Entrevista | 12-08-2026 11:53

“O eucalipto não deve ser demonizado, mas integrado numa floresta mais diversa e resiliente”.

“O eucalipto não deve ser demonizado, mas integrado numa floresta mais diversa e resiliente”.
Margarida Belém - foto DR

Margarida Belém é a primeira mulher presidente da Câmara Municipal de Arouca desde a queda da ditadura. Esta entrevista foi dada por escrito não sem que tenhamos tentado a conversa presencial. Nem por isso as grandes questões sobre o território, e o facto de 85% do mesmo ser ocupado por floresta de eucalipto, impediu que Margarida Belém fizesse um retrato do seu concelho e das preocupações que ocupam o seu dia a dia na presidência de uma câmara municipal que sofre as consequências da interioridade.

Arouca é um dos concelhos do país com maior peso florestal, enfrenta por isso os desafios do despovoamento, da elevada fragmentação da propriedade e do risco de incêndios rurais. Ao longo desta entrevista Margarida Belém identifica com clareza os pontos fortes da sua estratégia política, mas também as fragilidades estruturais e legislativas que condicionam o futuro da floresta em Portugal. Apesar da forte presença do eucalipto Margarida Belém recusa demonizar a espécie, clarificando que a sua expansão é uma consequência direta das opções económicas dos proprietários. Perante o minifúndio, o envelhecimento demográfico e a falta de mão-de-obra, o eucalipto surge como uma opção de retorno rápido e de menor investimento inicial. Contudo, o município assume que o verdadeiro problema reside na excessiva homogeneização da paisagem e defende que o caminho passa por garantir que a espécie ocupe apenas os locais adequados, integrando-se num mosaico florestal mais diverso e resiliente.

Quais as principais áreas de investimento e apostas estratégicas para os próximos anos no concelho de Arouca?

As principais apostas passam pela valorização do património natural do Arouca Geoparque Mundial da UNESCO, pelo turismo de natureza e de aventura, pela dinamização da economia local, e pela gestão sustentável da floresta, sempre com o fim último de criar as melhores condições de vida para todos os arouquenses e atrair novos residentes, num ecossistema favorável ao desenvolvimento económico do território.

Neste contexto e atendendo à relevância do património florestal, existe uma forte aposta na prevenção dos incêndios rurais, na execução de projetos de transformação da paisagem, na melhoria das acessibilidades, na reabilitação urbana e na criação de melhores condições para viver e trabalhar no concelho. O grande desafio é tornar Arouca um território onde seja possível criar oportunidades sem perder a identidade que o distingue.

Arouca, como tantos outros concelhos de interior, tem perdido população. Como estão a enfrentar e tentar resolver esta situação?

O despovoamento é um dos maiores desafios dos territórios do interior e resulta de fatores que ultrapassam a escala municipal. Ainda assim, o município procura criar condições para tornar Arouca mais atrativa para viver. Inverter décadas de perda populacional exige políticas nacionais consistentes e uma discriminação positiva dos territórios de baixa densidade.

A floresta e a gestão florestal têm contribuído para esse abandono ou podem ser parte da solução?

Podem ser as duas coisas. Durante muitos anos, a floresta deixou de garantir rendimento suficiente para justificar uma gestão ativa, sobretudo em propriedades pequenas e muito fragmentadas. Isso contribuiu para o seu abandono.

Mas a floresta também pode ser uma parte importante da solução. Quando é gerida de forma sustentável, pode gerar rendimento através da madeira, da cortiça, do pastoreio, dos produtos não lenhosos, dos serviços de ecossistema, da captura de carbono ou do turismo de natureza. O desafio é criar condições para que os proprietários tenham motivações económicos para cuidar da floresta.

Arouca é um dos concelhos com maior peso florestal do país. Que leitura faz da evolução da paisagem florestal nas últimas décadas?

A paisagem sofreu profundas alterações. Assistimos ao abandono da agricultura tradicional, ao crescimento da ocupação florestal e à expansão significativa do eucalipto, impulsionada pela sua rentabilidade e rapidez de crescimento.

