"Um dos problemas na gestão da floresta portuguesa é que ignoramos quase tudo o que não conseguimos transformar diretamente em dinheiro"
A floresta portuguesa é frequentemente analisada apenas sob a ótica da produção de madeira, celulose ou cortiça. No entanto, o território esconde uma riqueza ecológica invisível para muitos, mas vital para a sobrevivência económica e social do país. Para compreender como a biodiversidade pode coexistir com a produção, o papel dos serviços de ecossistema e as soluções para o abandono do território, O MIRANTE conversou com Jael Palhas, investigador na Universidade de Coimbra e especialista em biodiversidade. Com um trabalho focado na ecologia, conservação e gestão do território, Jael estuda a coexistência entre as florestas de produção e os ecossistemas naturais. O investigador defende que a conservação da biodiversidade não deve ser remetida apenas para áreas protegidas, mas sim integrada ativamente em toda a floresta produtiva através de critérios técnicos e científicos, promovendo a valorização dos serviços de ecossistema como fonte de rendimento e sustentabilidade para os proprietários e para a sociedade.
Olhando para o panorama nacional, temos florestas com diferentes propósitos, desde a produção industrial de eucalipto e pinho até ao montado de sobro. Até que ponto esta floresta produtiva potencia ou destrói a biodiversidade?
Pode potenciar ou pode destruir, consoante se centra ou não nos critérios de gestão. O grande problema é que, sempre que não colocamos a biodiversidade nos critérios de planeamento, estamos a trabalhar às cegas.
Quando o trabalho é feito sem critério, o resultado é fruto do acaso: às vezes corre bem, outras vezes corre mal. Há situações em que, mesmo ao acaso, o resultado é benéfico. Temos, por exemplo, o caso de um proprietário florestal que, sem saber que tinha no seu terreno uma espécie raríssima, endémica e protegida por lei em Portugal, mobilizou o solo na época exata em que a planta estava com semente. De repente, gerou-se um eucaliptal com vários hectares cheios dessa planta raríssima. Mas isto foi sorte. Da vez seguinte, a mobilização pode ser feita noutra época, ou a máquina pode vir contaminada com espécies invasoras e ter o efeito exatamente oposto, destruindo tudo.
Hoje fala-se muito na "floresta de conservação" como o santuário da biodiversidade. Devemos focar os esforços de conservação apenas nestas áreas protegidas ou estendê-los à floresta de produção?
Devemos focar em todas elas. Se tivéssemos dois planetas — um para conservar e outro para produzir —, podíamos dar-nos ao luxo de separar as coisas. Mas não temos. O desafio atual não é ter uns a trabalhar apenas para conservar, outros só para produzir e outros para educar. Com o país e o território que temos, tudo tem de ser feito em simultâneo.
É verdade que há casos em que não há compatibilidade. Por exemplo, as florestas relíquia, como os carvalhais antiquíssimos que são uma coisa raríssima em Portugal, não são compatíveis com intervenções que causem dano. Mas temos muita floresta de produção onde a inclusão de critérios de conservação permite fazer produção, conservação, valorização dos recursos naturais, turismo e educação ao mesmo tempo.
Que vantagens práticas e económicas é que um produtor florestal pode ter ao introduzir esses critérios de conservação na sua propriedade?
Ao integrar estes critérios, o produtor abre portas para aceder a fundos de conservação, de educação ou de turismo. Pensemos num produtor que sofre um incêndio e perde o rendimento da produção de madeira daquele ano. Se ele tiver uma turfeira num canto do terreno a fixar carbono, se estiver a conservar espécies que controlam pragas agrícolas, ou se tiver flora ameaçada que resiste aos incêndios, pode obter rendimento através de outros produtos não florestais (que não a madeira ou a resina), seja por via do turismo e visitas, seja através de fundos públicos de conservação.
Esse conceito enquadra-se no que hoje chamamos de "serviços de ecossistema". Como é que devemos olhar para estes serviços que a floresta presta e que muitas vezes não são valorizados?
