decidir com a informação disponível, acompanhar a evolução e corrigir quando for necessário.

Boa gestão do eucalipto não esconde abandono de pequenos terrenos

Kevin Monteiro, bombeiro e coordenador municipal da Protecção Civil da Chamusca, considera que o concelho tem, no geral, uma floresta bem gerida, sobretudo nas grandes explorações de eucalipto. Alerta, porém, para os riscos criados pelo abandono, pela fragmentação da propriedade, pela falta de mão-de-obra e pela proximidade excessiva das manchas florestais às povoações.
A floresta domina grande parte da paisagem do concelho e o eucalipto ocupa, segundo uma estimativa de Kevin Monteiro, cerca de 30% do território. Uma parte significativa dessa área pertence a grandes produtores, com capacidade financeira e técnica para manter os povoamentos, abrir acessos e reduzir o risco de incêndio. “Os produtores são os primeiros interessados em que a floresta não arda”, afirma. O problema agrava-se nas pequenas propriedades. Muitos terrenos têm reduzida dimensão, pouca rentabilidade e pertencem a herdeiros que nem sempre sabem onde ficam as parcelas. Sem retorno económico, a limpeza torna-se um encargo difícil de suportar e o abandono ganha terreno. Kevin Monteiro recorda que 2026 foi um ano atípico, com muita chuva e rápido crescimento da vegetação, obrigando alguns proprietários a limpar mais do que uma vez. Para quem tem poucos recursos, repetir os trabalhos pode ser incomportável.
A falta de mão-de-obra é outro obstáculo. O responsável dá o exemplo de uma proprietária que teve de contratar uma equipa de Castelo de Vide para limpar um terreno no Arripiado, localidade do concelho. A dificuldade em encontrar trabalhadores encarece as intervenções e atrasa a redução de combustível vegetal. Apesar dos constrangimentos, Kevin Monteiro defende que existe “uma boa gestão” em grande parte das zonas de cultura intensiva de eucalipto e destaca o papel de associações como a ACHAR, que apoiam proprietários na candidatura a fundos para limpeza e ordenamento. Reconhece, porém, que a resistência à mudança e a desconfiança dificultam soluções colectivas. A continuidade das grandes manchas florestais é um dos principais riscos, sendo necessário criar descontinuidades e apostar noutras culturas junto aos aglomerados populacionais.
A expansão do eucalipto tem também consequências ambientais. A partir do contacto com associações de caça, Kevin Monteiro admite haver sinais de redução de coelhos e lebres, devido à perda de abrigo e à transformação do solo, embora ressalve que não é possível atribuir essa evolução a uma única causa. Na organização da Protecção Civil, vê vantagens na proximidade dos comandos sub-regionais, mas critica o peso da máquina do Estado. Considera que existem estruturas a mais, tarefas repetidas e sobreposição de competências na fiscalização, prevenção e combate. A divisão por sub-regiões garante resposta conjunta nas ocorrências, mas provocou algum afastamento entre estruturas na formação e no treino. Kevin Monteiro defende uma reforma que simplifique o sistema e transfira mais recursos para a prevenção. “Muitas vezes respondemos depois do acidente ou já durante o acidente. Devíamos apostar cada vez mais na prevenção, e é aí que ainda falhamos muito”, conclui.

Kevin Monteiro defende uma protecção civil próxima das pessoas, assente na prevenção, na coordenação e na capacidade de resposta - foto O MIRANTE

Uma Protecção Civil mais próxima das pessoas

Quando assumiu a coordenação municipal, que mudança quis introduzir? Quis aproximar a Protecção Civil da população. Fizemos simulacros, fomos às universidades seniores, às escolas, ao pré-escolar e ao primeiro ciclo. Um serviço municipal não pode aparecer apenas quando existe uma catástrofe. As pessoas devem saber quem somos, o que fazemos e onde podem pedir ajuda. Somos uma estrutura local e temos de estar próximos dos cidadãos, ajudando dentro das nossas competências e encaminhando quando a resposta depende de outra entidade.
Essa proximidade leva a que lhe peçam ajuda para assuntos que não são de Protecção Civil? Muitas vezes. Há pessoas, sobretudo mais velhas, que não têm Internet, não conseguem utilizar determinadas plataformas ou não sabem como apresentar um pedido. Vêm ter connosco porque sentem que aqui alguém as vai ouvir. Posso ajudar a escrever um requerimento, explicar um procedimento ou fazer um contacto. A função pública deve existir para resolver, não para empurrar as pessoas de porta em porta. Naturalmente, há limites, mas tento nunca responder apenas que o assunto não é nosso.
Quais são as maiores vulnerabilidades do concelho da Chamusca? A dimensão e a dispersão territorial. É um concelho muito extenso, com população envelhecida e localidades afastadas umas das outras. O problema não é apenas o número de habitantes, mas a distância que os meios têm de percorrer. Podemos estar numa ocorrência e surgir outra a 30 ou 40 quilómetros. Em situações de multiocorrência, como acontece durante as tempestades, é necessário estabelecer prioridades e explicar às pessoas que os meios são finitos.
Quando vários concelhos enfrentam problemas ao mesmo tempo, é mais difícil pedir reforços? Claro. Numa ocorrência isolada conseguimos solicitar apoio através das estruturas de comando. Mas, quando uma tempestade ou outro fenómeno afecta toda a região, todos os municípios estão a responder em simultâneo. Nesses momentos temos de contar sobretudo com os nossos recursos, articular com as juntas de freguesia, organizar prioridades e utilizar os meios disponíveis da forma mais eficaz. É aí que a preparação e as relações de confiança fazem a diferença.
Que marca gostaria de deixar na Protecção Civil da Chamusca? Gostaria de deixar um serviço próximo, credível e capaz de trabalhar com todos. Um serviço em que as pessoas sintam que podem bater à porta e ser tratadas com respeito, sejam ricas ou pobres, licenciadas ou sem escolaridade. Quero também deixar uma estrutura com melhor articulação entre agentes e mais consciência preventiva na comunidade. Não fazemos tudo bem e há sempre aspectos a melhorar, mas prefiro ser criticado por ter feito e ter tentado corrigir do que por não ter feito nada.
O que diria hoje ao jovem Kevin que entrou nos bombeiros aos 16 anos? Dir-lhe-ia para continuar. Não faria tudo exactamente da mesma maneira, porque há decisões que hoje tomaria de outra forma, mas não gosto de viver arrependido. O que está feito serve para aprender. Quando corre mal, temos de assumir, perceber porquê e fazer melhor na próxima vez. Mudaria pormenores, não mudaria o essencial: a escolha de servir, de continuar ligado aos bombeiros e de fazer da Protecção Civil uma parte da minha vida.

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