Ao mesmo tempo, os grandes incêndios alteraram sucessivamente a paisagem, criando ciclos de destruição e regeneração que dificultam uma gestão sustentável. Hoje existe uma maior consciência de que é necessário diversificar a paisagem, reduzir a continuidade dos combustíveis e promover mosaicos agroflorestais mais resilientes.

O eucalipto representa uma ocupação do território que dá que pensar

É sobretudo uma consequência das opções económicas disponíveis para muitos proprietários. O eucalipto oferece um retorno relativamente rápido, possui um mercado organizado e exige menos investimento inicial do que outras espécies. Perante propriedades pequenas, envelhecimento dos proprietários e falta de mão-de-obra, esta opção tornou-se naturalmente dominante.

O problema surge quando essa opção se traduz numa excessiva homogeneização da paisagem. O desafio não passa por demonizar o eucalipto, mas por garantir que ocupa os locais mais adequados e integrado numa paisagem mais diversificada.

No caso de Arouca, a floresta é uma fonte de rendimento, mas também um fator de risco. Como se encontra hoje esse equilíbrio?

Hoje existe uma maior consciência de que economia e segurança não são objetivos incompatíveis. Uma floresta bem gerida produz rendimento e é também menos vulnerável aos incêndios. O problema não é a existência da floresta, mas a ausência de gestão ativa da mesma. Assim, o município e outros parceiros públicos e privados têm investido na criação de faixas de gestão de combustível, na execução de redes primárias e secundárias, no ordenamento da paisagem e na sensibilização dos proprietários. Conscientes de que este é um trabalho de gerações, a abordagem atual é claramente mais preventiva do que no passado.

Serão os novos serviços de ecossistema uma solução para reduzir a mancha florestal de eucalipto?

Os novos serviços de ecossistema podem ser uma peça importante da solução, mas dificilmente serão suficientes. Enquanto o proprietário florestal for remunerado quase exclusivamente pela produção de madeira, será natural que opte pelas espécies que oferecem maior retorno económico num curto espaço de tempo. Se quisermos promover uma paisagem mais diversificada e resiliente, é fundamental que o Estado passe também a reconhecer e a remunerar os benefícios que a floresta presta para além da produção lenhosa.

Falamos de serviços essenciais como a proteção dos recursos hídricos, a conservação dos solos, a captura e armazenamento de carbono, a preservação da biodiversidade, a valorização da paisagem e, sobretudo, a redução do risco de incêndio. Estes benefícios têm um enorme valor para toda a sociedade, mas atualmente esse valor raramente chega ao proprietário que investe na sua conservação.

Nesse sentido, os mecanismos de pagamento por serviços de ecossistema podem constituir um incentivo importante para que os proprietários diversifiquem as suas explorações, integrem espécies autóctones e adotem modelos de gestão mais sustentáveis, sem que isso represente necessariamente uma perda de rendimento.

Em Arouca o município está a desenvolver um projeto de reconversão da propriedade municipal da encosta de Santa Luzia, com cerca de 120 hectares, onde se pretende substituir progressivamente áreas ocupadas por eucalipto por um mosaico de espécies autóctones mais adaptadas às características do território. O objetivo não é apenas recuperar a biodiversidade e aumentar a resiliência da floresta aos incêndios e às alterações climáticas, mas também demonstrar, através de um exemplo concreto, que é possível gerir a floresta de forma diferente.

Acreditamos que as entidades públicas devem assumir um papel de liderança, mostrando no terreno que uma floresta mais diversa, mais equilibrada e mais resiliente é compatível com uma gestão responsável e sustentável. Esperamos que este projeto possa funcionar como um espaço demonstrativo, inspirando proprietários e outras entidades a seguir o mesmo caminho, sempre que as condições do território o permitam.

Depois dos grandes incêndios, que mudanças concretas foram feitas?

