Miguel Jerónimo, técnico do GEOTA: continuar a plantar eucaliptos é um erro que se vai pagar caro a longo prazo
A floresta portuguesa enfrenta uma encruzilhada histórica. Entre o abandono do interior, a proliferação de monoculturas e a ameaça cíclica dos grandes incêndios rurais, urge discutir soluções estruturais que vão além do curto prazo. O MIRANTE conversou com Miguel Jerónimo, arquitecto paisagista e técnico do GEOTA (Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente).
Com uma vasta experiência de trabalho direto no terreno, Miguel Jerónimo traz uma visão simultaneamente técnica, prática e crítica sobre a realidade florestal do país. Nesta conversa, o especialista sintetiza os maiores desafios e as soluções necessárias para a transformação da paisagem portuguesa. Entre os pontos mais importantes e polémicos abordados, destaca-se o diagnóstico do abandono florestal, impulsionado pelo despovoamento e pelo minifúndio. Miguel Jerónimo aborda de forma aberta a questão do eucalipto, sublinhando que a espécie já ocupa uma área excessiva (cerca de meio milhão de hectares) e que, embora sustente uma indústria e gere emprego, a sua expansão contínua é um erro estratégico que acarreta graves passivos ambientais não contabilizados. O técnico do GEOTA aponta ainda o dedo à excessiva burocracia e ineficácia das políticas públicas, exemplificando com o atraso na implementação prática das Áreas Integradas de Gestão da Paisagem (AIGP) e a lentidão dos apoios estatais em comparação com a agilidade dos projetos financiados por fundos privados.
Como é que caracteriza o atual estado de abandono da floresta portuguesa e quais são as suas principais causas históricas?
Miguel Jerónimo: Em Portugal, uma grande parte do território florestal é composta por matos que vão sendo ciclicamente abandonados e fustigados por incêndios. Historicamente, a grande transformação ocorreu a partir dos anos 40 e 50, mas intensificou-se sobretudo com a entrada na CEE, nos anos 80 e 90. O despovoamento do interior e o consequente abandono ditaram que muitas áreas deixassem de ser geridas para o gado ou para o aproveitamento do mato. Plantou-se em áreas sem aptidão e muitos proprietários simplesmente abandonaram os terrenos. Hoje, temos um problema de escala: a propriedade média no minifúndio é de menos de um hectare. Há milhões de parcelas e de donos que já não retiram qualquer valor económico dali, perdendo-se completamente a ligação à terra.
Perante este cenário de minifúndio e abandono, que soluções práticas existem para recuperar estes terrenos?
É preciso coragem política. Já temos legislação que permite integrar terrenos abandonados na esfera pública. O Estado tem ferramentas para intervir em terrenos públicos, baldios ou através da associação de proprietários. Não se trata de expropriação pura e dura, mas sim de exigir que quem tem obrigações as cumpra. Se o proprietário não cumpre as suas obrigações de gestão, deve haver mecanismos para que o território seja gerido por quem quer e sabe fazer essa gestão. Além disso, é preciso criar modelos de negócio colaborativos e de longo prazo, com horizontes de 20 a 30 anos, que tragam rentabilidade e sustentabilidade ao território.
O GEOTA tem desenvolvido projetos de intervenção direta no terreno; como têm funcionado essas iniciativas e onde têm atuado?
Trabalhamos diretamente com proprietários locais e entidades parceiras, como juntas de freguesia e comunidades locais. Começámos na Serra de Monchique após o grande incêndio de 2018, em que arderam 27 mil hectares. O projeto arrancou no terreno em maio de 2019 e já vai no seu oitavo ano de monitorização. Posteriormente, alargámos esta metodologia para outras regiões, como Leiria, e zona Centro e, mais recentemente, na Serra da Estrela. Até ao momento, através de financiamento exclusivamente privado de cerca de 2,3 milhões de euros, conseguimos apoiar as comunidades e intervir em áreas de minifúndio e de baldios, promovendo a plantação de espécies autóctones e a criação de mosaicos mais resilientes. O nosso foco é demonstrar no terreno, com credibilidade e monitorização contínua, que é possível fazer uma gestão diferente.
