Vanda Branco quer romper com a estagnação e dar nova vida à Casa do Povo de Aveiras de Cima
Vanda Branco venceu por nove votos as eleições para a Casa do Povo de Aveiras de Cima e assumiu a presidência com a ideia de voltar a pôr a instituição no centro da comunidade. Diz ter encontrado um edifício com problemas de manutenção e uma casa que considera parada no tempo. Em pouco mais de três meses aumentou o número de sócios, organizou as contas e recuperou actividades. Quer transparência, renovação de dirigentes e uma instituição que não viva sentada à espera que caiam os subsídios.
O edifício da Casa do Povo de Aveiras de Cima está ali desde 1971, mas Vanda Branco acredita que uma instituição pode continuar aberta e, ainda assim, ir perdendo vida. Quando tomou posse, a 1 de Junho, encontrou problemas no telhado, espaços a precisar de limpeza e arrumação e várias necessidades de manutenção. “Encontrámos uma casa frágil”, resume, sublinhando que havia muito trabalho por fazer, não querendo com isso desvalorizar quem a antecedeu.
Natural daquela freguesia do concelho de Azambuja, defende que direcções envelhecem, criam hábitos e acabam por ter mais dificuldade em acompanhar novas formas de participação. É por isso defensora de uma renovação regular dos órgãos sociais. “Ao fim de dois ou três mandatos devia haver renovação. Temos de dar oportunidade aos mais novos para isto não acabar”, defende, numa conversa com O MIRANTE a propósito do Dia Nacional das Casas do Povo.
Vanda já tinha integrado a anterior direcção, de onde saiu depois de divergências. Ficou, diz, “com o bichinho” por haver coisas que gostaria de ter feito. Quando foi convidada para integrar uma lista alternativa aceitou e, quando lhe propuseram assumir a presidência, não precisou de muito tempo. “Disse logo que sim. Temos força, vontade e capacidade para trabalhar. Arregaçamos as mangas, limpamos e lavamos”, afirma.
As eleições de Maio foram disputadas por duas listas e Vanda Branco venceu com 62 votos contra 53, numa margem que interpreta como curta e como sinal da desconfiança dos sócios mais antigos perante uma equipa nova. “Muitos trabalharam para esta casa ser feita e tiveram receio. Pensaram: o que é que eles vêm para aqui fazer? Será que vão destruir isto?”, conta.
O caminho para vencer a desconfiança, diz, é mostrando trabalho. Desde 1 de Junho, a instituição passou de 236 para 276 sócios. Pilates, kempo, futsal, ginástica infantil, cross training, canto, teatro e rancho ajudam também a movimentar largas dezenas de pessoas. A direcção quer ainda recuperar as tasquinhas, organizar festas temáticas, convívios para jovens, espectáculos e workshops. Há, no entanto, um problema que pode travar a ambição: falta espaço. O pavilhão está ocupado grande parte dos dias, o ginásio acolhe sucessivamente várias modalidades, o auditório serve o teatro e outras iniciativas e a sala do rancho também é partilhada. “Já começa a ser pouco. Às vezes aparece um projecto que gostávamos de receber e a pergunta é: onde é que o pomos?”, revela a presidente.
Contas organizadas e menos dependência de subsídios
Uma das primeiras decisões foi rever contratos de utilização dos espaços e passar de uma contabilidade que descreve como simples para uma contabilidade organizada. A Casa do Povo está a ser auditada e passou a trabalhar com contabilista. “Uma Casa do Povo tem de ter transparência”, afirma, revelando ainda que quando assumiu funções a colectividade tinha um saldo positivo de perto de três mil euros e, a 31 de Agosto, cerca de dez mil. Mas, avisa, o dinheiro não é para ficar parado numa casa que não visa o lucro e que precisa de uma remodelação.
A presidente diz que quer procurar empresas, publicidade e protocolos em vez de esperar apenas pelo apoio da Câmara de Azambuja. “Tudo o que vier é bem-vindo, claro, mas não vamos ficar à espera”, diz, considerando que ainda há associações demasiado dependentes dos subsídios quando deviam criar receitas e procurar parceiros.
Questionada sobre se a política entra demasiado naquela casa, Vanda garante que fica à porta. A lista vencedora, justifica, integrou pessoas com sensibilidades partidárias diferentes e diz que a Casa do Povo está aberta a todos. Apesar da leitura política que rodeou as eleições, não quer “guerrilhas” dentro da instituição que tem como objectivo devolver confiança às secções e aos sócios e acabar com rivalidades. “Quero que as coisas sejam muito claras e que todos trabalhem para o mesmo”.
Uma casa amiga da juventude
A marca que Vanda Branco gostaria de deixar é simples: “Que demos vida à Casa do Povo”. Imagina o filho, de 17 anos, e os amigos a entrarem para jogar ténis de mesa, assistir a um espectáculo ou participar numa festa. Mas não quer uma instituição feita apenas para os mais novos. Também fala dos idosos, da solidão e da necessidade de criar respostas que os façam sair de casa e conviver. Quer ainda assembleias mais participadas. Até agora, diz, aparecem “meia dúzia” de sócios e a direcção admite experimentar novos formatos, incluindo a transmissão pública, para mostrar o que está a ser feito. “Temos um auditório tão grande. Gostava de o ver cheio”, refere.
Uma sonhadora que agora tem tempo para realizar sonhos
Vanda Branco nasceu e cresceu em Aveiras de Cima e diz que de lá não tenciona sair. É licenciada em Serviço Social, trabalha também na área social e educativa e mantém uma loja de vestuário que vem do tempo da avó e da mãe. Em criança praticou ginástica na Casa do Povo e guarda boas memórias das tasquinhas e das iniciativas da terra, embora na juventude tenha participado menos do que gostaria porque ajudava a mãe, que era feirante, a vender nas feiras. Hoje, com o filho já adolescente, sente que recuperou algum desse tempo. Define-se como uma pessoa que gosta de ajudar e evita conflitos. “Sempre fui muito julgada e acho que, falando menos, conseguimos vencer pelo bem”. Presidir à Casa do Povo é também, de certa forma, voltar a uma casa que conhece desde pequena e fazer nela aquilo que antes não teve oportunidade de fazer.