Os grandes incêndios marcaram profundamente Arouca e aceleraram uma mudança de paradigma na forma como o território encara a gestão da floresta. Hoje existe uma consciência muito maior de que a prevenção é um investimento permanente e não apenas uma resposta após a ocorrência dos incêndios.

Nos últimos anos, o município tem reforçado de forma significativa o investimento na prevenção estrutural. Só na execução e manutenção das faixas de gestão de combustível são investidos, em média, cerca de 200 mil euros por ano, garantindo a proteção dos espaços industriais, da rede viária e de outras infraestruturas estratégicas.

Paralelamente, têm sido desenvolvidos projetos como o “Condomínio de Aldeia”, que promovem a criação de zonas de proteção em torno das povoações, através da reconversão da ocupação do solo e da valorização de espécies mais resilientes ao fogo, envolvendo diretamente os proprietários e as comunidades locais. Da mesma forma, o programa “Aldeia Segura, Pessoas Seguras” veio reforçar a preparação das populações para situações de emergência, através da definição de locais de abrigo, da elaboração de planos de evacuação e da promoção de uma verdadeira cultura de autoproteção.

Foi igualmente realizado um importante trabalho de beneficiação e abertura da rede viária florestal estratégica, bem como de melhoria de pontos de água, essenciais para aumentar a eficácia das ações de vigilância, da primeira intervenção e do combate aos incêndios rurais.

Uma das mudanças mais significativas foi igualmente o reforço da capacidade operacional do município, através da criação de uma Equipa Operacional afeta ao Serviço Municipal de Proteção Civil e Florestas. Esta equipa permite assegurar uma intervenção mais rápida e contínua no terreno.

Mas a resposta do Município não se esgotou na prevenção, foi desenvolvido um trabalho de proximidade junto das populações afetadas, prestando apoio técnico aos agricultores na instrução das candidaturas aos programas de compensação pelos prejuízos sofridos. O Município assumiu igualmente um papel ativo na preparação e submissão das candidaturas às medidas excecionais de apoio. Este acompanhamento revelou-se essencial para garantir que as famílias e os produtores conseguissem aceder aos apoios disponíveis e recuperar mais rapidamente as suas condições de vida e de atividade.

Hoje existe uma visão muito mais integrada da gestão da paisagem. O objetivo deixou de ser apenas reduzir combustível junto às infraestruturas ou responder às consequências dos incêndios. Procura-se construir um território mais resiliente, onde a prevenção, a recuperação e o apoio às populações fazem parte da mesma estratégia. Porque uma floresta mais segura depende também de comunidades mais preparadas, mais apoiadas e capazes de continuar a viver e a cuidar do território.

Qual a percentagem estimada de floresta abandonada?

Não existe um indicador oficial que permita quantificar, com rigor, a percentagem de floresta considerada abandonada no concelho. Nnem toda a floresta que aparenta estar abandonada está efetivamente abandonada. Em muitos casos, são áreas que não são alvo de uma gestão ativa ou regular, mas que continuam a ter proprietários presentes.

O principal desafio em Arouca, à semelhança de muitos concelhos do interior, não é tanto o abandono da propriedade, mas a dificuldade em assegurar uma gestão florestal contínua e economicamente viável. A elevada fragmentação fundiária, o envelhecimento dos proprietários, a dispersão das parcelas e a reduzida rentabilidade de muitas explorações dificultam uma gestão eficaz e sustentável.

Mais do que procurar quantificar uma alegada "floresta abandonada", importa criar condições para que os proprietários voltem a gerir os seus terrenos. Isso passa por promover modelos de gestão agrupada, como as Áreas Integradas de Gestão da Paisagem (AIGP), apoiar o associativismo florestal, simplificar o acesso aos incentivos e criar mecanismos que valorizem economicamente os serviços que a floresta presta à sociedade. Só assim conseguiremos transformar áreas hoje pouco geridas em territórios mais produtivos, mais resilientes e mais seguros.

Que consequências tem uma floresta pouco diversificada?

