Perpétua Martins fez do Museu de Benavente uma paixão de 45 anos
O Museu Municipal foi muito mais do que um local de trabalho para Perpétua Martins. Foi uma paixão, uma escola e o ponto de encontro com centenas de pessoas que lhe abriram portas, baús e recordações. A antiga funcionária da Câmara de Benavente, agora aposentada, foi uma das nove mulheres escolhidas para a homenagem promovida no Palácio do Infantado, em Samora Correia, no âmbito do Dia Internacional da Mulher.
“Eu saí do museu, mas o museu não sai de mim”. A frase de Perpétua Martins resume uma relação que atravessou praticamente toda a sua vida. Aos 67 anos, aposentada desde Outubro de 2025, olha para trás e encontra 45 anos de trabalho ligados ao Museu Municipal de Benavente e à área cultural da câmara. Um percurso feito a ouvir, recolher, preservar e devolver à comunidade as histórias de um concelho que continua a querer descobrir.
Foi esse trabalho que esteve na origem da homenagem que, no âmbito das comemorações do Dia Internacional da Mulher, colocou o seu rosto numa das janelas do Palácio do Infantado, em Samora Correia, juntamente com outras mulheres distinguidas pelo contributo dado à comunidade e que foram entrevistadas por O MIRANTE. O reconhecimento sensibilizou-a, embora faça questão de repartir os méritos. “Esse valor nunca é de uma pessoa sozinha, é de uma equipa, é de um grupo”, sublinha. Trabalhar na cultura, acrescenta, nunca significou cumprir simplesmente um horário. Houve dias de oito horas e outros de 12 ou 14, porque a criatividade, a disponibilidade e a paixão faziam parte da profissão.
Natural de Benavente e filha de trabalhadores rurais, Perpétua Martins cresceu num meio onde as histórias da terra estavam sempre por perto. O pai era campino e a mãe trabalhava no campo. Era a mais nova de seis irmãos e, consequentemente, foi quem encontrou melhores condições para estudar. Enquanto os irmãos ficaram pela quarta classe, Perpétua pôde continuar os estudos e encontrou cedo na leitura uma porta para outros mundos.
A carrinha da Fundação Gulbenkian ajudou a alimentar essa curiosidade. Ia buscar livros todas as semanas e leu desde muito nova, incluindo biografias e obras ligadas à vida ribatejana. Mais tarde, um professor de História, o professor Rovisco, reforçou-lhe o interesse ao pôr os alunos “à descoberta da história de Benavente”. Quando o Museu Municipal abriu, em Junho de 1980, a escolha tornou-se quase inevitável. Perpétua Martins tinha terminado os estudos e, depois de passar as férias a trabalhar na fábrica do tomate para ganhar dinheiro para a escola, foi procurar António José Ganhão, então presidente da Câmara de Benavente e seu antigo professor. Propôs-lhe trabalhar no museu, o que significava ficar em Benavente como era sua vontade.
Começou por fazer algumas horas durante uma exposição de Arqueologia, Arte e Pesca no Vale do Tejo. Depois continuou em regime de voluntariado e, no ano seguinte, entrou para os quadros da autarquia. Nunca mais deixou o museu. A paixão pela história local já vinha, contudo, de trás. Perpétua recorda Joaquim Parracho, que durante a vida recolheu peças e viria a doar ao museu o seu espólio. Ainda na escola primária, lembra-se de subir com colegas ao sótão do mercado, onde Joaquim Parracho guardava a colecção. O contacto posterior com o espólio e com o próprio coleccionador seria determinante no seu percurso.
Também a equipa que chegou para dar apoio cultural aos concelhos de Benavente, Salvaterra de Magos e Coruche contribuiu para a sua formação. O museu foi-se tornando casa. “A maior parte da minha vida foi passada no museu”, reconhece. E acrescenta que só consegue imaginar alguém a trabalhar num espaço daqueles por paixão. “As outras coisas aprendem-se. Mas o museu, temos de querer. Temos de gostar”.
Querer saber mais significava, muitas vezes, sair do edifício e procurar as histórias onde elas ainda viviam. Casas particulares, conversas demoradas e testemunhos de pessoas mais velhas tornaram-se parte essencial do trabalho. Perpétua Martins considera que a comunidade de Benavente esteve sempre disponível para colaborar e atribui também ao senhor Parracho a criação de um hábito de doação de objectos ao museu. “As pessoas têm muito orgulho no museu delas, no espaço delas, porque são as memórias delas, são as tradições delas”, afirma.
