Valter Silva é psicólogo escolar: “Às vezes não é preciso mais nada além de sentir e ouvir os miúdos”
O psicólogo Valter Silva alerta para as dificuldades de autorregulação emocional dos jovens e para a falta de supervisão parental. Afirma que a sinalização dos problemas melhorou, mas que as escolas continuam a ter dificuldade em acompanhar cada aluno.
O motivo que leva um aluno ao gabinete do psicólogo nem sempre revela o verdadeiro problema. Valter Silva, que durante 15 anos trabalhou no Agrupamento de Escolas Alexandre Herculano, em Santarém, chegou a acompanhar cerca de 50 crianças por semana. Em conversa com O MIRANTE, no âmbito do Dia Nacional do Psicólogo, fala sobre os desafios de acompanhar crianças e adolescentes e aponta a falta de autorregulação emocional como uma das principais preocupações actuais nos jovens.
Licenciado em Psicologia e especialista em áreas como Psicologia Clínica e da Saúde, da Educação e Vocacional, Valter Silva, de 48 anos, passou por várias escolas e assistiu a uma mudança na realidade encontrada. Se antes lhe chegavam casos graves já avançados, hoje considera que a sinalização precoce funciona melhor, graças ao trabalho conjunto de psicólogos, professores e assistentes operacionais. “O radar agora está mais apurado”, afirma, destacando uma intervenção preventiva cada vez mais precoce, desde o pré-escolar.
Apesar de também haver uma melhoria no rácio, chegou a acompanhar cerca de dois mil alunos no Agrupamento de Escolas Alexandre Herculano e continua a defender a necessidade de mais psicólogos nas escolas. O reforço anunciado pelo Governo para este ano lectivo prevê 1.406 lugares para técnicos especializados, 758 dos quais para psicólogos, fazendo baixar o rácio dos psicólogos de um por cada 1.656 alunos para um por cada 796. Contudo, o psicólogo considera que é preciso fazer mais, dizendo que o próximo objectivo da Ordem dos Psicólogos Portugueses é descer o número para 400 alunos por psicólogo. Além disso, considera particularmente importante que a intervenção não se limite ao gabinete, explicando que o papel de um psicólogo não é só acompanhar os alunos, mas também realizar programas psicoeducativos dentro das salas de aula, trabalhando temas como bullying, emoções ou exclusão.
O problema real por detrás dos sintomas
A maioria dos alunos não chega espontaneamente ao seu gabinete. São sobretudo os directores de turma e os pais que os reencaminham, ao observarem alterações de comportamento ou dificuldades em aprendizagem. Quando procuram ajuda por iniciativa própria, os motivos podem variar entre a morte de um animal de estimação, um conflito familiar ou uma preocupação que não conseguem partilhar com ninguém. Mas, segundo Valter Silva, aquilo que é visível é por vezes apenas um sintoma do “real problema, mascarado”. O psicólogo dá como exemplo uma criança com dúvidas relacionadas com a sua identidade de género que pode ser encaminhada simplesmente por apresentar sinais de depressão, quando a origem do sofrimento está no receio de não ser compreendida pela família.
As dificuldades de autorregulação emocional são algumas das situações mais frequentes, que podem estar relacionadas com conflitos familiares, perdas ou situações que obrigam crianças a crescer demasiado depressa sem terem ainda ferramentas emocionais para lidar com isso. Além disso, Valter Silva diz ter notado um crescimento em particular da ansiedade depois do período de isolamento da pandemia, que originou dificuldades acrescidas em as crianças lidarem com a frustração. “A ansiedade é algo que faz parte da vida, mas o problema surge quando provoca sofrimento ou interfere no funcionamento da criança. Aí é essencial perceber os gatilhos que estão por trás dela”, diz.
Outra preocupação é a falta de “supervisão parental”, salientando que se vive actualmente num ritmo acelerado e que, apesar de existir uma grande preocupação dos pais em garantir bens materiais aos filhos, falta por vezes tempo e acompanhamento emocional. Para si, esta realidade acaba por “desaguar” na escola, onde professores e trabalhadores têm depois de responder a crianças com necessidades diferentes, dentro de turmas cada vez maiores.
Psicólogo como porto seguro
Enquanto alguns alunos procuram ajuda, outros são mais reticentes em partilhar o que sentem, mas Valter Silva considera que “às vezes não é preciso nada além de sentir e ouvir os miúdos”. Nem todas as situações, contudo, podem ser resolvidas no contexto escolar. Quando identifica necessidades que ultrapassam a sua área de intervenção, o psicólogo encaminha o aluno para outros profissionais, sendo necessário, nos casos que exijam medicação, a intervenção da psiquiatria. O problema, explica, é que o caminho até ao acompanhamento especializado pode ser demorado, considerando que o encaminhamento para o sistema de saúde “não é fácil”, havendo listas de espera grandes e consultas demasiado “espaçadas”.
Mesmo quando um aluno é acompanhado fora da escola, o psicólogo escolar pode continuar a ser “um porto seguro”, num espaço próximo e acessível. Há alunos que têm sessões semanais ou quinzenais, enquanto outros vão apenas quando precisam de falar. Valter Silva afirma que alguns chegam mesmo a contactá-lo anos mais tarde, já adultos, para lhe dizer que o acompanhamento teve impacto nas suas vidas. “Não consegui salvar todos, nunca se consegue, mas acho que fiz a diferença na vida de alguns alunos”, afirma.