Um dos nossos grandes problemas na gestão da floresta é que ignoramos quase tudo o que não conseguimos transformar diretamente em dinheiro. Isso é o equivalente a olharmos para as divisões de uma casa e perguntarmos: qual é a divisão em que se põe comida na mesa? É a cozinha naturalmente. Então vamos acabar com a casa de banho, com o quarto e com a sala? Não, todas as divisões são essenciais porque resolvem problemas diferentes da vida.
A casa de banho não dá dinheiro, mas garante a salubridade de toda a casa. Não é lá que trabalhamos ou produzimos comida, mas é ela que garante que o resto funciona. Ninguém constrói prédios de escritórios sem casas de banho porque sabemos que elas são essenciais para o trabalho que dá dinheiro.
No território é exatamente igual. Há paisagens, habitats, espécies e estruturas que podem não ser transformados diretamente em dinheiro, mas são essenciais para o ecossistema funcionar: para termos água limpa, para garantir o ciclo de nutrientes, ou para evitar a erosão e as derrocadas. Se estes terrenos são privados e prestam um serviço que é um bem público, a sua manutenção tem de ser financiada por dinheiro público. A solução passa por proteger certas áreas — como as zonas de captação de água dos aquíferos essenciais para as cidades e as áreas de infiltração que alimentam as nascentes — ou compensar economicamente os proprietários para que continuem a manter uma gestão que é útil para a sociedade, mesmo que não seja rentável apenas pelos produtos físicos.
O abandono da floresta e do espaço rural é um dos maiores problemas do país. As iniciativas políticas recentes têm sido suficientes para inverter este cenário?
O nosso país tem uma assimetria muito grande do ponto de vista geológico, populacional e económico. Não podemos ter uma solução única para o país todo; diferentes regiões exigem soluções diferentes.
Há regiões com muita população e que ainda assim têm abandono. E há regiões onde o abandono ocorre simplesmente porque já não há população, e aí não haverá limpeza porque não há quem a faça. Nestas zonas mais desabitadas, onde há menos espécies invasoras e os ecossistemas estão mais bem conservados, o caminho pode passar pela renaturalização. Isto implica deixar a natureza recuperar e, eventualmente, reintroduzir herbívoros selvagens para fazerem o controlo natural do mato.
Claro que isto é incompatível com áreas de floresta de produção intensiva ou de agricultura, onde os herbívoros atacariam as culturas. Cada região tem de ser avaliada individualmente, envolvendo as populações locais e aquelas que se queiram fixar.
Como avalia a situação específica da região onde nos encontramos (zona Centro do país) no que toca à biodiversidade e aos desafios de gestão?
É uma região de extremos. Por um lado, é uma das zonas do país onde historicamente se extinguiram mais espécies, mas, por outro, é também das regiões onde se têm redescoberto mais espécies que se julgavam desaparecidas. Ao mesmo tempo, enfrentamos um desafio gigante com a proliferação de espécies invasoras.
Para resolver o abandono basta criar pequenos incentivos à fixação de nova população ou oferecer apoio que não seja apenas financeiro, mas de organização. É preciso dar apoio técnico e de gestão para que as pessoas que herdaram ou têm floresta, mas não sabem o que fazer com ela, tenham entidades ou organizações que lhes façam a gestão do terreno. Já vemos algumas organizações a fazer este trabalho de cooperação no terreno e, apesar dos grandes desafios, há uma tendência de melhoria. Acredito que essa recuperação é perfeitamente possível.
O MIRANTE está a trabalhar num projecto editorial para identificar as consequências da eucaliptização no ambiente e no tecido socioeconómico de Portugal e da Galiza. O trabalho é apoiado pelo Journalismfund Europe e é realizado em parceria com o jornal digital Galiciapress. A Journalismfund Europe é uma organização sem fins lucrativos, com sede em Bruxelas, que procura fortalecer a democracia na Europa através do apoio ao jornalismo de investigação independente.