O fascínio pelo terramoto de Benavente
Entre tantas histórias recolhidas, há uma que continua a exercer sobre si um fascínio especial: o terramoto de Benavente. Apesar de representar um episódio triste da história do concelho, considera que permanece no imaginário colectivo. O estudo desse acontecimento permitiu também compreender melhor algumas manifestações religiosas locais, entre elas o crescimento da devoção a Nossa Senhora da Paz depois de a imagem ter permanecido intacta, enquanto Nossa Senhora da Graça, que era a padroeira ligada à igreja matriz, ficou mais esquecida pela população.
Nos trabalhos de recolha, uma das pessoas que mais a marcou foi Bárbara Parracho, sobrevivente do terramoto. Perpétua Martins recorda as histórias que lhe contou e, sobretudo, aquilo que os seus olhos transmitiam enquanto recuperava memórias de um fenómeno vivido na primeira pessoa.
É por isso que, para Perpétua Martins, um objecto isolado pouco diz. Uma peça agrícola pode parecer apenas ferro ou madeira até alguém explicar quem a usou e em que circunstâncias. Dá como exemplo uma grade utilizada para desterroar a terra depois de lavrada. Era também junto dela que muitas crianças, com sete ou oito anos, começavam a trabalhar no campo, descalças, partindo os terrões que ficavam por desfazer. “A peça só por si não tem valor. O que tem valor é o que está associado a essa peça”, resume.
Preservar essa ligação entre objectos e pessoas tornou-se uma das missões do museu. Outra foi passar o testemunho aos mais novos. O serviço educativo levou crianças ao Núcleo Museológico Agrícola, percorreu a vila com alunos, falou-lhes do traje tradicional e da história local e chegou também às próprias escolas. Perpétua Martins reconhece que é inevitável perderem-se algumas memórias com o tempo, mas acredita que este contacto deixa sementes.
A mesma lógica leva-a a rejeitar fronteiras dentro do município quando fala da identidade local. “Estamos sempre a falar do concelho de Benavente”, frisa. Embora existam tradições, vivências e particularidades diferentes, considera que o território deve ser entendido como um todo. E das pessoas guarda sobretudo a disponibilidade para colaborar quando sentem que são ouvidas e valorizadas.
Obras vão tornar museu mais atractivo
O Museu Municipal de Benavente prepara-se para regressar depois de uma profunda intervenção no edifício. Perpétua Martins, que ainda acompanhou parte desse processo enquanto estava ao serviço, acredita que as novas instalações vão permitir apresentar o espólio com outras condições, tanto para exposições como para o trabalho dos funcionários e do serviço educativo. O antigo espaço tinha começado por ser uma casa de habitação e passou também por pensionato, não tendo sido concebido originalmente para funções museológicas.
Agora, espera encontrar um museu mais atractivo, preparado para dar às peças outra capacidade de contar histórias. E garante que o momento da reabertura será vivido com orgulho, embora volte a afastar a ideia de uma obra individual. “O trabalho nunca é só de uma pessoa. O trabalho é de uma equipa”, vinca.
Escrever as memórias para que o passado não fique esquecido
Depois de uma vida profissional dedicada a preservar as memórias dos outros, Perpétua Martins está agora também a escrever as suas. A aposentação trouxe mais tempo para a família, os amigos, as caminhadas e a escrita, mas não afastou a curiosidade que a acompanhou desde criança. Continua a reunir memórias e histórias de Benavente porque acredita que aquilo que não é transmitido corre o risco de desaparecer.
É também essa mensagem que deixa aos mais novos. Podem e devem olhar para a evolução e para o futuro, mas sem perder a ligação àquilo que aconteceu antes. “Têm que entender sempre o passado deles e o passado deste território”. Quando lhe perguntam como gostaria de ver recordado o seu contributo, depois de 45 anos entre peças, documentos, exposições e histórias, Perpétua Martins reduz tudo a poucas palavras: “uma pessoa que sempre valorizou e gostou muito da sua terra, do seu concelho”.