Uma floresta pouco diversificada tende a ser menos resiliente. Favorece a propagação dos incêndios, reduz a biodiversidade, aumenta a vulnerabilidade a pragas e doenças e pode comprometer a conservação dos solos e dos recursos hídricos. Paisagens diversificadas conseguem normalmente responder melhor às alterações climáticas e recuperam mais rapidamente após eventos extremos.

É possível reduzir a dependência do eucalipto sem prejudicar os pequenos proprietários?

Sim, mas apenas se existirem alternativas economicamente competitivas. Não basta incentivar outras espécies, é necessário garantir mercados, apoios à instalação, acompanhamento técnico e remuneração pelos serviços ambientais prestados. A transição só será bem-sucedida se representar também uma oportunidade económica para os proprietários.

Como está a implementação das AIGP no concelho?

O Município de Arouca considera que as Áreas Integradas de Gestão da Paisagem (AIGP) constituem um dos instrumentos mais promissores para responder a alguns dos principais desafios da floresta portuguesa, nomeadamente a elevada fragmentação da propriedade, a dificuldade em assegurar uma gestão ativa e a necessidade de tornar o território mais resiliente aos incêndios rurais.

As AIGP permitem planear e gerir a paisagem numa escala mais adequada, promovendo a gestão conjunta de propriedades, a diversificação dos usos do solo e a criação de modelos de exploração florestal e agrícola mais sustentáveis e economicamente viáveis. Ao mesmo tempo, podem contribuir para aumentar a rentabilidade das pequenas propriedades e criar condições para uma gestão continuada do território.

O município acredita no potencial deste instrumento e pretende avançar com a implementação de uma AIGP no concelho, por considerar que poderá representar uma oportunidade para promover uma transformação estrutural da paisagem, conciliando a redução do risco de incêndio com a valorização económica e ambiental do território.

Há outras alternativas ?

Não existe uma solução única. Em função das características do terreno podem coexistir povoamentos de pinheiro-bravo, sobreiro, castanheiro, medronheiro, carvalhos, sistemas silvo pastoris, pastorícia extensiva e modelos mistos. O futuro passa precisamente por essa diversidade, reduzindo a dependência de uma única espécie e aumentando a resiliência económica e ecológica.

Concorda com a plantação de novos eucaliptos em matos ou baldios abandonados?

Cada situação deve ser analisada tecnicamente.

Existem locais onde o eucalipto pode ser adequado e outros onde a prioridade deverá ser outra ocupação do solo.

A decisão deve respeitar os instrumentos de gestão territorial, as condicionantes ambientais e a estratégia de transformação da paisagem. O objetivo deve ser construir paisagens mais equilibradas e não aumentar indiscriminadamente a área ocupada por uma única espécie.

Em Arouca, com mais de 85% da floresta em eucalipto, ainda há espaço para plantar mais?

Mais importante do que discutir aumentar a área é melhorar a qualidade da gestão existente. Num território onde o eucalipto já tem uma expressão muito significativa, a prioridade deve passar pela diversificação da paisagem, pela redução da continuidade dos combustíveis e pela valorização de outras espécies sempre que existam condições para isso.

Há demasiada legislação e pouca capacidade de execução?

Portugal dispõe hoje de um quadro legislativo bastante amplo na área da floresta e da defesa da floresta contra incêndios. O desafio, na minha perspetiva, não está apenas na quantidade de legislação existente, mas sobretudo na sua adequação à realidade dos territórios e na facilidade com que pode ser aplicada.

Muitos dos diplomas são tecnicamente exigentes, sucessivamente alterados e, por vezes, difíceis de interpretar, tanto para os proprietários como para as próprias entidades responsáveis pela sua aplicação. Em concelhos como Arouca, marcados pela pequena propriedade, pela elevada fragmentação fundiária e pelo envelhecimento da população, é fundamental que a legislação seja mais simples, mais clara e mais adaptada às especificidades do território.

