“Santarém não é só touradas, gastronomia e piscinas”
Pedro Oliveira é um actor e encenador profissional nascido e criado em Santarém que decidiu regressar às raízes após duas décadas a viver em Lisboa. No final de 2025, assumiu o papel de presidente da direcção da centenária Sociedade Recreativa Operária de Santarém. Sempre com um olhar crítico sobre o mundo que o rodeia, o artista e dirigente associativo tem em mãos novos desafios e quer contribuir para a dinâmica cultural da cidade.
Pedro Filipe Oliveira nasceu em Santarém a 1 de Julho de 1973 e iniciou a sua actividade teatral em 1991, no Teatrinho de Santarém. Em 1995, profissionalizou-se como actor no Centro Dramático Bernardo Santareno, companhia de Santarém onde participou como actor em cerca de 40 produções e que, como diz, “foi uma escola e quase uma recruta da tropa”.
Em 2005, ingressou no curso de actores da Escola Superior de Teatro e Cinema, tendo concluído a licenciatura em 2008 “numa turma espectacular” onde fez amigos para a vida, como o actor Miguel Raposo. Entretanto fundou com outros colegas o Teatro do Azeite, onde se estreou na encenação. Colaborou com a associação USINA como actor e moderador de espectáculos de teatro-debate e, desde o ano 2000, participa pontualmente em produções para televisão, cinema e publicidade.
Casado e pai de uma filha, tem residido nos últimos 21 anos na zona de Lisboa, mas vai voltar a morar em Santarém em Setembro. Diz que Lisboa mudou muito e transformou-se numa espécie de “parque de diversões para estrangeiros”. Quando decidiu ir viver para a capital, “foi para fugir um pouco ao marasmo de Santarém”, estudar e ter outras experiências no teatro. Pelo meio, porque a vida de artista não é um mar de rosas, trabalhou noutras actividades para garantir rendimentos. Foi motorista de tuk-tuks, trabalhou em call centers e numa loja de pronto-a-vestir. Até aos 18 anos militou na Juventude Comunista Portuguesa e, mais tarde, no Bloco de Esquerda. Actualmente não tem filiação partidária, embora se assuma como cidadão politizado e apoiante do BE.
Depois de duas décadas a viver em Lisboa, regressou à vida cultural e associativa de Santarém. Como encontrou a cidade? O centro histórico está na mesma, talvez um bocadinho pior, mas penso que a culpa é do próprio sistema capitalista, porque os sítios ou rendem ou não rendem. Mas Santarém não é uma cidade morta. Fiz espectáculos por todo o país e há cidades bem piores do que a nossa. O centro histórico precisa de um objectivo, de um propósito.
As associações que permanecem no centro histórico, como a Sociedade Recreativa Operária (SRO), o Centro Cultural Regional ou o Círculo Cultural Scalabitano, acabam por ser balões de oxigénio para garantir vida nessa zona da cidade. Têm que ser. Acho que a cultura é a salvação disto. Temos também a livraria Aqui Há Gato, que já é uma referência a nível nacional. Santarém não é só touradas, gastronomia e as piscinas. Quando estive ausente senti muitas saudades de Santarém. Fiz a formação de actores, trabalhei noutros projectos e nunca encontrei um espírito de amor à cultura e ao teatro como encontrei aqui. Antigamente havia muita rivalidade entre os grupos. Hoje, isso já não existe. Cedemos espaços uns aos outros, colaboramos entre nós, hoje somos todos o mesmo. Depois, ver aqui as mesmas pessoas a continuar a fazer a mesma coisa há tantos anos é comovente.
Quando decidiu ser actor profissional os seus pais aplaudiram? A minha mãe é que me disse para ser actor profissional. O resto da família já não, inclusive o meu pai (risos)… Quando comecei a fazer teatro vi que me dava bem, que me sentia feliz e que fazia alguma coisa de jeito. Vi que era um espaço onde podia mostrar qualquer coisa, onde me podia exprimir. Também gosto muito de fazer música, mas sinto que sou muito melhor actor do que músico.
