Entrevista | 31-08-2026 15:00

Madalena Isidro: “Não sou presidente de faz-de-conta, estou aqui para exigir por Vale do Paraíso”

Madalena Isidro: “Não sou presidente de faz-de-conta, estou aqui para exigir por Vale do Paraíso”
Madalena Isidro, funcionária da Câmara de Azambuja há cerca de 30 anos, é a primeira mulher a assumir a presidência da Junta de Freguesia de Vale do Paraíso - foto O MIRANTE

Primeira mulher a presidir à Junta de Freguesia de Vale do Paraíso, Madalena Isidro assume o mandato com a ideia de que este primeiro ano é sobretudo de planeamento e preparação. Funcionária na Câmara de Azambuja há 30 anos, assegura que não hesitará em confrontar o município quando estiverem em causa os interesses da freguesia.

Madalena Isidro nasceu a 4 de Julho de 1972 e cresceu em Vale do Paraíso, numa família profundamente ligada à vida da terra. Fala da infância com emoção e de um sentimento de pertença que diz ter recebido em casa. O pai, fundador do rancho folclórico, envolveu-a desde cedo nas tradições locais, nas colectividades e na vida comunitária. Passou pelo rancho, pela banda e cresceu rodeada de histórias, costumes e memórias que hoje quer recuperar e transmitir às novas gerações. A política apareceu ainda na adolescência, quando começou a aproximar-se da Juventude Socialista, mas Madalena Isidro insiste em separar a militância partidária da forma como vê o cargo. Diz que não vive da política, mas “para a política”, no sentido de ajudar e encontrar soluções. Depois de vários anos ligada aos órgãos autárquicos e de um período de afastamento da vida política, acabou por aceitar encabeçar a candidatura à junta, tornando-se assim na primeira mulher a assumir a presidência daquela freguesia.
Define-se como próxima, emotiva, mas determinada. Dá o número pessoal aos fregueses, atende chamadas fora de horas e diz que prefere saber dos problemas antes de estes se transformarem em situações mais graves. Ao mesmo tempo, reconhece que a exposição pública e a crítica, sobretudo nas redes sociais, são uma aprendizagem.

Ganhou a junta com 37,87% dos votos. Como governa uma freguesia politicamente dividida entre PS, PSD e CDU?
Não vejo os meus colegas como adversários. São pessoas de bem e todos querem o melhor para Vale do Paraíso. Tenho procurado trabalhar com todos, passar informação e manter um espírito cooperativo. Até agora não tenho tido dificuldades nas deliberações nem precisei de entrar em negociações mais duras. Espero que continue assim.
O que existe hoje que os fregueses não encontravam antes da sua presidência?
A proximidade não é uma estratégia que tenha inventado agora. Sempre fui próxima das pessoas, desde criança. As pessoas já me procuravam antes de ser presidente da junta, sempre gostei de ajudar. Quanto à transparência, falo por mim: quero que tudo seja claro e que os órgãos tenham conhecimento das decisões. Mesmo quando tenho poderes para decidir, há matérias que prefiro levar à assembleia. Não tenho nada a esconder.
A nova escola é um dos dossiers que mais se arrastam. Em que ponto está?
Havia uma candidatura que teve de ser reformulada e ajustada. Foi aprovada e a obra vai avançar. É um processo complexo, porque envolve várias entidades e os custos mudaram muito com o tempo, mas a escola tem de ser feita. Além de ser um edifício antigo, há problemas de acessos e precisamos de pensar o futuro da freguesia e das famílias.
Se até ao final de 2026 a obra não tiver começado, considera isso um fracasso político?
Não considero um fracasso, porque já houve muito trabalho feito neste período, mas espero que até Novembro haja uma resposta concreta e que alguma coisa comece. Acredito que a obra vai chegar a bom porto.
É presidente da junta e, ao mesmo tempo, funcionária da Câmara de Azambuja há cerca de 30 anos. Percebe que os cidadãos possam questionar se consegue confrontar livremente a sua entidade empregadora?
Percebo, mas consigo. Faço tudo com provas, tudo escrito, e tenho a consciência tranquila. Não faria sentido estar aqui e não defender a freguesia. Não sou presidente de faz-de-conta. Tenho valores e não vou perder a minha dignidade por causa de um cargo. Se tiver de questionar o executivo, questiono, se tiver de exigir, exijo.
Não teme ser prejudicada profissionalmente por confrontar a câmara?
Não. Sempre fui profissional e vou continuar a sê-lo. Quero ser boa profissional e boa presidente de junta. E uma coisa não impede a outra.
A questão de uma eventual incompatibilidade por ser presidente da junta e funcionária da Câmara de Azambuja chegou a ser abordada na Assembleia Municipal e levada ao Ministério Público. Alguma vez foi contactada no âmbito desse processo?
Até à data nunca fui contactada. Não posso dizer que o assunto esteja encerrado, porque não sei, mas estou tranquila.
Que matérias tem levado com mais insistência à câmara?
As estradas são uma das grandes preocupações. Poucos dias depois de assumir funções enviei um levantamento com as vias que precisavam de intervenção. Há situações como a da estrada na zona do Casal da Fonte, que ficou interditada e precisa de obra, e há outras estradas onde não quero soluções de remendo.
Tem dito que este está a ser um “ano zero”. Porquê?
Porque tive de organizar, planear e montar uma equipa praticamente de raiz, ao mesmo tempo que apareceram várias situações imprevistas. Houve problemas operacionais, falta de pessoal e as intempéries exigiram muito de nós. Isso não significa que as coisas tenham estado paradas. Muito trabalho de uma junta faz-se nos bastidores e nem sempre é visível.