Mais do que criar novas obrigações, importa criar condições para que as existentes possam ser efetivamente cumpridas. Isso passa por reduzir a burocracia, simplificar procedimentos, reforçar o apoio técnico aos proprietários e garantir instrumentos de financiamento estáveis e adequados. Só assim conseguiremos passar de uma lógica predominantemente normativa para uma verdadeira cultura de gestão ativa da floresta.

A legislação é essencial para definir objetivos e responsabilidades, mas só produz resultados quando é exequível, compreendida pelos seus destinatários e acompanhada dos meios necessários para a sua implementação. É essa proximidade entre a norma e a realidade do território que, muitas vezes, faz a diferença.

O Estado e as autarquias têm apoiado suficientemente as associações florestais e os proprietários?

Nos últimos anos tem existido um reforço do apoio do Estado à gestão florestal, sobretudo através de programas de financiamento aos quais os municípios se podem candidatar para desenvolver ações de prevenção, recuperação e valorização do território. Estes instrumentos têm permitido concretizar investimentos importantes e têm desempenhado um papel relevante na implementação de diversas medidas no concelho de Arouca.

No entanto, importa reconhecer que as responsabilidades atualmente atribuídas aos municípios na área da gestão da floresta, da prevenção dos incêndios rurais e da proteção das populações são cada vez maiores e exigem uma capacidade de resposta permanente. A realidade de um concelho como Arouca, com uma extensa área florestal, elevada dispersão territorial e uma propriedade muito fragmentada, implica necessidades de intervenção contínuas e investimentos significativos.

Nesse contexto, considera-se que os recursos financeiros disponíveis nem sempre acompanham a dimensão das competências assumidas pelas autarquias nem as reais necessidades do território. Mais do que aumentar o número de programas, é importante garantir financiamento estável, previsível e ajustado às especificidades de cada concelho, permitindo planear intervenções de médio e longo prazo e assegurar a continuidade das equipas e das ações no terreno.

A gestão da floresta é uma responsabilidade partilhada entre o Estado, as autarquias, os proprietários e as restantes entidades com competências nesta matéria.

As grandes celuloses deveriam contribuir para os custos da prevenção?

As empresas da fileira da celulose já desempenham um papel relevante na gestão florestal, nomeadamente através da gestão ativa das propriedades sob a sua responsabilidade, do apoio aos produtores florestais e da participação em iniciativas de prevenção e de reforço do dispositivo de primeira intervenção. Esse contributo é importante e deve ser reconhecido.

Ainda assim, a prevenção dos incêndios rurais é uma responsabilidade coletiva, que envolve o Estado, os municípios, os proprietários, as associações florestais e também os diferentes agentes económicos ligados à floresta. Quanto maior for a articulação entre todos estes intervenientes, mais eficaz será a gestão do território.

Mais do que discutir quem deve suportar os custos, importa promover modelos de cooperação que reforcem o investimento na gestão ativa da paisagem, na diversificação florestal, na valorização da biomassa e na prevenção estrutural dos incêndios. Todos beneficiam de uma floresta mais produtiva, mais resiliente e mais segura e, por isso, faz sentido que todos continuem a contribuir para esse objetivo comum, cada um de acordo com o seu papel e as suas responsabilidades.

As faixas de gestão de combustível são suficientes?

As faixas de gestão de combustível são um instrumento absolutamente essencial na estratégia de prevenção dos incêndios rurais. Quando corretamente executadas e mantidas, aumentam significativamente a resiliência do território, reduzem a intensidade e a velocidade de propagação do fogo junto às áreas mais sensíveis e criam condições mais favoráveis para a proteção de pessoas, habitações e infraestruturas.

Em muitos incêndios, estas infraestruturas revelam-se determinantes para travar ou condicionar a progressão do fogo e proteger aglomerados populacionais.

No entanto, seria um erro pensar que a prevenção se esgota na execução das faixas de gestão de combustível. Elas representam apenas uma parte de uma estratégia muito mais ampla. Se toda a restante paisagem permanecer sem gestão, contínua e excessivamente homogénea, o risco de ocorrência de grandes incêndios continuará a existir.