Nunca houve um plano B caso as coisas corressem mal? Tem que haver sempre um plano B, com o que tiver à mão na altura. Já tive muitos planos B na minha vida, como conduzir tuk-tuks, trabalhei na Zara do Colombo, num call center, e enquanto estava em Santarém trabalhei na Unicer… Sei bem o que é trabalhar fora do palco.
É quase uma utopia um actor viver só da arte, tirando uma elite? É difícil. E não é um mal só de Portugal. Um amigo esteve em Los Angeles há pouco tempo e encontrou a servir num restaurante um actor que ele tinha visto numa série de que gostava muito. Nos Estados Unidos e noutros países é normal os actores, quando não têm projectos, irem trabalhar para outras coisas.
Quais são as suas referências na representação? Gosto muito do Albano Jerónimo e do Ivo Canelas, por exemplo. De estrangeiros, destaco o Cillian Murphy, actor que entrou na série Peaky Blinders e no filme Oppenheimer. E o António Fagundes.
Qual a personagem que mais gostou de encarnar? Durante 17 anos fiz de Carlos da Maia. Mas não tenho uma personagem preferida, tenho trabalhos que me marcaram. Fazer “Os Maias” foi uma viagem extraordinária. Fazer o papel de uma personagem tão rica em ambiguidades, em crítica social, foi uma experiência muito marcante. Fazer de Baltasar Sete-Sóis, no “Memorial do Convento”, também.
Como é que fica um actor quando recebe críticas negativas? Fica a pensar que tem de trabalhar melhor. Que tem que se focar mais, para que essas críticas deixem de acontecer.
Já teve de representar cenas de nus e de sexo? Como se sente um actor despido em cena? Já passei por essa experiência e voluntariamente. Por exemplo, na escola, nalguns exercícios que tínhamos de mostrar ao público, houve cenas em que decidi aparecer nu. Não tenho problemas com isso. É uma arte. Não tenho absolutamente nenhum complexo com o corpo.
E como é contracenar em cenas mais picantes? Exige alguma preparação prévia? Não. A única preparação que se pode ter nessa situação é a confiança com quem se está a contracenar. É muito mais difícil se estivermos a contracenar com uma pessoa que se detesta ou, por exemplo, que tenha mau hálito ou que use um perfume de que não goste. Isso é complicado. Felizmente não tem acontecido.
Os mecanismos para superar essas situações também se aprendem na escola? Não. Uma coisa somos nós e outra coisa são as personagens. Ponto final. Em Os Maias há umas partes em que beijo mesmo a Maria Eduarda, interpretada por uma actriz com quem me dou muito bem e sabemos separar as coisas. É trabalho e não me faz nenhuma confusão à cabeça. Faz-se e até é bom, não há que esconder. Mas não é um prazer pessoal. Para mim o prazer é fazer um bom trabalho.
Já viveu alguma situação mais embaraçosa por se esquecer de uma fala? Ou arranja sempre forma de se desenrascar sem o público perceber? Já tive uma branca ou outra, mas não foi muito grave. O público não deu por nada. Os actores sonham muito que estão em palco e não sabem que papel é que têm, que peça é que é, qual é o texto. Uma vez aconteceu-me, em Santarém, ainda muito jovem, ter de improvisar num espectáculo de palhaços no liceu em que não sei muito bem o que fiz. Foi a situação mais embaraçosa por que já passei.
