Entrevista | 26-07-2026 15:00

Filipa Raimundo: A autarca que fez da proximidade uma missão

Filipa Raimundo: A autarca que fez da proximidade uma missão
Ao fim de três mandatos, Filipa Raimundo continua a apontar a proximidade e a resposta aos problemas da população como a principal missão da junta - foto O MIRANTE

Filipa Raimundo cumpre o terceiro mandato como presidente da Junta de Freguesia da Asseiceira, no concelho de Rio Maior, e mantém uma longa lista de sonhos por cumprir. Enfrentou a pandemia, temporais, um apagão e a pressão de responder a uma população que exige proximidade. Entre as conquistas, destaca o multibanco e a ciclovia de ligação à cidade. Entre o que falta fazer, aponta o saneamento, as estradas e, sobretudo, a requalificação da antiga Estrada Nacional 1, que considera o rosto da freguesia e a entrada sul do concelho.

Qual foi o maior desafio que enfrentou à frente da junta? Sem dúvida, a pandemia, porque não havia manuais. Ninguém sabia exactamente como agir e era preciso tomar decisões. Este ano também tivemos temporais e um apagão. São situações para as quais não está escrito como se deve responder. Foi necessário avaliar, decidir e estar presente.
Como viveu esse período, com as pessoas a querer respostas imediatas? Foi enfrentar o desconhecido, mas foi para isso que fui eleita: para estar presente para os meus. Fechámos os serviços administrativos, mas continuei cá todos os dias para ajudar quem precisava de levantar reformas, fazer pagamentos ou simplesmente ser escutado.
Essa experiência mudou a forma como encara o cargo? Senti o que é ser útil e estar verdadeiramente ao lado das pessoas. Estive sempre na linha da frente, nem que fosse para dar um abraço, porque muitas vezes pouco mais podíamos fazer. Tive a consciência de que estava no sítio certo.
Qual considera ter sido a maior conquista para a freguesia? A colocação do multibanco e a ciclovia que liga a Asseiceira à cidade. Podem parecer coisas simples, mas melhoram a vida quotidiana e ajudam a tornar a freguesia mais atractiva.
Quando chegou à junta, qual era a principal prioridade? Tínhamos apenas uma colaboradora, a administrativa. Hoje temos quatro trabalhadores. Também adquirimos um tractor, fundamental para conseguirmos executar o nosso trabalho. Era necessário criar condições, ter pessoal e equipamento.
A falta de trabalhadores continua a ser um problema? Continua. Tenho dois trabalhadores na rua, mas podia ter quatro. A freguesia é grande e é preciso cortar erva, despejar papeleiras, limpar a escola, fazer pinturas, arranjar fontes e tratar dos espaços públicos. Há sempre mais alguma coisa para fazer.
Qual é actualmente o maior problema da Asseiceira? Ainda temos problemas de saneamento e a rede não cobre toda a freguesia. Também temos estradas que precisam de alcatroamento. São investimentos de grande dimensão e dependem do município, porque são competências municipais.
Que preocupações chegam com mais frequência à junta? Variam ao longo do ano. No período dos incêndios aparecem as queixas sobre terrenos que não foram limpos. Depois surgem os problemas com águas pluviais e inundações. Quando sabemos quem é o proprietário, tentamos contactá-lo. Quando não conseguimos, encaminhamos a situação para a Câmara Municipal.
Uma junta pequena consegue responder à exigência de rapidez? Depende do assunto. Substituir um sinal ou intervir num buraco pode ser rápido. Já a numeração de polícia exige um levantamento exaustivo e tenho pedidos com cerca de dez anos. Espero que a situação fique resolvida até ao final do ano.
O orçamento permite responder às necessidades reais? Permite assegurar o dia a dia, o funcionamento corrente e fazer mais alguma coisa. Mas, se estivermos a falar de alcatroamentos ou de uma obra de 300 ou 400 mil euros, não temos capacidade financeira. As pessoas pensam muitas vezes que as juntas têm muito dinheiro, mas isso não corresponde à realidade.
Que projecto ficou por concretizar por falta de verba? Temos um antigo edifício onde funcionava um mercado mensal e gostaríamos de o transformar num espaço cultural. Queríamos que fosse usado pela população e permitisse reorganizar os serviços da junta, criar uma sala de assembleia diferente e melhores condições para as mesas de voto. Ainda acredito que seja possível, mas não tivemos verba para avançar. As freguesias têm poucas possibilidades de candidatura directa a fundos e, mesmo quando há apoio, é necessário garantir parte do investimento com dinheiro próprio.