Escola, habitação e espaço público entre as prioridades

Há falta de habitação acessível para jovens em Vale do Paraíso?
Há. Não há oferta suficiente e temos casas devolutas que precisam de reabilitação. Quero também lutar por terrenos municipais onde possam surgir soluções de habitação a custos controlados. A câmara municipal tem um terreno onde podem vir a ser construídas cerca de 40 casas.
Falou num potencial de cerca de 40 fogos. É uma meta concreta?
É uma estimativa para a área de que estamos a falar, junto à nova escola. Quero trabalhar essa possibilidade com a Câmara de Azambuja. Vale do Paraíso está muito condicionado em termos de expansão urbana e o PDM também é uma questão importante. Quem conhece o território tem de ser ouvido.
Se tivesse 500 mil euros para investir directamente na freguesia, onde colocava o dinheiro?
No reordenamento do espaço urbano e no estacionamento. Faz muita falta criar lugares, melhorar a malha urbana e dar mais qualidade de vida. Gostava também de tornar Vale do Paraíso mais atractivo para quem queira investir e criar negócio. Já tivemos muito mais comércio e serviços e perdemos quase tudo.
O orçamento da junta permite fazer grandes investimentos?
Não. Dá para a gestão corrente, para pequenas obras e manutenção. Para investimentos maiores temos de trabalhar com o município. E vou exigir que Vale do Paraíso também tenha investimento. Durante muitos anos foram feitas poucas obras estruturantes e acho que chegou a vez desta freguesia.
Defende mais autonomia financeira para as juntas de freguesia?
Sim. Somos o elo mais próximo das pessoas, mas muitas vezes não temos meios financeiros nem humanos para resolver directamente os problemas. Com mais autonomia seria possível reduzir burocracia e responder mais depressa, sempre com fiscalização e transparência.
Outro problema que tem denunciado são os contentores instalados ilegalmente na freguesia. Em que fase está o processo?
Não se trata de quem lá está, trata-se de uma situação urbanisticamente ilegal e que tem de ser resolvida. Tenho insistido com o município e quero uma solução. Não faz sentido exigir regras a uns e aceitar uma situação destas noutro local.
A saúde também é uma preocupação?
É. Gostava que Vale do Paraíso tivesse melhores respostas e continuo a defender que temos de ser ambiciosos. Há pessoas com dificuldades de acesso a especialidades, sobretudo ao nível de saúde mental, e também temos de acompanhar a questão dos médicos de família.
O que quer deixar feito até ao fim do mandato?
Quero melhorar a qualidade de vida e o espaço público, avançar com os projectos que estão planeados, recuperar tradições e criar mais ligação entre jovens e seniores. Quero retomar iniciativas culturais, valorizar a história de Vale do Paraíso, dar mais força às comemorações da freguesia e recuperar manifestações como as marchas populares e uma feira medieval com maior envolvimento da comunidade. Também quero criar projectos em que os jovens aprendam ofícios e possam ajudar idosos e famílias com pequenas reparações.

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