“O associativismo não é para dar lucro”
Disse, depois de tomar posse, que pretendia criar uma estrutura de produção cultural mais profissional na SRO de Santarém. A colectividade tem arcaboiço para um projecto dessa dimensão? Já tem alguma coisa. A SRO está muito bem organizada, nomeadamente a nível das contas, o que é fundamental. O objectivo é manter sempre as contas saudáveis. Saber com o que se pode contar tem permitido que os projectos aconteçam com equilíbrio. Vim para Santarém em definitivo, estreámos recentemente um espectáculo para crianças com o objectivo de começar a fazer mais espectáculos na região. É um trabalho que se vai fazendo passo a passo, projecto a projecto, que vai demorar tempo. Vamos ter financiamento para reformular o site e o arquivo digital e acho que isso vai ser fundamental, por exemplo, para estabelecer parcerias com outras associações culturais nacionais e estrangeiras.
A SRO de Santarém tem tido entre os seus dirigentes alguns militantes do PCP e do Bloco de Esquerda. É um reduto assumidamente de esquerda no movimento associativo escalabitano ou é só coincidência? É verdade, mas na direcção também temos pessoas do PSD e do PS. Um investigador que está a trabalhar sobre a história da associação descobriu que a primeira reunião do PCP em Santarém foi aqui, na SRO. Há valores que defendemos aqui acerrimamente, como a multiculturalidade, a preservação do legado do 25 de Abril, que infelizmente já fazem alguma comichão a certos partidos.
A cultura continua a ser uma arma poderosa de luta política ou já foi mais? É. Principalmente quando nos sentimos ameaçados, a cultura é muito importante. Quando as coisas estão mais ou menos bem, a cultura fica um pouco perdida. Sempre fui uma pessoa politizada, não escondo isso, e para mim a cultura é um espaço para reflexão, para debate, para questionar. E quando questiono dou a minha visão, mas sempre aberto ao diálogo e ao contraponto.
Como tem sido a relação com a Câmara de Santarém? Tem sido boa. Fiquei muito contente quando o Nuno Domingos foi vereador da cultura. Era a pessoa certa no lugar certo. Toda a gente dizia isso, fez muita coisa quando foi vereador.
Nuno Domingos continua como vereador mas já não tem pelouros. Notou diferenças? Notei que o PAAAC (Programa de Apoio ao Associativismo e Agentes Culturais) este ano foi um bocadinho mais baixo. O Tiago Fernandes tem feito uma programação interessante no Teatro Sá da Bandeira, mas com o Nuno Domingos era outra coisa. É um homem que conhece toda a gente e que toda a gente o conhece. Tive pena que o PSD e o PS não tivessem continuado com essa coligação. Acho que quem ficou a perder foi a cidade.
Sem apoios públicos o associativismo entrava em colapso? Sim, tanto aqui como em qualquer lado. O associativismo não é para dar lucro, não é uma empresa. É o verdadeiro serviço público prestado pela população. A cultura tem algumas coisas que não convêm a certos meios políticos, hoje em dia. A cultura obriga à reflexão e à crítica. A cultura precisa da tolerância, da multiculturalidade para ir buscar inspiração aos lugares mais recônditos do mundo; precisa de entender o que é diferente para ter inspiração para poder criar.
“A tourada marca um tempo que já passou”
O que pensa do financiamento de espectáculos taurinos? O tradicionalismo só se mantém por um motivo muito simples: a sobrevivência de certas famílias, que até vivem bem e têm um modo de vida que necessita de ser mantido. Há alternativas, mas essas pessoas não conseguem viver de outra maneira. É um bocado difícil de aceitar, hoje em dia, que se vá a um espectáculo ver um animal ser espetado por ferros, ver um animal a sangrar, e se aplauda essa barbaridade. A tourada marca um tempo que já passou.
O que pensa da compra do antigo Teatro Rosa Damasceno pelo município? O Teatro Rosa Damasceno é uma questão muito delicada para mim. Em 2007, lancei uma petição online dirigida à ministra da Cultura para que tomasse uma posição sobre o edifício, que tinha sido destruído por um incêndio há pouco tempo. Era uma sala de excelência, que recebeu a rainha de Inglaterra Isabel II, e ver o edifício naquele estado mexia connosco. A petição tomou dimensões de que não estava à espera. Na altura, o presidente da câmara, Moita Flores, não gostou muito.
