Entrevista | 25-08-2026 18:00

Mariana Nunes: entre a Medicina, a inclusão e a vontade de viver

Mariana Nunes: entre a Medicina, a inclusão e a vontade de viver
Mariana Nunes é treinadora de Natação Adaptada no Alhandra Sporting Club - foto O MIRANTE

Mariana Nunes sabe o significado de lutar pelo que se quer conquistar. Vive em Alverca do Ribatejo, estuda Medicina em Lisboa, é treinadora de natação adaptada do Alhandra Sporting Club e é embaixadora da Juventude do município de Vila Franca de Xira. Perdeu a mãe aos 14 anos, enfrentou um diagnóstico de linfoma durante o ensino secundário e, enquanto fazia tratamentos, continuou a estudar e até foi das melhores alunas da escola. Na piscina, a treinar atletas com deficiência, encontrou uma missão e uma segunda família.

Quando sentirem que a luz ao fundo do túnel está a desaparecer, agarrem-se com todas as forças e resiliência e sigam a vossa caminhada, confiando na vida. A mensagem é de Mariana Nunes, embaixadora da juventude do município de Vila Franca de Xira. Aos 19 anos, a jovem de Alverca do Ribatejo é uma das treinadoras da equipa de natação adaptada do Alhandra Sporting Club (ASC) e prepara-se para entrar no terceiro ano de Medicina na Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa. Tem uma vida preenchida, dividida entre os livros, a piscina municipal de Vila Franca de Xira e os atletas que, diz, acabaram por se transformar na sua segunda família. Desde pequena que brincava aos médicos e nunca perdeu de vista esse objectivo de vida. A ideia de cuidar dos outros acabaria, anos mais tarde, por ganhar uma dimensão muito concreta. A mãe era farmacêutica e o universo da saúde não lhe era completamente estranho. Sonha vir a seguir a especialidade de pediatria.
Perdeu a mãe quando tinha 14 anos e mais tarde, no início do 11.º ano, recebeu o diagnóstico de um linfoma. Seguiu-se um período de tratamentos de quimioterapia, vigilância e incerteza, vivido numa fase em que muitos jovens estão a preparar os primeiros grandes passos da vida adulta. Mas durante o tratamento manteve o foco nos estudos. Havia um objectivo que continuava presente: entrar em Medicina. Mesmo durante o tratamento conseguiu ser a melhor aluna do secundário, concluindo o percurso escolar e preparando o acesso à universidade enquanto ainda enfrentava a doença. Em 2024 conseguiu concretizar o objectivo e está, ao dia de hoje, curada. “Quando nós nos deparamos com a situação, acho que é a própria vida que nos força a reagir”, revela a O MIRANTE.

“Ver a pessoa e não a deficiência”
A entrada de Mariana Nunes no mundo da natação adaptada aconteceu quase por acaso. Quando frequentava a Escola Secundária Gago Coutinho, teve Susana Ferreira como professora de Educação Física. Foi ela quem lhe contou que dava aulas de natação adaptada no Alhandra Sporting Club. A informação despertou-lhe a curiosidade. “Foi aí que pedi para ir assistir a um treino e acabei por me juntar à equipa”, conta. Em Fevereiro de 2024 a Associação de Natação de Lisboa abriu vagas para um curso de treinadores de natação de Grau 1 e Mariana Nunes avançou. Hoje integra a equipa técnica da natação adaptada do Alhandra Sporting Club juntamente com Susana Ferreira e Marco Duarte.
Tem a seu cargo 20 atletas em competição e mais de 40 nos grupos de formação. Na última época a equipa feminina sagrou-se vice-campeã nacional. Para a próxima época o objectivo é conseguir melhorar a prestação em femininos e masculinos. “Mais do que simplesmente a parte competitiva da natação, tentamos trabalhar a aquisição das competências essenciais ao dia-a-dia, visando a autonomia”, conta. Tratando-se de atletas com algum tipo de deficiência, a competição pode representar uma experiência de vida inédita. “São competências que não aparecem nos resultados oficiais mas fazem a diferença”, explica.
Mariana Nunes acredita que o primeiro passo é não deixar que a deficiência seja aquilo que define a pessoa. “É vermos a pessoa como uma pessoa, como qualquer outra, e não a deficiência. A deficiência não deve ser o nosso foco”, conta. A treinadora não gosta de comparar directamente atletas com e sem deficiência, mas não tem dúvidas de que os atletas com deficiência enfrentam maiores barreiras. E nem sempre estão dentro de água. É também por isso que Mariana Nunes considera a natação adaptada tão importante para a autoestima. Para alguns atletas é o primeiro espaço onde sentem verdadeiramente que pertencem.
Não acredita que exista um único percurso certo. “Passa por cada um perceber aquilo que gosta verdadeiramente”, explica. Para uns será o desporto. Para outros, a música, a arte ou qualquer outra área. “Depois é terem alguma determinação, alguma força de vontade. Somos uma geração muito diferente das anteriores, como todas o são. Não há gerações iguais, mas acredito que temos potencial para levar o país e a região para a frente”, conclui.

Medicina e o futuro da saúde

Mariana Nunes está agora a entrar no terceiro ano do curso e começa também a olhar para a realidade da profissão que escolheu. Não tem ilusões sobre o mercado de trabalho. “O emprego será certo, não sabemos é se com as devidas condições que os médicos merecem”, nota. Na sua perspectiva, o problema da saúde em Portugal não passa simplesmente pela falta de médicos. O problema, acredita, está em conseguir mantê-los no país. “Não sabemos agarrá-los cá. Nem oferecer aquilo que seria justo”, nota.

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