Sónia Coelho: a enfermeira que faz de Samora Correia a sua casa profissional
Chegou em 1997, recém-formada, para integrar um projecto de saúde em Samora Correia. Gostou da equipa, das pessoas e da terra, e nunca mais saiu de uma unidade onde diz continuar a cumprir a missão de ajudar o outro.
Sónia Coelho não nasceu em Samora Correia, mas há quase três décadas que muitas famílias da cidade a reconhecem como uma presença próxima nos cuidados de saúde. Enfermeira na Unidade de Saúde Familiar (USF) de Samora Correia desde 1997, foi uma das nove mulheres homenageadas durante o mês de Março, no âmbito das comemorações do Dia Internacional da Mulher, iniciativa que levou às janelas do Palácio do Infantado rostos femininos distinguidos pelo contributo dado à comunidade. O reconhecimento surpreendeu-a. “Gostei, mas nunca pensei que fosse reconhecida porque não sou da terra”, afirmou, lembrando, porém, que trabalha em Samora Correia “quase há 30 anos” e que se sente acarinhada pelas pessoas.
Natural de Santarém, cresceu e reside em Foros de Benfica, no concelho de Almeirim. Guarda memória de uma infância passada na rua, sem telemóveis nem Internet. Estudou em Almeirim até ao 12.º ano e, na juventude, praticou corrida, tendo chegado a equacionar uma área ligada ao desporto. A escolha acabou por ser a enfermagem, decisão que associa à vontade de ajudar, incutida pelos pais e reforçada pela vivência comunitária. Foi catequista durante vários anos e diz que essa disponibilidade para com o outro continua fora do horário de trabalho, seja com vizinhos, seja com quem lhe aparece à porta a precisar de tratamentos ou orientação.
Formou-se em Lisboa e, ainda estudante, foi convidada a conhecer um projecto em Samora Correia. Terminou o curso, começou a trabalhar na localidade ribatejana e só interrompeu esse percurso durante seis meses, quando foi chamada a ajudar no concelho de Almeirim. “A enfermagem não é só o tratamento em si. É ver o outro e tratá-lo como gostava de ser tratado”, defende. É essa dimensão humana que procura transmitir aos alunos, lembrando-lhes que cuidar exige competência, atenção, escuta e respeito.
A proximidade é uma das marcas dos cuidados de saúde primários. Em Samora Correia, acompanha crianças cujos pais conheceu quando ainda eram pequenos, avós que antes viu como pais jovens e famílias inteiras que atravessam diferentes fases da vida. Deu aulas de preparação para o parto a mulheres que hoje já são avós. Especialista em saúde pública e saúde comunitária, reconhece que foi nos cuidados primários que encontrou a área onde queria permanecer, por lhe permitirem acompanhar crianças, adultos, idosos, grávidas e famílias, muitas vezes ao longo de anos.
Samora Correia mudou muito
A enfermeira olha para Samora Correia como uma comunidade que mudou muito nas últimas três décadas. Há a população da terra, com famílias que se conhecem há gerações, mas há também uma dimensão cada vez mais marcada por ser dormitório de Lisboa. Ainda assim, considera que a relação com os utentes constrói-se com disponibilidade e empatia. Nos dias mais difíceis, tenta colocar-se no lugar de quem está do outro lado, lembrando que “há sempre quem esteja pior”.
A população idosa é uma das preocupações que identifica no território. Considera que há muitos idosos a precisar de atenção e companhia, nem sempre possível de assegurar pelas famílias, e defende mais soluções de acompanhamento para quem vive só ou permanece isolado por vergonha de expor situações familiares. Na infância, entende que, apesar da oferta de creches, deveria haver mais respostas.
Na USF de Samora Correia, a equipa tenta responder a quem procura inscrição ou chega sem médico de família. A unidade conta com dez médicos, dez enfermeiros e sete administrativos, existindo uma lista de espera para utentes sem médico de família na qual se procura atender às prioridades, nomeadamente situações de saúde mais graves ou doentes oncológicos. Sónia Coelho acredita que Samora Correia continua a ter uma resposta de saúde capaz. A unidade vai ajustando a oferta de acordo com orientações da ULS e procurando encaixar quem precisa de apoio à medida que surgem vagas.
Fora da unidade, mantém uma vida ligada à família e à terra. Vive em Foros de Benfica, a cerca de 40 quilómetros de Samora Correia, distância que percorre diariamente e que encara “em ar de passeio”. Filha de agricultores, continua ligada à horta e às vinhas, onde encontra uma espécie de terapia. Casada há 22 anos, é mãe de Rodrigo, estudante de Medicina, e de Carolina, estudante de Economia. Quando consegue parar, gosta de ler, sobretudo romances, e de passear. Prestes a fazer 50 anos, no dia 30 de Julho, diz que quer continuar em Samora Correia enquanto puder, disponível para cuidar e ajudar.
Uma profissão sem a valorização que merece
A homenagem pública que recebeu emocionou Sónia Coelho, mas a enfermeira não esconde que a profissão continua longe do reconhecimento que merece. Considera que o país valoriza a enfermagem “em palavras”, mas não o faz plenamente na prática, sobretudo quando se fala de salários, progressão e reconhecimento das especializações. Com quase 30 anos de carreira, afirma que a diferença face ao início da profissão não corresponde à responsabilidade acumulada. Especialista em saúde pública e saúde comunitária, explica que a desvalorização ajuda a explicar a saída de profissionais para o estrangeiro, fenómeno que associa não apenas à enfermagem, mas a várias profissões.
O próprio filho, estudante de Medicina, já pondera seguir para a Alemanha. Sónia Coelho admite que resistiu à ideia, por gostar muito de Portugal, mas reconhece que ele poderá encontrar fora do país melhores condições para progredir. A burocracia é outro peso diário. Quando começou, os registos eram feitos em papel e, segundo recorda, a escrita era mais rápida. Hoje, além do atendimento, há avaliações constantes e registos obrigatórios. “Muitas vezes não registo tudo aquilo que faço, porque quero é atender mais um utente”, reconhece.
O desgaste emocional é uma das maiores dificuldades de quem trabalha numa USF. A equipa, diz, é uma ajuda fundamental nos dias mais duros, permitindo que se continue “o caminho para a frente”. A pandemia marcou a unidade de Samora Correia. A equipa trabalhou no covidário, atendeu muitas pessoas e foi reconhecida pela resposta dada. Com a vacinação, os dias tornaram-se imprevisíveis: os profissionais sabiam que tinham de entrar ao serviço, mas não sabiam a que horas regressavam a casa.
A enfermeira também olha para a condição das mulheres na saúde com sentido crítico. Observa que, apesar das mudanças ocorridas desde o 25 de Abril, muitas continuam a carregar a dupla exigência do trabalho profissional e do trabalho de casa, da família e dos filhos. “Já muita coisa se alterou e já se vai valorizando a mulher”, afirma, ressalvando que ainda há muito por mudar.
Aos jovens que pensam seguir enfermagem, deixa uma mensagem sem romantizar as dificuldades, pois é uma profissão bonita, mas só deve ser escolhida por vocação. “Tem que se gostar, porque a nossa profissão é cuidar do outro”, finaliza.