A decisão da câmara agradou-lhe? Sim. A primeira boa notícia é que o edifício está finalmente na posse da câmara, o que já devia ter acontecido há mais de vinte anos, quando foi vendido. Agora, há duas posições em relação ao futuro do espaço, a do presidente da câmara e a do Nuno Domingos. Estou mais inclinado para a posição do Nuno Domingos - se realmente aquilo não tem estrutura para ser um teatro em condições para espectáculos de grandes dimensões - de se fazer ali um centro ligado ao ensino artístico, a residências artísticas, criar ali um espaço de produção, porque não há espaços para produzir. E construir-se o tal grande teatro no antigo campo da feira. Mas fazer do Rosa Damasceno um teatro para 500 lugares também não é mau. Fica ali um espaço intermédio entre o Sá da Bandeira e o CNEMA, que é a sala com maiores dimensões. Vamos ver se, de facto, o edifício do Rosa Damasceno tem estrutura para isso ou não. O CNEMA como grande sala de espectáculos da cidade também não me choca, só tenho pena que seja lá em baixo.
O teatro abriu-lhe as portas da Sociedade Recreativa Operária
Pedro Oliveira é, desde Dezembro de 2025, presidente da direcção da Sociedade Recreativa Operária (SRO) de Santarém. A ligação à colectividade começou em 2023, quando foi convidado para fazer um workshop de teatro integrado nas comemorações dos 75 anos de Mário Viegas. Fez uma leitura encenada do Manifesto Anti-Dantas, de Almada Negreiros, que foi das gravações em disco mais simbólicas do Mário Viegas.
“Fui muito bem recebido, o workshop correu muito bem. Não conhecia esta sociedade por dentro, nunca cá tinha entrado. Vi que eram instalações espectaculares, tinham muitas salas para ensaiar e tentei perceber se havia espaço para fazer aqui as minhas coisas”, conta. Assim surgiu a secção de teatro da SRO, que é a Se.Te. A primeira produção foi a peça “Frei Luís de Sousa”, ensaiada no edifício apalaçado onde se diz que nasceu o homem que deu nome à peça de Almeida Garret. Depois disso fizeram uma homenagem a José Alves Costa, o cabo apontador que se recusou a disparar sobre o capitão Salgueiro Maia no 25 de Abril de 1974. Foi uma experiência “inesquecível e emocionante”, que contou na estreia com a presença do antigo militar que, por coincidência, fazia 75 anos nesse dia.
Fez outras produções e entretanto convidaram-no para presidente da direcção da SRO. Foi eleito e tomou posse em Dezembro de 2025. Pedro Oliveira diz que foi um passo “um bocado precoce” pois queria que acontecesse só quando fosse viver definitivamente para Santarém. A SRO foi fundada em Maio de 1915. Inicialmente tinha a denominação de Fraternidade Operária de Instrução e Recreio. Em 1923 o seu nome foi alterado para Grémio Recreativo Operário. Em 1939 foi estabelecida a denominação actual.
A SRO tem à volta de 600 sócios e sede no centro histórico de Santarém, em frente ao Largo Padre Francisco Nunes da Silva ‘Chiquito’, patrono da associação, e conta com actividades como a secção de teatro, onde se cruzam diferentes gerações, escola de música, pilates e capoeira. Todos os meses fazem jantares temáticos e organizam várias dádivas de sangue anualmente. Algumas parcerias com entidades externas levam às instalações aulas de dança contemporânea e actividades ligadas ao projecto Mentalidade X, que recebe voluntários ao abrigo do programa Erasmus+. O edifício, designado Palácio Landal, é propriedade do município e está arrendado à SRO, uma colectividade centenária virada para o futuro, que não abdica dos seus valores e quer estar sempre do lado certo da história.


