Rui Bragança: “falta transformar a identidade ferroviária num benefício para a cidade”
Rui Bragança chegou em 2025 à presidência da Junta de Freguesia de São João Baptista, a única do Entroncamento liderada pela coligação Viva o Entroncamento (PSD/CDS-PP). Num concelho onde a câmara e a junta vizinha são do Chega, garante que a diferença partidária não impede a cooperação. Conhecido por “Pelita”, tem 52 anos, passou pela assembleia municipal e pela vereação, mas rejeita o rótulo de político. Defende a proximidade com as pessoas e quer fazer da ferrovia uma oportunidade para a cidade.
Como é que chegou à política? Foi através do ex-presidente Jaime Ramos. Tinha 25 anos quando me convidou para a Assembleia Municipal. Estive lá três mandatos e, mais tarde, fui vereador da oposição na câmara durante cerca de um ano, substituindo outra pessoa da lista.
O que o levou a candidatar-se à junta? Há dois anos começou a discutir-se quem seriam os candidatos do PSD/CDS-PP e aceitei o desafio. Sempre fui observador e fazia-me confusão ver pequenos problemas que podiam ser resolvidos de forma simples. Senti que podia contribuir. Nunca me considerei um político, apenas alguém que quer ajudar a minha terra.
Que marca quer deixar no mandato? Somos uma equipa e as decisões são tomadas em conjunto. Um dos lemas da candidatura era sermos a voz das pessoas junto do poder local. Queremos ouvir, andar na rua, perceber os problemas e encaminhá-los para que sejam resolvidos. O primeiro ano será dedicado à reorganização e modernização interna. Os seguintes serão para concretizar projectos.
Sucedeu a Rui Maurício, que faleceu no ano passado. O que pretende fazer de diferente? Esta junta não tem delegação de competências. Temos duas funcionárias administrativas e o trabalho é sobretudo expediente, atendimento e encaminhamento de problemas para a câmara. Não podemos executar directamente obras, reparações ou manutenção do espaço público. A outra junta tem algumas competências, como a limpeza de certas ruas, mas nós não.
Como é utilizado o orçamento? Temos cerca de 170 mil euros, mas mais de metade destina-se a pessoal e despesas fixas. Muitos dos assuntos levados às reuniões são pedidos de apoio das associações e uma parte relevante do orçamento vai para essas entidades. Apoiamos ainda actividades culturais e foi destinada verba à compra de uma ambulância, decisão do anterior executivo. Sobra pouco dinheiro.
A junta deveria receber competências da câmara? Sim, mas primeiro teria de existir um executivo em permanência. Uma delegação de competências exige dedicação, trabalhadores e equipamentos. Se essas condições existissem, seria vantajoso resolvermos pequenas situações, como pedras soltas num passeio, sem esperar pela intervenção da câmara. Já a manutenção de jardins exige uma estrutura muito maior.
Quais são os projectos principais? Queremos recuperar tradições e valorizar espaços esquecidos, como o antigo chafariz junto ao mercado municipal. Temos ainda o ginásio ao ar livre no Jardim Afonso Serrão Lopes, um parque canino, zonas de convívio para os mais idosos e ideias para revitalizar bairros antigos. Outra proposta é melhorar o acesso junto ao elevador do túnel, com escadas ou tapetes rolantes. Tudo depende do orçamento e do diálogo com a câmara.
Como tem sido a relação com a câmara liderada pelo Chega? Costumo dizer que somos o Astérix no meio dos gauleses, porque não somos da mesma força política da câmara nem da outra junta. Apesar disso, tem existido cooperação. Também não temos maioria, mas até agora tudo foi aprovado. Disse ao presidente da câmara que aqui dentro somos a junta de freguesia e estamos para trabalhar para a comunidade, respeitando o nosso programa.
“É preciso fazer da ferrovia uma oportunidade”
Limpeza, segurança, habitação e estacionamento continuam entre as principais queixas. O que explica estes problemas? Nos últimos cinco anos houve um aumento populacional significativo, com a chegada de muitas pessoas de fora. Isso agravou a pressão sobre a habitação, a limpeza, o estacionamento e os serviços. A cidade não estava preparada e ainda está a adaptar-se. Modernizámos o sistema dos atestados de residência e verificámos uma redução de cerca de dois terços na emissão. A minha percepção é que o fluxo está a abrandar, embora não saiba se por falta de habitação ou por alterações nas regras da AIMA.