Como é feito o processo de recrutamento e contacto com os proprietários? Como conseguem convencê-los e entusiasmá-los a ceder os terrenos para estes projetos?
O nosso processo assenta inteiramente na proximidade e na ausência de falsas promessas. Nós não somos contra os proprietários; trabalhamos com eles e com as entidades locais, como as juntas de freguesia. O recrutamento é feito batendo às portas, conversando diretamente com as pessoas da terra e estabelecendo parcerias com quem conhece o território.
Para os entusiasmar, propomos um modelo claro: não há contrapartidas financeiras imediatas, mas nós assumimos a gestão, a preparação do terreno, a plantação e a manutenção sem custos para eles. Explicamos que, ao transformarmos áreas de mato ou eucaliptal abandonado numa floresta gerida e biodiversa, estamos a valorizar o património deles a médio e longo prazo. Mostramos que é uma estratégia séria. Além disso, envolvemos as equipas locais e as juntas de freguesia na distribuição de plantas e na organização dos trabalhos, o que gera uma enorme relação de confiança. As pessoas veem que nós aparecemos no terreno, que fazemos o que prometemos e que não desaparecemos no ano seguinte.
E resulta o acompanhamento desses terrenos ao longo dos anos ou o trabalho termina logo após a plantação?
Esse é o erro mais comum nas políticas públicas e em muitas iniciativas: plantar e ir embora. No GEOTA, nós defendemos que o trabalho contínuo e a escala são fundamentais. A mudança de 100 metros quadrados para 2 mil hectares exige um acompanhamento rigoroso. Se as equipas não voltarem ao terreno, um ou dois anos depois, para fazer a manutenção, controlar as espécies invasoras e garantir a sobrevivência das plantas, o investimento perde-se por completo.
Por exemplo, em Monchique, começámos em 2019 e continuamos lá a monitorizar e a gerir as áreas intervencionadas. Fazemos visitas regulares, avaliamos a taxa de sobrevivência das espécies e corrigimos o que for necessário. É este compromisso de permanência no terreno ao longo dos anos que dita o sucesso do projeto e que nos dá credibilidade junto dos proprietários e dos financiadores privados. Todos os anos temos como objetivo juntar novos proprietários ao projeto.
Qual é a sua perspetiva sobre o papel do eucalipto na floresta portuguesa? Devemos caminhar para o "eucalipto zero"?
Não se trata de ter "eucalipto zero". Existe uma indústria instalada, existem postos de trabalho e há uma base económica que tem de ser gerida. O problema é que o eucalipto tornou-se a espécie maioritária e única em vastas áreas, ocupando cerca de meio milhão de hectares. Promover ainda mais área de eucalipto é um erro crasso e uma estupidez. O eucalipto não deve ser plantado fora das suas condições ecológicas ideais, como em linhas de água ou zonas de declive acentuado. Além disso, a indústria da celulose devia assumir uma maior responsabilidade ambiental, reservando pelo menos 15% das suas áreas para conservação de espécies nativas e habitats naturais, algo que o Estado deveria fiscalizar e exigir com maior rigor.
Disse que a exploração florestal intensiva deixa um "passivo ambiental". Como é que esse problema deveria ser mitigado?
O mercado atual não incorpora o passivo ambiental da exploração florestal. Não se contabiliza a perda de solo, a degradação ecológica ou o impacto nos recursos hídricos após o corte. No meu entendimento, as empresas que exploram estas áreas deveriam ser obrigadas, por contrato, a garantir a reconversão e recuperação ecológica do terreno no fim do ciclo de exploração (que dura 30 a 40 anos). Não podemos permitir que as empresas retirem o lucro financeiro e deixem o passivo ambiental para o proprietário ou para o Estado resolver. É preciso conhecimento técnico e fiscalização para garantir que a responsabilidade não termina no momento do corte da madeira.