“É sempre pouco para o que se sonha”

O que pretende o Regulamento de Apoio ao Associativismo? Pretendo tornar mais clara a forma como os apoios são atribuídos. Estamos ao lado das nossas associações e o município também tem uma política de apoio forte. Temos associações na Ribeira de Santo André e na Asseiceira, além da Comissão da Igreja. Cada uma dinamiza festas e iniciativas importantes para a comunidade.
As colectividades enfrentam muitas dificuldades? Sim. Vivem do voluntariado. Um voluntário deixa a família e o conforto, usa o próprio carro e muitas vezes ainda tem despesas. São pessoas que limpam, trabalham nas cozinhas, pedem patrocínios, cortam erva e organizam eventos para os outros. Esse esforço deve ser reconhecido.
Como podem ser apoiadas? Apresentam anualmente o plano de actividades e recebem uma verba através de contratos-programa. Também podem pedir apoios pontuais para obras, viaturas, cartazes ou outras necessidades. Mesmo assim, é sempre pouco para aquilo que se sonha. Às vezes contratam grupos para as festas sem terem a certeza de que a receita chegará para pagar as despesas.
Que projectos pretende ainda lançar? Temos bicicletas eléctricas na Asseiceira e estamos a tentar criar uma nova doca na Ribeira de Santo André. Queremos também introduzir o orçamento participativo, para que os fregueses possam apresentar uma ideia e vê-la concretizada, seja na área cultural, desportiva ou noutra que considerem importante.
Sente que o trabalho realizado nem sempre é reconhecido? Muitas vezes sente-se mais a crítica e o apontar daquilo que falta do que o reconhecimento do que já foi feito. Dediquei uma parte da minha vida à junta e estive sempre na linha da frente para defender a Asseiceira e as suas pessoas. Apesar de alguns poderem pensar o contrário, o importante é a terra. O que importa é a Asseiceira.
Que mensagem quer deixar aos habitantes? As pessoas sabem quem eu sou e sabem que trabalho todos os dias pela nossa terra. Vivemos um tempo em que, quando fazemos uma coisa boa, muitas vezes ninguém elogia; quando existe uma falha, surgem imediatamente críticas. Mas continuamos aqui para trabalhar para todos. Juntos somos mais fortes e juntos vamos mais longe. Precisamos de todos para fazer melhor.

Uma freguesia que cresceu quase 11 por cento

A Asseiceira está preparada para receber mais habitantes? Penso que sim. Nos últimos censos crescemos quase 11 por cento, o que mostra que a freguesia é interessante para viver. Temos dois parques infantis recentes e equipamentos de fitness. Procurámos melhorar a vida de quem já cá está e criar condições para quem procura um local onde se fixar.
O que torna a freguesia atractiva? Estamos a cerca de cinco quilómetros da cidade e isso faz diferença. Temos escola, multibanco, posto dos CTT, minimercado, cafés, uma marisqueira e um centro de dia. Se tivesse de escolher hoje um lugar para viver, a Asseiceira estaria certamente em cima da mesa.
Se pudesse escolher uma única obra, sem limitações financeiras, qual seria? A requalificação da Nacional. Por muito que queira recuperar o antigo mercado, escolheria a Nacional porque serve toda a gente. É a entrada sul do concelho e é a nossa cara. Tivemos muitos acidentes e mortes por atropelamento. Ainda hoje existem grades que limitam os passeios. O projecto prevê uma avenida com rotundas e melhores condições. Seria uma obra para a freguesia e para todo o concelho.
Como é a relação com a Câmara Municipal de Rio Maior? É muito boa. Isso não significa que façam tudo aquilo que eu quero, mas o presidente e os vereadores são acessíveis. O presidente da Câmara já foi presidente de junta e conhece bem as nossas dificuldades. Sem o município, uma junta como a nossa não consegue executar os investimentos maiores.

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