A verdadeira prevenção começa muito antes da execução das faixas. Passa por promover uma gestão ativa e permanente da floresta, diversificar as espécies, recuperar áreas agrícolas e de pastorícia, incentivar a criação de mosaicos agroflorestais e valorizar economicamente o território para que exista uma ocupação efetiva do solo.

A resiliência do território constrói-se através da complementaridade de várias ações e não pela aplicação isolada de uma única medida. É esse equilíbrio entre prevenção estrutural, gestão ativa e envolvimento dos proprietários que permitirá reduzir, de forma consistente, o risco de grandes incêndios no futuro.

Como tornar a gestão da biomassa economicamente sustentável?

Um dos grandes desafios da gestão florestal é precisamente transformar aquilo que hoje é encarado como um custo numa oportunidade económica. Atualmente, uma parte significativa da biomassa resultante das operações de gestão de combustível tem um reduzido valor comercial, o que faz com que os custos da sua recolha, transporte e processamento sejam, muitas vezes, superiores ao rendimento obtido. Esta realidade desincentiva a gestão ativa da floresta, sobretudo nas pequenas propriedades.

Para que a biomassa se torne verdadeiramente um recurso económico, é fundamental criar escala. Só com volumes suficientes de matéria-prima, cadeias logísticas bem organizadas e uma oferta regular será possível atrair investimento, reduzir custos operacionais e tornar viáveis modelos de negócio sustentáveis. Esta é uma das razões pelas quais a gestão integrada da paisagem e o trabalho conjunto entre proprietários assumem uma importância crescente.

A gestão da biomassa não deve ser encarada apenas como uma questão energética, mas como uma oportunidade para dinamizar a economia rural, criar novas cadeias de valor e contribuir para uma gestão florestal mais ativa e resiliente. Se conseguirmos transformar um custo numa fonte de rendimento, estaremos também a criar um incentivo muito mais forte para que os proprietários invistam na gestão contínua das suas propriedades, com benefícios evidentes para a prevenção dos incêndios, para a economia local e para a sustentabilidade da floresta.

O que deveria mudar já na política florestal nacional?

A prioridade deve ser simplificar procedimentos, garantir estabilidade dos apoios, reforçar o acompanhamento técnico aos proprietários e promover verdadeiros incentivos à gestão conjunta. Também é essencial remunerar quem presta serviços ambientais e apostar numa visão de longo prazo, evitando mudanças frequentes nas políticas públicas.

Que floresta gostaria de ver em Arouca daqui a 10 ou 20 anos?

Gostaria de ver uma floresta ainda mais diversa, ainda mais resiliente e ainda melhor gerida. Mas, acima de tudo, gostaria de ver uma floresta que continue a fazer parte da identidade de Arouca e da qualidade de vida das pessoas que aqui vivem. A floresta não deve ser vista apenas como um espaço de produção de madeira ou como um território vulnerável aos incêndios. Deve ser encarada como um património natural, ambiental, económico e cultural que importa preservar e valorizar.

Arouca tem uma riqueza extraordinária. Somos um território reconhecido internacionalmente através do Arouca Geopark, onde a geologia, a biodiversidade, a floresta e as comunidades convivem de forma única. Temos o imponente Mosteiro de Santa Maria de Arouca, testemunho da nossa história e da nossa identidade, os emblemáticos Passadiços do Paiva e a Ponte 516 Arouca, que projetaram Arouca além-fronteiras, a Ecovia do Arda, uma vasta rede de percursos pedestres, zonas balneares que permitem desfrutar dos nossos rios, como o Paiva, o Paivô e o Caima, verdadeiros tesouros naturais que atravessam o concelho.

Temos também locais de enorme beleza paisagística, como a Senhora da Mó e a Senhora do Monte, que oferecem vistas privilegiadas sobre a serra e os vales de Arouca. E temos um património industrial e mineiro singular, como as antigas Minas de Rio de Frades e as Minas de Regoufe, que contam uma parte importante da história das nossas gentes e representam hoje um enorme potencial para o turismo de natureza e cultural.

