Entrevista | 07-09-2026 10:00

“Novo acordo ortográfico é uma humilhação monstruosa e ilegal”

“Novo acordo ortográfico é uma humilhação monstruosa e ilegal”
Octávio Pato dos Santos é um rosto conhecido do Sobralinho - foto O MIRANTE

Octávio Pato dos Santos fez um percurso pelos principais órgãos de comunicação nacional do país e publicou várias obras, a última reunindo os principais discursos de Abraham Lincoln. Nesta conversa com O MIRANTE fala do estado do jornalismo, da inteligência artificial, da imprensa regional, de história e de Alverca e do Sobralinho, terras que lhe dizem muito.

Octávio Pato dos Santos, jornalista e escritor do Sobralinho, é um homem numa missão: lutar contra o novo acordo ortográfico e sensibilizar a comunidade para o quão prejudicial é para a cultura portuguesa e o futuro da nossa escrita. “Não estou sozinho nesta guerra contra o acordo ortográfico, é uma opressão monstruosa e ilegal e é isso que me espanta mais, o facto de estar há muito a destruir a cultura deste país e ninguém parecer importar-se com isso”, lamenta a O MIRANTE.
O novo acordo, considera, impôs uma aceitação passiva de uma mudança que, na sua óptica, não trouxe os benefícios prometidos. “Cedemos ao sonho de captar mais leitores no Brasil mas isso não resultou. Foi uma quimera que nos venderam”, defende. Para o jornalista, as diferenças entre o português europeu e o do Brasil não se resumem à ortografia. “É sobretudo sintaxe. Em questões de vocabulário somos muito diferentes. Odeio este novo acordo”, critica, elogiando O MIRANTE por ter sido dos jornais que, desde o primeiro momento, recusou adoptar a nova grafia. “Uma das coisas porque gosto tanto de O MIRANTE é precisamente o facto de sempre se ter rebelado contra o novo acordo e ter defendido a antiga grafia. Foi um acto de coragem”, elogia.
A defesa da língua está directamente ligada à forma como encara o jornalismo. “Um jornalista que não gosta de ler e escrever não se pode intitular jornalista. Até pode, só que convém gostar de ler e de escrever, e bem”, avisa. Antes de ser jornalista profissional, já colaborava com o extinto Notícias da Alverca. Estudou Sociologia e Sociologia da Comunicação. O objectivo inicial passava pela publicidade, área de que continua a gostar, mas a oportunidade acabaria por surgir no jornalismo.
Nos anos 90 acompanhou os primeiros passos da Internet em Portugal e o debate sobre a sociedade da informação. Recorda o papel de José Mariano Gago, que considera ter sido “o homem certo, no lugar certo, no momento certo”.

Ser jornalista não é ser santo
Sobre os desafios da inteligência artificial, defende que a tecnologia é indispensável, mas o conteúdo será sempre o mais importante e por isso o jornalismo tem futuro. “Há que haver um filtro, uma consciência ética, deontológica. É preciso ir fisicamente ao terreno falar com as fontes, ver o que aconteceu. Isso tem sempre de ser um humano a fazer”, refere. A inteligência artificial até pode facilitar tarefas e alterar métodos de trabalho, mas não elimina a responsabilidade de quem produz e publica informação, defende. E rejeita a ideia de que os jornalistas estejam acima da crítica.
“Não somos santos nem anjos. Como qualquer outro profissional, temos de aceitar as críticas e reconhecer os erros. Temos de saber ter pele grossa, receber as críticas e estar atento a elas”, defende, considerando que apesar do direito de ter uma orientação política definida, isso não lhe dá o direito de deturpar o que outros digam. O problema surge quando a balança deixa de estar equilibrada. “O que vejo nas televisões portuguesas é essa balança pender incrivelmente e descaradamente para um determinado sentido contra determinados protagonistas nacionais e internacionais”, avisa.
A velocidade é, para ele, outro dos grandes problemas do jornalismo actual. A pressão para dar uma notícia antes dos outros pode levar à publicação de informação não confirmada. “É sempre melhor estar certo do que ser primeiro”, afirma.
Para o jornalista é “um privilégio” viver num concelho que tem dois jornais regionais, num país onde há vários concelhos sem um único meio de comunicação a funcionar. “É fundamental jornalismo de proximidade e numa comunidade. O MIRANTE faz isso muito bem. As redacções de Lisboa deviam olhar mais para estes exemplos e para os territórios para verem como fazem os jornais regionais”, nota. Apesar do futuro parecer estar no digital, Octávio Santos acredita que as empresas de comunicação vão resistir às mudanças que vão chegar. “A morte do papel, se acontecer, não mata o jornalismo”, garante.