Como avalia a eficácia das políticas públicas e de instrumentos como as Áreas Integradas de Gestão da Paisagem (AIGP)?
Infelizmente, há um enorme desfasamento entre a legislação e a realidade do terreno. O processo das AIGP e outros instrumentos públicos são excessivamente burocráticos e lentos. Por exemplo, o primeiro Plano de Reordenamento e Gestão da Paisagem (PRGP) de Monchique, que foi pioneiro, demorou anos a avançar e, no terreno, quase nada aconteceu devido a esta entropia . Os financiamentos públicos são complexos e focam-se mais no cumprimento de aspcetos formais do que no impacto real e na monitorização da sobrevivência das plantas. É desesperante ver que, em termos de eficácia de instrumentos públicos, estamos pior hoje do que estávamos antes de 2017.
Portugal tem uma percentagem muito baixa de floresta pública em comparação com a média europeia. Isso dificulta a gestão?
Sem dúvida. A média de propriedade pública na Europa é entre os 20% a 30%, enquanto em Portugal o Estado detém apenas cerca de 2% do território florestal. Estamos num campeonato completamente diferente. Sem património público florestal significativo, o Estado perde capacidade de intervenção direta e de exemplo. Fica dependente da capacidade de regular e incentivar milhões de pequenos proprietários privados, o que, num contexto de minifúndio e envelhecimento, torna a gestão do território extremamente complexa e ineficaz.
Para além da gestão técnica, que papel desempenha a educação ambiental no futuro da nossa floresta?
Desempenha um papel absolutamente crucial. Nós fomos a uma escola e deparámo-nos com adolescentes que não sabiam identificar um sobreiro. É o equivalente a achar que o leite vem simplesmente do supermercado, sem compreender o processo que está por trás. Se as novas gerações não compreenderem o valor da floresta autóctone e a importância da biodiversidade, não conseguiremos mudar mentalidades a longo prazo. No GEOTA, nós não somos revolucionários nem extremistas; queremos colaborar, influenciar e mudar mentalidades passo a passo, demonstrando com trabalho sério no terreno que uma floresta diferente é possível.
À Margem
GEOTA: uma organização ao serviço do ambiente*
O GEOTA – Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente é uma Organização Não‑Governamental de Ambiente (ONGA) de âmbito nacional, com estatuto de Utilidade Pública. Constituiu-se legalmente em 1986, mas a sua existência enquanto grupo de reflexão e educação na área do ambiente remonta a 1981. A missão do GEOTA é promover o desenvolvimento sustentável e a conservação do património natural e cultural, mediante a capacitação de cidadãos para se tornarem agentes ativos de educação, intervenção e advocacia ambiental.
O GEOTA nasceu a partir de uma ideia fundamental: é indispensável considerar o Ambiente como um factor central de desenvolvimento. Não há desenvolvimento possível sem salvaguardar os recursos ambientais, tal como não é possível proteger o ambiente à revelia das aspirações dos cidadãos. Defendemos um conceito de Ambiente englobando não só a Natureza mas também a paisagem humanizada, os valores culturais, a qualidade de vida das pessoas e a gestão dos recursos naturais.
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O GEOTA defende uma filosofia "em rede" para o movimento associativo, onde seja privilegiada a total autonomia e especificidade de cada associação, em paralelo com a colaboração em projectos de interesse comum. Apostamos numa estrutura representativa com estatuto de parceiro social (Confederação, ao nível das confederações patronais e sindicais), mas recusamos qualquer forma de liderança dirigista do movimento.
*Informação retirada do sítio do GEOTA
O MIRANTE está a trabalhar num projecto editorial para identificar as consequências da eucaliptização no ambiente e no tecido socioeconómico de Portugal e da Galiza. O trabalho é apoiado pelo Journalismfund Europe e é realizado em parceria com o jornal digital Galiciapress. A Journalismfund Europe é uma organização sem fins lucrativos, com sede em Bruxelas, que procura fortalecer a democracia na Europa através do apoio ao jornalismo de investigação independente.