A tudo isto juntam-se as nossas aldeias serranas, as tradições, a gastronomia, o associativismo, os eventos culturais e desportivos e o trabalho desenvolvido diariamente pelo Município, pelas associações e pelas comunidades locais para manter vivo este território. É este conjunto que faz de Arouca um concelho singular.

A floresta tem um papel central nesta identidade. Uma floresta bem gerida protege os solos e a água, conserva a biodiversidade, valoriza a paisagem, reforça a atratividade turística e cria oportunidades económicas para quem aqui vive.

Daqui a vinte anos gostaria que quem visitasse Arouca encontrasse uma floresta mais saudável e mais resiliente, mas também um território vivo, onde a natureza, a história e as pessoas continuem a coexistir em equilíbrio. Porque proteger a floresta é, no fundo, proteger tudo aquilo que faz de Arouca um lugar único: a sua paisagem, o seu património, as suas tradições e as suas comunidades.

À Margem

O futuro da floresta em Arouca, um dos concelhos do país com a maior mancha de floresta de eucalipto

Margarida Belém é a primeira mulher presidente da Câmara Municipal de Arouca desde a queda da ditadura. Entre 2009 e 2017 foi vereadora acumulando o cargo de vice-presidente entre 2013 e 2017. Actualmente, assume também a presidência da ADRIMAG – Associação de Desenvolvimento Rural Integrado das Serras do Montemuro, Arada e Gralheira e da AGA – Associação Geoparque Arouca. É licenciada em Turismo pelo Instituto Superior de Assistentes e Intérpretes, com formação pós-graduada no desenvolvimento e gestão de destinos turísticos. Durante vários anos, foi responsável pelo Posto de Turismo da Região de Turismo da Rota da Luz (RTRL) em Arouca.

Esta entrevista foi dada por escrito não sem que tenhamos tentado a conversa presencial. Nem por isso as grandes questões sobre o território, e o facto de 85% do mesmo ser ocupado por floresta de eucalipto, impediu que Margarida Belém fizesse um retrato do seu concelho e das preocupações que ocupam o seu dia a dia na presidência de uma câmara municipal que sofre as consequências da interioridade.

Para contrariar esta dependência e promover a biodiversidade, a autarquia aponta como solução a remuneração dos serviços de ecossistema. O Município argumenta que, enquanto os proprietários forem pagos quase exclusivamente pela madeira, continuarão a preferir espécies de rápido crescimento. É, por isso, fundamental que a sociedade passe a remunerar benefícios públicos como a conservação do solo, a proteção dos recursos hídricos e o sequestro de carbono. Para liderar pelo exemplo, a Câmara Municipal destaca o seu projeto de reconversão de 120 hectares na encosta de Santa Luzia, onde está a substituir progressivamente áreas de eucalipto por espécies autóctones.

A nível político e legislativo, as declarações da autarquia assumem um tom crítico. É apontado o dedo ao excesso de legislação florestal em Portugal, descrita como tecnicamente exigente, constantemente alterada e de difícil aplicação num território marcado pela pequena propriedade. O Município apela a uma simplificação burocrática urgente e a uma maior estabilidade nas políticas públicas. Adicionalmente, é deixado um alerta sobre o subfinanciamento das autarquias: a Câmara Municipal de Arouca sublinha que as crescentes responsabilidades transferidas para os municípios na prevenção de incêndios e proteção de populações não são acompanhadas pelos recursos financeiros necessários, defendendo a urgência de um financiamento estatal estável, previsível e ajustado à realidade do território.

Por fim, o Município aborda a valorização da biomassa, sublinhando a necessidade de criar escala e cadeias logísticas organizadas para transformar o que hoje é visto como um custo de limpeza numa oportunidade económica viável, ligada à bioeconomia circular.

Mais Notícias

    A carregar...
    Logo: Mirante TV
    mais vídeos
    mais fotogalerias

    Edição Semanal