Alverca a sua terra de sempre
Octávio Santos é um apaixonado por Alverca e pelo Sobralinho, terra onde reside e que diz ser um bom sítio para viver. Considera que Alverca, como o resto do concelho, tornou-se mais dormitório do que era há uns anos, embora reconheça o dinamismo industrial, comercial e logístico do concelho de Vila Franca de Xira. “Esta terra tem dinamismo e boas pessoas. Esta diversidade é uma das grandes forças do nosso concelho”, defende.
A duplicação da Linha do Norte e os impactos que provocará são outra das suas preocupações. “Estou aterrorizado com o que vão fazer. É mesmo preciso uma linha de alta velocidade num país tão pequeno? Devíamos ter estudado outras soluções”, critica. Quando lhe perguntam como gostaria de ser lembrado, a resposta é simples: “Como alguém que tentou dar o seu melhor e, muitas vezes, não tinha todos os meios de que precisava e merecia para o poder fazer, mas tentou. Na vida, se não lutarmos pelo que queremos, nunca atingimos nada”, declara.

Jornalismo, história e literatura

Octávio Santos nasceu em Lisboa a 16 de Abril de 1965 mas desde cedo viveu com os pais em Alverca. É jornalista e a sua carreira começou no Notícias de Alverca em 1985. Integrou as redacções das revistas TV Mais, África Hoje, Cyber.Net, Interface e Comunicações, e foi galardoado por quatro vezes (três primeiros lugares e uma menção honrosa) com o Prémio de Jornalismo Sociedade da Informação. Também colaborou, entre outros jornais e revistas, com A Capital, Blitz, Diário de Notícias, Diário Digital, Diário Económico, Expresso, Folha Nacional, Fórum Estudante, Glosas, Nova Águia, O Diabo, Público, Seara Nova, Semanário, Tempo Livre, Vértice e Vida Ribatejana. Literariamente estreou-se com «Visões» (2003), livro inserido na colecção Bibliotheca Phantastica, dirigida pelo cineasta António de Macedo.
Em 2004 iniciou um projecto para a recriação virtual, em computação gráfica, do Teatro Real do Paço da Ribeira - a Ópera do Tejo. Concebeu e co-organizou colóquios e congressos dedicados a Afonso de Albuquerque, Francisco de Holanda, Francisco Manuel de Mello, Luís António Verney, Eça de Queiroz e Fialho de Almeida, quase todos realizados na Biblioteca Nacional de Portugal - instituição de que foi mecenas quando participou, também em 2004, na campanha «Salve um Livro» com o financiamento do restauro de um exemplar de 1769 de «O Uruguai», obra de José Basílio da Gama, que é uma das fundadoras da literatura brasileira.
Teve como maior mentor Agostinho da Silva, de cuja casa foi visita assídua na segunda metade da década de 80. Actualmente trabalha em regime de freelancer. Recentemente foi distinguido com o galardão de mérito cultural do Sobralinho.

250 anos da América

O seu livro mais recente reúne discursos de Abraham Lincoln e surgiu da conjugação entre uma efeméride, o interesse pela história americana e o desejo de fazer algo que ainda não tivesse sido feito em português. Apresentado a 3 de Julho, na véspera do Dia da Independência dos Estados Unidos, o livro reúne discursos e outros textos de Lincoln.

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