O estacionamento junto à estação tem solução? A pressão nunca desaparecerá porque a estação é das que tem mais serviços ferroviários a nível nacional. Mas pode ser reduzida. Existe um espaço entre a estação e o antigo posto da guarda fiscal, desocupado há mais de 15 anos, que podia ser aproveitado. A CP também deve assumir responsabilidades, porque muitas pessoas estacionam ali para utilizar o comboio, mesmo que a solução fosse paga.
Milhares de pessoas passam pela estação, mas pouco contribuem para o comércio. Como mudar isso? Muitas deixam o carro de manhã, apanham o comboio e regressam ao final do dia sem passar pelo comércio. Temos de criar iniciativas que levem as pessoas a circular pelas ruas. Uma cidade com vida cultural gera movimento e ajuda lojas, restaurantes e pastelarias.
Falta uma ligação entre o Museu Nacional Ferroviário e a cidade? Sem dúvida. O museu foi uma das melhores coisas que aconteceram ao Entroncamento, mas falta ligá-lo aos bairros ferroviários, ao comércio e à restauração. Quem o visita muitas vezes não encontra razões para permanecer. Podia existir um comboio turístico, percursos e parcerias com restaurantes e pastelarias. Temos até um doce tradicional, o Ferroviário, que é difícil de encontrar. Falta transformar a identidade ferroviária num benefício para a cidade.
É favorável à videovigilância e à polícia municipal? Sim. A videovigilância ajuda a polícia e tem efeito dissuasor, mas não chega. Temos poucos efectivos e a polícia municipal pode ser importante na fiscalização e na proximidade. Também sou favorável aos guardas nocturnos, porque representam mais vigilância durante a noite.
Se pudesse resolver amanhã um problema da freguesia, qual escolheria? Talvez a Praça Salgueiro Maia. É um espaço onde há situações a melhorar, desde a limpeza à falta de civismo e ao incumprimento das regras.
O que ficou por perguntar? O centenário da junta. Este ano assinalamos os 100 anos da Junta de Freguesia do Entroncamento, antes da divisão em duas freguesias. O programa começa a 25 de Agosto e prolonga-se por um ano. Haverá sessão solene, inauguração do ginásio ao ar livre e, a 5 de Setembro, uma festa aberta à população, com caminhada histórica, almoço-convívio, actividades, campeonato de sueca e concertos. É também uma forma de valorizar um dos jardins mais antigos da cidade.
“Pelita”, o eterno escuteiro que só quer servir a população
Nascido e criado no Entroncamento, Rui Bragança é conhecido por quase todos como “Pelita”, uma alcunha que o acompanha desde o 7.º ano. Foi um professor de Geografia quem começou por lhe chamar “Peles”, por ser muito magro, até o nome evoluir para “Pelita” e ficar para sempre. Filho de pais alentejanos, cresceu no bairro dos ferroviários, onde viveu uma infância que ainda hoje recorda com carinho. Licenciado em Engenharia Informática, iniciou a vida profissional a dar aulas de informática numa prisão de Castelo Branco, uma experiência exigente que lhe reforçou a capacidade de adaptação e o sentido de responsabilidade. Trabalhou depois em empresas como a PT e a MEO e, há 12 anos, integra uma multinacional francesa. Mas é no escutismo que encontra uma das marcas mais fortes da sua identidade. Assume-se, com humor, como “o alegre parvo escuteiro” e esteve entre os fundadores do Parque Escutista do Entroncamento, projecto que ajudou a afirmar o concelho como ponto de encontro para escuteiros de várias regiões.
Rui Bragança diz que nunca foi um estratega, mas antes “uma pessoa cheia de ideias”, atenta aos problemas e empenhada em encontrar soluções concretas. Não procura a imagem nem o estatuto associados à política. “Dizem que não tenho jeito para ser político e também não o quero ser. Estou aqui apenas para servir a população”, afirma. Para “Pelita”, um bom presidente de junta não é o que promete mais, mas o que sabe ouvir, compreender e colocar-se no lugar de quem procura ajuda. É essa proximidade, garante, que deve orientar a acção autárquica e dar verdadeiro sentido ao serviço público.


